Abade de Baçal, O telégrafo eléctrico


Em 1911, comemorando-se portanto este ano o centenário, o Abade de Baçal (Francisco Manuel Alves) publicou no Porto o 2º volume das suas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, onde insere um pequeno e muito interessante texto intitulado “O telégrafo eléctrico”, que trago para o nosso blogue, como o meu primeiro contributo:

“O telégrafo eléctrico
Houve sempre uma espécie de sinais telegráficos entre os povos antigos. Brados, lume ou fumo, foram sempre os preferidos.
Os persas, segundo Diodoro (Livro XIX), tinham estabelecido por todo o império linhas de sentinelas, que transmitiam umas às outras por meio de voz, as novidades ou as ordens do príncipe.
Na expedição dos persas à Grécia colocou-se uma linha semelhante desde Atenas até Susa, e as novidades chegavam ao monarca dentro de quarenta e oito horas (Veja-se Heródoto e Cornélio Nepoto).
Da Ásia se espalhou pela Europa a arte de comunicação por sinais. O primeiro exemplo é o caso das velas brancas e pretas de Teseu.
Ésquilo, na tragédia de Agamemnon, nos dá esclarecimentos manifestos de uma comunicação entre a Europa e a Ásia por uma linha de sinais com fogo. Um vigia que por espaço de dez anos observava se a fogueira estava acesa sobre o monte Ida, e que re­petida em outros muitos lugares devia servir de aviso a Clitmnes­tra da tomada de Tróia, brada:
– Graça aos numes, o sinal feliz rompe a escuridade. Salvé facho da noite, precursor de um formoso dia!
Clitmnestra anuncia depois ao coro a vitória dos gregos; e este lhe pergunta quem lhe dera a notícia.
– Foi Vulcano (responde ela) por seus fogos acesos no monte Ida; de facho em facho a flama mensageira voou até aqui.
Os telégrafos eléctricos foram introduzidos em Portugal com a grande reforma postal em 1852. Até então, havia apenas os telé­grafos de tábuas, uma espécie de cancelas móveis, e as suas estações estavam colocadas em pontos elevados e distantes, ordina­riamente desertos. Funcionavam lentamente, apenas de dia e com céu claro. Uma ténue neblina que se interpusesse entre duas esta­ções era o bastante para interromper o serviço e suspender a trans­missão de qualquer despacho.
Na estação das chuvas adiantavam quase sempre mais os cor­reios a pé ou a cavalo, pois correios em carros (mala-posta) só depois de 1852 se viram em Portugal. E os mesmos telégrafos de tábuas só posteriormente à Guerra da Península se estabeleceram no nosso país. Ainda durante a dita campanha (1807 a1814) fizemos uso dos fachos para se anunciar o afastamento ou aproxi­mação dos franceses (Portugal Antigo e Moderno, artigo «Viana do Castelo»). Ainda agora por causa das incursões mo­nárquicas se tem feito largo uso dos fachos pelas cumeadas dos montes.
As atalaias esculcas e fachos, nomes que ainda conservam muitos lugares dos termos de povoações no concelho de Bragança e de outros, corresponderam a uma espécie de telégrafos dos nossos maiores com similares nas civilizações dos povos extintos (Vejam-se no Elucidário, de Viterbo, esses nomes).
Em 11 de Maio de 1860 foi inaugurada com grande entu­siasmo e festas a abertura da estação telegráfica de Mirandela a Bragança. Só nesta época o nosso distrito começou a gozar deste melhoramento telegráfico-eléctrico (Diário do Governo de 18 de Maio de 1860 e 30 de Março do mesmo ano).
Na sessão da Câmara dos Deputados de 27 de Julho de 1861 propôs o deputado António Joaquim Ferreira Pontes que o go­verno fosse autorizado e habilitado para continuar a linha tele­gráfica de Moncorvo para a Barca d’Alva, indo a Freixo de Espada à Cinta (Ibidem, de 31 de Julho de 1861).
Em 28 de Outubro de 1861 começou a construção da nova linha electro-telegráfica entre Mirandela e Moncorvo, e concluída ela o capitão Sant’Ana, comandante das linhas telegráficas de Trás-os-Montes, continuaria a demarcação até à Barca d’Alva (Ibidem, de 21 de Novembro de 1861).
A 3 de Janeiro de 1862 começou a funcionar o telégrafo da Régua para Moncorvo (Diário de Lisboa de 7 de Janeiro de 1862).
Bragança tem estação telégrafo-postal por decreto de 7 de Abril de 1869, com serviço de emissão e pagamento de vales do correio e telegráficos, cobrança de recibos, letras e obrigações”.

Nota: Este texto pode ser lido nas páginas 395 e 396 do II Tomo das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, 1982 (reedição do Museu Abade de Baçal, Bragança).

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2 comentários a “Abade de Baçal, O telégrafo eléctrico

  1. Este post do Aniceto Afonso teve a virtude de mostrar que uma figura de elevada craveira intelectual como o Abade de Baçal também foi capaz de se interessar, como a CHT, por atalaias, telégrafo ótico e até pelo elétrico.

    O Abade de Baçal, Francisco Manuel Alves (1865-1947) foi um notável investigador de história e etnografia. Publicou várias obras, sendo a mais importante as “Memórias Arqueológicas do Distrito de Bragança” (onde consta o texto do post do Aniceto Afonso). Tem 11 volumes, publicadas de 1910 a 1948. São consideradas no Dicionário da História de Portugal (entrada Abade de Baçal) como “um dos mais valiosos subsídios do século XX para o conhecimento da nossa história”.

    Vejamos o que nos diz o Abade de Baçal acerca dos 3 meios que referi:

    1. Sobre as atalaias

    … fizemos uso dos fachos para se anunciar o afastamento ou aproximação dos franceses (Portugal Antigo e Moderno, artigo «Viana do Castelo»).
    Procurei saber o que era o “Portugal Antigo e Moderno”. Pela wikipédia fiquei a saber que era uma obra monumental, da autoria de António Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (1816-1884), que é também a sua obra mais conhecida. É um dicionário em 12 volumes, organizado alfabeticamente por nome das cidades, vilas e freguesias de Portugal. Sobre cada uma das entradas tem um artigo cobrindo localização, etc.
    Se algum CHT conseguir, veja lá se conta o que é que a obra diz sobre os fachos em Viana do Castelo por causa dos franceses…

    Ainda agora por causa das incursões monárquicas se tem feito largo uso dos fachos pelas cumeadas dos montes.
    Esta do largo uso dos fachos nas incursões monárquicas é uma novidade que o Abade nos dá.

    As atalaias esculcas e fachos, nomes que ainda conservam muitos lugares dos termos de povoações no concelho de Bragança e de outros, corresponderam a uma espécie de telégrafos dos nossos maiores com similares nas civilizações dos povos extintos (Vejam-se no Elucidário, de Viterbo, esses nomes).
    No que respeita a Atalaias o Abade tem razão, em “atalaia P1” encontrei: Em Portugal com o nome de Atalaia há cerca de 38 povoações, 5 casais, 7 herdades e quintas e 14 montes e Atalaias diferençadas, como por exemplo a Atalaia da Barroca.
    Em relação a esculca era o espião noturno (usava o ouvido), enquanto que o atalaia usava a vista. Encontrei duas povoações com o nome Esculca no concelho de Arganil e perto de Viseu.
    Quanto a facho eencontrei: na Madeira o Pico do Facho, o monte do facho em Barcelos, a aldeia do Facho no Porto, o Alto do Facho na Maia e o cabeço do Facho em Macedo de Cavaleiros.
    Quanto ao “Elucidário” de Viterbo que o Abade cita verifiquei que se tratava de uma obra clássica de frei Joaquim de Santa Rosa Viterbo (1742-1822) que por ele foi apresentado como Elucidário de Palavras, Termos e Frases, Que em Portugal se Ignorão; Obra indispensável para Entender sem Erro os Documentos Mais Raros e Preciosos, Que entre nós se Conservão; Publicado em Benefício da Literatura Portuguesa.
    Achei delicioso como modelo de promoção do próprio livro, à cabeça. De qualquer maneira julgo ser um clássico que está disponível na Net pela Biblioteca Nacional. Diz algo sobre atalaias, nada sobre fachos e pouco sobre esculcas. Sobre almenaras remete-nos para Lopes (deve ser o Fernão), Pina, Azurara e outros. Se quisermos saber alguma coisa temos que ir a estes cronistas. Portanto nestas coisas de Transmissões, Viterbo não adianta grande coisa…

    2. Sobre a telegrafia ótica

    Até então (1862) havia apenas os telégrafos de tábuas, uma espécie de cancelas móveis, e as suas estações estavam colocadas em pontos elevados e distantes, ordinariamente desertos. Funcionavam lentamente, apenas de dia e com céu claro. Uma ténue neblina que se interpusesse entre duas estações era o bastante para interromper o serviço e suspender a transmissão de qualquer despacho.
    Na estação das chuvas adiantavam quase sempre mais os correios a pé ou a cavalo, pois correios em carros (mala-posta) só depois de 1852 se viram em Portugal. E os mesmos telégrafos de tábuas só posteriormente à Guerra da Península se estabeleceram no nosso país.

    Fiquei a saber que a mala-posta só apareceu depois de 1852. Também o abade de Baçal diz que na estação das chuvas (onde havia menor visibilidade) os correios a pé ou a cavalo eram mais eficazes do que os telégrafos de Ciera.
    Por outro lado julgo que em Portugal se deveria ter passado algo de parecido com o que sucedeu em Espanha com a telegrafia ótica. Porém para alguns autores espanhóis a telegrafia ótica foi importante, permitindo o começo da modernidade espanhola, dando outra velocidade às comunicações reais e do Exército. Em Portugal nunca vi ninguém ligar qualquer importância a isto, nem sequer o abade de Baçal…

    3. Sobre a telegrafia eléctrica

    Os telégrafos eléctricos foram introduzidos em Portugal com a grande reforma postal em 1852.
    Aqui tenho que pedir desculpa ao Abade pois as primeiras experiências de telegrafia elétrica foram realizadas em Portugal, na cidade do Porto, em 1853, por uma iniciativa promovida pela Associação Comercial do Porto (ver o nosso livro do Bicentenário, página 64) e não tiveram nada a ver com a reforma postal de 1852.
    Também queria acrescentar que o contributo da telegrafia elétrica para a modernização da Espanha é bem acentuado por historiadores espanhóis ainda mais que a da telegrafia visual, pelas suas implicações na economia, bolsa, caminhos de ferro, militares e na própria imprensa, aspectos que em Portugal se Ignorão, como diria Viterbo.
    Para terminar queria também referir que a telegrafia ótica do século XIX em Portugal é vista por Viterbo como uma continuação das comunicações por fachos, que vinham da antiguidade, e cujos aparelhos também designava por telégraphos.

    • Como é habitual, o Pedroso de Lima consegue ir mais longe e contribuir para um melhor conhecimento das questões. É agora necessário que este espaço seja aproveitado para novos contributos, tanto neste como em outros assuntos…

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