As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (14)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

9 DE ABRIL: A PREPARAÇÃO PARA O COMBATE

Introdução

O capitão de artilharia António Miranda, chefe interino da Repartição de Informações do CEP, assinou o seu relatório final em 11 de Agosto de 1918, tendo oportunidade de explicar o desempenho da sua Repartição ao longo dos meses de presença das tropas portuguesas na frente, incluindo o 9 de Abril e as suas consequências.

A parte final do seu relatório é muito interessante para podermos ajuizar hoje das circunstâncias em que os comandos portugueses viveram aqueles primeiros dias de abril de 1918.

Eis algumas passagens:

“Vejamos, primeiramente, quais as opiniões que, em 1 de abril, os Quartéis-Generais do 1º Exército e de alguns dos seus Corpos tinham sobre a atitude do inimigo.

O boletim quinzenal de informações do 1º Exército datado de 31 de março dizia, sob a rubrica “General situation in the Army Front”: “… It is possible that an attack may be in preparation in the La Bassée area, but the evidence at present is not sufficient to enable a definitive deduction to be drawn…”

O boletim quinzenal do XI Corpo, referido também a 31 de março, dizia que se confirmava a opinião de que era de esperar um ataque a N de Lens, mas que o insucesso do ataque a N do Scarpe (28 de março) contra a direita do 1º Exército deveria ter determinado o adiamento ou a desistência dessa operação. Se, porém, o inimigo conseguisse dispor das tropas necessárias, tudo indicava que esse ataque se realizaria. (…)

Em 31 de março também a Repartição de Informações não julgava ainda provável que o inimigo efetuasse em breve, na frente do CEP, uma operação ofensiva de importância. No boletim quinzenal de informações do CEP dizia-se, com efeito (…): “O inimigo continua os seus trabalhos de reparação ao longo de toda a frente, tendo sido notada uma particular intensidade nestes trabalhos nos últimos dias da quinzena” (…) “Vêem-se novas camouflages, debaixo das quais há, provavelmente, construções em progresso (…) Nos últimos dias da quinzena foi notado grande movimento de grupos de trabalhadores…”

E nas conclusões: “Foi notado um grande número de crateras de granadas artificiais, principalmente em frente à nossa esquerda. Estas crateras podem ser posições alternativas de morteiros, ou pontos de reunião de tropas destinadas ao ataque ou defesa. Como um ataque não parece provável atualmente, o aparecimento destas crateras e a grande intensidade de trabalhos notada nos últimos dias devem relacionar-se com o aumento da já considerável organização defensiva inimiga na nossa frente” (…)

Posteriormente a 31 de março eram colhidas informações que modificaram pouco a pouco a opinião da R.I. relativamente aos intuitos do inimigo, até que, em 4 de abril, as declarações categóricas de dois alemães aprisionados pelas nossas tropas vieram fixar definitivamente a convicção de que estava eminente um ataque importante do inimigo.

No seu boletim semanal de informações referido a 6 de abril, o GHQ, porém, embora conhecendo as declarações dos referidos prisioneiros (…) tinha ainda uma opinião mal orientada sobre a situação, pois dizia: “It seems likely that a subsidiar attack north of La Bassée Canal may be made before the main attack with the object of drawing reserves away from the main battle front”.

Esta opinião, naturalmente perfilhada pelo Exército e pelos Corpos ingleses, foi fatal ao CEP, visto que conduziu a disposições que enfraqueceram, como nunca o tinha sido, a defesa da frente sobre a qual o inimigo atacava pouco depois…”

No relatório que vimos seguindo, cuja análise alargada não cabe nestes textos, enumera depois os indícios que poderiam ter conduzido a conclusões diferentes, confirmando o ataque alemão. Vamos apenas enumerá-los:

– A colocação de numerosas cortinas de camouflage e a produção repetida de nuvens de fumo;

– A grande quantidade de munições transportadas para a área inimiga na nossa frente;

– O intenso movimento de tropas;

– A evacuação da população civil de muitas localidades da área inimiga;

– O aparecimento desusado de oficiais alemães examinando por meio de binóculos as nossas linhas (…);

– O incremento dos trabalhos de reparação de estradas, caminhos, etc., e de trabalhos novos;

– A colocação de fios telefónicos;

– A preparação de numerosas passadeiras (pontões) em vários pontos da área inimiga;

– O aumento do número de aeroplanos inimigos na nossa frente;

– O aparecimento de mais um distintivo de hospital;

– A colocação de tabuletas nas trincheiras.

Contudo, o autor tem uma explicação para o facto de todos estes indícios não terem dado origem a uma forte convicção da eminência de um ataque alemão:

“É que o estudo que acabamos de fazer é à posteriori, levando por isso vantagens incalculáveis ao estudo que à priori se poderia ter feito das informações colhidas. É que também, juntas com as informações que selecionámos, milhares delas vinham, de nenhuma ou pouquíssima importância, contribuindo para a diluição das que mais tarde se verificou terem real valor; e outras ainda, contradizendo francamente estas últimas, produziam, em parte, a sua neutralização”.

É por isso que os atores da história devem sempre ser colocados no seu tempo e na sua hora, sendo que qualquer análise carece desse princípio. Contudo, neste caso, existem outras componentes que devem ser também trazidas à explicação necessária.

O relatório de Soares Branco, embora preocupado sobretudo com o apoio concedido às suas unidades, não deixa de refletir também esta perplexidade perante a iminência de um ataque, que ninguém parece ter antecipado.

As mudanças antes do combate de 9 de abril

Entre 23 de março e 3 de abril foram publicadas três ordens de operações do 1º Exército, com os números 21, 22 e 23. As alterações orgânicas e de dispositivo das forças, transmitidas pelas ordens de operações, têm a ver com muitos fatores, de entre os quais não é dos menos importantes, o conjunto de operações ofensivas de primavera realizadas pelas forças alemãs na frente ocupada pelas forças britânicas. Desenvolveremos este assunto um pouco mais à frente, mas o conjunto de grandes operações das forças alemãs obriga a vários movimentos de grandes unidades britânicas, refletindo-se portanto na ação do Corpo de Exército Português e também nos seus serviços de apoio, em especial nas comunicações.

Segundo nos diz Soares Branco, a Ordem nº 21 de 23 de março:

previa a rendição da 1ª Divisão Portuguesa pela 55ª Britânica passando a 2ª Divisão Portuguesa desde então a ser incorporada no XI Corpo Britânico (…) Nessa conformidade se haviam preparado as novas ligações dos sectores”.

Mas as mudanças não tardaram. Logo a 29 de março era recebida a ordem de operações nº 22, “antes mesmo de serem experimentadas as novas disposições tomadas”, no sentido de o Corpo Português continuar na linha da frente.

Soares Branco justifica a alteração de planos com a ofensiva do Somme iniciada a 21 de março, o que fazia retirar aos Corpos as Divisões de reserva.

Poucos dias depois, a situação evoluía e novas mudanças eram comunicadas:

Estudava-se o projeto de ligações por linhas enterradas do Corpo Português e do XV Corpo para o comando do sector Nº 2 da linha de defesa e verificava-se a possibilidade de, no caso de retirada, obter ligações entre QGC no Aire e as suas Divisões respetivamente em Pecqueur e Molinguem, quando a ordem Nº 23 de 3 de abril me foi entregue.

Determinava ela a retirada do Corpo Português e da sua 1ª Divisão da linha às sete horas do dia 6.

Tendo informado do seu conteúdo o Chefe do Serviço Inglês com quem estava tratando das questões acima referidas não pôde ele furtar-se e dizer-me: “C’est bien une guerre de mouvement, on change toujours”, a verdade era que estas mudanças contínuas podiam pertencer às exigências de uma guerra de movimento mas, para o Serviço Telegráfico essas exigências em ligações eram superiores às pedidas numa guerra de sítio em regra e sem sortidas do inimigo.

Soares Branco não deixa de fazer referência, embora curta e discreta, a um acontecimento que marcou estes primeiros dias de abril nas linhas portuguesas, que foi a recusa do Batalhão de Infantaria 7 da 2ª Brigada em marchar para a frente, assunto que trataremos mais adiante:

Os tristes acontecimentos ocorridos à entrada da 2ª Brigada na linha, epílogo do abatimento moral em que se encontravam as tropas, desorientadas por promessas que melhor fora nunca fazer e muito menos alimentar, talvez tivessem concorrido para uma tão próxima e apressada rendição.

Contudo, esta não foi a razão principal para as mudanças tão frequentes na frente portuguesa e finalmente para a retirada da 1ª Divisão e a extinção do Corpo de Exército Português, como bem assinala Soares Branco:

Por outro lado, razões de ordem bem diferente podiam conduzir ao mesmo fim.

Era o caso que desde 19 de março o XI Corpo estava na linha com uma só Divisão desde o canal de La Bassee até Shetlend Road, com a sua artilharia pesada dividida em duas Brigadas, para o Corpo Português e uma só à sua disposição direta.

Resultava de tudo isto existirem lado a lado dois Corpos um a que faltava Artilharia Pesada e uma Divisão, outro que tinha Artilharia Pesada de sobra, e duas Divisões a menos.

Fosse pelo que fosse, o que é certo é que as rendições se sucediam umas às outras todas elas denunciadas ao inimigo pela mudança que anteriormente se ordenara das posições “Call” pelas “Stations Code Calls” as quais, sendo privativas das unidades, com elas mudavam também.

Para se fazer ideia da velocidade destas rendições basta citar o exemplo da 5ª Brigada que desde 1 de abril ao dia 8 esteve destinada e recebeu os sectores de Fauquissant, linha das aldeias, Ferme du Bois acrescido do antigo subsector de New Chapelle e, por último, o antigo sector de Ferme du Bois.

O problema dos códigos a usar nas comunicações (Call e Stations Code Calls), que o comando inglês tinha alterado recentemente, levou Soares Branco a enviar uma extensa nota ao Chefe do Estado-Maior do CEP, em razão de ele considerar ter sido um caso de “funestíssimas consequências”. O problema era muito simples: as posições Call identificavam os locais nas respetivas zonas de ação e por isso se mantinham para um determinado lugar, fosse qual fosse a unidade a ocupá-lo; as Stations Code Calls eram privativas das unidades e acompanhavam estas nas suas mudanças. Para as comunicações, usar um sistema ou outro tinha uma grande importância, como nessa nota revela Soares Branco: “Agravam-se cada vez mais as confusões provenientes das mudanças das posições de chamada para as “Stations code calls”.

O dispositivo e os seus problemas

Como refere Soares Branco, entre 20 de março e 6 de abril, o dispositivo das unidades portuguesas passou por quatro fases distintas, com todas as consequências que tais mudanças acabaram por provocar no sistema de comunicações. A situação final, em 6 de abril, ficou assim:

E assim, em virtude das circunstâncias já referidas, desde as 7 horas do dia 6 de abril a frente portuguesa na linha A e na linha B, desde Shetland até Picadilly era defendida por três brigadas a 5ª, a 6ª e a 4ª das quais só esta última conhecia o sector; na linha C uma Brigada apenas, a 3ª, estava postada, tendo talvez segundo a ordem de operações Nº 22 como atribuições dividir igualmente os seus Batalhões pela defesa de Village Line e pela linha do Corpo.

A 1ª e a 2ª Brigada encontravam-se já em marcha de Querbeque para a área de Samer. (…)

Observando a situação a 6 de abril, reconhece-se que exatamente a Brigada que naquela data tinha a seu cargo esta defesa (Village Line), era a que não tinha nenhum conhecimento dessa linha, e que as Brigadas que nesse caso não estavam, e cujas secções de sinaleiros de Brigada e Batalhão haviam recebido conveniente instrução de transmissão de despachos por estafetas, ou tinham retirado para repouso ou ocupavam um sector na frente.

 As alterações não tinham contudo terminado. Por razões conhecidas, que mais à frente abordaremos, os comandos britânico e português tinham chegado à conclusão que todas as unidades portuguesas deviam ser imediatamente substituídas. É dessa decisão que Soares Branco nos dá conta:

Inesperadamente, às 23 horas do dia 8, teve-se conhecimento de que a Divisão Portuguesa começaria a ser rendida na manhã do dia seguinte pela 55ª Divisão Britânica no sector da direita, e pela 50ª Divisão no centro e esquerda.

Ao mesmo tempo, era-me solicitado que as tropas portuguesas deixassem na linha parte do seu material telefónico por empréstimo.

O QG do Corpo, que só a 11 devia marchar para Samer, era ao mesmo tempo obrigado a abandonar St Venant que pertencia já à área de reserva do XI Corpo, para ali ser instalado o QG 2 desde as 10 horas do dia 10.

À 3ª Brigada em reserva em La Gorgue era dada ordem para, no dia seguinte 9, iniciar a marcha para a retaguarda indo reunir-se à sua Divisão já em caminho para a área de Samer.

Dispositivo do CEP na noite de 8/9 Abril (clique na imagem e depois, em baixo e à direita, volte a clicar em “View full size”, para a aumentar, e de novo na imagem, para ver em grande detalhe)

Estas mudanças, contudo, não chegariam a ocorrer. O ataque alemão, operação Georgette, iniciou-se na madrugada do dia 9 de abril, como a segunda vaga da grande ofensiva germânica da primavera, e exatamente contra o sector ocupado pela Divisão Portuguesa:

Às 4 horas e 15 minutos do dia 9 começava o bombardeamento inimigo e granadas de 30,5 atingiram St Venant.

Notícias da frente em Lestrem para onde ainda a Missão Britânica conseguira que o XI Corpo lhe conservasse uma linha das que em QGC davam entrada, anunciavam que o QG da 1ª Divisão tinha sido também atingido.

Todas as comunicações em seguida com esta Divisão cessaram, mas outro tanto não sucedia ao bombardeamento que, com diferentes intervalos, ia atingindo além de St Venant, Merville, Hazebrouque, Aire, etc.. Ao mesmo tempo um rolar constante de artilharia de menor calibre dava a perceber que uma operação de grande envergadura se estaria desenvolvendo.

Conclusão

Não bastava ao Corpo Português a precária situação psicológica das suas tropas, depois de um excessivo tempo de permanência nas linhas da frente, ainda acabou por ser vítima de muitas hesitações dos comandos britânico e português que originaram as constantes alterações do dispositivo operacional e das movimentações das respetivas unidades. As dúvidas sobre a iminência do ataque alemão e sobre o verdadeiro estado anímico dos soldados portugueses acabaram por levar as decisões fundamentais para o limite do prazo disponível, acabando por coincidir com o ataque alemão, no dia 9 de abril. As consequências dificilmente não seriam as que vieram a ocorrer, como veremos na sequência da análise do relatório do capitão Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do CEP.

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As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (13)

Post do Cor Aniceto Afonso recebido por msg:

ANTECEDENTES DO 9 DE ABRIL   (III)

Introdução

A zona da frente, onde estavam instaladas as Companhias, os Batalhões e as Brigadas, era servida por uma complexa rede de comunicações, com base em linhas de cabo enterrado, aéreo ou estendido à superfície. Uma legião de guarda-fios e sinaleiros percorriam os campos, lançando, substituindo ou reparando as linhas. Deste trabalho não estavam isentos os próprios telegrafistas, que faziam experiências de ligações, quer através das linhas, quer através de outros meios, como a telegrafia ótica. Os “alicates”, assim chamados pela tropa combatente, eram vistos com simpatia pois bem se sabia que as comunicações podiam salvar vidas ou resolver situações difíceis. André Brun, em “A Malta das Trincheiras” descreve-os desta maneira:

Os alicates são uma seita dentro da malta das trincheiras. São senhores que sabem ler e escrever, que estiveram várias semanas em escolas a aprender a linguagem do pica-pau, o traço-traço-ponto-traço. Não cavam, nem dão tiros, não vão às patrulhas e nos dias de reserva ou de apoio andam pelo campo aos molhinhos fazendo uns aos outros sinais com espelhos e bandeirinhas. No entanto, se os rancheiros de oficiais são mal vistos e os impedidos pouco considerados, uma estima amistosa liga os lanzudos àqueles camaradas de alicate à cinta, porque deles depende e da agilidade dos seus dedos um auxílio oportuno da artilharia e é pelos cordéis que eles estendem que se pedem as represálias e circulam todas as queixas contra o rancho que se demora, todas as reclamações contra o rhum que falta.

É desta intrincada rede de linhas, estendidas por toda a zona de ação das unidades e comandos, que Soares Branco continua a ocupar-se nesta parte do seu relatório, referindo as linhas de cabo isolado, as comunicações óticas, a TSF e TPS e ainda os pombos-correio.

Soldados e oficiais

Antes de continuarmos a análise do relatório de Soares Branco gostaríamos de transcrever um excerto do relatório da Repartição de Instrução e Organização elaborado pelo major Henrique Pires Monteiro, já anteriormente referido. O relatório tem a data de 31 de dezembro de 1917, mas não deixa de ser um ponto de vista com interesse para o que vai passar-se nos meses seguintes e também no dia 9 de abril. É uma opinião frontal que espelha de algum modo uma forma de estar que mergulha num passado distante e na conceção de uma sociedade pouca atenta às mudanças do mundo na transição do século XIX para o século XX. Destacamos o seguinte trecho:

O soldado português é, como talvez nenhum outro, bom, fácil de persuadir, de dirigir, de comandar, inteligente, pronto a aprender quanto se lhe ensina, mas necessita o seu espírito irrequieto de sentir o exemplo do chefe ou instrutor, exige o seu temperamento que a instrução seja variada, que os superiores lhe demonstrem o seu desvelo pelo serviço.

O oficial e o graduado, salvo exceções honrosíssimas para o Exército Português, não possuem a arte de comandar, não têm as qualidades indispensáveis a um bom instrutor. Defeitos ancestrais, mas indubitavelmente vícios de educação e erros de instrução, suscetíveis de remédio. A minha opinião é insuspeita porque como professor da Escola de Guerra tenho quota-parte de responsabilidade na seleção dos futuros oficiais e à referida Escola cabe a principal culpa na constituição dum corpo de oficiais incapaz, na sua maioria, de se interessar pela profissão que escolheu.

Soares Branco nunca faz referência a qualquer comportamento de pouco interesse dos seus oficiais, antes pelo contrário, mas as palavras de Henrique Pires Monteiro também não são dirigidas aos oficiais especialistas, como eram os responsáveis pelo Serviço Telegráfico. Elas também não visam as pessoas em particular, mas sobretudo o sistema de ensino militar que deveria ter o objetivo de preparar os oficiais para comandar as suas tropas em ambientes difíceis, incluindo em teatros de guerra.

Linhas de cabo isolado

Temos vindo a acompanhar o relatório do capitão Soares Branco como documento fundamental para compreendermos o trabalho realizado pelo Serviço Telegráfico no campo de batalha. O autor procura neste capítulo apresentar os trabalhos efetuados no seu âmbito, nos meses que precederam a Batalha de La Lys. Mais uma vez apresenta a ideia geral das comunicações estabelecidas, no que respeita às linhas de cabo isolado:

Os traçados aéreos normalmente tinham os seus postes extremos nos comandos das Brigadas ou Grupos e para além destes postes um complicado feixe de cabos estabelecia as ligações para os coman­dos inferiores.

Logo na 1ª linha, 12 postos telefónicos de SOS constituíam a rede mais avançada do sistema.

Cada posto que servia uma ou mais companhias informaria por intermédio do Comando daquelas o Batalhão da iminência dum ataque.

Vinte e quatro estações telefónicas de comando de Companhia es­tavam instaladas normalmente na linha B, possuindo comunicações por telefone com os postos de SOS e por telefone e fullerfone com as com­panhias contíguas e com o Batalhão ao qual eram sempre ligadas por duas linhas uma das quais chamada omnibus tinha em derivação os telefones do Batalhão e das suas companhias.

Ao comando do Batalhão, além das linhas das suas companhias e dos batalhões contíguos, afluíam duas linhas por traçados diferentes da respetiva Brigada, as linhas das Baterias em apoio do sector, etc..

O número de estações de Batalhão existentes era de 12.

No comando das Brigadas além das linhas dos seus Batalhões davam entrada as duas linhas telefónicas e telegráficas da Divisão, as das Brigadas contíguas, do Comando do Grupo de Artilharia, do Grupo de Me­tralhadoras, da Companhia de Sapadores Mineiros, etc..

Independente deste sistema geral, e a cargo das secções de sinaleiros da artilharia, espalhava-se por toda a frente a rede de comunicações da artilharia.

Uma série de postos de observação, que no sector Português se elevou a mais de vinte, constituía a linha avançada de observação e correção de efeitos de tiro. Três centrais de postos de observação coletavam as comunicações destes para os Grupos e Baterias; muitas vezes as próprias Baterias possuíam também ligações diretas para os postos de observação de que normalmente faziam uso. (…)

Ao passo que, a não ser para casos de SOS, todas as comunicações na rede da infantaria eram feitas por meio do fullerfone, na artilharia era corrente o uso do telefone. (…)

Fácil é avaliar da complexidade do sistema e do trabalho que have­ria em o manter em bom estado, sabendo-se que o número de telefones e de fullerfones em uso para além das Brigadas e Grupos era cerca de 500, e que o dispêndio de cabo desde maio a novembro de 1917 foi de 400 km, e desde novembro aos fins de março igualmente de outros 400 Km, não contando 200 milhas de fio aéreo de ferro zincado que, nas zonas à retaguarda das Brigadas, a Companhia de Telegrafistas do Corpo havia montado.

Comunicações óticas

As comunicações óticas presentes na Grande Guerra provinham da sua renovada importância depois da utilização do código morse, embora de forma geral tenham funcionado como ligações de reserva, em especial para o caso de os cabos telegráficos e telefónicos serem destruídos pelos bombardeamentos.

Como Soares Branco nos transmite, estas comunicações tinham várias limitações, em especial pela configuração do terreno e pela possibilidade de o inimigo poder intersectá-las com facilidade.

Num terreno tão plano como aquele em que estavam fixadas as nossas posições dificilmente era possível estabelecer uma conveniente rede ótica em toda a frente, e esta circunstância agravava-se ainda mais durante o verão pela fácil interseção das comunicações pela folha­gem das árvores.

Infelizmente as comunicações só poderiam ser recíprocas quando dirigidas paralelamente à frente e quando assim não sucedia só o posto mais avançado podia ser transmissor, pois de outra forma, dada a orografia do terreno, o inimigo intersetaria todos os despachos.

Em virtudes destas dificuldades foram apenas estabelecidas algumas ligações, tendo sido feitos exercícios.

Para que o pessoal estivesse apto a automaticamente saber empregar as comunicações óticas, logo que as comunicações telefónicas fossem cortadas, suportes fixos de madeira foram mandados colocar nos locais onde deviam funcionar as lanternas com dispositivos especiais improvi­sados para aquelas ficarem logo devidamente orientadas.

Em nota (…) de 26 de fevereiro foi determinado às Divisões que, além dos exercícios de transmissões óticas que tinham lugar em certas noites da semana, experiências fossem feitas supondo interrompidas to­das as comunicações telefónicas e que apenas podia funcionar a rede ótica. 

Comunicações pela TSF

As comunicações por TSF, que durante a Grande Guerra conheceram notável incremento, nunca estiveram completamente operacionais na zona portuguesa. Soares Branco procura explicar as razões que impediram o serviço destas redes de responder com eficácia quando foi necessário. Ao ler o seu relatório fica-se com a ideia de que o sistema era de difícil utilização tanto pelos equipamentos, demasiado pesados e sensíveis, como pelo seu manuseamento, que implicava o uso de sistemas codificados e em cifra. As comunicações por TSF são abordadas juntamente com a TPS, transmissão pelo solo, a que já fizemos específica referência.

As comunicações por TPS e por TSF dia a dia tomavam um maior desenvolvimento principalmente desde que se conseguira simplificar os aparelhos e dar-lhes condições de mobilidade e fácil montagem.

O facto de nunca ter sido possível conseguir que o Exército Bri­tânico fornecesse camion para carregamento de acumuladores, nem box-car para transporte de pessoal, prejudicou sempre notavelmente a regu­laridade deste serviço que somente durante o último período da estada na linha da 1ª Divisão incorporada no XI Corpo, funcionou regularmente.

A instalação dos diferentes postos em obediência ao prescrito no plano de defesa só se fez muito tarde.

De facto, algum material não foi fornecido quando requisitado e a falta de bons abrigos que levaram muito tempo a ser construídos, e não em número suficiente, concorriam notavelmente entre outras causas para a morosidade das instalações.

Foi na 1ª quinzena de março que o sistema ficou concluído, mas apesar disso muitos abrigos eram ainda de fraquíssima resistência. (…)

O sistema, embora somente satisfatório para os sectores de Fauquissar, Chapigny e Neuve Chapelle, carecia de ser devidamente experimentado no seu funcionamento pelos diferentes comandos. (…)

Os postos de comando das Brigadas e da Village Line nunca chegaram a ser feitos acarretando como consequência o não estabelecimento da TSF.

Exposta esta questão ao comando, foi por este enviado às Divisões a 12 de fevereiro (…) ordem para a fixação urgente dos locais e construção dos postos de comando das Brigadas, a fim de poderem ser estabelecidas as respetivas ligações.

Tal nunca chegou a ter realização prática conveniente e na manhã de 9 de abril talvez ainda fosse possível descobrir em alguns pontos como em Loreto Road (…) amarradas a um poste as linhas de ca­bo que o Serviço Telegráfico da 1ª Divisão fizera construir desde os Batalhões até aos locais que o plano de defesa escolhera para postos de comando, mas que nunca foram ocupados.

Por fim resolvera este serviço dar ordem à TSF para que mon­tasse as estações perto dos então comandos de Brigada e foi só na primeira quinzena de março que tal se conseguiu.

Mas como os despachos deviam ser somente transmitidos em cifra este problema veio juntar-se ao de ordem simplesmente técnica.

A cifra

Apesar da importância que a utilização de sistemas de cifra ia adquirindo, o seu uso não era fácil no campo de batalha. Todos os contendores empregavam esforços imensos para penetrarem nas comunicações inimigas e intersetarem o seu tráfego. Mas o emprego destes sistemas pelas unidades operacionais não se adaptava à urgência que quase sempre era exigida às comunicações. Soares Banco tinha a perfeita noção destas dificuldades e procura fazer um retrato fiel de como tal serviço se processava e da impossibilidade do seu funcionamento de rotina.

É um inextrincável labirinto o processo de cifras e códigos do Exército Inglês.

Na telegrafia e telefonia ordinária com o emprego do fullerfone cujo princípio consiste em transmitir as mensagens pelo acústico de forma que a corrente exterior do circuito seja contínua e a pulsação só tenha lugar ao chegar às estações recetoras conseguira-se evi­tar a fácil interseção pelo inimigo dos despachos.

A adoção das chamadas posições Calls para identificar as diferen­tes estações e postos as quais apenas dependiam das coordenadas da referência do mapa e eram independentes da unidade que os ocupasse tinha sossegado a Intelligence Britânica acerca do receio de que do inimigo fosse sabido o dispositivo de tropas e as suas rendições.

Mas todas as mensagens de TSF ou TPS eram fatalmente intersetadas pelas estações alemãs. Nessas circunstâncias inventaram diferentes cifras para a transmissão dos despachos, das quais as mais importantes eram o B.A.B. code, o Playfair cypher e o Field cypher.

Ao pessoal de TSF das estações e postos era obrigatório a conversão em Playfair ou Field Cypher dos despachos enviados pelo comando logo que estes fossem entregues em linguagem clara.

Infelizmente sucedia sempre assim e a cifração demorava muito tempo, outro tanto sucedendo à receção do despacho para o decifrar, o que por vezes era até muito difícil por quaisquer erros de transmissão ou receção.

Mas os Comandos, acostumados a fazer uso do telefone transmitindo ou recebendo informações rapidamente, quando este meio lhes faltava, ou esqueciam os restantes, ou se impacientavam cedo pelas demoras que fatalmente devia haver sobretudo em despachos trocados pela TSF.

A falta de hábito, portanto, de se servirem deste meio de comunicação e o pouco treino que ao pessoal telegrafista o serviço dava, fo­ram causas do emprego improdutivo que a TSF e TPS teve em 9 de abril como veremos.

Quando nos primeiros dias de março, a 2ª Divisão foi severamen­te experimentada pelos ataques inimigos sobretudo no sector de Chapigny, deu-se o facto de durante três horas terem sido interrompidas as comunicações telefónicas com Laventie, haver já ali montada uma estação de TSF e nunca esta ter sido usada para comunicar com a Divisão.

Em 12 do mesmo mês era transmitida às Divisões uma série de or­dens relativas à defesa nas quais se incluía no seu artigo 6º a necessidade para os comandos de ensaiar amiúde novos meios de comunicação como fossem sinais óticos, TSF, pombos correios, etc.

Na 2ª quinzena de março a partir da ofensiva alemã do Somme foi recebida ordem para que todas as estações de TSF passassem a intersetar os despachos transmitidos pelo inimigo, só devendo ser empregada na troca de mensagens ou casos muitos urgentes de ordem tática.

Essa circunstância interrompendo o funcionamento do serviço veio a ter depois funestas consequências e acabou de convencer os comandos da pouca utilidade desses postos que não mais lhes serviam nas suas relações habituais.

As constantes explorações que a estação diretora fazia, as di­rigidas tiveram também de cessar e o pessoal entregue a si próprio certamente esmoreceu no zelo pelo serviço.

Para maior erro e complicação de chamadas inventou o GHQ um novo sistema de indicativos que grande confusão estabeleceu nas re­lações entre os postos, os quais em pouco tempo tinham mudado várias vezes de indicativos os quais por último formados de três letras eram idênticos às Stations Code Calls que também tinham sido mandadas adotar nos postos telefónicos em vez das Positions Calls.

A iminência do perigo decuplicava as precauções, e estas eram em tão grande número, que, desorientando o pessoal, se convertiam em outras tantas causas de êxito para o inimigo.

Pombos-correio

A utilização dos pombos-correio na Grande Guerra já foi amplamente abordada nas nossas páginas. Eles desempenharam um importante papel no transporte de mensagens logo desde o início da guerra, primeiro no Exército Francês e logo de seguida também nas grandes unidades britânicas.

Um pombal móvel no R. E. Signals Pigeon Camp, Setembro 1917. © IWM (Q 29539)

Em relação à frente portuguesa, Soares Branco aborda a questão no seu relatório, explicando com brevidade a forma como se fez o seu uso.

O serviço de pombos-correios era constituído por um antigo pombal fixo em Lacouture com cerca de 150 pombos, o pombal móvel nº 48 es­tabelecido em Huit Maisons e, mais tarde, na segunda quinzena de fe­vereiro, pelo pombal móvel nº 20, estacionado em St. Floris.

Desde janeiro que por ordem do GHQ o pombal móvel nº 48 fora re­servado para a criação, passando todo o serviço a ser feito polo pom­bal de Lacouture. A distribuição de pombos era normalmente feita por ciclistas às brigadas e batalhões em linha, à razão de dois pombos por cada comando, o que por vezes, se a situação tática o aconselhava, era duplicado.

O pessoal encarregado dos pombais era, como usualmente, parte do GHQ parte do serviço telegráfico do Corpo, havendo em cada secção de sinaleiros de brigada e grupo pelo menos seis homens com a especialidade de pombeiros. Os pombos que normalmente se conservavam em serviço na linha por períodos de 24 horas conduziam em tubos porta mensagens, presos a anilhas de alumínio fixas às pernas, os despachos escritos em papel muito fino e ao modo ordinário.

A velocidade do voo do pombo era grande e em dois minutos era possí­vel ser recebido numa brigada um despacho dum batalhão.

Mas, para que este meio de comunicação fosse prático, seria necessário que a situação dos pombais fosse diferente daquela encontrada pe­lo Corpo Português na sua entrada na linha. O pombal móvel nº 48 ne­nhuma razão havia para o deixar demasiadamente avançado e exposto, junto de uma das brigadas, mas o facto de ter sido reservado para a criação fez que a sua mudança para Lestrem só pudesse ter lugar em março, não tendo havido até 9 de abril tempo suficiente para a treinagem dos pombos. Mesmo assim e com o pombal fixo de Lacouture, se estivesse completo o troço de linhas enterradas Lacouture-Le Touret e Bout de Ville-Riez-Bailleul-Laventie, embora o bombardeamento de que foi alvo muito preju­dicasse o serviço, certamente algumas informações teriam chegado ao seu destino.

O pombal móvel nº 20 que anteriormente servira no 2º Exército, nas proximidades de Ypres, embora há mês e meio em St. Floris, não con­seguira ainda boa treinagem para os pombos. Destinado a fazer chegar das Divisões informações diretas para o Corpo, por ordem do GHQ o cabo inglês encarregado do pombal ensaiara no mês de março largar alguns pombos em Paradis. O desaparecimento de 23 deles deixou desolado o cabo inglês e mostrou a pouca velocidade de instrução para os antigos vete­ranos de Ypres, cinco dos quais se recebera comunicação que haviam merecido citações especiais em circular do Marechal French aos criadores de pombos em Inglaterra.

Conclusão

O Serviço Telegráfico do CEP adaptou-se com alguma facilidade às responsabilidades de apoiar uma grande unidade durante o período inicial da presença do Corpo de Exército Português na frente, entre novembro de 1917 e o início de abril de 1918. Soares Branco estudou a situação, descentralizou responsabilidades, conseguiu os apoios necessários, inspecionou os trabalhos, procurou resolver as dificuldades que foram surgindo. Mas o essencial da situação não dependia de si. Tudo acabou por se complicar à medida que se foi compreendendo que a continuação da ofensiva alemã da primavera se encaminhava para a zona do Lys e que todos constatavam a previsível debilidade operacional e em especial psicológica dos soldados e das unidades portuguesas.

Nos últimos dias de março e primeiros de abril, as ordens e contraordens foram constantes e não se chegou a estabelecer um dispositivo claro e concreto das forças, que permitisse aos sistemas de apoio planearam a sua ação. Foi o que aconteceu às comunicações que, apesar do enorme esforço e muita diligência com que o Serviço Telegráfico enfrentou a situação, não chegaram a funcionar como seria desejável quando foram mais necessárias. Sem que disso possa o Serviço ser responsabilizado.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (12)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

ANTECEDENTES DO 9 DE ABRIL  (II)

Introdução

Antes de prosseguirmos a análise do relatório do capitão Soares Branco em relação a este período, vamos inteirar-nos sobre o que se passou no curto período de três dias, entre 6 de abril e o ataque das forças alemãs, na madrugada de 9, como nos transmite o relatório da Repartição de Operações do CEP, assinado pelo capitão de artilharia Álvaro Teles Ferreira Passos.

Este relatório começa com um quadro muito elucidativo da frente ocupada pelo CEP, nas várias fases, entre 30 de maio de 1917 e as vésperas de 9 de abril de 1918.

Quadro dos sectores e subsectores da frente ocupada pelas unidades portuguesas entre maio de 1917 e abril de 1918.

A única alteração inesperada de sectores e subsectores ocorreu de facto em 6 de abril, como se constata no próprio texto do relatório.

Em resultado de uma conferência havida entre o comandante do 1º Exército e o do CEP em 3 (de abril) deu-se ordem para a retirada da 1ª Divisão para a área de Desvres, ficando a 2ª Divisão com a responsabilidade de toda a frente (situação análoga à do período C (entre 10 de julho e 21 de novembro) com mais uma Brigada em reserva).

A 2ª Divisão encurtaria a frente passando parte do sector Ferme du Bois a ser ocupado pela 55ª Divisão.

Esta modificação não se chegou a efetuar, tendo a 2ª Divisão guarnecido os três sectores completos (10.600 metros).

A Brigada de reserva da 2ª Divisão daria dois Batalhões para reserva divisionária e outros dois ficariam destinados a guarnecer a linha do Corpo.

A 2ª Brigada devia render a 1ª no novo sector de Ferme du Bois em 4/5, a 3ª saía do sector e acompanhava a 1ª Divisão para descanso na noite 5/6 e as 4ª e 6ª Brigadas alargariam as suas frentes, constituindo-se três sectores.

Como porém o Batalhão de Infantaria 7 (2ª Brigada) se recusou a marchar, houve uma certa confusão nas rendições.

A 1ª Brigada foi então substituída pela 5ª Brigada, que estava em reserva da 2ª Divisão (que nunca tinha estado no sector de Ferme du Bois), a 3ª Brigada saiu do sector e ficou em reserva da 2ª Divisão. Passava-se isto em 6/7 de abril. Em 8/9 dava-se o ataque do inimigo.

Quando se deu o ataque de 9 de abril estava na frente guarnecendo os sectores que tinham sido guarnecidos por todo o CEP unicamente a 2ª Divisão reforçada com uma Brigada em reserva, a qual devia guarnecer em caso de ataque, a linha das aldeias e a linha do Corpo.

Ontem e hoje, o mesmo local.

Na ordem de 29 de março, assinada pelo comandante do CEP, general Tamagnini, elaborada em pressupostos muito diferentes, mas mantendo-se em vigor em tudo o que não foi alterado por novas ordens, dizia-se expressamente:

O Serviço Telegráfico procederá imediatamente às ligações dos postos dos comandos dos sectores com os Q.G das Divisões e daqueles com o deste Corpo.

E para que não ficassem dúvidas sobre a precária situação das unidades portuguesas nas vésperas da grande batalha, o relatório faz também um resumo sobre a “deficiência dos efetivos”:

Os quadros que seguem mostram detalhadamente como os efetivos se encontravam depauperados em oficiais e praças; faltavam 37% daqueles e 24% destas, na totalidade da Divisão. Porém, só nas faltas da infantaria e da artilharia o desfalque é o seguinte:

                                        Oficiais                       Praças

Infantaria                                 42%                         28,8%

Artilharia                                 34,4%                     13,2%

 

Os efetivos de mobilização da 2ª Divisão seriam (4 Brigadas de Infantaria):

                                               Oficiais             Praças

                                             1.102               25.582

Presentes                                689                  19.374

Faltavam                                 413                   6.208

Era um quadro verdadeiro e desolador, expressamente realçado nos relatórios dos vários responsáveis.

 

Meios de comunicação

Voltemos agora ao relatório do chefe do Serviço Telegráfico do CEP. Ainda antes de abordar as circunstâncias da Batalha de La Lys, Soares Branco continua a analisar a situação dos meios que tinha à sua disposição para assegurar as comunicações das unidades e comandos portugueses. Depois de nos transmitir uma ideia sobre o dispositivo das forças e de quais as estações e postos da sua rede de comunicações, e de explicar as redes de linhas aéreas, Soares Branco alonga-se na análise de todos os outros meios de apoio disponíveis – linhas de cabo enterrado, linhas de cabo isolado, comunicações óticas, comunicações pela TSF e pela TPS e ainda comunicações por pombos-correios.

Contudo, ao longo destes capítulos, Soares Branco vai deixando apontamentos sobre a situação, as dificuldades resultantes das constantes mudanças de dispositivo, a fácil destruição das linhas não enterradas, tanto pelos bombardeamentos inimigos, como pela atitude de algumas unidades, especialmente da artilharia pesada, cujos disparos danificavam os cabos.

Neuve-chapelle. Uma equipa de drenagem

Raramente Soares Branco refere o clima, a existência de neve, o frio e a chuva como obstáculos aos trabalhos relacionados com as comunicações, mas alonga-se na dificuldade de obter apoio em homens para os trabalhos de enterrar os cabos, resistência que se estendia dos comandos aos soldados. Também não se queixa da falta de efetivos próprios para cumprimento das suas missões, pois bem conhecia as dificuldades das unidades de infantaria e artilharia que ocupavam as trincheiras.

 

Linhas de cabo enterrado

A natureza da região em que estava estacionado o Corpo Português não era propícia ao enterramento dos cabos telegráficos.

“Embora, como foi dito anteriormente, desde março de 1915 após a batalha de Neuve Chapelle o front de La Bassée a Armentiers se tivesse estabilizado, nunca fora julgado o momento oportuno nem exequível proceder ao estabelecimento de comunicações por cabos enterrados.

Dificuldades próprias da região, que devido à proximidade dos canais fazia aparecer a água a um ou dois palmos de escavação, tinham sempre sido origem da existência de ligações somente por linhas aéreas ou sobre o solo”.

Contudo, logo em dezembro de 1917, o comando do 1º Exército solicitou às Divisões um anteprojeto de linhas enterradas, assim referido por Soares Branco, a propósito de uma nota do respetivo DD Signals que definia as principais características do sistema:

Eram pedidos aos Serviços Telegráficos das Divisões anteprojetos dos sistemas a executar em cada um dos setores para que, por cada Divisão houvesse pelo menos um troço principal longitudinal e dois outros transversais correspondendo um à linha dos Comandos dos Batalhões e centrais de postos de observação e outro à linha dos comandos das Brigadas e Grupos de Artilharia.

O projeto foi harmonizado entre as Divisões do Corpo Português e as Divisões vizinhas em primeira linha e enviado ao 1º Exército logo no início de janeiro de 1918. Obedecia a condições muito específicas, que Soares Branco enumera cuidadosamente no seu relatório, e das quais destacamos as seguintes:

– Poder ligar-se às linhas enterradas do XV Corpo e ao sistema do 1º Exército, por troços longitudinais;

“Permitir em toda a frente do Corpo uma ligação lateral entre os comandos de Batalhão (…) e, numa outra linha à retaguarda, uma ligação entre os comandos de Brigada e os Grupos de artilharia de forma a que não só os diferentes comandos tivessem asseguradas as suas comunicações recíprocas como com as Divisões a que pertenciam, em virtude dos comutadores montados em cada um dos Dug-outs de junção construídos nos pontos de encontro dos troços transversais com os longitudinais”.

– Ligar as transversais principais por troços secundários longitudinais, permitindo que novas derivações feitas nos dug-outs de junção restabelecessem as comunicações por novos troços se os primitivos sofressem qualquer avaria por causa dos bombardeamentos.

– “Ter os cabos enterrados a uma profundidade normal de 1 metro e 80 centímetros”.

– “Aproveitar tanto quanto possível os abrigos perto ou mesmo das estações já estabelecidas na linha, de forma a ter postos de guarda-fios a cerca de um quilómetro uns dos outros”.

Para além das características essenciais da rede, o projeto previa também um conjunto de requisitos técnicos, como a possibilidade de ligações telefónicas ao longo dos percursos, a frequência das caixas de ligação que permitissem obter derivações, bem como o número mínimo de pares de condutores em cada uma das linhas.

Poucos dias depois da entrada em linha do Corpo de Exército Português, Soares Branco envia aos chefes do ST das 1ª e 2ª Divisões, em 22 de dezembro, a seguinte nota, acompanhada por um esboço das linhas necessárias:

“(…) O estudo do sistema de comunicações de linhas enterradas será dividido em três fases:

a) A primeira sob a forma de anteprojeto deverá ser elaborada nas Divisões, pois só estas podem avaliar das necessidades que segundo todas as probabilidades deverão surgir, para estabelecimento de centros de comunicações.

O estudo compreenderá um traçado principal que, da frente da Divisão se estenderá perpendicularmente a ela, em direção a nós importantes de ligações que à retaguarda das Brigadas sirvam por traçados aéreos o QG da Divisão.

Dois traçados, pelo menos, transversais e secundários, sensivelmente paralelos à linha da frente, permitirão as ligações às Brigadas, Batalhões, Grupos de Baterias de Artilharia e por vezes às Baterias e outros centros de comunicações.

b) A segunda fase do projeto será estudada no Serviço Telegráfico do Corpo, harmonizando os projetos das duas Divisões e propondo ao DD Signals do 1º Exército os detalhes técnicos para a sua execução.

c) A terceira fase, de realização prática, terá lugar com tropas de infantaria para as escavações a efetuar e com pessoal do 1º Exército e do Corpo Português para a montagem dos cabos e fiscalização do trabalho.

As caixas de ligação devem supor-se dispostas de 200 em 200 metros aproximadamente, em calha vertical de madeira com as ligações feitas na parte superior, devidamente resguardadas.

Os dug-outs, para postos de guarda-fios e ensaio de linhas devem distanciar-se de 800 a 1000 metros.

É considerado urgente este trabalho”.

Esquema de Soares Branco que acompanhava a nota de 22 de dezembro.

Contudo, os responsáveis pela construção das linhas enterradas enfrentaram inúmeras dificuldades que tinham a ver, em especial, com o reforço de pessoal para abrir as valas necessárias. Soares Branco detalha a situação no seu relatório, pois essa foi uma circunstância que em muito influenciou os combates do dia 9 de abril.

São estas algumas das passagens do seu texto:

O problema principal que os responsáveis das comunicações tiveram que enfrentar foi o da dificuldade em conseguirem o reforço de pessoal necessário para enterrar os cabos. A extensão total do sistema na frente portuguesa atingia os 30 quilómetros, mas nunca chegou a ser terminado. (…)

Mas apesar das ordens dadas às Divisões, primeiro para fornecer efetivos de 200 praças cada uma e depois de 400, nunca esse número de trabalhadores de infantaria pôde ser efetivado tendo sido sempre muito maiores as dificuldades encontradas na 2ª Divisão que na 1ª (…)

Mas circunstâncias várias como rendições das Brigadas, bombardeamentos, receios dos comandos de deixar abrir trincheiras nas suas proximidades que poderiam atrair a atenção do inimigo, produziam constantemente atrasos na sequência das tarefas.

Na verdade, das Brigadas na linha dificilmente se podia alcançar pessoal para os trabalhos e as Brigadas em reserva tinham agora que ocupar durante a noite a Village Line o que as fatigava sobremaneira. Teve então que recorrer-se ao pessoal do C.A.P., mas este só po­dia fornecer 200 praças por Divisão.

Ao mesmo tempo o acréscimo da atividade da artilharia inimiga que obrigou a trabalhos durante a noite e com maiores precauções, a circunstância de os nossos artilheiros depois de uma tão longa pre­paração em Inglaterra se verem reduzidos ao que chamavam pitorescamente o “enterro do cabo” davam lugar a maior demora na execução do sistema projetado.

Por tudo isto, Soares Branco constata que, dadas as circunstâncias em que os trabalhos decorreram, havia enormes lacunas nas ligações, tanto nas linhas principais como secundárias.

E sendo assim poucas garantias dava ainda o sistema. (…)

Desta forma em cada Divisão existia como centro avançado de infor­mações os extremos dos troços principais longitudinais e em cada Briga­da um dos Batalhões estava ligado por linhas enterradas, mas das Briga­das até às Divisões o sistema não era continuado.

Mas o golpe final sobre as comunicações seria dado pelas mudanças do dia 6 de abril e dias sequentes, em que o Corpo de Exército Português deixou de existir e ficou na frente apenas a 2ª Divisão. Esta circunstância obrigou a várias mudanças das Brigadas e Batalhões, que recebiam novas zonas de ação e novas dependências. A confusão destes três dias não podia deixar de se refletir nas comunicações:

Mesmo incompleto como estava, o sistema prestaria em 9 de abril muitos serviços se uma fatal nova distribuição dos sectores não tives­se anulado quase todas as ligações acima indicadas, subordinando tati­camente Batalhões para os quais havia ligações para uma Brigada, à Bri­gada do flanco, fazendo passar o Quartel-General duma Brigada para a qual haviam sido construídas linhas enterradas, para um outro local on­de estas não existiam.

 

Conclusão

Parece que tudo se conjugou para que os combates de 9 de abril na frente portuguesa corressem mal. As tropas estavam depauperadas, os efetivos estavam muito diminuídos, as ordens da última hora desorganizaram todo o dispositivo. O ataque surgiu quando as forças estavam num processo de rendição, para serem substituídas nos seus respetivos sectores. As comunicações não tiveram tempo de se adaptar às mudanças em curso. O comando inglês agiu muito tarde e o comando português não teve capacidade para compreender a situação das suas tropas.

O Serviço Telegráfico tudo vai fazer para levar as ligações aos novos locais de comando, mas não lhe foi possível responder em tempo às contínuas alterações que as sucessivas ordens e contraordens introduziram no dispositivo. A minúcia do seu relatório tem também o propósito de demonstrar quanto as circunstâncias exteriores condicionaram a atuação do Serviço.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (11)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. ANTECEDENTES DO 9 DE ABRIL   (I)

Introdução

O capítulo V do relatório do capitão Soares Branco é dedicado ao 9 de Abril. É o mais extenso capítulo do relatório, estendendo-se por 47 páginas. Por comparação, os quatro capítulos anteriores ocupam apenas 20 páginas no seu conjunto.

As primeiras 16 páginas são dedicadas aos antecedentes do 9 de Abril, fazendo um ponto de situação entre os finais de março e o início da ofensiva alemã. Dividem-se por uma parte inicial sobre a situação geral e o “Dispositivo das Forças”, continuada por uma informação detalhada das questões respeitantes às comunicações, assim distribuídas:

– Estações e postos existentes no Corpo e Divisões

– Linhas aéreas existentes

– Linhas de cabo enterrado

– Linhas de cabo isolado

– Comunicações óticas

– Comunicações pela Telegrafia Sem Fios (TSF) e pela Telegrafia Pelo Solo (TPS)

– Comunicações por pombos correios

O capítulo segue com uma longa referência ao combate do 9 de Abril, em que, além das considerações feitas por Soares Branco, este transcreve na íntegra o longo relatório feito pelo chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, completado com um resumo do próprio Soares Branco.

Finalmente, o capítulo V encerra com umas “Conclusões e ensinamentos”, procurando o autor retirar dos acontecimentos as lições que se impõem para o futuro, em especial em tudo que respeita às comunicações na frente de combate.

É ao conteúdo deste capítulo V que dedicaremos os próximos textos.

 

A situação em março de 1918

Entre novembro de 1917 e março de 1918 as tropas portuguesas conheceram um período relativamente calmo em relação à ação operacional, mas muito duro em relação às condições climáticas.

Podemos socorrer-nos de um relatório do comandante do Batalhão de Infantaria 10, major António José Teixeira, para nos apercebermos do que foi, por exemplo, o Natal de 1917 nas trincheiras:

Chegou o Natal de 1917!… Dia tétrico esse, passado sob a inclemência do frio, com uma noite escura como breu.

A guerra parecia mais feroz.

Havia dois anos que os ingleses tinham fraternizado com o inimigo, nesse dia de Paz Universal (…)

Uma ordem do comando britânico, transmitida pelos comandos das Brigadas, fez enviar aos alemães um cartão de boas festas…

Partiram toneladas de granadas de todos os calibres, rajadas de metralhadoras e ainda granadas de espingarda e morteiros, às 17 horas e vinte minutos, produzindo o seu ribombar um formidável abalo em todas as edificações e um ruído ensurdecedor!

Os canhões abrem as suas fauces deixando-nos ouvir esses sons anunciadores da ruína e da destruição!

Enterrados na lama, fatigados, os nossos serranos viam passar, ébria de sangue e ódio, essa avalanche de metralha, contemplando, ao mesmo tempo, estupefactos, os fantásticos clarões dessas dezenas de bocas-de-fogo, que pareciam entoar sarcástica e demoniacamente, uma nova canção do Natal, sinistra e cheia de imprecações.

Horrível Natal! Todos, neste dia, cismaram na família, no seu país…

O jantar é triste… nem luzes, nem acepipes, a recordar vagamente a lenda do Natal!…

A neve cai nos campos e nas nossas almas. A bruma da noite envolve-nos, e as sentinelas embuçam-se, transidas, ao longo da linha que, serpenteando, segue pela nossa frente (…)

Era o Natal nas trincheiras. Triste Natal este de 1917 para os que ouviam o estrondear dos morteiros, os estalidos secos dos snipers, os estilhaços enervantes da metralha e o chac-chac estrídulo da Maxim!…

Os batalhões de apoio e reserva formavam pelos campos, à espera da terrível resposta…

Nos quartéis-generais de Brigada, a todo o momento, se esperava pelo ‘mercie’…

O inimigo, porém, não respondeu à nossa artilharia, mas arremessou sobre a 1ª linha algumas dezenas de morteiros, mantendo as guarnições numa contínua agitação.

Seguindo o mesmo relatório, sabemos que logo em janeiro, os Batalhões receberam ordem para se fazerem as rendições de quatro em quatro dias, em vez dos habituais seis dias, o que causou bastantes transtornos pela frequência de mudanças nas trincheiras, mas se justificava por parecer médico que atribuía à permanência nas trincheiras:

as doenças dos olhos que intensamente se manifestavam, causadas pelas reverberações dos campos nevados e pela atenção que a sentinela necessitava ter, de dia e de noite, sobre a terra alva que dia a dia, hora a hora se disputava.

Observando-se um grande descontentamento entre as tropas portuguesas, que comentavam não terem os alemães declarado guerra ao CEP, mas sim a Portugal, o martirizado Corpo Português atingiu o mês de março muito depauperado, à beira de um completo esgotamento.

Se retomarmos o relatório do capitão Soares Branco, ele nos dirá que:

O mês de março decorrera sem desusada atividade de artilharia e os vários “raids” levados a efeito, quer pelas Divisões portuguesas quer pelo inimigo, faziam prever operações futuras de maior amplitude.

Ao mesmo tempo uma série de informações chegadas aos Comandos igualmente tinham como consequências o fazer ativar todos os trabalhos de defesa. (…)

Infelizmente, porém, a ofensiva alemã de 21 de março, a entrada em linha à nossa direita do XI Corpo, a rendição da Artilharia Pesada do X Corpo pela do XI Corpo e várias circunstâncias de ordem moral resultantes dos acontecimentos políticos em Portugal e de novas convenções militares firmadas, vêm poderosamente contribuir para o enfraquecimento do poder defensivo das nossas tropas.

 

Um novo dispositivo das forças

Para as comunicações é essencial ter em conta o dispositivo das forças. Por isso Soares Branco dedica a este assunto um apontamento não muito longo, embora muito preciso, em que procura fazer um ponto de situação sobre a localização das unidades principais e da sua disposição no terreno.

No essencial, diz o seguinte:

Sem nos querermos alongar em considerações que a outros pertencerá fazer, indispensável se torna referir quais as disposições gerais que haviam sido tomadas pelo Comando do Corpo e das Divisões para o caso de um ataque inimigo entre o período decorrido de 29 de março a 6 de abril de 1918.

Os Quartéis-Generais do Corpo e das Divisões haviam sido fixados respetivamente em St Venant, Lestrem e La Gorgue (…)

A linha A e a linha B eram defendidas em cada Divisão por duas Brigadas com dois batalhões na linha, um em apoio e outro em reserva (…)

Uma Brigada de Infantaria em reserva por Divisão ocupava a linha das aldeias. A linha do Corpo, dividida em dois setores, devia ser defendida por forças de Artilharia Pesada empregadas como infantaria, companhias de Pioneiros, metralhadoras dos Grupos em repouso, companhias de ciclistas e um Batalhão de Infantaria de cada Brigada de reserva (…)

Desta forma o Corpo Português com a mesma área e a mesma frente prescrita na Ordem de Operações Nº 11 de 17 de dezembro ficava responsável pela defesa do seu setor sem nenhum dos elementos das unidades inglesas dos Corpos dos flancos e do reforço de Artilharia de Campanha e Pesada que o Plano de Defesa considerava. A nossa Artilharia constituída por quatro Grupos a quatro Baterias a seis peças encontrava-se distribuída por diferentes posições a coberto da linha das aldeias.

Nem uma só bateria era destinada a, coberta pela linha do Corpo, poder cooperar na defesa desta. Tal não permitia certamente a escassez dos nossos recursos e tal não fora suprido por Grupos ingleses de reforço que o Exército tivesse podido afetar, como fizera em janeiro ao Corpo Português.

Para dar apoio de comunicações a este dispositivo do Corpo de Exército Português, o capitão Soares Branco, responsável maior do Serviço Telegráfico, dispunha dos seguintes meios, como consta do seu relatório:

As tropas de telegrafistas consistiam em uma Companhia de Telegrafistas por Divisão, uma Companhia de Telegrafistas no Corpo, uma Secção de Cabo que o 1º Exército mantivera ao nosso dispor, uma Secção de guarda-fios de área, duas Secções de TSF, uma Secção de TSF no Corpo, além das Secções de Sinaleiros correspondentes a cada Grupo de Artilharia, Batalhão de Infantaria e Grupo de Ciclistas.

 

As comunicações no Corpo Português

O próprio Soares Branco anuncia a sua intenção de explicar tão demoradamente quanto lho permite a natureza do relatório, os sistemas de comunicações existentes até à véspera da Batalha de La Lys, realçando as condições em que os vários trabalhos efetuadas pelas suas unidades e por todos os seus elementos tiveram que ser feitos. São neste sentido as suas primeiras palavras:

Sem querermos precipitar as descrições dos acontecimentos que remataram, pelo menos o primeiro período da nossa participação militar com grandes unidades constituídas, procurarei descrever, embora sumariamente os sistemas de comunicações existentes até à data de 8 de abril p.p., as perturbações causadas nas ligações estabelecidas pelas sucessivas Ordens que o Comando do Corpo era forçado a transmitir, para que se possa, com pleno conhecimento de causa, avaliar dentro da esfera de ação do Serviço Telegráfico a batalha de 9 de abril, e as consequências e ensinamentos que dela se devem deduzir.

O primeiro assunto que o relatório aborda com algum pormenor são as Estações e Postos existentes no Corpo e Divisões. Mas antes de descrever concretamente as várias estações e postos, as suas ligações e posições e o uso tático desses meios, Soares Branco transmite-nos a sua visão da situação, com considerações muito pertinentes:

O caráter de estacionária guerra de sítio que as operações até então tinham tido nesta parte da frente ocidental, havia conduzido a um sistema de comunicações extraordinariamente complexo e que, se satisfazia plenamente todas as ligações necessárias aos comandos para períodos de relativa acalmia, estava naturalmente condenado a ser impotente diante de qualquer sério bombardeamento em profundidade, numa zona não inferior a seis quilómetros.

Quando a 1ª Divisão Portuguesa entrou na linha pela 1ª vez, a rendição da 49ª Divisão Britânica foi executada por diferentes fases caraterizadas por Batalhões incorporados em Brigadas Inglesas, por Brigadas incorporadas em Divisões Inglesas e finalmente, depois de substituídas totalmente duas Brigadas Inglesas por duas Brigadas Portuguesas, foi entregue ao Serviço Telegráfico da Divisão Portuguesa todo o serviço de sinais da Divisão Britânica.

A 1ª Divisão Portuguesa encontrava-se desde 16 de junho na 1ª linha com o seu Serviço Telegráfico sob a superintendência técnica do AD Signals do XI Corpo quando a 5 de novembro de 1917 a 2ª Divisão e o Corpo Português entraram na linha com a responsabilidade do respetivo setor.

Foi em março de 1915 que se dera a batalha de Neuve Chapelle e desde então para cá, a linha tendo-se estabilizado bem poderia ter permitido o estabelecimento de comunicações oferecendo maior caráter de segurança do que aquele que se encontrou montado e que forçoso era explorar e manter.

Soares Branco expõe então as razões técnicas que sustentaram as suas opções, enumerando as ligações que se tornaram necessárias e a forma com deu solução às missões que estavam a seu cargo. Dá conta das ligações da estação principal do Corpo e também do desenho e das características das restantes estações e das ligações secundárias. E como planeou e os seus serviços executaram um conjunto de trabalhos indispensáveis ao bom funcionamento das comunicações no seio do Corpo Português.

Para além das estações e postos existentes tanto no Corpo como nas Divisões, Soares Branco aborda depois as linhas aéreas existentes, distinguindo os traçados principais (entre quartéis-generais) e os traçados complementares, que serviam de transversais às primeiras. Contudo, Soares Branco não se mostra satisfeito com os traçados que foi encontrar, comentando a situação desta forma:

Olhando para uma carta que tenha em planta as linhas já referidas fácil é reconhecer-se a defeituosa implantação do sistema.

Assim, ao contrário do que se procurou conseguir para os traçados construídos pelo Corpo Português, todos os principais feixes de linhas já existentes acompanham as principais vias de comunicação e têm postes de junção em cruzamentos notáveis de vias de comunicação. (…)

E se era assim e assim sucedia para as comunicações gerais dos comandos o sistema particular montado para a Artilharia Pesada em piores condições deveria funcionar. Com efeito traçados de feixes triplos e entrelaçando-se constantemente em postes de junção envolviam todas as posições de artilharia a cerca de quatro quilómetros do front e três ramais principais desse feixe envolvente estabeleciam as ligações dele com as baterias e centrais dos postos de observação de artilharia.

Os bombardeamentos inimigos durante o mês de março e a ação da própria Artilharia Pesada amiga, que para nada se importava estabelecer as posições das suas peças a algumas dezenas de metros dos nossos traçados aéreos e até mesmo de postes de cruzamento, danificaram poderosamente as linhas existentes e acarretaram para o pessoal telegrafista das companhias divisionárias e da secção do Corpo que tinham que ser enviadas em reforço das primeiras, um considerável e improfícuo excesso de trabalho de guarda-fios.

Comunicações que deveriam ser estabelecidas a muitas dezenas de quilómetros, como as de defesa antiaérea, era quase impossível mantê-las em bom estado de serviço.

Atravessando as áreas do 1º Corpo, do Corpo Português e do XV Corpo raras vezes a simultaneidade de esforços permitia o restabelecimento das comunicações.

Para obviar a este estado de coisas foi que no fim de dezembro se procedeu ao estudo do sistema de cabos enterrados de múltiplos condutores de que trataremos no capítulo seguinte.

Mas com este sistema, com os recursos de pessoal que foram fornecidos, não era possível ser executado em pouco tempo, vários expedientes tiveram que adotar-se para evitar frequentes cortes nas ligações. (…)

O complicado sistema de feixes triplos da Artilharia Pesada praticamente estava substituído por linhas de cabo desde a segunda quinzena de março.

Era este o quadro bastante precário com que Soares Branco teve de contar para cumprir as missões que lhe estavam atribuídas. No seguimento do relatório vai ainda dar uma ideia das linhas enterradas e de outros meios de comunicações existentes e usados na zona de ação do Corpo Português, mas o panorama não se mostrará muito diferente das linhas principais.

 

Conclusão

Apesar do carácter estacionário do teatro de operações da frente ocidental, com as tropas dos dois lados enfrentando-se ao longo de uma longa linha de contacto, fortemente organizada e separada pela chamada “terra de ninguém”, nunca houve a ideia de definir um dispositivo permanente que facilitasse o apoio dos vários serviços. As necessidades táticas, como deve ser, sobrepuseram-se sempre às considerações logísticas. O que ressalta do relatório de Soares Branco não é a aceitação inevitável desse princípio, mas sim o desconhecimento e o descuido sobre as comunicações que parecia acompanhar muitas das mudanças operacionais que constantemente eram decididas e que só confundiam os serviços de apoio, em especial as comunicações.

Este período, em que esteve em linha o Corpo de Exército Português, foi particularmente agitado na recomposição do dispositivo, culminando com as profundas mudanças ordenadas nos dias que antecederam a ofensiva alemã de 9 de Abril, como veremos através do minucioso relatório que Soares Branco nos deixou.

EQUIPAMENTOS DE TRANSMISSÕES DA 1ªGM – A TELEGRAFIA PELO SOLO (TPS)

 

A TPS foi, a par do “Fullerphone” , uma inovação tecnológica introduzida nas comunicações da 1ª GM. No entanto, enquanto o “Fullerphone” teve um sucesso assinalável, sendo utilizado ainda durante a 2ª GM, a TPS foi rapidamente abandonada, substituída pela rádio.

fig1

Fig 1 – Ligação por TPS

 

A TPS é uma forma de telegrafia sem fios que utiliza o solo como meio de transmissão  dos sinais (fig 1). Toda a literatura da época explica esta transmissão por condução elétrica no solo e é essa a explicação que tentarei desenvolver neste artigo. No entanto fico na dúvida se essa transmissão não seria, total ou parcialmente, baseada na propagação de ondas electromagnéticas pelo solo ou pelo ar junto ao solo. Essa dúvida baseia-se essencialmente:

  • Na convicção de que as correntes eléctricas geradas pelo emissor, à distância a que se encontrava o recetor (2-3 Km), eram residuais e dificilmente detectáveis.
  •  Na constatação de que um sistema moderno, semelhante, utilizado em espeleologia – o sistema  NICOLA –  se baseia na propagação pelo solo de ondas electromagnéticas, embora com uma frequência completamente diferente: o sistema da 1ª GM funcionava a 500 Hz e o NICOLA funciona a 87 KHz.

Esta dúvida só poderia ser desfeita com estudos técnicos que, creio, nunca foram feitos e não o serão porque o sistema entrou em desuso.

A explicação técnica dos equipamentos e seu funcionamento (incluindo as figuras)  baseia-se no  manual do Exército Americano “Power Buzzer Amplifier, Army War College, Washington, 1918” e no documento sobre TPS existente no Arquivo Histórico Militar (Cx 1/35/202/3).

equipaTPS

Fig 2   – Equipa de TPS com um “Power Buzzer Amplifier” modelo francês

 

Princípio de funcionamento

O princípio de funcionamento é o mesmo de um telégrafo acústico. O emissor é constituído por um vibrador de frequência  audível, comandado por uma chave de morse que gera os sinais a transmitir, e o recetor é um auscultador, onde esses sinais são recebidos. A diferença é que no telégrafo acústico, que utiliza fios condutores, a corrente gerada no emissor chega quase integralmente ao recetor, permitindo a audição no auscultador, enquanto na TPS a corrente que chega ao recetor é fraquíssima exigindo a sua amplificação. Esta foi seguramente uma das razões porque a TPS aparece  só depois da TPF e mesmo da TSF, após o aparecimento das válvulas eletrónicas que permitem a amplificação dos sinais.

 

Forma de transmissão

Se espetarmos 2 estacas condutoras no solo, a uma certa distância uma da outra, e aplicarmos nessas estacas um sinal elétrico, a corrente gerada por esse sinal entre as estacas espalhar-se-á no solo segundo linhas de condução conforme fig 3. Essas linhas não são descontínuas, como a figura esquemática pode sugerir, antes ocupam todo o volume de solo entre as duas estacas. O valor da corrente elétrica que passa em cada linha, num solo homogéneo, será inversamente proporcional ao comprimento dessa linha. Assim, teremos um máximo de corrente na linha reta que une os dois pontos das estacas, à superfície, diminuindo à medida que as linhas se afastam dessa.

Se, por outro lado, conseguirmos espetar duas estacas em pontos diferentes de uma dessas linhas imaginárias de condução (caso dos pontos  b e d na fig 3), obter-se-á , nessas estacas, um sinal  que é tanto maior quanto maior for a extensão da linha curto-circuitada por essas estacas.

Fig2

Fig 3 -Linhas de corrente numa emissão TPS

Algum cuidado tem de haver na posição relativa dos pares de estacas emissora e recetora. É fácil de ver que se as 2 estacas  recetoras  estiverem uma em cada linha de condução, poderão estar em pontos equipotenciais do sinal o que significa não receber qualquer sinal

Como para transmitir a uma certa distância as linhas de corrente úteis são as mais afastadas facilmente se percebe que o sinal recolhido entre duas estacas, na estação recetora, é muito fraco,  precisando, para ser ouvido, de ser amplificado.

 

Equipamentos utilizados

Os equipamentos utilizados foram o “Power Buzzer”, como  emissor,  o “Amplifier”, como recetor, e o “Power Buzze Amplifier”, que não é mais que a associação dos dois anteriores, que podia funcionar como emissor ou recetor, mas nunca em simultâneo. Os vários modelos construídos diferiam muito pouco entre si.

O “Power Buzzer”  (Fig  4) é basicamente um vibrador, relativamente potente, que gerava uma sinal audível, com uma frequência de cerca de 500 Hz. Era alimentado por uma bateria de 10 Volts, podendo ser de 20V para aumentar o alcance. Tinha associado um transformador que elevava a tensão dos sinais de saída para cerca de 200 V.

Fig 3

Fig 4 – Esquema do “Power Buzzer” (Emissor)

O “Amplifier” (fig  5 ) é, como diz o nome, um amplificador eletrónico de válvulas (2 ou 3) para elevar o nível do sinal captado nas estacas recetoras de forma a poder ser ouvido nos auscultadores.

Fig 4

Fig 5 – Esquema do “Amplifier” (Recetor)

 

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Fig  6   – “Power Buzzer Amplifier” usado pelo exército do Canadá, com os acessórios essenciais: estacas de terra e seus cabos de ligação

 

 

Emprego operacional

A utilização deste sistema de comunicações chegou a ser vital em situações críticas da guerra de trincheiras. Na linha da frente, quando a artilharia inimiga “derretia” todas as linhas aéreas ou assentes no solo, destruía as antenas de TSF e impedia qualquer movimento de mensageiros, o único meio de comunicações que sobrevivia era a TPS com os equipamentos e as estacas de terra protegidos pelas trincheiras.

Era de fácil e rápida instalação mas pouco seguro por ser facilmente intercetado pelo inimigo.

Era muitas vezes utilizado de forma unidirecional, com o emissor na linha da frente e o recetor atrás, mas podia ser também  bidirecional, obviamente sem possibilidade de comunicação simultânea nos dois sentidos, na forma denominada comunicação “simplex”. Para as diferentes utilizações existiam configurações diferentes de equipamentos: o emissor (“Power Buzzer”), o recetor (“ Amplifier”) ou os dois acoplados (“Power Buzzer Amplifier”).

O alcance do sistema dependia:

  •  Do tipo de terreno, especialmente da sua condutibilidade;
  • Do comprimento das bases (denomina-se “base” a distância entre as duas estacas, tanto do lado emissor como do recetor);
  • Da posição relativa das bases emissora e recetora;
  • Da eficácia das tomadas de terra nos extremos das bases;
  • Da interferência, no ponto recetor de outras emissões.

Podia contar-se com um alcance médio de 2 Km que, em condições favoráveis, podia chegar aos 4 Km.

 

Utilização no CEP

Os equipamentos de TPS, embora destinados às ligações dos batalhões em 1ª linha, estavam atribuídos à Secção de Telegrafia Sem Fios, à semelhança dos equipamentos rádio, o que permitia um planeamento centralizado da sua utilização.

Nas relações de material devolvido a Portugal, no fim do conflito, não encontrei nenhuma referência a este equipamento. Admito que tenha sido, na sua totalidade, entregue ao Exército Inglês, a quem pertencia.

Houve um planeamento inicial de utilização da TPS que está graficado na figura já apresentada no “post” “A TSF no CEP” de 14 de Janeiro de 2016 do MajGen  Edorindo Ferreira e que se reproduz novamente na fig 5  . Esse planeamento previa a instalação de postos simples de Power Buzzer (emissor) nos batalhões da linha da frente e postos de Amplificador (recetor) na 2ª linha. Este sistema permitiria a comunicação unidirecional da frente para trás com o inconveniente e não poder confirmar a receção. No entanto não foi esse o sistema instalado, talvez porque se concluiu da sua  ineficiência.

Fig 5

Fig 5 – Planeamento inicial da instalação da TPS no CEP

 

Soares Branco, no seu relatório, refere as dificuldades que sentiu na instalação do sistema de TPS, comuns ao sistema TSF:

O facto de nunca ter sido possível conseguir que o Exército Bri­tânico fornecesse camion para carregamento de acumuladores, nem box-car para transporte de pessoal, prejudicou sempre notavelmente a regu­laridade deste serviço que somente durante o último período da estada na linha da 1ª. Divisão incorporada no XI Corpo, funcionou regularmente.

   A instalação dos diferentes postos em obediência ao prescrito no plano de defesa só se fez muito tarde.

   Foi na 1ª quinzena de março que o sistema ficou concluído, mas apesar disso muitos abrigos eram ainda de fraquíssima resistência.”

……………………………………………………………………………………………………………

   “Todos os abrigos dos postos duplos e dos power buzzers eram de muito fraca proteção.

   O sistema, embora somente satisfatório para os sectores de Fauquissar, Chapigny e Neuve Chapelle, carecia de ser devidamente experimentado no seu funcionamento pelos diferentes comandos.”

O sistema  consistia em  4 postos duplos (Power Buzzer e Amplificador) situados  junto de: PC de 4ª Brig em Laventie,  PC da 6ª Brig em Huit Maisons,  Batalhão de Winchester (BI2) e Batalhão de Landsdown (BI17); e  6 postos simples de Power Buzzer junto de: Bat de Temple Bar (BI20), Bat de Curzon Post (BI1), Companhias do Bat de Winchester (2)   e  Companhias do Bat  de Curzon Post  (2).

Estavam bem definidos quais os postos que comunicavam entre si, tanto entre os postos duplos como dos simples para os duplos.

Nas suas “conclusões e ensinamentos”, Soares Branco sugere que deve ser montada, em sobreposição à TPF, uma rede TSF/TPS, utilizando a TPS à frente desde as companhias, passando pelos batalhões até ao comando das brigadas e utilizando os “Trench sets” (rádios) dos comandos das brigadas até às divisões e corpo:

   “A TSF e a TPS estabelecidas em bons abrigos são de indispensável emprego para duplicar todas as principais linhas telefónicas devendo os power buzzer e amplificadores ser empregados desde a 1ª linha até aos comandos de Brigada. Os postos de TSF nestes últimos comandos ou centros importantes de comunicações situados a mais de 2 500 metros da linha da frente conjugados com postos duplos de amplificador e power buzzer da frente, deverão completar o sistema até às estações adstritas aos comandos das Divisões e Corpos.”

………………………………………………………………………………………………….

   “Entre os diferentes aparelhos de TSF e TPS em uso dever-se-ia estabelecer nos postos de comando de Brigada Trench Sets e postos duplos de power buzzer e amplificador, nas centrais avançadas de Brigada postos duplos de amplificador e power buzzer, nos Batalhões e algumas companhias power buzzers.”

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (10)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. NOVEMBRO DE 1917 A MARÇO DE 1918 – O CORPO DE EXÉRCITO NA FRENTE

Introdução

O capítulo IV do relatório do capitão Soares Branco é dedicado ao período de novembro de 1917 a março de 1918, coincidente com o período de inverno, em que a atividade operacional foi bastante reduzida. O responsável do Serviço Telegráfico do Corpo de Exército Português aproveitou para melhorar as redes de comunicações e preparar o pessoal o melhor que lhe foi possível.

Como veremos, enfrentou alguns problemas com o estabelecimento das linhas de comunicação, uma vez que o XI Corpo, que foi substituído na frente, não transferiu devidamente nem as linhas, nem os esquemas que deviam representá-las. As relações com o XI Corpo foram sempre muito difíceis e quando este abandonou a frente, a situação que deixou foi merecedora de justas queixas de Soares Branco.

A propósito destes problemas, Soares Branco faz o historial das relações que o CEP foi tendo com os vários comandos ingleses que estiveram envolvidos com unidades portuguesas, incluindo as relações de comando das unidades de artilharia, assim como das vicissitudes dos dispositivos guarnecidos por várias grandes unidades inglesas em torno do Corpo Português.

A saída da frente do XI Corpo Inglês

Quando o XI Corpo abandonou a zona que ocupava na frente, Soares Branco insurge-se com a destruição das redes de comunicação que foi encontrar, lamentando a falta de informação que a unidade rendida deixava ao Corpo Português:

O Corpo Português entrava em exercício com responsabilidade da defesa dos sectores de Ferme du Bois, Neuve Chapelle, Chapigny, Farm e Fauquissart, às 12 horas do dia 5 de novembro de 1917.

Ao contrário do que sucedeu com a 49ª Divisão que quando rendida pela 1ª Divisão entregou, precisamente no dia e hora da rendição, todos os esquemas, diagramas e projetos de linhas e comunicações e prestou todos os esclare­cimentos necessários para a rendição, o XI Corpo junto do qual o Corpo Português até então estivera como que em instrução, nada me enviou, nada me facultou.

Uma só preocupação teve: foi cortar as linhas telegráficas que o ligavam à 1ª Divisão, de forma a amontoar na estação de QGC, centenas de telegra­mas dirigidos a unidades inglesas do XI Corpo que entre nós ainda estavam.

Só em 15 de novembro recebi por intermédio da Missão Britânica um mapa com a planta das linhas existentes, mas nenhum diagrama era enviado (…)

Depois de uma troca de correspondência com o XI Corpo, que pouco resolveu, Soares Branco acabou por recorrer ao comando do 1º Exército para iniciar, em conjunto, um trabalho de recuperação das informações necessárias. É desses trabalhos que nos dá conta de seguida:

Ao Corpo Português não eram fornecidos os elementos indispensáveis que a qualquer Brigada ou Divisão nunca podem ser recusados.

Os únicos que primeiro foram enviados tinham que ser emendados alguns dias depois, e os restantes não existiam no XI Corpo que durante dois anos pouco mais ou menos aqui permaneceu, em Hinges.

Só a ação do 1º Exército Britânico, que imparcialmente tinha sempre re­conhecido as muitas dificuldades com que este Serviço lutara e que procurara vencer, é que poderia fornecer-me os meios que pelo Corpo Inglês ha­via estrita obrigação de facultar.

De facto assim sucedeu.

Um oficial português, o tenente de engenharia J. Pedro Saldanha e o te­nente do 1º Exército Inglês Williams corrigiram e elaboraram uma planta exata das linhas existentes.

Seguidamente pelo mesmo oficial português foi elaborado o diagrama exato de todas as ligações na área do CEP, que por cópia enviei ao 1º Exército, distinguindo as linhas que eu propunha que ficassem na posse do Corpo Português e eram indispensáveis para as suas ligações.

A primitiva distribuição de tropas Britânicas e Portuguesas que implicavam um encravamento do CEP no IX Corpo e depois no XV que substituiu aquele trouxe como era natural sérios contratempos para o Serviço Telegráfico.

Na realidade, este facto tinha como consequência uma mistura inextrincável de linhas transversais portuguesas e inglesas através da nossa área para as Divisões Inglesas do nosso flanco esquerdo.

Quando a artilharia pesada do XV Corpo sucedeu à do XI Corpo nenhuma indicação sobre as suas ligações fora dada ao Corpo Português pois que era ao XV Corpo que competia a responsabilidade da sua artilharia pesada desde La Bassée a Armantiers.

Reorganização do Serviço Telegráfico

Entretanto, como nos informa, através do respetivo relatório, o chefe da Repartição de Instrução e Organização, na parte respeitante à organização do Corpo de Exército, houve que alterar substancialmente não só a estrutura das unidades de infantaria e artilharia, mas também outras unidades combatentes e quase todos os serviços de apoio. Foi por isso que o Serviço Telegráfico viu também alterada a sua organização a fim de responder com maior eficácia às missões do Corpo de Exército.

É assim que pela Ordem de Serviço do CEP nº 240 de 7 de novembro de 1917 são reorganizadas as tropas do Serviço Telegráfico, ficando da seguinte forma:

1º – Uma Companhia de Telegrafistas do Corpo

2º – Duas Companhias Divisionárias de Telegrafistas

3º – Uma Secção de Telegrafia Sem Fios

4º – Serviço de Pombais Militares

Conforme esta constituição foram dissolvidas as Secções de Telegrafia Por Fios e foram incorporadas nas Companhias Divisionárias de Telegrafistas as Secções de Sinaleiros dos QG das Brigadas de Infantaria (ver em AHM/01/35/149).

Os primeiros trabalhos de 1918

Depois da tomada do poder, Sidónio Pais tinha a ideia de limitar a presença de tropas portuguesas em França. As negociações com a Grã-Bretanha tinham por fim a diminuição do nível de representação, voltando à constituição de apenas uma Divisão, como constaria da nova convenção assinada em janeiro. Entretanto, o responsável do Serviço Telegráfico, capitão Soares Branco, vai-nos transmitindo informações das movimentações de tropas na frente da Flandres:

Em meados de janeiro uma ordem do 1º Exército dava um novo dispositivo às tropas e o Corpo Português ficava tendo nos seus flancos à direita e à esquerda respetivamente o I o XV Corpo Inglês e a artilharia pe­sada do X Corpo e o esquadrão de aviação 4A ficavam igualmente adstritos à frente Portuguesa.

Coube então a vez ao oficial inglês comandante dos sinaleiros da ar­tilharia pesada do X Corpo de lutar com dificuldades iguais àquelas já indicadas ao render do serviço do XI Corpo pelo Corpo Português.

Não havia nem esquemas nem diagramas das comunicações para compreensão do sistema.

Procedeu com uma rara energia e inexcedível competência e algumas semanas depois enviava a este Serviço Telegráfico do Corpo todos os desenhos e elementos para o indispensável conhecimento das comunicações.

Ligações da Artª pesada do X Corpo (clique na imagem e depois, em baixo e à direita, volte a clicar em “View full size”, para a aumentar, e de novo na imagem, para ver em grande detalhe)

Era ele o capitão H. E. Westwood e auxiliava-o o tenente R. E. Ward.

Nessas difíceis condições mais uma vez me certifiquei quanto é fácil trabalhar juntamente com oficiais Britânicos como os já mencionados.

Nunca quaisquer mal-entendidos surgiram não obstante as situações criadas pelos cargos que desempenhávamos tal pudessem dar origem.

Supunha-se nesse tempo que o Corpo de Artilharia Pesada que viera de Inglaterra iria to­mar conta da artilharia pesada do CEP e nessa conformidade o capitão de engenharia Almeida Bello seguira de perto o serviço de ligações da ar­tilharia pesada do X Corpo.

Se desta vez o Corpo de Artilharia Pesada houvesse recebido o material nunca em melhores condições para o Serviço Telegráfico se teria executado uma rendição.

Soares Branco parecia ter finalmente a capacidade organizativa e de recursos capaz de ultrapassar os desafios e as dificuldades do longo período de quase um ano durante o qual lutou para que isso acontecesse. São dele as palavras finais deste IV Capítulo do seu relatório, que antecedem uma fase bem mais complicada para as tropas portuguesas, que incluem março e abril de 1918, e que largamente será tratada por Soares Branco no capítulo seguinte:

Passando em revista desde o mês de Janeiro de 1917 os diferentes pe­ríodos de desenvolvimento dos recursos e organização do CEP certamente se concluirá que era precisamente nesse mês de janeiro e fevereiro que a curva atinge o seu máximo.

No Serviço Telegráfico de facto com o destacamento da área e a Secção de Cabo que o 1º Exército colocara sob as nossas ordens e com o serviço de ligações da artilharia pesada do X Corpo além das nossas duas divisões nenhum elemento lhe faltava para em tudo similar aos mais Corpos Britânicos.

Ligações telefónicas do CEP (clique na imagem e depois, em baixo e à direita, volte a clicar em “View full size”, para a aumentar, e de novo na imagem, para ver em grande detalhe)

Conclusão

Através do seu relatório, Soares Branco transmite-nos inúmeras informações que respeitam não apenas ao serviço telegráfico, mas também às tropas portuguesas em geral, às relações com as unidades inglesas, à organização das unidades em campanha, às circunstâncias e condições do empenhamento das forças, sustentando no quadro geral as medidas e as orientações para o funcionamento do seu Serviço. Até a densidade dessas informações reflete, de algum modo, os períodos de maior e menor dificuldade das unidades portuguesas, sendo um bom exemplo este capítulo IV, que em breves páginas, aborda o período desde as vésperas da entrada em linha do Corpo de Exército Português até ao início do mês de março de 1918, altura em que verdadeiramente a guerra se intensifica na frente portuguesa.

Como veremos, ao crescer a intensidade da guerra também se alarga em pormenores o relatório de Soares Branco.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (9)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. NAS VÉSPERAS DA ENTRADA EM LINHA DO CORPO DE EXÉRCITO PORTUGUÊS

Introdução

Não era pequena a esperança do chefe da Repartição de Instrução e Organização do CEP, major de infantaria com o curso de estado-maior Henrique Pires Monteiro e do seu adjunto capitão de infantaria Joaquim de Oliveira Simões, que escreviam com data de 31 dezembro de 1917, o seu primeiro relatório:

Feita a paz, vencedora a Democracia, esta geração que sofreu a Guerra e nela aprendeu a Abnegação pela Coletividade, terá a base mais sólida da educação cívica, indispensável para que os princípios superiores dos direitos do homem se afirmem em uma atmosfera de suavidade moral e social, que assegure o progresso político e económico dos estados.

Ansiando por esse futuro, mas de regresso aos problemas do presente, os autores do mesmo relatório resumem a forma como se constituiu o Corpo de Exército Português e quais os passos que foram dados já em França:

Em Ordem de Serviço nº 45 de 20 de abril de 1917 foi publicado que o Governo da República determinara a constituição do CEP em um Corpo de Exército, a duas Divisões. Até então havia apenas uma Divisão (…)

A alteração da primitiva composição do CEP, colocando o nosso Exército em plano superior e valorizando o esforço enorme com que Portugal tem concorrido, combatendo ao lado dos aliados, teve necessariamente enorme significação política e sob o ponto de vista militar deu-nos responsabilidades mas concedeu-nos direitos, que dignificaram o Exército Português. (…)

Consequência dessa transformação e cedendo possivelmente a instâncias do Comando Britânico, os Regimentos a três Batalhões foram transformados em 1 de maio de 1917 em Brigadas a quatro Batalhões (sistema inglês). Não tendo aumentado o número de Batalhões expedicionários, os oito Regimentos transformaram-se em seis Brigadas de Infantaria.

Também para o Serviço Telegráfico, como veremos mais adiante, a constituição do Corpo de Exército trouxe alterações significativas. É para isso que o capitão Soares Branco nos alerta desde logo, com uma referência às mudanças na organização do serviço, que virá a refletir-se numa necessária alteração das próprias unidades de telegrafistas:

Chegara de Portugal sem colocação alguma determinada, o capitão de engenharia Esmeraldo Carvalhais que havia sido chefe do Serviço Telegráfico da 1ª Divisão, mobilizada em Tancos, e eu tinha a intuição de que era absolutamen­te indispensável tornar independentes os cargos de chefe de Serviço Telegrá­fico das Divisões e de comandante das tropas telegrafistas das mesmas.

Avaliara, pelo que seguira de perto os serviços, a enorme canseira e a impossibilidade de convenientemente tudo resolver e tudo remediar, com que lutava o chefe de Serviço Telegráfico da 1ª Divisão, tenente de engenharia Ferreira da Silva, e ao mesmo tempo entendia a sua cooperação indispensável em todos os trabalhos técnicos da Divisão.

E, tendo em vista por esta forma melhorar o estado de coisas existentes, de acordo com o Estado-Maior da 1ª Divisão e com o existente chefe do Serviço Telegráfico e comandan­te da 1ª Secção de TPF, propus ao chefe do Estado-Maior do Corpo a nomeação do capitão Carvalhais para chefe do Serviço Telegráfico da lª Divisão conti­nuando o tenente Ferreira da Silva como comandante da 1ª Secção de Telegra­fia por Fios.

Anteriormente, porém, dirigira ao AD Signals do XI Corpo a nota de 21-07-17, à qual recebi resposta afirmativa pela nota de 24 do mesmo mês.

O novo chefe do ST fez um estágio de cerca de 10 dias na Escola de Sinaleiros e junto do Serviço Telegráfico do Corpo, e, contando em absoluto com as mui­tas qualidades de Chefe que de há muito lhe reconhecia e com a leal e valiosíssima cooperação que todos os oficiais do Serviço lhe prestariam e presta­ram, fiquei absolutamente convencido de haver tomado uma medida acertada e necessária.

Sinaleiros

Ultrapassada a fase de resolução dos inúmeros problemas que se foram colocando respeitantes à 1ª Divisão sob o comando do XI Corpo Britânico, havia que começar a preparar a entrada em linha da 2ª Divisão e consequentemente do comando do Corpo de Exército Português, passando este para o comando do 1º Exército.

Especial atenção mereceu, como sempre, a Soares Branco, a melhoria da instrução dos sinaleiros. Aborda a questão com pormenor no seu relatório:

No entretanto iam chegando à Escola de Sinaleiros e iam sendo instruídas as Secções de Sinaleiros da 2ª Divisão.

Houvera mais tempo para essa instrução e cada Secção de Sinaleiros antes de ir para uma Brigada Inglesa com o respetivo Batalhão, era mandada praticar junto das nos­sas Brigadas, Batalhões ou Grupos.

As opiniões dos oficiais de Brigada ingleses era que os oficiais e quadros eram bons, dos sinaleiros uns eram igualmente bons, outros vagarosos na trans­missão. Os primeiros eram de telegrafistas de praça, os restantes eram praças de infantaria que contudo faziam mais do que era permitido deles exigir, pois que nunca tinham tido instrução dessa natureza.

Tais factos já me não assustavam, pois sabia pela prática obtida na 1ª Divisão que era na linha e com um serviço aturado que uma maior velocidade de trans­missão e receção podia ser adquirida.

Uma circunstância, porém, veio prejudicar e atrasar o sucessivo aperfeiçoamento dessas Secções de Sinaleiros.

Os Batalhões haviam entrado na linha por companhias isoladas e seguidamente como unidades constituídas.

Inúmeras causas, estranhas ao Serviço Telegráfico, não permitiram desde logo a entrada da 2ª Divisão na linha. Não havia oficiais, não chegava a artilharia de campanha, e de qualquer modo a 2ª Divisão nem rendia a 1ª, nem entrava ao lado dela.

As Secções de Sinaleiros que haviam saído da Escola de Sinaleiros há meses continuavam, mas com uma direção muito problemática, a instrução das suas praças, visto estarem acantonadas na zona da 1ª Divisão mas a ela não subordinadas e o Quartel-General da 2ª Divisão continuar, como não podia deixar de ser, em Roquetoire, isto é, a cerca de 30 km de distância.

Felizmente, e após o período que decorreu de fevereiro a setembro, recebeu este Serviço o material completo da Secção Automóvel de Fio.

 A entrada em linha do Corpo de Exército Português

Tudo se aprontava para a entrada em linha da 2ª Divisão e portanto também do QG do Corpo de Exército. O Governo português fizera um grande esforço diplomático para que tal fosse possível, aumentando assim o nível da presença de Portugal no apoio ao seu aliado britânico. Embora as faltas, tanto de pessoal como de material fossem assinaláveis, a verdade é que todos estavam agora interessados em que o Corpo de Exército entrasse em linha. O comando inglês previa mesmo a dispensa do seu XI Corpo, que iria ser transferido para a frente italiana, contando para isso com a constituição do Corpo de Exército Português.

De tudo dá conta, em pormenorizada referência, o capitão Soares Branco no seu relatório:

Previa-se para breve a entrada do Quartel-General do CEP como Corpo de Exército na 1ª linha.

Urgia remediar um estado de coisas cuja culpa só cabia às muitas complicações de ordem burocrática que qualquer requisição portuguesa, de vulto, suscitava no Grande Quartel-General Inglês, ou no seu Ministério da Guerra.

Nomeado o pessoal para essa Secção, em parte retirado da 3ª STP Fios e em parte retirado da Secção de T. de Praça, deu-se começo à respetiva instrução.

Mas o material era absolutamente desconhecido entre nós, e o método de com ele trabalhar era igualmente novo.

O 1º Exército perguntou-me se eu aceitaria a vinda de um sargento para praticamente mostrar como os guarda-fios trabalhavam na linha de fio, aceitando eu o oferecimento e agradecendo-o.

Em 15 dias o oficial Comandante da Secção havia tomado conhecimento abso­luto do método usado para a construção das referidas linhas, e o 2º Sargento inglês de nome Pavitt, que muito bem desempenhara a sua missão, recolhia à sua unidade do Exército Britânico, continuando a instrução até completo treino do seu pessoal.

Por esta época o 1º Exército entregava-me material de Telegrafia Sem Fios capaz de com ele se instruírem todas as praças de Sem Fios, e dos Batalhões de Infantaria para o trabalho do power-buzzer.

Em 10-10-917 dirigia ao DD Signals do 1º Exército a nota Nº 839, na qual prevendo a entrada em linha da 2ª Divisão Portuguesa e portanto das duas Divi­sões e do QG do Corpo, eu instava pela remessa do material que entendia ainda indispensável receber.

Esse material não só foi enviado, como quase todo aquele que competiria receber de harmonia com as dotações do Exército Britânico.

E assim já preparado com uma unidade automóvel para os muitos trabalhos de estabelecimento, conservação e reparação das linhas na futura área portuguesa, eu carecia de refundir a organização que de Lisboa havia sido dada às unidades de telegrafistas.

Muitos quadros já se haviam publicado e alterado. No Serviço Telegráfico nada se havia fixado até então.

(clique na imagem e depois, em baixo e à direita, volte a clicar em “View full size”, para a aumentar, e de novo na imagem, para ver em grande detalhe)

Simples propostas para a apresentação nesta ou naquela Divisão de pessoal, reforçamento de quadros conforme as necessidades o iam indicando, instrução na Escola de Sinaleiros de praças e quadros em número suficiente para uma futura aplicação na 1ª linha.

Mas indo o Corpo de facto existir, a aprovação do Chefe do Estado-Maior dessas referidas propostas permitindo a correção de qualquer deficiência que surgisse evidenciada pela prática, habilitavam-me a finalmente propor quadros e uma organização nova. Assim o fiz com a minha nota Nº 924 de 31 de Outubro.

Nela se dizia:

“Não propus até hoje novos quadros diferentes daqueles que haviam sido fixados em Tancos, pela simples razão de que julguei melhor fazer executar, à medida que as necessidades do serviço o indicavam, as alte­rações que tendo merecido sucessivamente a aprovação superior, têm hoje a consagração que a prática de 6 meses lhes veio dar.

“Desta forma resultam os presentes quadros, como que resumo e coordenação de propostas anteriormente feitas e já postas em execução mas que alterando profundamente os quadros em vigor dão origem à substituição destes.

“As principais modificações introduzidas resultam:

1) – Da reunião em uma só unidade administrativa das Secções de Telegrafistas de Campanha, da Secção de Telegrafistas de Praça e da Secção Automóvel de Fio.

“Constituir-se-ia assim a Companhia de Telegrafistas do Corpo, à qual com­petiria da mesma forma todas as ligações exteriores ao QG do Corpo, às Divisões e à Artilharia Pesada.

“Haveria desta forma economia de oficiais encarregados de funções adminis­trativas, maior unidade no Comando das tropas conservando para as suas funções técnicas a divisão do trabalho indispensável entre as diferentes secções a constituir.

2) – Em cada Divisão são criadas as Companhias de Telegrafistas, e nelas incorporadas as antigas Secções de Sinaleiros das Brigadas, as quais pretendiam ser de soldados de infantaria reforçados com algumas praças de telegrafistas, mas que ao contrário do que estava estatuído e do próprio quadro resulta, têm que ser quási exclusivamente constituídas por telegrafistas de engenharia.

3) – Reforçamento das Secções de Sinaleiros dos batalhões e passagem de algumas praças de telegrafistas dos batalhões para as Secções de Sina­leiros das Brigadas. 

“A prática do serviço aconselha esse aumento de efetivo, o qual será realizado com as praças do Depósito de Sinaleiros que para tal fim tenho de­vidamente instruídas, para começo do referido reforçamento.

“Para que o Serviço Telegráfico possa funcionar no Corpo e nas Divisões carece apenas em pessoal: 3 oficiais de engenharia.

“Em animal carece de todos os solípedes da Companhia do Corpo que da metrópole nunca chegaram.

“Em material são necessárias as motocicletas e camiões do estado-maior da Companhia do Corpo e das Divisões, bem assim como as respetivas motoci­cletas do serviço de comunicações para o Corpo e Divisões.

“Desta forma as faltas existentes não são daquelas que a este Serviço compita fazer face, e com satisfação posso mesmo registar que ao presente com a satisfação integral do solicitado na nota deste Serviço Nº 838 de 10 do corrente ao D. D. Signals do 1º Exército, possui o Corpo Português o material técnico suficiente para poder ter em operações as duas Divisões”.

Estava pois o Serviço Telegráfico apto a poder corresponder às responsa­bilidades efetivas do serviço de comunicações como Corpo de Exército.

As deficiências apresentadas eram das tais derivadas do Exército Inglês – Divisão de Transportes – e que ainda hoje apenas parcialmente estão remo­vidas.

Os solípedes, bicicletas e algumas motocicletas foram fornecidos passa­das algumas semanas e entregues ao Serviço Telegráfico. Os camiões, porém, não puderam ser dados por o Exército Britânico não os fornecer.

Conclusão

Em 5 de novembro, um mês antes dos acontecimentos de Lisboa levarem ao poder Sidónio Pais, ficava cumprido o desígnio do Governo republicano. Portugal passou a ser representado, na frente ocidental, por uma grande unidade, com o nível de Corpo de Exército e com um efetivo próximo dos 40 000 homens. Chegou a ocupar uma frente de 18 quilómetros distribuídos pelos setores de Fleurbaix, Fauquissart, Neuve Chapelle e Ferme du Bois, mas que estabilizaram em torno dos 11 a 12 quilómetros, passando Fleurbaix a ser um setor inglês.

A preparação da 2ª Divisão foi por um lado facilitada pelas estruturas já montadas do anterior, como as escolas de formação incluindo os sinaleiros, mas sofreu de inúmeras dificuldades pela falta de pessoal, em especial oficiais, e de material das mais diversas categorias.

A ausência de transportes marítimos ingleses, empenhados na transferência das tropas americanas para a Europa, colocou às autoridades portuguesas problemas difíceis de resolver. A mobilização era já por si deficiente, assim como a instrução dos efetivos que iam para França ou Inglaterra a necessitar de um tempo de formação bem superior ao normal. Mas a ausência de transportes foi um rude golpe para a rendição de tropas que começava a impor-se, pois havia unidades que estavam a caminho de oito meses de presença em França.

Apesar de tudo, o efetivo total transportado até setembro foi suficiente para constituir o Corpo de Exército. O problema centrava-se no facto de as unidades não terem um verdadeiro descanso, já que ora estavam em primeira linha, ora em reserva ou em apoio. Contudo a situação agravou-se sobremaneira depois da tomada do poder em Lisboa de Sidónio Pais, adepto de uma substancial redução do contingente português, ou mesmo da sua retirada. Nenhum apelo, e foram muitos, dos responsáveis do CEP, teve efeitos práticos na chegada de unidades de substituição, que nunca chegou a acontecer.

A situação já era difícil no final de 1917, mas iria agravar-se substancialmente em 1918, como veremos.

O Serviço Telegráfico adaptou a sua organização às necessidades e às mudanças ocorridas, cumprindo as suas missões com normalidade e de acordo com as exigências dos serviços a seu cargo.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (8)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. RELAÇÕES COM O XI CORPO INGLÊS

Introdução

O XI Corpo inglês foi constituído em agosto de 1915, sendo comandado logo desde o início pelo general Richard Haking. A sua primeira ação de maior vulto foi a participação na Batalha de Fromelles (19 de julho de 1916, como ação de diversão em relação à batalha do Somme), em que duas Divisões (uma delas australiana) foram lançadas num ataque frontal mal planeado que causou milhares de baixas e grande ressentimento na Austrália. Este episódio marcou depois toda a carreira do general Haking, mas não o impediu de continuar a comandar o XI Corpo até ao final da guerra. Manteve-se sempre na Flandres, com uma breve passagem pela frente italiana entre novembro de 1917 e final de março de 1918, exatamente o período em que o Corpo de Exército Português esteve na frente. Embora Gomes da Costa no seu livro “O Corpo de Exército Português na Grande Guerra: A Batalha do Lys” o tenha recordado como “extremamente inteligente” e leal amigo, a verdade é que as relações dos vários serviços portugueses com o seu estado-maior e com ele próprio nunca foram de grande cordialidade. Como veremos, também o capitão Soares Branco, como responsável do Serviço Telegráfico do CEP, sentiu especiais dificuldades nessas relações.

Os generais Tamagnini, Hacking e Gomes da Costa

No Serviço Telegráfico da Força Expedicionária Britânica Sir John Fowler foi sempre o seu Diretor (Director of Army Signals).

John Sharman Fowler (1864-1939)

Como seus assessores e subordinados imediatos tinha os Deputy Directors of Army Signals (DD Signals) responsáveis pelo Serviço Telegráfico ao nível Exército. No nível seguinte situavam-se os Assistent Directors of Army Signals (AD Signals), um por cada Corpo de Exército. Alguns destes responsáveis e muitos outros oficiais tinham relações próximas com o Serviço “General Post Office” (GPO) da Grã-Bretanha, tendo sido mobilizados exatamente por essa condição. No seu relatório, Soares Branco referirá em várias ocasiões a diferença entre o sistema britânico de mobilizar não apenas os responsáveis, mas também os especialistas, em especial telegrafistas e telefonistas, através do Serviço Postal da Grã-Bretanha, o que não aconteceu em relação a Portugal. Relações com o XI Corpo

Antes da entrada em linha da 1ª Divisão, Soares Branco devia definir as relações do Serviço Telegráfico do CEP com o XI Corpo e também com a 1ª Divisão. Fê-lo após várias reuniões e em nota de 13 de junho:

“No Serviço Telegráfico do XI Corpo, ontem, depois de prévia consul­ta com o Estado-Maior chegou-se à conclusão de que as ordens serão direta­mente dadas à 1ª Divisão e apenas para conhecimento elas serão também envia­das ao CEP.

Não me alongo a expor as razões de uma tal medida de ordem geral nem mesmo lhe desejo medir as causas e consequências. É um facto que tenho que aceitar.

Procurei pois, na esfera da minha ação, definir precisamente quais as atribuições que o Serviço Telegráfico do XI Corpo julga desta forma caber-lhe para com as tropas telegrafistas da 1ª Divisão, para a V. Ex.ª expor a questão e receber as instruções que por ventura julgue convenientes. 

I. Competirá ao chefe do Serviço Telegráfico do XI Corpo:
a) A interferência direta em todo o serviço técnico relativo ao estabe­lecimento, reparação e conservação das linhas e comunicações dentro da área da Divisão, para o que o chefe do Serviço telegráfico da 1ª Divisão ficará em ligação direta com o AD Signals do XI Corpo por intermédio de um oficial intérprete e de ligação.
b) Receber do Serviço Telegráfico do Corpo Português propostas para o estabelecimento de quaisquer ligações pedidas pelo Estado-Maior do Corpo Português.
c) Receber do chefe do Serviço Telegráfico da 1ª Divisão qualquer proposta para novas ligações a estabelecer dentro da área da 1ª Divisão e pedidas pelo Estado-Maior da 1ª Divisão.

II. Competirá ao chefe do Serviço Telegráfico do CEP:
a) Regular os recursos em pessoal e material que tenha por conveniente para a 1ª Divisão em virtude das ligações mandadas executar, sendo apenas obrigatória a consulta para a mudança do chefe do Serviço telegráfico da Divisão.
b) Receber do XI Corpo, sem prejuízo da transmissão direta igual à 1ª Divisão de todas as ordens e instruções que a esta unidade sejam enviadas, de forma a poder habilitar-se a, em qualquer data, substituir o AD Signals do XI Corpo.

Nada tendo recebido em contrário do Estado-Maior assim considerei basea­das as minhas relações com o XI Corpo as fiz notificar à Divisão em no­ta Nº 140 de 14-06-17, isto é, dois dias antes do começo do serviço com respon­sabilidade na Divisão.

Mas os problemas não estavam todos resolvidos. Até ao final do mês de junho, Soares Branco teve que resolver algumas questões delicadas da nova relação entre comandos que resultavam da atribuição da 1ª Divisão ao XI Corpo, e de regras aparentemente distintas das até então utilizadas pelas tropas portuguesas no âmbito do 1º Exército inglês.

De facto, escreve Soares Branco: “Não contava, porém, com um período um pouco agitado que se devia simultaneamente abrir devido às exigências absolutamente exageradas de AD Signals de XI Corpo”.

Ora essas exigências pareciam não ter sentido, por diversos motivos explicados de seguida. Em primeiro lugar, havia normas do anterior que estavam aprovadas pelo 1º Exército:

No Exército Inglês usam-se três modelos de impressos conforme o despacho é de transmissão, receção ou trânsito, e um novo impresso como envelope e recibo.

As regras de transmissão e receção diferiam algum tanto das portuguesas. Por demais eu de tal estava informado, mas como propusera ao DD Signals do 1º Exército e ao GHQ, o sistema de ligações laterais e externas ao CEP era de tal forma organizado que nunca telegrafistas portugueses transmitiriam senão com telegrafistas portugueses, e além disso como era conhe­cedor da enorme diferença de trabalho que existia entre o fazer aprender regras e sinais que uma vez se tinham já sabido, e outros processos que eram desconhecidos, havia determinado que se seguissem na Escola de Sinaleiros as regras de transmissão e se adotassem os impressos etc. em uso no Serviço Telegráfico Militar em Portugal.

Havia um mês que o serviço assim estava estabelecido e quando ele pare­cia regularizado, recebi as notas de 25-7 e de 29 do mesmo mês nas quais se exigia por fim à adoção na 1ª Divisão e nas tropas de Telegrafia Sem Fios não só dos impressos como das próprias regras usadas no Exército Inglês.

Nestas circunstâncias, Soares Branco não podia aceitar os novos procedimentos, sem expor o seu entendimento da situação:

Recusei-me dar ordens à 1ª Divisão que implicitamente teriam que ser exten­sivas a todo o Corpo e participei-lhe que a questão colocada nesses termos ia ser por mim levada ao DD Signals do 1º Exército e ao Estado-Maior Por­tuguês.

De facto, em nota de 28 de julho, o chefe do Serviço Telegráfico do CEP fazia notar que a adoção dos procedimentos em uso no serviço da Telegrafia sem fio (TSF) do Exército Britânico produziria certa confusão na instrução dos operadores portugueses, assim como no próprio Serviço, já que não poderia separar-se a operação do serviço de Telegrafia sem fios da telegrafia comum (TPF). Por outro lado, qualquer alteração que fosse imposta à 1ª Divisão levaria à alteração dos procedimentos em todo o Corpo Português, pelo que a questão teria de ser esclarecida com o 1º Exército Inglês e com o estado-maior Português.

Foi assim que, depois da consulta aos respetivos comandos inglês e português sobre a “questão que o AD Signals do XI Corpo havia ordenado duma maneira súbita e violenta”, recebeu Soares Branco a nota 9036 de 4 de agosto do DD Signals do 1º Exército, com as instruções convenientes.

Dizia, em resumo, o seguinte:

Os formulários de mensagens modificados de acordo com as vossas sugestões parecem atender aos requisitos da situação, mas a questão foi encaminhada ao QG do Exército para decisão. (…)

Concorda-se que o mesmo formulário de mensagem deve ser usado para telegramas, seja transmitido por fio ou sem fio, e que também é desejável evitar quaisquer alterações desnecessárias ao formulário de mensagem ao qual os operadores portugueses estão acostumados, usando aquele para o qual foram treinados.

Estou certo que, se o formulário modificado sugerido for aprovado pelo QG do Exército, o vosso serviço não experimentará grandes inconvenientes na sua adoção geral.

Nestas circunstâncias não podia deixar Soares Branco de transmitir a sua satisfação, de acordo com a forma como foram atendidas as suas preocupações e as suas propostas:

Em face da forma atenciosa e amigável da nota do DD Signals do 1º Exército imediatamente resolvi a dificuldade da transmissão das Estações de Sem Fios mandando adotar as regras de transmissão e receção de despachos comuns a todas as estações e postos do Exército Britânico, conservando os nossos antigos impressos embora com algumas modificações de ordem de transmissão no “preâmbulo” que tudo remediava, modificações que haviam já sido propostas pelo coman­dante da Secção de Telegrafia Sem Fios, tenente Ivo de Carvalho.

Determinei que pelo diretor da Escola de Sinaleiros fosse estudada a maneira de uniformização das regras de transmissão e receção dos despachos, e dos impressos de telegramas tanto para a TPF como para a TSF.

Alguns dias depois o problema estava completamente resolvido com os nossos antigos impressos apenas alterados em alguns dizeres do “preâmbulo” e eu recomendava às Divisões e à Escola de Sinaleiros que, tanto quanto o serviço o permitisse, fossem adestrando o pessoal segundo os regulamentos que fizera, ao tempo, imprimir e distribuir.

Estávamos em princípios de agosto e só em outubro elas puderam ter começo e execução.

Para concluir, o responsável do Serviço Telegráfico do CEP e entidade definidora das regras de transmissão no seu âmbito de ação, resume a questão que esteve na base deste primeiro incidente nas relações com o XI Corpo, que depois se repetiriam:

Desta forma julgou este Serviço ter bem patenteado ao XI Corpo:

1) – que o Corpo Português dele não recebia ordens e tinha a dependência direta da 1ª Divisão apenas como transitória;

2) – que nessas condições, qualquer ordem técnica do mesmo Corpo e que interessasse no futuro não só àquela Divisão como a todo o Corpo Português não podia arbitrariamente ser-lhe imposta como a uma estação simplesmente de trân­sito;

3) – que só o 1º Exército era competente para avaliar das dificuldades de execução de qualquer medida a executar e só a ele e ao meu Estado-Maior exporia o que julgasse conveniente;

4) – que entre o Estado-Maior Português e o Serviço Telegráfico havia, como necessariamente tem sempre que haver, a mais completa uniformidade de processos e da maneira de resolver as questões.

Conclusão

Durante todo o período de permanência na frente, entre 16 de junho e 5 de novembro, a 1ª Divisão esteve subordinada ao XI Corpo Inglês comandado pelo general Haking. Foi um período de relações difíceis entre os vários comandos e serviços, a que o Serviço Telegráfico, através da experiência do seu responsável, capitão Soares Branco, procurou responder de forma empenhada, tentando ultrapassar não apenas as dificuldades resultantes da própria situação de guerra como os obstáculos gerados pela ação de comando do XI Corpo. Foi neste período de cinco meses, entre junho e novembro, que o CEP viveu uma intensa experiência de guerra, com as tropas ainda relativamente frescas e empenhadas. Os meses seguintes, incluindo o “9 de Abril”, fariam esquecer esta experiência inicial, mas não há dúvida que ela foi importante para grande parte dos participantes. Aconteceu um pouco de tudo, como a captura dos primeiros prisioneiros alemães por forças portuguesas, como por exemplo em 14 de setembro, o fuzilamento do soldado Ferreira de Almeida em 17 de setembro, único levado a efeito no CEP, por decisão de um tribunal militar português, e também a visita do Presidente Bernardino Machado que esteve quatro dias junto dos militares portugueses deslocando-se um pouco por todo o lado, incluindo uma visita a um Batalhão em 2ª linha, o que muito preocupou o general Tamagnini.

Em relação ao relatório de Soares Branco, são várias as referências a um certo mal-estar resultante das relações estabelecidas entre o seu Serviço e os correspondentes serviços ingleses deste nível, que se prolongariam até à entrada em linha do Corpo de Exército Português. Foi nesta altura, logo em Novembro de 1917, que o XI Corpo foi transferido para a frente italiana, para só regressar em finais de março de 1918, vindo então a comandar a 2ª Divisão Portuguesa a partir de 6 de abril, nas vésperas da Batalha de La Lys.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (7)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. ENTRADA EM LINHA DA 1ª DIVISÃO

Introdução

O III capítulo do Relatório do capitão de Engenharia Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do CEP, é dedicado ao tempo em que esteve na frente a 1ª Divisão Portuguesa, entre 16 de junho e 5 de novembro de 1917. No entender de Soares Branco, que interpreta a realidade vivida no terreno, estes dois dias foram marcos da presença portuguesa na frente. Primeiro porque a entrada em linha da 1ª Divisão modificava muitas das orientações que vinham do anterior, até porque introduziam na cadeia de comando um Corpo inglês, o XI Corpo, que até então não tinha tido comando sobre as tropas portuguesas. E também porque em 5 de novembro, quando avança o Corpo de Exército Português com as suas duas Divisões na frente, Soares Branco entende que a situação se altera de novo de forma completa, pois essa situação criou responsabilidades muito especiais, a que dificilmente as estruturas portuguesas podiam dar respostas, sofrendo o Serviço Telegráfico das mesmas carências que outros setores de apoio das tropas portuguesas.

Este período de quase cinco meses não foi, ainda assim, muito difícil para as tropas portuguesas, em especial se o compararmos, como faremos, com os meses seguintes.

As dificuldades do Serviço Telegráfico

A 1ª Divisão ia substituir a 49ª Divisão inglesa, como Soares Branco tem o cuidado de informar:

Nos primeiros dias da 2ª quinzena de junho devia a 1ª Divisão com o respetivo Quartel-General entrar na linha em substituição da 49ª Divisão Britânica e sob as ordens do XI Corpo.

Até então nenhumas relações havia mantido este Serviço Telegráfico com o XI Corpo, pois sempre se considerara diretamente dependente do 1º Exército Britânico.

A incorporação da nossa 1ª Divisão no Corpo Inglês, e nas precárias condições de material e pessoal já referidas, obrigou-me a solicitar autorização su­perior e fazer-me deslocar para junto da sede da 49ª Divisão para seguir de perto a rendição do pessoal inglês pelo português, e assentar com o XI Corpo quais as atribuições com que o Corpo Inglês e Português deviam ficar sobre o pessoal telegrafista da 1ª Divisão.

As alterações orgânicas que conduziram à constituição de um Corpo de Exército português a duas Divisões acabaram por se refletir em quase todos os serviços de apoio, que não estavam preparados para a extensão das suas responsabilidades. Já em França, foi necessário adaptar o contingente de cada serviço, solicitando para Portugal os reforços que as novas missões impunham. Mas a resposta foi muito lenta, e tudo ficou dependente da capacidade de adaptação das tropas que já estavam presentes.

O Serviço Telegráfico sofreu de todas estas dificuldades, e teve que se ir socorrendo do pessoal que pertencia a unidades ainda em instrução ou que de alguma forma não estava empenhado na frente. É o que Soares Branco explica no seu relatório:

Junto das Brigadas já em 1ª linha havia destacamentos da 1ª Secção de Telegrafistas Por Fios, e os oficiais desta unidade haviam montado o serviço das secções de sinaleiros das Brigadas de forma a facilitar ao oficial de infantaria comandante da Secção a árdua tarefa que lhe competiria.

Mas, desfalcada a Secção com essas praças nas secções de sinaleiros das Brigadas e ainda em alguns batalhões, o pessoal para o serviço da Estação do Quartel-General e das rondas de linhas era absolutamente insignificante.

Mais uma vez se fazia sentir e duma forma inquietante a falta das 156 pra­ças da Secção de Telegrafistas de Praça que tanto se instara para a Secretaria da Guerra para que viessem mas que não chegavam, embora nomeadas e adidas a Infantaria 5 des­de o começo de março.

Nestas circunstâncias fiz marchar para a lª Divisão em diligência um desta­camento de dois sargentos e 16 praças da 2ª Secção de Telegrafia Por Fios.

E alguns dias depois recebi a notícia de que haviam desembarcado cerca de 100 praças de telegrafistas de praça.

Uma doença contagiosa havida a bordo de um dos transportes, porém, protelara ainda por mais que uma semana a sua apresentação na Escola de Sinaleiros.

Contudo, Soares Branco não foi surpreendido com a pouca qualidade das tropas mobilizadas para o Serviço. As praças mobilizadas pertenciam às incorporações entre 1908 e 1914, estando portanto há vários anos afastadas de qualquer serviço de comunicações. Como ele próprio previra numa nota do princípio de maio enviada ao Comando, referia desta forma o pessoal da Companhia de Telegrafistas de Praça:

… mas chegado que seja esse pessoal já tenho conhecimento que é da classe 1908 (e algum assim veio); aplicou-se talvez o disposto no Regulamento de Mobilização que dispensa a apresentação imediata do pessoal dos Correios e Telégrafos em caso de mobilização do Exército.

Soares Branco compara então, em nota dirigida ao Comando do CEP, a capacidade profissional do pessoal telegrafista inglês com aqueles que vinham de Portugal para trabalharem em conjunto com o Serviço britânico:

“Por demais, V. Ex.ª concordará comigo julgando que a disposição da Lei é consequência das necessidades do serviço das estações e postos telegráficos civis no interior durante o estado de um país em guerra, mas que com uma guer­ra como aquela em que temos que nos debater tal disposição só servirá para afastar das fileiras o pessoal telegrafista de profissão – único que no Exército Inglês é chamado para o serviço das estações…

 E o autor comenta no seu relatório:

Enviaram-me pessoal de todas as classes e proveniências, algumas praças já afastadas das fileiras e da prática do serviço há muito tempo.

Era o recrutamento por algumas regiões que assim o exigia? Era a dispensa de muitos em partir?

O que existia certamente era uma falsa ideia das necessidades deste Serviço.

Quando uma guerra é um facto e uma Divisão é mandada entrar na linha, quando os Serviços expõem a tempo o que lhes é absolutamente indispensável, quan­do os Comandos perfilham e apoiam essas requisições, é triste ver-se obriga­do na rendição de uma Divisão Inglesa por outra Portuguesa a patentear a estrangeiros ou o pouco crédito que perante os superiores merecem as nossas afirmações, ou as deficiências inacreditáveis da nossa preparação para a Guerra.

Secções de Estafetas

Apesar de todas as dificuldades apontadas por Soares Branco, a verdade é que ele próprio admite que é necessário pôr mãos à obra e ultrapassar esta situação, ou seja, “a ocasião era mais de obras do que para lamentações ou críticas”.

Em sucessivas conferências com os responsáveis do XI Corpo e da 49ª Divisão, acabou por se reconhecer:

que era absolutamente indispensável fazer chamar para o Servi­ço Telegráfico toda e qualquer espécie de comunicações incluindo os feitos por motociclistas, ciclistas e estafetas a pé ou a cavalo.

Esta constatação é importante, pois a alteração dos serviços de comunicações no CEP irá trazer ao Serviço Telegráfico um substancial acréscimo de responsabilidades, acabando por propiciar o acerto com a prática das forças britânicas, nas quais era este Serviço que assumia a responsabilidade por todos os sistemas de comunicações e distribuição de correspondência.

Tiradas as respetivas conclusões e apoiado nas recomendações dos serviços britânicos, Soares Branco expõe, no dia 1 de junho, ao chefe do Estado Maior do CEP a nova situação. E no mesmo dia, como o próprio explica no seu relatório, o Serviço ganhou novas responsabilidades:

Por proposta minha foram criadas as Secções de Estafetas Motociclistas e Ciclistas junto dos Serviços Telegráficos do Cor­po e das Divisões.

E na manhã do dia 16 de Junho, quando a 1ª Divisão entrava com responsabilidade na linha, haviam já sido presentes e entregues ao Serviço Telegráfico 18 motociclistas, 32 ciclistas e 22 motocicletas, tornando-se viável cons­tituir carreiras regulares e mediante horários fixados entre as Divisões e as Brigadas, entre o Corpo e as Divisões, passando toda a correspondência oficial a dar entrada nas estações telegráficas e telefónicas para registo e para ser feita seguir aos destinatários, segundo instruções emanadas do Corpo Português.

Reforço da formação

Para além de manter muito ativa a Escola de Sinaleiros de Quiestede, onde o seu diretor, tenente de engenharia Santos Calado, se portava a contento, com “notável zelo e competência”, Soares Branco fez também instruir mais telegrafistas:

Aproveitando o oferecimento do XI Corpo fiz simultaneamente instruir na Escola de Guarda-fios de Merville 24 Guarda-fios, e desta arte, em 2 de julho, em nota Nº 186, eu podia informar o chefe do Serviço de Telegrafistas da 1ª Divisão que lhe mandaria apresentar naquela data 128 telegrafistas de praça.

Para fazer face às circunstâncias pedira, e obtivera autorização sobre nota de 21 de Junho de 1917, para distribuir conforme as exigências do serviço o aconselhassem e de acordo com as respetivas aptidões, as praças, pelo Quartel-General da Divisão, Brigadas e Batalhões.

Era impossível manter as nomeações feitas em Lisboa.

Nas praças nomeadas para o Quartel-General da Divisão havia apenas um cabo que podia ser considerado telegrafista, não podendo as restantes ser utilizadas como tal. Em compensação havia nos Batalhões algumas praças cujas aptidões eram superiores.

A instrução complementar recebida em Franca, em virtude da urgência que havia em fazer marchar para a linha as praças telegrafistas, não podia ser completa e era mister estimulá-la.

Em Portugal havia gratificações especiais para determinados serviços, como guarda-fios etc., gratificações que em França não eram permitidas.

Em virtude do exposto propus, e o Comando aprovou sobre a minha nota Nº 156, que pudesse haver um número ilimitado de promoções a 1º cabo e a 2º sargen­to nas tropas telegrafistas e nas Secções de Sinaleiros, uma vez que às pra­ças, depois de submetidas a um exame, se reconhecesse que recebiam pelo acús­tico, quer no telégrafo quer no fullerfone, um determinado número de palavras, que se fixariam num regulamento a elaborar.

O resultado cedo se fez sentir com uma notável melhoria do serviço.

Tendo tido conhecimento de que havia depósitos de telegrafistas já chega­dos à Base e que faziam parte da Companhia Mista de Engenharia, solicitei a sua vinda para instrução para a Escola de Sinaleiros pois não me convinha ter pessoal sem a instrução, que seria destinado de um instante para o outro a cobrir as baixas havidas nas unidades.

Alargava-se a responsabilidade do Serviço Telegráfico, o que exigiu a utilização de efetivos que se destinavam à 2ª Divisão, para completar e reforçar as unidades da 1ª Divisão e das estações telegráficas dos restantes comandos do CEP. Soares Branco ia dando solução aos problemas que a evolução da situação lhe exigia, mas adiava as consequências para a altura em que o Corpo de Exército, com as duas Divisões, se tornasse operacional.

Em relação à instrução dos sinaleiros vale a pena socorrermo-nos de um relatório elaborado pelo alferes Alípio Augusto sobre a instrução de observadores ministrada a duas secções de sinaleiros de Infantaria 1 e 10, junto de unidades em 1ª linha nos dias 11 a 13 e 22 a 25 de julho de 1917.

Por exemplo, em relação à instrução de avaliação de distâncias diz o relatório:

A instrução de avaliação de distâncias limitou-se quase exclusivamente a exercícios de avaliação de distâncias ao passo e à vista, por ser impossível, em vista das condições literárias das praças ministrar-lhes outros processos de avaliação de distâncias, visto que muitos são analfabetos e outros não sabem o suficiente para poderem fazer uma pequena conta de multiplicar. (…) Se bem que todos os homens houvessem revelado boas qualidades para observadores, é certo que se não pode contar com os analfabetos para o desempenho de um bom serviço, porque não podem fazer o seu boletim de observação à medida que vão descobrindo os seus objetivos, tendo necessidade de reter na memória, por vezes, mais que uma observação, até que chegue pessoa a quem possam fazer o relato verbal do que se passou, podendo muitas vezes confundir o local onde descobriram esses objetivos, o que pode ser prejudicial ao serviço.

Por isso parecia-me conveniente que os observadores analfabetos fossem substituídos por outros que soubessem ler e escrever, com o que muito teria a lucrar o importante e difícil serviço de observação.

 A TSF

No seu relatório, o capitão Soares Branco aborda todas as situações e a forma como foi avaliando e dando solução aos problemas que surgiam. Com uma Divisão a ocupar um setor da linha da frente seria natural que todos as áreas viessem a ser questionadas, sempre e quando o comando inglês o julgasse pertinente, agora que esse comando era exercido pelo XI Corpo.

Embora até então o serviço de telegrafia sem fios não tivesse merecido uma grande atenção por parte do comando português, a verdade é que a nova situação devia ser considerada antes de questionada pelo comando inglês. Foi uma preocupação de Soares Branco logo que estabilizou os serviços mais urgentes.

Ao mesmo tempo, devido ao desenvolvimento enorme que o serviço de Telegra­fia Sem Fios estava tendo no Exército Inglês, criando-se subsecções de TSF por Divisão, julguei de elementar prudência antecipar-me, dispondo as coisas de forma que, quando pelo XI Corpo fosse solicitado ao Corpo Português pessoal de telegrafia sem fios para substituir o pessoal inglês, a nossa respos­ta fosse afirmativa.

Tendo o comandante da Secção de Telegrafia Sem Fios submetido à minha apreciação um projeto de organização do Serviço, tomando-o como base, dirigi ao chefe do Estado-Maior a nota Nº 155 de 21 de junho sobre o assun­to, e na Ordem do Corpo de 22-07-17, como apenso, eram publicadas as instruções e autorizações convenientes para a organização do Serviço de TSF no CEP, prevendo-se desde logo a criação dos postos de trincheira, am­plificadores e power-buzzers indispensáveis para a 1ª Divisão.

Efetivamente ainda nessa mesma quinzena partiam para Hinges guarnições de TSF, a fim de praticarem nas regras e funcionamento de serviço de sem fios.

 Conclusão

A entrada em linha da 1ª Divisão em 16 de junho de 1917 alterou substancialmente a relação com o comando inglês, até então exercido diretamente pelo QG do 1º Exército. A partir daqui, a 1ª Divisão ficou sob o comando do XI Corpo inglês, com o qual até então não tinha havido contactos operacionais ao nível do Comando do CEP e dos serviços do Corpo. Isto foi particularmente sentido pelo Serviço Telegráfico que desde o início mantinha relações muito próximas com os responsáveis do Signal Service do 1º Exército.

A mudança, dirigida pelo capitão Soares Branco, levou à alteração de muitas das relações anteriores, mas fez-se dentro da cooperação já estabelecida com os serviços e as tropas inglesas, embora nem sempre com a compreensão esperada.

A situação das tropas portuguesas continuava muito precária e a alteração da base da participação portuguesa de uma Divisão para um Corpo de Exército a duas Divisões deixou à vista um conjunto de insuficiências e dificuldades, acentuadas por essa circunstância.

Não foi fácil para um Serviço que exigia uma formação de base de maior nível e uma capacidade técnica apreciável dos seus elementos, adaptar-se e superar as insuficiências dos contingentes mobilizados, tanto dos telegrafistas como dos sinaleiros.

Acresce ainda que foi neste período que o Serviço Telegráfico assumiu a responsabilidade, para além da transmissão da correspondência, também da sua distribuição.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (6)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. A ENTRADA EM LINHA DAS UNIDADES PORTUGUESAS

Introdução

Ainda no capítulo II do seu relatório, o capitão Soares Branco aborda a questão da entrada em linha das primeiras unidades portuguesas e dos problemas com que se defrontou para que a operação corresse o melhor possível. É desse assunto que trataremos neste texto.

Depois do período de instrução nas respetivas Escolas, as unidades portuguesas foram-se preparando para substituir unidades inglesas nas linhas da frente. O primeiro setor a ser ocupado foi o de Ferme du Bois, com uma frente de cerca de 4 km, dividido em dois subsetores de Batalhão em 1ª linha. Os Batalhões da 1ª Brigada foram os primeiros a avançar para as respetivas linhas, começando por um período de estágio junto das unidades inglesas, desde as Companhias até à Brigada. Ainda em março já se iniciava esta sobreposição. Pelos fins de abril tudo estava pronto para que as unidades portuguesas assumissem as suas responsabilidades operacionais.

THE PORTUGUESE EXPEDITIONARY CORPS ON THE WESTERN FRONT, 1917-1918 Portuguese troops entraining for the front line in France, 1917. Copyright: © IWM

Mas Soares Branco não podia deixar de avisar o estado-maior do CEP, em nota de 30 de abril:

Aproxima-se o momento em que tropas nossas deverão marchar para a 1ª linha com a responsabilidades dos seus sectores e este Serviço, bem a pesar seu, tem a declarar antecipadamente que não pode garantir nem sequer estabelecer em más condições qualquer sistema de ligações interiores entre unidades portuguesas e muito menos entre unidades portuguesas e inglesas.

Com inteira verdade tenho sempre informado as estações superiores acerca do grau de instrução do pessoal e dos recursos do serviço, e não posso pois ser inculpado no dia em que este problema for de capital importância de não ter formulado a questão nos seus devidos termos.

Mais valia a presença de (13 x 24) 312 praças de telegrafistas de praça há algum tempo em França para tornar profícua e possível a nossa participação com o Exército inglês, que a vinda de um Batalhão de Infantaria.

Algumas dessas praças são da classe de 1908 e como tal, necessitam algum tempo de instrução.

Só podem chegar nos fins de maio. Quando pois, poderá haver ligações entre as unidades?

E se assim está o problema para as Divisões, para o Corpo e para a Arti­lharia as coisas passam-se de modo análogo.

Para o Corpo é indispensável a vinda imediata da 3ª Secção de T.P.F. sem preocupações de quaisquer pequenas faltas de material técnico que aqui facil­mente possa suprir.

Para a Artilharia de Campanha, os seis oficiais adjuntos propostos antes de fevereiro, quando chegarem, pelo menos a três deles, os da 1ª Divisão, destino di­ferente terei que propor, pois não é justo nem prático que aos três subalternos de artilharia que até hoje têm tido a seu cargo a instrução das secções de sinaleiros dos Grupos, lhes seja retirado esse serviço de ligações para o en­tregar a outros que não acompanharam a instrução e tão tardiamente chegaram.

Para a Artilharia Pesada propus e V. Ex. aprovou, que fosse pedido para Lisboa a vinda de cinco secções de Marconi a dorso já existentes em Portugal. Sem elas nada se poderá fazer; qualquer instrução que aqui não seja dada só servirá para protelar a questão e desviar elementos que aqui, e só aqui, podem prestar o seu concurso”.

E para que não restassem dúvidas sobre o essencial das necessidades do Serviço Telegráfico para responder às tarefas que lhe estavam cometidas, resumia Soares Branco a situação, ainda na mesma nota:

“Para resumir o que acabo de expor formulo as seguintes questões:

1. Para que as Divisões possam ter serviço de ligações é indispensável:

a) a vinda imediata de 13×24=312 praças da Companhia de Telegrafistas de Praça para os Batalhões de Infantaria, e de um Sargento e 10 Soldados para cada Divisão.

b) a vinda dos seis subalternos pedidos para a Artilharia e provenientes dos Telegrafistas de Campanha ou de Praça.

2. Para que a Artilharia Pesada possa ter ligações é indispensável a vinda de um tenente, cinco subalternos de Telegrafistas, pessoal e material de TSF sistema Marconi 1/2 Kw.

3. Para que o Corpo possa ter a rede de comunicações que lhe compete é in­dispensável a vinda da Secção de T.P.F. Nº 3.

4. Para que o Serviço Telegráfico possa ser razoavelmente estabelecido pare­ce pouco um adjunto, que pelos Quadros lhe compete, mas de que também não pôde até hoje dispor”.

Portanto, nem tudo estava bem do ponto de vista do Serviço Telegráfico. Como Soares Branco explicará, a capacidade de adaptação e a experiência no terreno acabaram por solucionar muitos dos problemas que parecia não terem solução.

Entrada em linha

A 1ª Divisão assumiu a responsabilidade operacional do seu setor no dia 16 de junho de 1917. Antes disso, as suas Brigadas e todos os Batalhões tinham já assumido essa responsabilidade sob o comando das unidades inglesas instaladas no terreno. Os primeiros Batalhões portugueses a avançar para a 1ª linha foram o Batalhão de Infantaria 22 e o Batalhão de Infantaria 34 (em 10 e 16 de maio respetivamente), que guarneceram os subsetores I e II do Setor de Ferme du Bois.

Em apoio avançou o Batalhão de Infantaria 28 e em reserva o Batalhão de Infantaria 21, ficando este na 2ª linha ou linha das aldeias, onde veio a instalar-se o Comando da 1ª Brigada, em Chateau du Raux.

Château du Raux, hoje

As unidades de Artilharia começaram a avançar também em meados de maio, em apoio das respetivas unidades da frente.

No início de junho estava também na frente a 2ª Brigada, que ocupou um dos subsetores de Neuve Chapelle, estendendo a frente defendida por unidades portuguesas para 6 km. Ficaram em 1ª linha os Batalhões 35 e 23, em apoio o Batalhão de Infantaria 24 e em reserva o Batalhão de Infantaria 7. O QG da 2ª Brigada instalou-se em Les Huit Maisons.

Finalmente instalou-se no Chateau de la Giclais o QG da 1ª Divisão, comandada por Gomes da Costa, ocupando a 2ª Brigada todo o setor de Neuve Chapelle e ficando a frente portuguesa da 1ª Divisão com 8 km. A 3ª Brigada ficou em reserva.

Gen Manuel Gomes da Costa, the Commander of the 1st Division CEP, outside his HQs in Lestrem, 24 June 1917. Copyright: © IWM.

Neste primeiro contacto com as linhas da frente, especialmente durante a sobreposição com as tropas inglesas, todos aprendiam o dia-a-dia das trincheiras que constava de uma série de tarefas cuja descrição podemos encontrar num outro relatório elaborado pelo major António José Teixeira, comandante do Batalhão de Infantaria 10. Diz ele que as praças aprendiam:

“a reparar um troço de trincheira, a conhecer o ‘a postos’ da manhã e da tarde, que era quando todos ocupavam o seu lugar para combate, a vigilância das sentinelas, o perigo das patrulhas pela esburacada terra de ninguém, a eficácia dos tiros dos atiradores experimentados, os snipers, o cuidado da observação nos postos de periscópio, o atavio diário da máscara, capacete e espingarda, como inseparáveis companheiros, e a irrepreensível limpeza das trincheiras, etc.”.

Lestrem – hora do Rancho

Por seu lado, os oficiais também tiveram a sua aprendizagem e, diz-nos o mesmo autor, focaram-se essencialmente em conhecer:

“os pontos vulneráveis, os melhores para atacar e contra-atacar, os caminhos de emergência e a sua utilidade, o sistema de drenagens e de abastecimentos, os serviços de saúde, os sinais de alarme de gás, os postos e instrumentos destinados a esses sinais e ainda a forma de pedir o SOS, os dispositivos durante o dia e os da noite, a forma de elaborar os relatórios diários e os de informações e ainda outros respeitantes aos nossos trabalhos e aos do inimigo, à direção do vento, à maneira de fazer requisições de material e víveres, de assinalar o número de granadas enviadas pelo inimigo e os pontos exatos de queda, espécie de fogo, movimento de aeroplanos, etc., etc.”.

Entrada em linha dos sinaleiros

O capitão Soares Branco estava sem dúvida preocupado com o bom desempenho dos seus telegrafistas e telefonistas, que ele sabia estarem minimamente preparados e poderem, com a prática, equivaler-se aos seus camaradas ingleses, mas o que essencialmente o trazia apreensivo era a capacidade dos sinaleiros para cumprirem as suas missões, pois, como diz, “evidentemente que é ocioso acentuar a sua falta de preparação”.

Os primeiros sinaleiros, depois da frequência da escola de formação, partiram para a frente no dia 19 de abril, a fim de se juntarem aos Batalhões 34 e 22. Ao mesmo tempo avançaram também os sinaleiros das primeiras baterias de Artilharia.

Soares Branco não perdeu tempo e fez uma primeira visita a estas unidades ainda na primeira quinzena de maio, lamentando-se:

“fui encontrar o pessoal sinaleiro dos Grupos sem indicadores nas estações telefónicas…”.

Sendo assim, deviam os responsáveis portugueses e ingleses ser postos perante o problema, por forma a não se repetirem estas situações:

“O Exército Inglês que por um lado ativava a entrada em linha das nossas primeiras forças, não me fizera enviar a tempo o material telefónico que lhes competiria e que em 30 de março fora requisitado pela terceira vez.

Em nota Nº 86 relatei o resultado da minha visita às baterias já na linha, e propus que não fosse ordenado a nenhuma secção de sinaleiros a sua marcha para a frente, antes de lhe ser distribuído na zona da retaguarda todo o material que lhe fosse necessário.

Assim, foi comunicado ao 1º Exército e algum tempo depois começava chegando o material técnico necessário de forma a poder regularizar-se um pouco a sua distribuição”.

Resolvido o problema do material, restava a preocupante situação do pessoal das secções de sinaleiros e do apoio que deviam dar a todas as unidades da frente. A eficiência de um sistema de ligações, com o envio e a receção de mensagens dentro dos prazos estipulados era, como sempre é, a base de uma boa ação de comando, que deve ter acesso rápido a todas as informações que chegam das unidades que ocupam o terreno, assim como estar certo de que as suas ordens e orientações chegam em tempo aos seus comandos subordinados. Essa é a base de um dos elementos essenciais do combate e também um princípio da guerra – o Comando/Ligação. E se na situação de uma frente estática o problema era por vezes resolvido por outra forma, especialmente através de estafetas, a verdade é que em muitas situações tal não se revestia da eficiência indispensável.

Era com base nesse conhecimento, que Soares Branco se empenhava na preparação dos sinaleiros, que ele bem sabia constituírem um dos elos fundamentais da cadeia de comando. Daí a expressão das suas preocupações:

Mas a falta de suficiente instrução do pessoal sinaleiro, pela sua pouca permanência na Escola de Sinaleiros (cerca de 4 semanas), o diminuto número de praças que soubessem ler e escrever corretamente, a não existência de pessoal de Telegrafistas de Praça que enquadrassem essas primeiras seções de sina­leiros, a dificuldade enorme que sempre existe em treinar o ouvido à perceção rápida de sinais só transmitidos pelo vibrador acústico, a proibição por causa das interceções de mensagens por parte do inimigo dos despachos tele­fónicos, constituíram outras tantas causas de dificuldades para a montagem do serviço que só uma excecional boa vontade por parte dos oficiais sinalei­ros e das praças, procurando por todas as formas aperfeiçoar os conhecimentos e treino já adquiridos, pode explicar o haver-se conseguido o regular funcionamento das ligações que se foi obrigado a estabelecer algum tempo depois na nossa lª Divisão especialmente nessa 1ª Brigada que entrou na linha (Batalhão de Infantaria 34, 22, 21 e 28)”.

Como relata Soares Branco, um oficial inglês que visitou com ele a Escola de Sinaleiros, ao ver a dificuldade que os homens tinham em escrever, comentou:

“vós não podeis fazer destes homens sinaleiros de infantaria. No vosso caso dava ordens para que os despachos fossem transmitidos pelo telefone”.

E Soares Branco não deixa de lamentar a situação:

“Era triste de facto ver por esta forma exteriorizada a nossa inferioridade e patenteado bem a lume a praga do analfabetismo, quando tudo poderia ser remediado com uma mais rápida solução das propostas para a Metrópole enviadas”.

Plano de ligações a estabelecer

De qualquer maneira, a entrada em linha das unidades portuguesas era irreversível e quando as primeiras Brigadas já se aprontavam para seguir para a linha da frente, o Quartel-General Britânico, através da Missão Britânica, assim como o 1º Exército solicitaram ao Serviço Telegráfico do CEP,

“o plano geral das ligações a estabelecer para o caso da entrada em linha de uma ou duas das nossas Divisões juntamente com as tropas britânicas”.

Nestas circunstâncias, Soares Branco propôs em 14 de maio, e depois o Quartel-General Britânico estabeleceu, as seguintes regras para as ligações e as comunicações entre as unidades e os comandos das duas forças:

“1. Que junto dos QG do Corpo, das Divisões e Brigadas laterais funcionassem estações de junção portuguesas e inglesas, onde o serviço fosse executado, para as ligações interiores por pessoal português e para as ligações exteriores por pessoal inglês.

2. Que junto dessas estações houvesse algumas praças intérpretes, que fa­cultassem as constantes relações que a permuta de despachos certamente acarre­tava.

Desta forma, sem que uns embaraçassem os outros, eu conseguia resolver o gravíssimo problema da diferença de velocidade de transmissão pelo acústico entre os nossos telegrafistas e os telegrafistas ingleses, e o não menos importante facto das comunicações telefónicas em dois idiomas diferentes que dificultariam e impossibilitariam as comunicações.

Um telegrama do Exército para uma unidade do Corpo seria recebida no telégrafo inglês, entregue ao telegrafista português do Q. General do Corpo e por este enviado pelo telégrafo ao destinatário.

Uma comunicação telefónica de uma Repartição do Quartel-General Português era pedida pela Repartição ao indicador telefónico português, e por este pedida ao indicador inglês em ligação direta com o 1º Exército que a realizava”.

Ficava assim estabelecido o sistema de ligações entre o CEP e o comando e as unidades britânicas. Mas Soares Branco não duvidava do muito que ainda faltava fazer para garantir a eficiência do sistema acabado de estabelecer. Por isso a Escola de Sinaleiros continuou a ministrar a instrução necessária, em circunstâncias difíceis, pois as unidades estavam já nesta altura desfalcadas de muitos dos seus quadros e praças e os reforços solicitados ou não chegavam, ou chegavam muito lentamente, tornando muito difícil o cumprimento eficaz das missões do Serviço Telegráfico.

Conclusão

A entrada em linha das primeiras unidades portuguesas processou-se, apesar de tudo, com normalidade. Todas tiveram oportunidade de efetuar um estágio com as tropas britânicas, já muito experientes, pois estavam nesta situação desde 1914. Pelos relatos que nos chegaram, todos foram bem recebidos pelos militares ingleses e todos iniciaram a sua presença na frente com boa vontade, empenhamento e desembaraço. À medida que o tempo foi passando e que as circunstâncias se foram agravando, em termos de rendição de tropas, de rotação nas linhas e do completamento de efetivos, a situação tendeu a complicar-se, ao ponto de se tornar insuportável do ponto de vista militar.

Tanto os soldados de infantaria, como os telegrafistas, guarda-fios e sinaleiros, ninguém poderia ficar imune ao lento descalabro das unidades portuguesas, que foram ficando cada vez mais reduzidas e mais fracas, tanto do ponto de vista operacional, como do ponto de vista moral.

Pelo que Soares Branco nos diz, os seus militares cumpriram sempre com grande empenho e muito sentido do dever as missões que lhes estavam atribuídas, apesar das circunstâncias adversas. Mas isso exigiu de todos um esforço suplementar, que Soares Branco procura realçar no seu relatório.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (5)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS ESCOLAS DE FORMAÇÃO

Introdução

O capítulo II do relatório do capitão Soares Branco, que ocupa cinco páginas, refere-se, em primeiro lugar, à organização e preparação das unidades de telegrafistas e das secções de sinaleiros da 1ª Divisão. Como veremos, a sua principal preocupação é a montagem das escolas de telegrafistas, mas especialmente das escolas de sinaleiros, que ele sabia carecerem de muita instrução para bem desempenharem as tarefas que os aguardavam. É também neste capítulo que Soares Branco aborda a questão da organização inicial da força portuguesa, já que para o responsável do Serviço Telegráfico era essencial saber como se iriam articular as unidades, a fim de planear a forma como lhes seria fornecido o apoio em comunicações.

A alteração orgânica do CEP de uma Divisão reforçada para um Corpo de Exército a duas Divisões, proposta pelo Comando do CEP ao governo português logo em fevereiro de 1917, sob sugestão do chefe da missão britânica junto da força portuguesa, que decerto teve a cobertura dos altos comandos ingleses, desencadeou uma série de ações no sentido de completar os quadros orgânicos em pessoal e material por parte de todos os responsáveis pelos vários serviços de apoio.

Embora as preocupações do capitão Soares Branco estivessem concentradas na instrução dos seus efetivos, tanto telegrafistas e telefonistas, como sinaleiros e outras especialidades do seu âmbito, tomou como prioritária a necessidade de propor o recompletamento dos seus efetivos, na perspetiva de ser constituído um Corpo de Exército a duas Divisões, assim como um Corpo de Artilharia Pesada, como já vimos.

Ainda em fevereiro de 1917, pouco depois da sua chegada a França, Soares Branco propôs algumas alterações nos quadros de pessoal, como recorda no seu relatório:

Nesta incerteza de efetivos futuros em que ainda continuava, e do número e natureza dos Quartéis-Generais a constituir, propus, e imediatamente foi aprovada e enviada a proposta para a Metrópole, a vinda de 13 praças de te­legrafistas de praça por cada Batalhão de infantaria que marchasse para França, e a vinda de seis oficiais de Engenharia para as ligações da Artilharia. (Nota e proposta de 19-02-17)”.

E, logo que teve a certeza da futura constituição do Corpo de Exército, fez ainda outras propostas:

“Na primeira quinzena de março, tendo tido conhecimento de que o CEP passava a constituir um Corpo de Exército a duas Divisões a três Bridadas, e um Corpo de Artilharia Pesada, submeti à apreciação do Chefe do Estado-Maior em 19-03-17 as seguintes propostas relativamente a pessoal:

  1. Necessidade de se instar pela vinda de 312 telegrafistas de Praça, correspondendo a 13 praças por cada Batalhão de infantaria;
  2. Necessidade da vinda imediata de seis subalternos de Engenharia a mais do que os Quadros Orgânicos determinavam;
  3. Criação da Escola de Sinaleiros;
  4. Necessidade da vinda de uma 3ª Secção de Telegrafistas para o Corpo, além da Secção de Telegrafistas de Praça já existente, ficando cada Divisão com uma Secção de Telegrafistas de Campanha;
  5. Urgência da chegada a França do material do Trem de Engenharia Automóvel e do pessoal e material da Oficina do Depósito Avançado;
  6. Criação de Secções de sinaleiros nos Batalhões de Infantaria e nos Grupos de Artilharia”.

Mas, para além do recompletamento de efetivos, tornava-se necessário adequar também o material orgânico:

“E na parte referente a material, submeti a aprovação de Sua Exª o General, o quadro completo das dotações de todas as Unidades do CEP, organizado de acordo com o estabelecido como indispensável na presente Guerra, e que foi aprovado em 30-03-17.

Nesse quadro fiz incluir, por prever a sua futura aplicação, uma Secção Automóvel construtora de Linhas de Fio, completa”.

As escolas de formação

O que verdadeiramente preocupava, não apenas o capitão Soares Branco, mas todos os responsáveis pelos vários serviços e pelas unidades de linha, era a consciência que tinham da impreparação das tropas portuguesas para a guerra de trincheiras.

Logo em Dezembro de 1916 avançou para França, através de Espanha, um largo conjunto de oficiais e sargentos, num total de cerca de 100 elementos, para organizarem um período de formação das tropas portuguesas. Deviam eles próprios frequentar as escolas inglesas e organizar depois as escolas portuguesas que tinham por missão preparar os militares portugueses para a realidade da guerra, tanto em termos do uso de novas armas e materiais, como no conhecimento de novas táticas e formas de combate.

Depois de um período de frequência das escolas britânicas, situadas na região de Étaples, os primeiros instrutores portugueses deram corpo a um plano geral de instrução para as tropas do CEP aprovado em março de 1917. O plano contemplava três períodos – ginástica e palestras; uso da baioneta, de granadas e serviço de patrulhamento nas trincheiras; e instrução especial de acordo com as especialidades ou aptidões de cada um.

As principais escolas portuguesas criadas na zona de concentração do CEP foram as seguintes: a Escola de Emprego de Baioneta, em Mametz; a Escola de Granadeiros, em Marthes; a Escola de Metralhadoras Ligeiras, também em Marthes; a Escola de Metralhadoras Pesadas; a Escola de Tiro, Observação e Patrulhas, em Pacaut; a Escola de Morteiros de Trincheira; a Escola de Gás, em Mametz, entre outras. Passaram por estas escolas milhares de militares que assim se foram familiarizando com os novos armamentos e materiais e também com as novas técnicas e táticas. Também ao nível divisionário foram criadas escolas, em especial de baioneta, metralhadoras, gás e granadas.

Depois deste período de instrução, e antes de assumirem responsabilidades na frente, as unidades tipo companhia faziam estágios na frente, junto de unidades inglesas.

A Escola de Sinaleiros

Apesar das preocupações que naturalmente lhe mereciam os telegrafistas e os telefonistas, a verdade é que Soares Branco sabia que o esforço de formação devia ser canalizado para os sinaleiros. É por isso que desde logo planeia a montagem de uma Escola de Sinaleiros, que vem a ser em Quiestede, e apresenta o respetivo programa de instrução:

Limitei-me pois a informar o Comando da necessidade de fazer montar uma Escola de Sinaleiros onde fosse completada a instrução das nossas tropas, fosse qual fosse o seu efetivo, e juntamente submetia a aprovação o programa da mesma instrução:

As matérias a versar na Escola constavam de cinco Secções:

a) lª Secção:

telegrafia acústica simples

telegrafia acústica de corrente dupla.

b) 2ª Secção:

telefonia acústica (buzzer)

telefonia falante

c) 3ª Secção:

telegrafia ótica com bandeiras, quadros venezianos

d) 4ª Secção:

escola de guarda-fios

e) 5ª Secção:

Regras de transmissão, receção, classificação de despachos e sua escrituração.

f) 6ª Secção:

Breves noções sobre o funcionamento do serviço e dos aparelhos em uso nas estações.

 

A 6ª Secção seria diretamente dirigida pelo oficial Comandante da Secção de Telegrafistas de Praça.

Para as praças das unidades de telegrafistas era obrigatória a instrução das cinco Secções (1. 2. 3. 4. 5.)

Às praças de Infantaria era ministrado o ensino das 2ª e 3ª Secções.

Às praças de Artilharia que viessem a frequentar a Escola ser-lhes-ia ministrada a instrução da 2ª, 3ª e 4ª Secções.

Sumariamente, tanto as praças de Infantaria como as da Artilharia era-lhes dado na parte que lhes dizia respeito, noções da 5ª Secção.

O 1º Exército fornecia-me, por empréstimo, o material necessário e com ele dava começo aos primeiros trabalhos, elaborando uns primeiros esquemas e diagramas para a compreensão dos fullerfones, telefones e telégrafos acústicos que de futuro seriam fornecidos às unidades.

Os novos modelos de aparelhos, como o fullerfone, cuja existência era absolutamente desconhecida em Portugal, e a obrigatoriedade da adoção do telégrafo acústico em vez do telégrafo com fita, complicavam extraordinariamente o serviço, e exigiam dos nossos homens uma prática e qualidades que muitos não possuíam.

E se o problema era difícil para as tropas telegrafistas, para a Infantaria parecia quase insolúvel de momento”.

Entretanto, a situação não se apresentou fácil de resolver, pelas dificuldades de os Batalhões dispensarem o seu pessoal para instrução, uma vez que estavam ainda demasiado desfalcados nos seus efetivos. É para isso que Soares Branco chama a atenção:

“As primeiras tropas embarcadas para França, e que em troços haviam começado a chegar à zona de guerra na primeira quinzena de fevereiro, constituídas numa Brigada, só no fim de março puderam enviar os quadros para a Escola de Sinaleiros de Quiestede.

Estavam já em 2 de abril em França quase todos os Batalhões de Infantaria, mas a falta de quadros era enorme.

A custo e por turnos, podiam as unidades dispensar os oficiais e sargentos.

A Artilharia que devia criar e instruir as suas Secções de Sinaleiros de grande efetivo, cerca de 60 praças, precisava também de pessoal idóneo para ser instrutor e instruído”.

A necessidade de instruir todo o pessoal, em especial os telegrafistas e os sinaleiros era tão urgente, que Soares Branco, não tendo completa resposta aos seus pedidos, se viu obrigado, como refere, a converter um dos oficiais da 1ª Secção de TPF, o tenente Mascarenhas de Menezes, em instrutor de praças sinaleiros de Infantaria. E foi ainda obrigado, apesar de tudo tentar para evitar a situação, a aceitar o oferecimento feito pela Missão Inglesa do tenente Colston para auxiliar e dirigir a instrução dos sinaleiros de Artilharia.

Soares Branco refere com clareza esta situação no seu relatório, já que o recurso a este oficial inglês

“contrariava o natural desejo de só com pessoal português instruir as nossas tropas, não menos verdade era que este Serviço Telegráfico havia feito a tempo a proposta que tal evitaria, e não menos verdade era também que o Chefe do Estado-Maior por repetidos telegramas fizera ver à Secretaria da Guerra a urgência na vinda dos seis subalternos requisitados desde os primeiros dias de fevereiro e que só em maio deviam começar a apresentar-se”.

Mas tudo se processou com toda a normalidade, e o capitão Soares Branco vem a reconhecer que

os serviços prestados pelo tenente R.P.A. Colston foram excelentes, e ainda hoje em igualdade de circunstâncias eu procederia como naquela data. Nunca me receei nem receio de aceitar e agradecer a cooperação de oficiais do Exército Inglês, até onde ela pode e deve ser proveitosa e útil”.

Conclusão

Ultrapassadas as dificuldades deste período inicial, as primeiras unidades portuguesas, ao nível Companhia e depois Batalhão, vão-se aprontando para entrar em linha, substituindo unidades inglesas, evidentemente sob o comando dos seus Batalhões ou Brigadas, como veremos no próximo texto.

Neste período, que se estende aproximadamente de fevereiro a princípios de maio, seguindo-se depois a entrada em linha das Brigadas e finalmente a 1ª Divisão em 10 de julho, o Serviço Telegráfico procurou resolver todos os problemas que resultavam da mudança de missão das unidades portuguesas, mas empenhou-se particularmente na melhoria da formação das suas tropas e dos sinaleiros de Infantaria e de Artilharia, da ação dos quais dependia o bom serviço das ligações em campanha, essenciais para o desempenho do comando de qualquer unidade. Pelos resultados que se foram constatando, o Serviço Telegráfico do Corpo foi eficiente e reconhecidamente eficaz na sua missão.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (4)

Post dos Coronéis Aniceto Afonso e Costa Dias, recebido por msg:

  1. SITUAÇÃO INICIAL DO SERVIÇO TELEGRÁFICO

Introdução

No final de agosto de 1916, pouco depois do fim da primeira fase das manobras de Tancos, chegou a Lisboa uma missão militar anglo-francesa para discutir com Portugal a forma de participação de tropas portuguesas na frente ocidental.

A missão esteve em Portugal até novembro, tendo sido produzido o Memorando das condições de emprego das forças Portuguesas na zona de operações britânica em França, depois aprovado pelo Governo Britânico a 16 de dezembro. O memorando previa que as unidades portuguesas avançariam para França, mas passariam por uma fase de instrução a cargo do comando britânico, antes de entrarem em linha. A força seria constituída por uma Divisão reforçada, com um total de três Brigadas a dois Regimentos e estes a três Batalhões, totalizando 18 Batalhões. Esta composição foi estabelecida numa 2ª Convenção luso-britânica assinada a 3 de janeiro de 1917, pouco antes do embarque das primeiras tropas. Relativamente à artilharia deviam constituir-se quatro Grupos de peças 75 mm e três Grupos de obuses, estes com duas baterias cada. Estava prevista a mobilização de cerca de 40.000 militares.

Partida de Lisboa

Desembarque em Brest

Quando os primeiros contingentes já se encontravam em França, decorrendo o período de aquartelamento e instrução previsto, verificou-se ser necessário fazer uma adaptação de estrutura orgânica, visto que as unidades britânicas não tinham o escalão Regimento, dependendo os Batalhões diretamente das Brigadas. E uma vez que sobravam comandos, foi sugerido pelo chefe da missão militar britânica junto do CEP, que Portugal poderia constituir um Corpo de Exército a duas Divisões, cada uma com três Brigadas e estas com quatro Batalhões, num total de 24 Batalhões, mais seis do que os mobilizados por Portugal. Foi ainda levantada a hipótese de se constituir um Corpo de Artilharia Pesada, na dependência do CEP.

O primeiro contingente em França do mais velho aliado da Inglaterra

Posto o problema ao Governo português ainda em fevereiro, este acedeu de imediato, até porque isso conferia à presença portuguesa um significado de maior relevo. Tornava-se contudo necessário mobilizar mais cerca de 15.000 militares, pois também a estrutura de apoio seria necessariamente aumentada. Isso exigia também a extensão da capacidade de transporte através dos meios navais disponibilizados pela Grã-Bretanha. Ora, essa capacidade estava já comprometida com o transporte de tropas americanas para a Europa, pelo que se tornou muito difícil à Inglaterra aceitar esse compromisso. Apesar de todas as negociações acessórias que se tornaram necessárias e que levaram o ministro da Guerra, Norton de Matos, a permanecer cerca de um mês em Londres, entre meados de maio e meados de junho, o contingente português só no mês de Setembro terminou a primeira fase de transporte para França. Foi nesta altura que, dando corpo a uma intenção que sempre esteve na mente do governo inglês, este propunha que as unidades portuguesas ficassem na dependência de unidades inglesas e integrassem oficiais ingleses, proposta que evidentemente, o governo português rejeitou liminarmente.

Apesar de todas estas hesitações e dificuldades a nível político, no terreno acabou por se trabalhar sempre com a hipótese da constituição do Corpo de Exército, embora as notícias nem sempre fossem tranquilizadoras e fossem causa de algumas dúvidas.

No que respeita ao Serviço Telegráfico, Soares Branco considerou sempre, a partir de março de 1917, a hipótese que depois se viria a concretizar – a entrada em linha do Corpo de Exército português, embora tal só tenha acontecido a partir de 5 de novembro.

Ponto de situação

Voltando à análise do relatório do capitão Soares Branco, constatamos que, quando ele se apresentou ao responsável pelo Serviço Telegráfico do 1º Exército Britânico, coronel de Engenharia H. Moore, no dia 27 de janeiro de 1917, ficou assente que enviaria a este um relatório sucinto sobre a situação do mesmo serviço no CEP.

Coronel Herbert Tregosse Gwennap Moore, Royal Engineers, DSO, CB, CMG, Avis

Para além de uma informação sobre o pessoal e o material do Serviço, Soares Branco deveria também referir as capacidades disponíveis, o grau de instrução do pessoal, as faltas a preencher tanto em pessoal como em material, assim como as alterações necessárias para a sua adaptação à organização inglesa. Soares Branco enviou o relatório ainda durante o mês de março, com data de 23, incluindo-o depois no seu relatório final como apêndice nº. 4. É este apêndice que vamos analisar neste texto.

No corpo principal do seu relatório final, Soares Branco, a propósito do compromisso que tomara de enviar o ponto de situação ao 1º Exército, tece algumas considerações sobre as dúvidas que teve e a forma como procurou resolvê-las, não dando a entender ao seu destinatário as hesitações que ainda subsistiam no CEP quanto à organização das suas tropas. É por isso que ele dá a primeira explicação sobre o envio do relatório ao 1º Exército: “Uma vez estudada a organização e funcionamento do serviço de comunicações no 1º Exército Inglês, no qual deveria o CEP ficar incorporado, julguei da máxima importância informar o Serviço Telegráfico do 1º Exército da organização e estado da instrução à data do embarque para a França das tropas telegrafistas portuguesas”. E também acentua os princípios por que se guiou para cumprir a sua missão, não apenas neste relatório parcial, mas sempre que tivesse de assumir responsabilidades: “Diante de mim tive o problema do futuro, e alheio ao que à Missão Inglesa em Lisboa havia sido comunicado sobre o Serviço Telegráfico, não tendo nem direta nem indiretamente recebido da mesma Missão quaisquer esclarecimentos que pudessem ainda orientar na Metrópole o plano orgânico das unidades telegrafistas e de sinaleiros, dois princípios tive que respeitar:

O primeiro, falar claro e com verdade ao 1º Exército Britânico.

O segundo, em harmonia com o que observara e estudara, propor ao meu Estado-Maior tudo quanto de indispensável havia julgado”.

Tanto para cumprimento dum princípio, como para o outro, seria indispensável que Soares Branco soubesse como iria o CEP organizar-se, o que não foi questão simples neste início de missão. Esta deveria ter sido a principal interrogação que Soares Branco colocou aos responsáveis portugueses já presentes em França, já que era necessário, como diz, “que eu tivesse exato conhecimento de quais as forças que deveriam compor o CEP – Uma Divisão, um Corpo, uma Divisão reforçada com Artilharia Pesada?”. É que, embora compreendendo “quantos melindres e naturais incertezas não encobre uma resposta clara ao que me era indispensável tomar para base de qualquer trabalho, mas sem ela nada de seguro podia propor”.

Mas quando finalmente tem as condições mínimas para prosseguir o seu ponto de situação, já inclui informações sobre a organização dos vários escalões do CEP no que respeita às unidades de comunicações e respetivo pessoal, assumindo em definitivo que a força portuguesa será composta por um Corpo de Exército a duas Divisões. Temos assim, ao nível do Corpo:

“a) 1 chefe do Serviço Telegráfico e 2 adjuntos
b) 1 Secção de Telegrafistas de Campanha
c) 1 Secção de Telegrafistas de Praça
d) 1 Secção de Telegrafia Sem Fios”.

Cada uma destas unidades tinha o seguinte pessoal:

“1. A Secção de Telegrafistas de Campanha tem a composição análoga à indicada para as Divisões podendo contudo receber destas uma ou duas esquadras de fio, no caso de o serviço assim o indicar.
2. A Secção de Telegrafistas de Praça compõe-se de 1 oficial, 3 sargen­tos, 6 cabos e 30 soldados.
3. A Secção de Telegrafia Sem Fios é de 2 oficiais, 3 sargentos, 12 motoristas e telegrafistas, 13 soldados não especializados”.

Mais adiante, Soares Branco refere a composição do Serviço Telegráfico ao nível das Divisões, havendo, em cada uma, uma Secção de Telegrafistas de Campanha e um Destacamento de Telegrafistas de Praça.

Quanto ao “material de que a Secção de Telegrafistas de Campanha dispõe pode ser diminuído duma esquadra de fio que fique pertencente ao Corpo”, e em relação ao pessoal de “Telegrafistas de Praça ficará encarregado das linhas do Corpo na Divisão e transportará no carro de parque o material telefónico e telegráfico que complementarmente for distribuído à Secção de Telegrafistas de Campanha pelo acréscimo do número de ligações pedidas”.

Em cada Divisão, “o chefe do Serviço será o Comandante da Secção de Telegrafistas de Campanha que disporá de 3 oficiais de Engenharia”, a “Secção de Telegrafistas de Campanha tem uma composição idêntica, referida nos quadros”.

Já o Destacamento de Telegrafistas de Praça merece maior atenção e mais extensa referência, com a indicação de que se compõe de “120 praças afetas aos Batalhões de Infantaria, mas sob a direção do Serviço Telegráfico”. Existe também pessoal afeto ao serviço telegráfico e telefónico dos Quartéis-generais, constituído por um segundo-sargento, um cabo e 46 praças, sendo que estas “são treinadas em serviço de estação, construção e reparação de linhas permanentes”.

O relatório que Soares Branco envia ao 1º Exército aborda a questão do material de transmissões existente no CEP, de forma a salientar aquilo que satisfaz as exigências do serviço e o que tem necessariamente de ser substituído ou complementado. Mas as informações acabam por ser genéricas, já que não havia ainda uma clara definição de qual viria a ser a organização das forças portuguesas. Por isso, Soares Branco refere em primeiro lugar o material usado pela Secção de Telegrafistas de Campanha do Corpo, “análogo ao das Secções afetas às Divisões”, que se divide em quatro esquadras, sendo “2 esquadras de cabo, 1 esquadra de fio e 1 esquadra de serviço ótico”.

Esta Secção “pode montar 5 estações telegráficas Morse, 5 estações telefónicas conjugadas servidas pelas mesmas linhas e 5 estações telefónicas falantes”. Com base nos recursos materiais existentes, a Secção podia montar “22 km de linha de cabo simples” e “10 km de linha de fio”.

Por seu lado, a “esquadra de serviço ótico permite estabelecer 8 postos quer de dia quer de noite”, sendo que “todo o material da Secção, a não ser as lanternas para serviço ótico e o cabo simples, é de muito boa qualidade e satisfaz plenamente as condições exigidas do serviço de campanha”.

Seguem-se então informações técnicas sobre o material, algumas bastantes pormenorizadas, incluindo os diâmetros e o revestimento dos vários cabos disponíveis.

Assim, “os telégrafos Morse são de duas direções para sistema escrevente” e os “telefones de 1 e 2 direções têm chamada magnética e chamada acústica para buzzer”. Mas havia apenas “um único comutador suíço para 4 linhas”. E quanto ao cabo, “composto de 5 fios de cobre” e com uma “armadura de 12 fios de aço”, “tem apenas o defeito de estar velho”.

Já o “cabo subaquático é análogo ao cabo armado usado no Exército Inglês”, mas “há apenas 1000 metros”. E embora este cabo fosse “muito pesado, 202 kg. por cada km” estava “enrolado em carretéis apropriados montados nas viatu­ras de carros de cabo, permitindo o seu desenrolamento com a viatura a trote”.

Também o “fio para a linha aérea, composto de 4 fios enrolados em hélice” estava “em boas condições de uso e serviço”.

Por seu lado, “os postes para a linha aérea são de madeira” podendo “atingir uma altura máxima de 16 pés”.

Quanto às pilhas, elas “eram dum sistema Leclanche de rolha e tampa, mas o facto de não se poderem adquirir em Lisboa aglomerados bons para os elementos, torna-lhe o funcionamento defeituoso utilizando-se apenas elementos secos”.

Por fim, o “material para o serviço ótico compõe-se de bandeiras”, “lanternas de óleo de colza ou petróleo”, “heliógrafos de Mance, muito bons para países onde há sol, como em Portugal”, e “aparelhos Mangins (heliógrafo e lanterna) bons mas de complicado funcionamento”, tudo em número de quatro.

Aparelho óptico Mangin, aqui em exercícios em Tancos

Funcionamento do Serviço

Quanto ao funcionamento do Serviço, Soares Branco aborda a questão por sectores, dando informações de cada uma das suas pequenas unidades, secções e esquadras.

Assim, “cada esquadra de cabo (…) faz o serviço indo todas as praças a pé divididas em distribuidores, marcadores, desenroladores e assentadores e verificadores, cujo serviço se faz simultaneamente atingindo-se uma velocidade de 3 a 4 km a hora”. Já as esquadras de fio trabalhavam “com o fio enrolado em carretéis no carro de fio”, não se atingindo mais que “uma velocidade de 2 ou 1 km por hora, conforme os diferentes traçados”.

Em relação ao “serviço ótico, destinado às ligações menos importantes ou a duplicar as principais, tem uma grande mobilidade para as marchas graças ao transporte do pessoal nos carros de parque e ao uso de bicicletas”, podendo “montar sempre 4 postos duplos quer de dia quer de noite”, empregando, conforme as condições, os heliógrafos Mangin ou Mance. De qualquer forma, e durante as marchas, a “Secção divide-se em dois escalões”.

No que respeita à Secção de Telegrafistas de Praça, ela “é a formação cujo pessoal é mais treinado pela sua ocupação civil e militar no guarnecimento das estacões e na construção e reparação de linhas permanentes”. Contudo, os seus “recursos, como facilmente se nota, não chegam atualmente para a multiplicidade de ligações exigidas”.

O serviço desta Secção, segundo Soares Branco, poderia aproveitar-se tanto na “guerra de movimento, na construção de transversais nas redes civis ou militares da retaguarda, reparações e serviço de estações”, como na guerra de posição”, neste caso para a “construção e conservação das linhas enterradas chamadas gerais, e no guarnecimento de estações”.

Relativamente à Secção de Telegrafia Sem Fios, Soares Branco informa que “o material desta Secção é do sistema Marconi – antena em L, com 1,5 kw de potência, 250 km em terreno plano como do Brabante belga, e os mastros em madeira da altura de cerca de 25 metros”, sendo o material “análogo ao do sis­tema inglês”. Nesta Secção “o pessoal está regularmente treinado, mas ainda não pode na sua generalidade considerar-se telegrafista de 2ª classe, embora haja algumas praças de 1ª classe”.

Marconi 1,5 KW Spark Field Set em montagem veicular

Marconi 1,5 KW Spark Field Set

Grau de instrução

Relativamente ao “grau de instrução do pessoal”, Soares Branco separa os telegrafistas de campanha dos telegrafistas de praça, informando que no primeiro caso o pessoal “está razoavelmente treinado no serviço de guarnecimento de estações, bem treinado na monta­gem de linhas de campanha de cabo e de fio”, mas que “precisa todo ele de receber instrução sobre o material inglês diferente do português e com que terá também que trabalhar”. Mas não serão necessárias mais que quatro a seis semanas para essa instrução.

Quanto às Secções de Telegrafistas de Praça, Soares Branco afirma que o seu pessoal “está treinado no serviço de estações, precisa conhecer o material inglês com que virá a trabalhar mas facilmente poderá tomar conta do serviço das estações”. Contudo, “desconhece as regras da montagem e levantamento das linhas de campanha, mas é perito no estabelecimento, reparação e conservação de linhas gerais permanentes”, pelo que a sua instrução não exigiria mais de quatro semanas.

Ainda no que respeita ao grau de instrução, seguem-se os sinaleiros de artilharia e os sinaleiros de infantaria, havendo alguma semelhança, mas também pequenas diferenças.

No que respeita aos sinaleiros de artilharia, “o seu número foi consideravelmente elevado de 5 a 15 por bataria”, sendo que o “sistema homográfico foi substituído pelo alfabeto Morse”. Por seu lado, o material telefónico foi “substituído por material inglês por o antigo não servir, era americano, e os telefones para linha simples eram só de 4 direções”.

Mas como a “maioria dos sinaleiros são quase analfabetos”, a sua instrução “deve ser demorada, pois é toda feita de novo”, tornando-se “também necessário o ensino da profissão de guarda-fio de que nada ainda até hoje lhes foi ensinado”.

Quanto aos sinaleiros de infantaria e “devido à grande maioria de praças analfabetas nesta arma, teve que lançar-se mão de soldados telegrafistas de Praça, de engenharia, para pelo menos ter 2 soldados por companhia e batalhão capazes de fazer uso do Fullerfone”. Por esta razão “a instrução destas praças deverá ser rápida e fácil”, mas “a dos restantes sinaleiros da infantaria será morosa e difícil, não sendo talvez suficiente 6 semanas”.

Conclusões e propostas

Para terminar o seu relatório ao coronel H. Moore, responsável pelo Signal Corps do 1º Exército Britânico, Soares Branco apresenta as suas conclusões e propostas:

“1. Aumentar a dotação de material das Secções de Telegrafistas de Campanha e de Praça até que os seus números igualem os da Companhia de Sinais duma Divisão Inglesa para o que se fez a devida requisição.

2. Dotar as unidades de infantaria e artilharia de material idêntico ao do Exército Inglês para o que se fez a respetiva requisição.

3. Estabelecer uma Escola de Sinaleiros em Quiestede para a Engenharia e Infantaria e uma outra Escola para a Artilharia em Therouanne, para o que já se recebeu algum material, mas para o que ainda restaria pedir às unidades logo que estas o recebam”.

Instrução na Escola de Marthes/Mametz/Thérouanne 23JUN17

Em conclusão

Analisando de forma sucinta o relatório de Soares Branco, feito pouco mais de um mês depois da sua chegada a França e após a sua rápida visita a várias unidades inglesas da frente, pode concluir-se que ele tinha a perfeita noção das suas responsabilidades e conhecia as condicionantes das tarefas que lhe competiam, para bem cumprir a missão das transmissões na frente que seria entregue ao Corpo Português.

Já sabia que o CEP se iria organizar num Corpo de Exército a duas Divisões, que as suas unidades seriam organizadas à semelhança das unidades inglesas e que também o dispositivo das forças e a sua estrutura interna não poderia ser muito diferente da das unidades que visitara no terreno. Era de facto, uma conclusão lógica.

Mas Soares Branco tinha também o conhecimento suficiente sobre o pessoal e o material de que dispunha para organizar o seu Serviço, pelo que tomara já algumas iniciativas, como a requisição dos materiais em falta e a proposta da constituição de duas escolas de formação, onde o elo mais fraco da sua cadeia de tarefas – os sinaleiros – pudesse receber a instrução necessária à sua completa formação.

A análise do seu relatório final, onde se inclui este apêndice, e que iremos continuar, dar-nos-á uma ideia mais precisa da forma como o capitão de Engenharia Soares Branco, como responsável máximo do Serviço Telegráfico do CEP, desempenhou a sua missão.

 

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (3)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS COMUNICAÇÕES DA ARTILHARIA

O papel da Artilharia

Na frente ocidental, a guerra de movimento foi posta em causa logo nos primeiros confrontos, em especial pela eficácia da metralhadora e da artilharia. As tentativas de ultrapassar o impasse ligado à supremacia do fogo que levou à construção de um intrincado sistema de trincheiras, não conduziram a resultados concludentes. De facto, nem os gases, nem a concentração de forças no ataque em frentes estreitas, nem as primeiras experiências com viaturas blindadas, resolveram o problema da guerra estática. Mas acabaram por ficar na memória da guerra, as longas preparações e contra-preparações, barragens e flagelações, em que eram consumidos milhões de granadas de todos os calibres pelos mais variados modelos de bocas-de-fogo da artilharia.

Embora a artilharia fosse usada desde há longo tempo, a verdade é que as condições proporcionadas pela forma como se desenrolaram as operações na frente ocidental favoreceu o seu papel, podendo dizer-se que se constituiu numa guerra feita à sua medida. A modificação mais marcante foi a ênfase dado aos obuses, de tiro mais curvo, em detrimento das peças, de tiro mais tenso, já que estas não permitiam bater eficazmente as trincheiras.

Houve inovações não só nas armas propriamente ditas, nas munições e nas cargas propulsoras, mas também na condução do tiro, no sentido da sua eficácia progressiva. Outras inovações vieram também contribuir para o emprego da artilharia, como o telefone, a TSF, o balão cativo e o avião, permitindo a observação e aperfeiçoamento do tiro, assim como a transmissão das respetivas informações entre a observação da frente de combate e as posições dos meios de lançamento.

Balão de observação

A impressionante quantidade de munições, assim como a sua variedade, criou muitos problemas logísticos de fabrico, reabastecimento e transporte, que todos os contendores foram solucionando, com recurso a todos os meios disponíveis. Exemplo desta situação foi a chamada das mulheres às fábricas de munições de artilharia, produzidas aos milhões por qualquer dos lados.

Relativamente à artilharia do CEP, toda a organização foi modificada em França, acabando constituída por seis Grupos de Baterias de Artilharia (GBA) tendo cada um três Baterias de peças 75 mm e uma Bateria de Obuses de 114 mm. Foram também constituídos seis baterias de morteiros médios de 152 mm e duas baterias de morteiros pesados de 236 mm. Quando se constituiu o Corpo de Exército, em Novembro de 1917, os 1º, 4º e 5º GBA foram integrados na 1ª Divisão e os 2º, 3º e 6º na 2ª Divisão.

Desembarque de artilharia portuguesa em Brest (Biblioteca Nacional de França)

No início de 1918 foi ainda constituído um Corpo de Artilharia Pesada (CAP), com dois Grupos de três baterias cada, o 1º em janeiro e o 2º em março de 1918.

Posição de Artilharia (Liga Combatentes)

Finalmente, Portugal constituiu também um Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), com três Baterias, que ainda atuou em França e que era constituído por um efetivo de 1328 homens, 70 dos quais oficiais.

As ligações da Artilharia

Soares Branco, quando fez a primeira visita às unidades britânicas no terreno, tinha a ideia da organização da artilharia utilizada nas manobras de Tancos. Constatou que tudo era diferente e que a artilharia portuguesa seria organizada de outra maneira para se integrar no comando inglês. Esteve por isso atento à forma como as unidades de artilharia se articulavam com as unidades apoiadas e qual era o papel das comunicações e quais as suas necessidades.

Verificou assim que ao nível da artilharia do Corpo de Exército, todas as ligações eram feitas por um telégrafo acústico para o QG do Corpo e por “dois indicadores telefónicos magnéticos de dez direções para comunicar com os Comandos do Corpo de Exército, com os Comandos de Artilharia das Divisões, com os Comandos Divisionários laterais da Artilharia, chefe do Estado-Maior do Corpo, Depósito de Munições, elementos de observação, etc.”. Havia também um quadro de entrada de linhas e um quadro de ensaio de linhas.

Soares Branco constatou também que junto da artilharia do Corpo deveria sempre “haver guarda-fios e material para reparação das linhas, sendo estas de ordinário sempre aéreas”. Para além disso, o pessoal deveria “ser fornecido pelas unidades telegrafistas do Corpo, sob a direção de um oficial telegrafista”.

Por seu lado, tanto na Divisão, como na Artilharia pesada, as ligações eram muito semelhantes às do Corpo, sendo dispensável o telégrafo acústico.

Grupo de Sinaleiros do CAP

Já no comando de um Grupo de Artilharia, o material existente constava de um “indicador telefónico magnético de dez linhas para as comunicações com o Comando da Divisão, os Grupos laterais, a Brigada e o Comando da Artilharia Divisionária”. Havia também “vários telefones para um ou dois indicadores telefónicos acústicos, que faziam a ligação com as baterias do Grupo, e os postos centrais dos postos de observação ou mesmo diretamente com aqueles postos de observação”. Na artilharia, “não se empregava nunca o fullerfone”.

Obus 114mm

Ao nível do Grupo havia ainda “estações recetoras de TSF a cargo da Royal Corps Flying para as ligações com os aeroplanos, tendo três telegrafistas de serviço aos aparelhos”.

Dada a relativa complexidade destas comunicações, constatava Soares Branco que, ao nível do Grupo se tornava necessário um oficial telegrafista.

Quanto ao posto de uma Bateria, existia um comutador de sete direções telefónico acústico e vários telefones. Embora as comunicações das baterias “com os batalhões ou unidades a que estão adstritas” se fizessem por intermédio da estação do Grupo”, isso “não era para recomendar”.

Abrigo de uma peça 75mm (coleção Garcês, AHM)

Soares Branco constatou ainda que “normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos”. E que “como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Em suma, Soares Branco, visitando as unidades de artilharia da frente inglesa, acabou por reunir um conjunto precioso de informações que em muito vieram a contribuir para o desempenho da sua missão de responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP. Contribuíram também para a sua compreensão da dependência que a artilharia ia criando em relações às comunicações, tanto para as unidades apoiadas como para a observação e condução do tiro.

Depois desta apreciação de Soares Branco sobre a Artilharia, o seu relatório contém um primeiro apêndice, que respeita ao memorando que ficou de apresentar ao responsável do Signal Corps do 1º Exército inglês, e que abordaremos no próximo texto.

Quando a Tropa mandou na RTP

Hoje, dia 24 de Abril, pelas 23:30, a RTP apresenta o documentário “Quando a Tropa mandou na RTP”, da autoria do jornalista e professor universitário dr. Jacinto Godinho (Grande Prémio Gazeta 2006, atribuído pelos três trabalhos da série “Ei-los que partem – História da Emigração Portuguesa”).

Da equipa militar que durante algum tempo chefiou a RTP, a convite do então presidente, TCor Ramalho Eanes e depois, sucessivamente, tendo como presidentes o TCor Tavares Galhardo e o Cor Manuel Pedroso Marques, fizeram parte, em funções técnicas na Direção Técnica, os seguintes militares de Tm: TCor Engº Tm José Saraiva Mendes, Cap Engº Tm José Manuel Pinto de Castro, Cap Engº Tm João José Simões Roque e Cap Engº Tm José Manuel Canavilhas.

Sinopse:

QUANDO A TROPA MANDOU NA RTP

O único canal existente em Portugal era acusado de ser uma ferramenta ideológica do Regime do Estado Novo. A RTP era uma estação governamentalizada q usava a informação para fins de propaganda e manutenção do regime. No dia 25 de Abril a RTP foi considerada um dos alvos prioritários do Movimento dos Capitães. O sucesso da Revolução passava pela ocupação da RTP. Ao fim de dois dias a força da EPAM que ocupou os estúdios da Emissora Televisiva abandonou as instalações mas os militares não abandonaram a RTP. Entre 1974 e 1977 a RTP foi liderada por militares. Numa primeira fase para controlarem e evitarem a partidarização da emissão e da informação. Depois do 11 de Março foram os próprios militares que, escolhidos pelas várias facções políticas em confronto no PREC, serviram de muleta para os interesses dos vários partidos. A RTP teve, caso raro em Portugal e no mundo, oficiais do exército a exercer funções de Director de Informação. A RTP passou de ser uma televisão ao serviço da ditadura para ser uma televisão ao serviço da Revolução. Por ser o órgão de comunicação social mais importante do país foi nesse período alvo de uma feroz batalha pelo seu controlo administrativo e pelo controlo da informação. A RTP foi o próprio Período Revolucionário em Curso.

Um programa de Jacinto Godinho
Imagem: Carlos Oliveira
Edição: António Nunes

Em tempo:
Se não teve oportunidade de assistir ao programa, pode vê-lo clicando aqui.

A voz e os ouvidos do MFA

Na próxima terça-feira, dia 25 de Abril, pelas 21:00, a RTP irá apresentar um filme-documentário realizado por António Pedro de Vasconcelos sobre a participação das Tm no 25A, em particular o lançamento de um cabo, de forma clandestina, que permitiu ligações telefónicas com o comando do MFA no Regimento de Engenharia da Pontinha e que se constituiu como a primeira operação militar do 25A, já descrita e referida neste blogue (ver aqui).

Trailer:

Em tempo:
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