Heliógrafo português m/938 C comunica a 38,5Km na Alemanha

Através de um post colocado neste blogue no dia 16ABR2013 (ver aqui) foram dados a conhecer alguns elementos relativos ao heliógrafo português modelo 938 e ao modelo italiano da OMI em que se inspirou.

No passado dia 17 de Junho este blogue foi contactado pelo Dr Joerg Noack, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig (radioamador DG2ORK), através da seguinte mensagem:

Exmos. Srs.:

Somos um grupo de entusiastas da Alemanha que promovem Ciências Naturais para alunos do ensino secundário e jovens estudantes.
Entre os nossos projectos actuais conta-se a comunicação óptica com heliógrafos. O objetivo deste projecto é ensinar os princípios físicos e ópticos por detrás desta tecnologia, e mostrar como este tipo de comunicação foi usada no século passado.
Temos vindo a utilizar com sucesso heliógrafos portugueses do tipo 938C (números de série 116, 1489, 2580) em transmissão Morse, numa distância superior a 38,5km.
Sabemos, através do V/ site, que o modelo 938C é baseado num heliógrafo italiano da OMI, e que foi fabricado na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, entre 1920 e 1940.
Estamos à procura de outras informações sobre a história do heliógrafo 938C, e ficariamos muito gratos por qualquer ajuda que nos possa dispensar nesse sentido, nomeadamente no que diz respeito a manuais, planos de construção, informações sobre a Fábrica de Braço de Prata, e uso de heliógrafos no Exército Português.

Se fosse possível, seria mais fácil para nós comunicar em Inglês.
Obrigado desde já pela V/ atenção.
C/ melhores cumprimentos,
Jörg Noack

Heliógrafo português m/938C utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo português m/938C utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo italiano OMI utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo italiano OMI utilizado (foto Dr Jörg Noack)

No seguimento da nossa pronta resposta, o Dr Noack enviou-nos amavelmente logo no dia seguinte mais a seguinte mensagem, dando conta do êxito alcançado por ele e pelo Dr. Karsten Hansky (DL3HRT) numa transmissão por Morse visual entre um modelo português (m/938c) e o heliógrafo OMI em que o nosso se baseou, efectuada nesse mesmo dia entre Seitz e Leipzig, na incrível distância de 38,5 Km:

Dear José Manuel Canavilhas,

Thank you very much for your friendly reply. I did not expect any feedback that fast!
I have to admit, that I do not speake any Portuguese. So I will forward your compliments to my colleague, who did the translation🙂
Please let me introduce Dr. Karsten Hansky (DL3HRT). He is the driving force behind the heliograph project. Karsten, like me, is a radio amateur interested in everything connected to light.
We did know, that the 938C was made for just 4km. However, Karsten is a serious scientist and a very curious mind. After some calculation he convinced me to try to heliograph between Zeitz and Leipzig over the distance of 38,5km. So we did it – and to our big surprise, it worked! I could even see the signal from Karsten’s 938C with naked eye.
Bright sunlight is not very common in our area, so we had to wait for this moment for many weeks.
However, we did it again today. Karsten operated an italian heliograph from OMI at a location above the city of Zeitz. I used a 938C at the roof of your institute in Leipzig. The distance was about 38,5km.
It is unbelievable, how far heliograph communication with these small mirrors works. The alignment of the heliographs over this distance is the most crucial step and requires a lot of adjustment. Fortunately, the OMI heliograph has a build in magnifying telescope that helps a lot.

(Muito obrigado pela sua resposta amigável. Eu não esperava um feedback tão rápido!
Eu tenho que admitir que eu não falo Português. Por isso vou encaminhar os seus elogios ao meu colega que fez a tradução🙂
Por favor, deixe-me apresentar o Dr. Karsten Hansky (DL3HRT). Ele é a força motriz por trás do projeto heliógrafo. Karsten, como eu, é um radioamador interessado em tudo relacionado com a luz.
Nós sabemos que o 938C foi feito para apenas 4 km. No entanto, Karsten é um cientista sério e uma mente muito curiosa. Depois de alguns cálculos, ele convenceu-me a tentar heliografar entre Zeitz e Leipzig numa distância de 38,5km. Então nós fizemos isso – e para nossa grande surpresa, funcionou! Eu pude até ver o sinal do 938C do Karsten a olho nu.
A luz solar brilhante não é muito comum na nossa área, por isso tivemos que esperar por esse momento por muitas semanas.
No entanto, nós fizemos isso novamente hoje. Karsten operava um heliógrafo italiano da OMI num local acima da cidade de Zeitz. Eu usei um 938C no telhado do nosso instituto em Leipzig. A distância era de cerca de 38,5km.
É inacreditável quão longe a comunicação heliográfica com estes pequenos espelhos funciona. O alinhamento dos heliógrafos para estas distâncias é o passo mais importante e requer um grande ajustamento. Felizmente o heliograph OMI tem incluída ampliação telescópica, o que ajuda muito.)

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O heliógrafo OMI visto a olho nu

O heliógrafo OMI visto a olho nu (foto Dr Jörg Noack)

Além desta informação e destas imagens, o Dr Noack enviou-nos também um ficheiro em que se pode ver a transmissão efectuada pelo heliógrafo português (e também do OMI). Infelizmente, o alojamento deste blogue (gratuito) não nos permite colocar aqui videos, mas os nossos leitores poderão ver essas imagens acedendo a este endereço.
No caso do m/938C, os sinais são visíveis contra o fundo mais escuro do edifício do Instituto de Leipzig, situado um pouco à esquerda da mais alta chaminé. No caso do OMI, este situa-se na linha do horizonte, um pouco à esquerda da torre metálica, tal como também é visível na imagem acima, onde está assinalado por um circulo.

Uma ultima nota, para chamar a atenção desta louvável iniciativa de explorar física e empiricamente este antigo sistema óptico de comunicações, e, sobretudo, de procurar envolver jovens alemães no entusiasmo pelo conhecimento destes ainda hoje úteis equipamentos. Algo que deveríamos procurar fazer em Portugal, com este e outros sistemas visuais, que foram da maior importância no nosso país.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 5ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

5. 2 As comunicações na Divisão de Instrução – Instrução

Foi a instrução nº12 da 1ª Repartição do Quartel General que estabeleceu a instrução a ministrar às secções de Telegrafistas de T.S.F. e de Campanha T.P.F. durante as manobras.

– Secção TSF
A Secção de TSF, durante todo o período dos exercícios, dedicou-se à tarefa de instalar a estação de TSF Marconi (MM1), assim como à prática de recepção pelo ouvido, à prática dos motores TSF e ao estabelecimento de comunicações com Lisboa (MM2) e com o Alfeite (Marinha).

– Secção TPF
A instrução em Tancos para os telegrafistas de campanha abrangeu as comunicações telegráficas e telefônicas, assim como os heliógrafos e as bandeiras.
Vejamos alguns dos materiais que foram usados:

Telefones
Foram usados telefones e a central telefônica Ericson e também os telefones de Cavalaria.

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Heliógrafos
Foi usado na instrução o heliógrafos de Mance.

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Heliógrafos e lanterna de Mangin

E também o heliógrafo e lanterna de Mangin.

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Bandeiras
Também foi ministrada instrução de bandeiras, que podiam utilizar o código Morse ou o alfabeto homográfico.

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Bandeiras e códigos
No código Morse, com apenas uma bandeira, havia três posições – posição normal, posição de ponto e posição de traço.

 

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– Esquadras de construção
A partir de 5 de Junho iniciou-se a instrução programada para as diversas especialidades da Secção de TPF e assim, no período de 5 de Junho a 15 de Julho, as esquadras de construção praticaram:
Construção de linhas permanentes
Construção de linhas de cabo
Construção de linhas de fio

 

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– Serviço Ótico
As esquadras de serviço ótico praticaram a utilização de:
Heliógrafo de Mance na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Conceição e de Mangin na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Barquinha, assim como o uso de bandeiras na ligação Casal do Rei com Cascalheira do Freixo.

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11 ligação por bandeiras

– Tarefas dos telegrafistas
Durante todo o período de manobras, as tarefas dos telegrafistas consistiam em treinar os procedimentos telegráficos, assegurando o funcionamento das estações, garantirem o apoio e as ligações entre as unidades e assegurarem as ligações durante as marchas.

 

 

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– Mapa
No conjunto de exercícios do período de instrução pode destacar-se o exercício de grandes destacamentos mistos realizado em 24 e 25 de Julho no planalto da Barquinha no qual se confrontavam a 1ª BI (P.V.), na defensiva, e a 2ª BI (P.A.) no ataque. Reparar que o terreno foi organizado para a defensiva, reconhecendo-se as trincheiras.

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– Instalação de tropas e ligações
Neste exercício, a Secção de TPF instalou e explorou a partir do QG as linhas de cabo para a estação telegráfica da Barquinha, para a Reserva Geral e para o Alto das Éguas e uma ligação ótica também para o Alto das Éguas. Os telefonistas de infantaria instalaram a rede telefónica de serviço ao exercício, assim como uma ligação ótica.
Na imagem apresentam-se as ligações na zona da ação da 1ª BI, que estava na defensiva.

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– Esquema do exercício
No seu conjunto, o exercício pode ser representado como se vê na imagem.

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– Ação sobre Atalaia
Por sua vez, o exercício de Divisão (o maior exercício efetuado durante o período de manobras) foi realizado de 29 a 1 de agosto, concretizando-se através de uma ação sobra a Atalaia. Neste exercício, a Secção TPF teve como missão garantir as ligações durante as marchas, utilizando as estações civis e montando as linhas necessárias para acompanhar as movimentações.

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Os trabalhos efetuados nas manobras de Tancos pelas tropas de transmissões situaram-se em bom nível e apoiaram com bastante eficácia as unidades operacionais, acompanhando as suas movimentações. Testaram os seus conhecimentos e os materiais utilizados. Para aqueles que vieram a integrar o C.E.P., como por exemplo o seu responsável máximo, capitão Soares Branco, foi uma experiência muito útil.

 

6. Balanço dos exercícios militares

Conclusões
Como balanço deste nosso estudo, como dissemos ainda incompleto, escolhemos alguns trechos de relatórios de unidades participantes:
“A intensidade da instrução em Tancos levou-nos a marchas longas bastante penosas, debaixo dum calor ardentíssimo e perfeitamente cercados de nuvens de pó, pois nem assim os nossos soldados deixaram de cumprir com o seu dever” (Coronel Barreira, 2º Regimento da 1ª BI);
“Nas localidades, nenhumas notas discordantes se deram, havendo localidades em que todos, à porfia, primavam em atenções para oficiais e praças que, pela sua conduta irrepreensível, souberam corresponder ao acolhimento amigável que lhes era feito” (Coronel Fragoso, 1ª Brigada).
“Como consequência da falta de educação militar, deriva-se naturalmente a ausência de um espírito disciplinado, sofredor e obediente (…) Tive ocasião de notar que nos diferentes exercícios executados, não havia aquele empenho e aquela coesão e decisão indispensáveis para justificar a transição para as diversas fases dos combates” (Tenente-coronel Veiga, 1º Grupo de Metralhadoras).
“Praticaram-se todos os sistemas de ligações – cadeias de homens, ordenanças, sinais óticos, telefone e telégrafo, sendo digno de registo o desembaraço das tropas de engenharia na montagem e desmontagem dos dois últimos sistemas e na receção e transmissão dos despachos.
Os diversos meios de ligação, mais na ofensiva do que na defensiva, em que aquelas se tornam mais fáceis e práticos, nem sempre foram utilizados conforme as reservas disponíveis, situação tática, natureza do terreno e rede de comunicações, e daí as ordens, informações e notícias chegarem muitas vezes tardiamente, perdendo todo o valor” (Coronel Almeida Fragoso, comandante da 2ª BI).

Em suma, podemos concluir que as manobras de 1916 em Tancos, com a concentração de uma Divisão a duas Brigadas, foi uma decisão politicamente necessária, mas militarmente questionável. Os temas estavam desadequados em relação ao que se praticava quase desde o início da Guerra, na Frente Ocidental. As manobras testaram as capacidades militares do Exército, mas não serviram de grande lição.

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Eleições para a Presidência da República (1976)

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Cumprem-se agora 40 anos da primeira eleição por sufrágio universal e livre do Presidente da República, ocorrida em 27 de Junho de 1976.

Tal como para a eleição da Assembleia da República, dois meses antes, o Ministério da Administração Interna (MAI) solicitou ao Exército a montagem de um sistema de transmissão e de escrutínio provisório dos resultados eleitorais. E de novo essa missão foi atribuída à Direcção da Arma de Transmissões, sendo a transmissão assegurada pela rede do Serviço de Telecomunicações Militares e o escrutínio efectuado na Escola Prática de Transmissões.

O sistema foi semelhante ao implementado para o acto eleitoral anterior (ver aqui), tendo sido igualmente coordenado pelo Tenente Coronel Engº Tm José Maria Marques. As operações de escrutínio foram novamente asseguradas pelo Capitão Engº Tm José Manuel Pinto de Castro, com recurso à calculadora HP 9810 e respectivos acessórios, em especial o plotter para  impressão de gráficos.

IMG_3081A experiência anterior e o facto de haver apenas quatro candidatos facilitou a programação da calculadora e a obtenção de resultados com maior celeridade. As mais de quatro mil mensagens recebidas de todas as capitais de distrito foram devidamente processadas e os resultados disponibilizados ao STAPE.

As duas imagens que se seguem constituem testemunho do trabalho efectuado: a primeira do impresso próprio manuscrito no Governo Civil pelo Oficial Delegado da Comissão Nacional de Eleições (em Lisboa eram entregues directamente na Escola Prática de Transmissões) e a segunda do gráfico regularmente efectuado pelo plotter.

PR 76 PSI 001 PR 76 001O sistema principal, da responsabilidade do STAPE/MAI, foi também semelhante ao de Abril, com apenas uma diferença: pela primeira vez o escrutínio não foi efectuado por uma empresa privada, tendo dessa tarefa sido incumbido o Centro de Informática do Ministério da Justiça. Paralelamente, quase em simultâneo, o apuramento dos resultados foi também efectuado pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Serviço Mecanográfico do Exército.

As eleições para a Assembleia da República (1976)

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Em 25 de Abril de 1976 realizaram-se as primeiras eleições para a Assembleia da República, criada pela Constituição da República Portuguesa, que fora aprovada no dia 2 de Abril de 1976.

Devido ao facto de existir desconfiança de alguns partidos políticos quanto à credibilidade da transmissão e do escrutínio provisório dos resultados eleitorais através de meios exclusivamente civis, o Ministério da Administração Interna (MAI) solicitou ao Exército a implementação de um sistema alternativo utilizando equipamentos e redes militares.

De forma sucinta descrevem-se os dois sistemas que foram instalados para a transmissão  e escrutínio provisório dos resultados eleitorais.

1. Sistema militar, da responsabilidade da Direcção da Arma de Transmissões (Exército)

Tal como em 1975, o MAI solicitou ao Exército a montagem de um sistema de transmissão dos resultados através da sua rede de telecomunicações privativa, operada pela Arma de Transmissões.  Mas desta vez acrescentou o escrutínio provisório, para precaver a eventual ocorrência de falhas no sistema da responsabilidade do Secretariado Técnico dos Assuntos Políticos e Eleitorais (STAPE).

O sistema implementado pelo Exército foi coordenado pelo Tenente Coronel José Maria Marques e nele estiveram envolvidas várias dezenas de Oficiais, Sargentos  e Praças.

1.1. Transmissão dos resultados

Processou-se de forma semelhante ao ano anterior, ou seja: em cada Governo Civil foi colocado um Oficial das Forças Armadas, Delegado da Comissão Nacional de Eleições, a quem eram entregues cópias dos impressos com os resultados enviados por cada freguesia; depois preenchia uma mensagem militar (para cada freguesia) que era entregue na Unidade militar local; através da rede do Serviço de Telecomunicações Militares, quer por via telegráfica (telex), quer radiotelegráfica (morse), essa mensagem era transmitida para a Escola Prática de Transmissões (EPT), localizada na Rua de Sapadores, em Lisboa; cópias destas mensagens eram entregues em mão ao Centro de Escrutínio Militar, instalado na Sala de Conferências da EPT, e ao Centro de Informática do Ministério da Justiça, por estafeta, em viatura militar.

1.2. Escrutínio

A novidade foi o tratamento dos resultados, efectuado por militares da Escola Prática de Transmissões.

Foi utilizada uma calculadora HP 9810 que foi programada e operada pelo Capitão Engº Tm José Manuel Pinto de Castro. Recebidos os dados do Centro de Mensagens eram gravados e processados, sendo os resultados impressos num plotter próprio (para gráficos) e numa máquina de escrever.

IMG_3081A programação da calculadora foi complexa e lenta, tanto mais que os partidos concorrentes às eleições eram muitos, variáveis de distrito para distrito, e havia que ter  em consideração o método de Hondt para distribuição dos deputados por partido e por distrito. O apuramento efectuado pelo STAPE foi mais rápido, como é óbvio, pois utilizava um computador já muito avançado para a época. Mas, embora com algum atraso, foi possível disponibilizar os resultados apurados, que poderiam ter sido utilizados se o sistema civil tivesse falhado.

Infelizmente não foi possível encontrar nenhum mapa ou gráfico elaborado pela calculadora. Mas para memória futura aqui fica um dos vários esquemas efectuados para programação da máquina.

programa HP 001Esquema de sequência de operações para acumulação de dados

Sua Excelência o Chefe do Estado Maior do Exército, General Ramalho Eanes, deslocou-se  à Escola Prática de Transmissões na noite do dia 25, como documentam estas duas fotografias.
146a-Eleições 76 JMM 146b-Eleições 76 JPC

2. Sistema civil, da responsabilidade do STAPE/MAI

2.1. Transmissão dos resultados

Foi igual ao método utilizado um ano antes para a eleição da Assembleia Constituinte, ou seja: Freguesia-Governo Civil por telefone, e Governo Civil-Lisboa por telex.

2.2. Escrutínio

O Centro de Escrutínio foi de novo instalado na Fundação Gulbenkian, sendo desta vez o processamento dos resultados efectuado pela empresa NORMA.

Em paralelo, as contas foram também efectuadas pelo Centro de Informática do Ministério da Justiça (CIMJ), tendo em vista a utilização dos meios informáticos do Estado em futuras eleições.

Havia ainda um outro sistema de reserva, do Instituto Nacional de Estatística, que só entraria em operação duas horas após a paralisação dos sistemas da NORMA e do CIMJ, o que não viria a suceder.

42 anos de Escola Prática – Honra e valor – Um livro notável

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:
Como não tive possibilidade de estar presente nas comemorações do dia da Arma deste ano, em que foi apresentado o livro “42 anos e Escola Prática de Transmissões Honra e Valor”, só tive oportunidade de ler o livro a partir do final semana passada, graças à gentil oferta do Coronel Ribeiro, atual Comandante do Regimento de Transmissões no Porto, que muito agradeço.
Trata-se de uma obra notável, que considero de referência na área da historiografia das Transmissões militares e que jugo da maior importância para a Arma de Transmissões pela potencialidades que revela e perspetivas que suscita.
EPT livroEm primeiro lugar a obra tem uma conceção profundamente original e de grande oportunidade, dado que, em 2013, as Escolas Práticas das Armas foram abolidas e concentradas em Mafra na Escola das Armas.
Para quem esperava uma História da EPT (Porto) o título “42 anos de Escola Prática” é enigmático, pois a EPT (Porto) começou em 1977 e acabou em 1913, apenas teve 36 anos de vida. O livro porém inclui no conceito de Escola Prática de Transmissões as duas unidades que tiveram esse nome, primeiro em Lisboa de 1971 a 1977 e depois no Porto de 1977 a 2013. Ou seja a Escola Prática começou em Lisboa e acabou no Porto.
Contudo, vai mais longe, incluindo os antecedentes da Escola Prática, quando as suas funções eram desempenhadas pela Engenharia em Tancos, na EPE; e uma cuidada referência aos antecedentes históricos da valências de Instrução, Transmissões Permanentes, Transmissões de Campanha e Investigação e Desenvolvimento que a acompanharam a Escola Prática durante as quatro décadas de existência
Uma obra monumental e de grande qualidade. Não é, nem pretende ser, uma história completa da Arma, pois não refere nem a componente Logística (hoje retirada da Arma), nem a parte respeitante à Direção da Arma, que nunca estiveram presentes na Escola Prática.
Estão assim de parabéns os grandes responsáveis por esta iniciativa: o MGen Arnaut Moreira, que teve a ideia de se publicar uma obra condigna da Escola Prática que desafiou a pessoa certa para a concretizar: o Coronel Rodrigues que se empenhou decididamente nesta gigantesca tarefa e conseguiu congregar os esforços de uma vasta equipa de militares da própria unidade e obter a contribuição de antigos comandantes e outras figuras altamente prestigiadas da Arma e do Exército como o General Garcia dos Santos e o Ten Gen Xavier Matias.
É um livro imperdível (com uma Bibliografia impressionante) que é indispensável ler.
As maiores virtudes que lhe encontro são:

• Constituir uma contribuição relevante para a historiografia das Transmissões Militares e da preservação da memória sobretudo da Escola Prática de Transmissões (Porto) que há muito o merecia, pelo importante papel que desempenhou.

• A qualidade do livro, feito basicamente por uma vasta equipe de pessoal militar em serviço ativo, vem demonstrar que a historiografia das Transmissões também é uma atividade que pode ser feita por jovens ao serviço e não está necessariamente condenada a ser reservada a pessoal na reserva ou na reforma.

Julgo que este notável esforço constitui um forte exemplo de coesão e capacidade da Arma que terá continuidade no futuro. Entre outros, a leitura do depoimento do MGen Dario Carreira, como antigo Comandante, a obra já realizada pelo cor Ribeiro na historiografia das Transmissões (os “30 anos do RTm” os“42 anos de Escola Prática” e a “CTm 5” que espero venha a ser finalmente publicada) dão fortes garantias de que a ideia de que vale a pena recordar e tentar perceber o passado, não ficará por aqui.

Inauguração de duas paradas na CTm da BrigMec

No passado dia 15 de junho de 2016, realizou-se na Companhia de Transmissões (CTm) da Brigada Mecanizada (BrigMec) em Santa Margarida a cerimónia de inauguração das paradas Major Tm Pedro Rocha Pena Madeira e Sargento-Ajudante Tm Jorge Alberto de Jesus Alves.
Após apresentação das Honras Militares ao Major-General Pedro Jorge Pereira de Melo, presidente do Conselho da Arma de Transmissões, que presidiu à cerimónia, o Comandante da CTm da BrigMec em suplência, Ten Tm (Engº) José João Pereira Rocha Cordeiro, proferiu uma alocução alusiva ao evento, seguida da inauguração da Parada Maj Tm Pena Madeira, atualmente com o posto de Major-General, que iniciou a sua carreira militar na Escola Prática de Transmissões (EPT) e que, enquanto Comandante da Companhia de Transmissões da 1ª Brigada Mista Independente (1ª BMI), em 1978, foi o responsável pelo levantamento da Companhia e de todo o processo de normalização e atualização dos materiais de transmissões da 1ª BMI.
Logo de seguida foi inaugurada a Parada Sargento-Ajudante Tm Jorge Alberto de Jesus Alves, hoje com o posto de Sargento-Mor, que enquanto Sargento-Ajudante, foi o primeiro Sargento Adjunto do primeiro Comandante da Companhia.
Seguiu-se uma visita ao Museu da Companhia de Transmissões, culminando a cerimónia com um almoço volante oferecido aos convidados e onde não faltaram o tradicional grito da Arma de Transmissões e o corte do bolo comemorativo.
Deste modo a Companhia de Transmissões e a Brigada Mecanizada perpetuam a memória dos que engrandeceram a sua história assim como passaram a mensagem aos militares mais novos sobre a importância da manutenção dessa memória.
Nota: O MGen Pena Madeira é um dos membros da CHT.

    

    

    

Fonte: Página da BrigMec no site do Exército

As Tm no nº 1 do Jornal do Exército (JAN1960)

No dia 7 de Dezembro de 1959, reunidos numa dependência do Colégio Militar, o Brigadeiro David dos Santos (futuro 1º director do JE), os Majores Balula Cid (professor de Desenho do CM, caricaturista e futuro 1º chefe de redação), Pinto Coelho, Eduardo Fernandes e Tavares Figueiredo e o Capitão José Marques, redigiram uma proposta de criação do Jornal do Exército.

1960 –  A 11 de Janeiro é publicado um despacho do Ministro do Exército, Brigadeiro Afonso de Almeida Fernandes – Aprovo com a maior satisfação a presente proposta que vem ao encontro de uma aspiração que há muito acalentámos e que as circunstâncias parecem tornar agora oportuna. Conviria que o primeiro número do Jornal saísse ainda no corrente mês, o que julgo possível, em face do trabalho preliminar já realizado. O Jornal intitular-se-á Jornal do Exército (…).

– De facto, ainda em Janeiro, é feita a primeira tiragem do JE, com 20 mil exemplares.

– A 26 de Janeiro o Jornal do Exército abandona o CM e passa a ocupar o 2.º andar do N.º 61 da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. 

– A 14 de Julho, por Portaria do Ministério do Exército, é criado formalmente o Jornal do Exército, definido como: órgão de informação, cultura e recreio do Exército Português.

– No seu primeiro numero, na rubrica Noticiário Militar (pág 10), foi inserida uma interessante notícia sobre o Batalhão de Telegrafistas que pode ser consultada na seguinte imagem (clicar sucessivamente, 3 vezes, se pretender aumentar ao máximo):
Ed 1 de 1960 JORNAL DO EXÉRCITO - BT

As Eleições para a Assembleia Constituinte (1975) – Parte 2

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

NÚMEROS E CURIOSIDADES

1. As eleições para “Deputados à Assembleia Constituinte” deveriam realizar-se até 31 de Março de 1975 (nº 4 do Artº 4º da Lei nº 3/74, de 14 de Maio). No entanto, a instabilidade no País, motivada por complexas lutas políticas em que alguns advogavam a primazia de eleições para a Presidência da República, determinou que, em Novembro, tivessem sido marcadas apenas para 12 de Abril. Mas, na sequência dos acontecimentos de 11 de Março de 75, estiveram em risco por poderem vir a constituir um travão para “o processo revolucionário em curso”. Acabariam por ser re-marcadas para o dia 25 de Abril.

2. A fase de preparação do sistema de transmissão foi algo atribulada pois muitas juntas de freguesias não dispunham de telefone, que era indispensável para comunicar os resultados finais ao Governo Civil e, também, para possibilitar os contactos com o STAP, a Comissão Nacional de Eleições e o Centro de Escrutínio. Nas primeiras reuniões preparatórias os CTT/TLP informaram que não seria possível instalar telefones em várias freguesias, especialmente no interior do País, visto não haver vagas nas centrais telefónicas da zona respectiva. O STAP não aceitou a “desculpa” dos CTT/TLP, tendo-lhes sido dito que teriam que encontrar uma maneira de resolver o problema. Na reunião seguinte surgiu a solução: uns dias antes do acto eleitoral os telefones de alguns assinantes ficariam temporariamente “avariados” e as linhas respectivas seriam encaminhadas para as juntas de freguesia. E assim foi!

3. O papel utilizado no processo eleitoral foi oferecido pelo Governo da Suécia (sendo primeiro-ministro Olof Palme) e transportado num navio da Alemanha, de Gotemburgo para Lisboa (cais de Xabregas). Chegaram 166 paletes, contendo cerca de 90 000 Kg de papel, dos quais 40 000 Kg foram utilizados no fabrico de mais de 8 650 000 boletins de voto e as restantes 50 toneladas em cartazes, folhetos, “posters”, cadernos e impressos vários, etc. Esta enorme quantidade de papel foi devidamente armazenada nas instalações da Manutenção Militar, de onde foi saindo à medida das necessidades das tipografias.

4. Só com muita dificuldade é que o MAI conseguiu que as Direcções Gerais de Impostos e das Alfândegas isentassem o pagamento dos impostos de transações e alfandegários sobre o papel… oferecido!

5. O computador utilizado para o escrutínio dos votos (GE MARK I) estava instalado algures em Lisboa e era constituído por dois processadores interligados por dois controladores. Um dos processadores era um CPU de 16 K com ciclo de memória de 6 microssegundos; o outro executava a transmissão de dados e controlava os terminais remotos (até 40); no Centro de Escrutínio (na Fundação Gulbenkian) foram instalados apenas 30. Utilizava as linguagens de programação BASIC, FORTRAN e ALGOL e a unidade de disco tinha 18 MB de capacidade.

tsharing6. O custo total do processo foi de 23 300 contos, que hoje equivalem a 3,2 milhões de euros a preços correntes. A maior parte deste custo (cerca de 20 mil contos) diz respeito às operações logísticas (recenseamento, documentação, urnas, câmaras de voto, computador, CTT/TLP, tipografias, material de escritório, transportes, etc). Os custos com o pessoal do STAP foram apenas de 1 500 contos. Para comparação refere-se que os partidos gastaram 31 mil contos na propaganda eleitoral!

7.  Discriminação dos custos das principais operações logísticas:

– 13 800 urnas, com o peso total de 55 toneladas: 2 260 contos;

– 13 136 câmaras de voto, 394 toneladas: 1 200 contos;

– 8 657 700 boletins de voto, 35 toneladas: 415 contos;

– Recenseamento e elaboração da documentação respectiva: 9 700 contos;

– Time-Sharing (escrutínio): 1 300 contos;

– CTT/TLP: 1 400 contos.

8. Grande parte das despesas de todo o processo eleitoral foi paga com dinheiro encontrado no cofre do gabinete do ex-director da PIDE/DGS.

9. Apesar de várias vezes instruídos sobre o modo de enviar os resultados apurados em cada freguesia, nem todos os Presidentes de Junta agiram como determinado. O ineditismo do acto, a festa que se lhe seguiu e até razões pessoais (por exemplo o facto de o seu partido não ter obtido um bom resultado) muito contribuíram para os atrasos verificados. Houve quem fosse aos Municípios para entregar os resultados e outros… esqueceram-se! De tal modo que a meio da tarde do dia 26 ainda faltava receber os resultados de 154 freguesias, sendo 2/3 dos distritos de Braga e Vila Real.

ResultadosResultados globais às 16:25 de 26 de Abril

10. Um dos casos caricatos passou-se com uma freguesia não muito longe de Lisboa, que era a única que faltava, no dia 26,  para concluir o escrutínio do Distrito em questão. O respectivo Presidente de Junta nunca respondeu aos sucessivos telefonemas, mas a meio da tarde acabou por aparecer no Governo Civil para entregar pessoalmente o impresso com o resultado já apurado na noite anterior. Desculpou-se dizendo que tinha ido celebrar e depois… adormeceu!  E quando acordou dirigiu-se a galope à capital do Distrito, montado num cavalo!

11. O principal responsável pela “máquina logística” foi o Comandante Camões Godinho, o qual, na madrugada do dia 26, orgulhosamente declarava que o STAP estava pronto para organizar eleições em qualquer parte do mundo, até na China!

12. Todos os principais responsáveis pelas tarefas eleitorais eram Oficiais das Forças Armadas:

Ministro da Administração Interna: Tenente-coronel Costa Braz

Director do STAP: Comandante Vasco Almeida e Costa

Responsável pela Logística: Comandante Camões Godinho

Delegado do Exército: Major Engº de Transmissões José Maria Marques

Adjuntos do Exército: Tenentes Engº de Transmissões Edorindo Ferreira, Paulo Melo e Azevedo, João Oliveira Ferreira e António Sousa Maia.

Entre outros, eram técnicos do STAP o Dr Jorge Miguéis (mais tarde responsável por diversos processos eleitorais) e o futuro Dr e Ministro Jorge Coelho.

13. Nos primeiros dias de Maio “a vitória do STAP”, e de todos os que contribuiram para o sucesso do primeiro processo eleitoral em liberdade, foi devidamente celebrada num almoço no Guincho. Cerca de uma semana depois, outras actividades mais prosaicas esperavam o autor deste escrito e os seus camaradas Tenentes no Regimento de Transmissões, no Porto.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 4ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

5. As comunicações na Divisão de Instrução – Preparação

5.1 Organização e tarefas
As comunicações nas manobras da Divisão de Instrução em Tancos foram asseguradas pelos militares da Companhia de Telegrafistas por Fio (TPF) e da Companhia de Telegrafistas sem Fio (TSF) do Batalhão de Telegrafistas de Campanha e pelos militares da Companhia de Telegrafistas de Praça.

A Divisão tinha, ao nível do Quartel-General, o Chefe do Serviço Telegráfico, Cap. Soares Branco, nomeado em Fevereiro de 1916.
E como unidades de transmissões das tropas divisionárias:
Uma Secção de Telegrafistas por Fios (TPF)
Uma Secção de Telegrafistas sem Fios (TSF).
Os seus efetivos eram os seguintes:
Secção de TPF – 2 oficiais, 12 sargentos e 92 cabos e soldados;

1 AA secção teleg TPF digitalizado 001(mobilizada)
Secção de TSF (operando apenas um equipamento) – 2 oficiais, 3 sargentos e 26 cabos e soldados.

2 AAsecção telegr TSF digitalizado 001(mobilizada)
Ao nível das unidades operacionais e de apoio existiam como elementos de ligação: Telefonistas, Telegrafistas, Sinaleiros e Estafetas, sendo estes ciclistas ou motociclistas.

Quadro responsáveis pelas comunicações DI mobilizada 001

 

O total do efetivo de comunicações na Divisão de Instrução foi de 824, entre oficiais, sargentos, cabos e soldados.

Vejamos agora o mapa de uma parte da zona onde se realizaram as manobras e se instalou o Comando da Divisão e onde se distinguem as localizações do hospital, da zona de Aringa e do quartel-general.

AA e JCD, As comunicações na Divisão de Instrução V1
Os exercícios utilizaram as estações da rede civil de telégrafos existentes na região.

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As estações telegráficas militares estavam ligadas à estação civil mais próxima e era através da rede civil que se ligavam entre si. Notar que a estação militar de Tancos se ligava à estação civil da Barquinha.

Imagem16

 

5.2-Instrução de comunicações – trabalhos prévios

O Quartel-General da Divisão instalou-se em Tancos em 5 de Maio de 1916.
As ligações permanentes existentes eram manifestamente insuficientes, pelo que antes de se iniciarem as manobras agendados para 6 de Junho foi necessário preparar as ligações entre Tancos e Lisboa e entre as forças estacionadas, a fim de garantir o êxito das manobras.
A estação militar de Tancos encontrava-se na Escola de Aplicação de Engenharia (EAE) e ligava-se à estação da Barquinha de dia, e de noite às estações militares de Santarém e Abrantes.
Dado o aumento de tráfego previsto a Direção dos Correios e Telégrafos (DGCT) deu ordens para que as estações civis da Barquinha e Santarém passassem a serviço permanente e que a de Santarém centralizasse o tráfego entre Tancos e Lisboa.
Para ultrapassar as dificuldades foram efetuadas as seguintes ligações:
• Ligação direta a Lisboa por Aringa-Entroncamento-Linha 24 (civil)- Lisboa
• Ligação a Lisboa pela linha Tancos-Barquinha-Linha303-Santarém-Lisboa
• Estabelecimento de uma linha telefónica Tancos–Entroncamento para a Direção de Etapas, com estação intermédia na Barquinha;
• Ligações aos comandos de forças que viriam a constituir-se: Brigadas de Infantaria e Comandos da Artilharia e Cavalaria;
• Linha telegráfica e telefónica para o Casal do Relvão, na zona dos fogos de guerra.
As construções efetuaram-se a uma velocidade de 1 a 2km por dia, devido a terem que ser substituídos quase todos os postes do traçado militar.
A 12 de junho estes trabalhos estavam concluídos.

Para além das linhas, também foram montadas algumas estações, que recebiam, transmitiam e distribuíam o tráfego de comunicações proveniente e destinado às unidades e órgãos da Divisão.
A estação do Quartel-General da Divisão, que era uma estação telegráfica e telefónica, tinha ligações telegráficas a Lisboa (via Entroncamento) e ao casal do Relvão (fogos de guerra); e tinha ligações telefónicas a:
• Estação Militar de Tancos
• 1ª BI (nas casas da Cavalaria)
• Comando Artilharia (no Casal do Pote)
• 2ª B.I. (na entrada da carreira de tiro de Constância)
• Fogos de Guerra (no Casal do Relvão)
• Regimento Cavalaria (Fonte Santa)
• Estação da Barquinha
• Direção de Etapas (Entroncamento)
• Chefe do Estado Maior (no Comando)
• Comando Engenharia e Serviço Telegráfico (na secretaria do Comando)

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A estação militar de Tancos, já existente, tinha uma ligação telegráfica direta à estação telegráfica civil da Barquinha e tinha as seguintes ligações telefónicas:
• Estação do Quartel-General
• Batalhão de Pontoneiros (no Quartel do Batalhão)
• Companhia de Sapadores Mineiros e Ambulância nº2 (na Feiteira)
• Serviços Administrativos (no refeitório)
• Escola de Aplicação de Engenharia
• Ambulância nº1 (Hospital Militar)

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A estação telefónica dupla na Barquinha (civil e militar) estava equipada com um comutador suíço, que possibilitava as mudanças de linhas.

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As ligações telegráficas e telefónicas montadas para a Divisão de Instrução ficaram asseguradas como consta do esquema elaborado na época.

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Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 3ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

4. Breve História das Transmissões no Exército Português até 1916

A primeira unidade militar de Transmissões em Portugal foi o Corpo Telegráfico, criado em 1810, pioneiro das telecomunicações militares e civis em Portugal.

regulamento de 1810 corpo telegráfico 80X80

Introduziu no país dois sistemas que revolucionaram as telecomunicações da época no país.Em primeiro lugar, a telegrafia ótica, a qual funcionou com base no telégrafo de ponteiro

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e no telégrafo de postigos

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inventados por Francisco Ciera, que estiveram presentes na defesa das Linhas de Torres, e cuja utilização se prolongou até 1855 na rede nacional, altura em que foi substituída pela telegrafia elétrica.

Em segundo lugar, a telegrafia elétrica, que foi operada pelo Corpo Telegráfico de 1855 a 1864, e posta ao serviço do público nacional e internacional. Começou por utilizar telégrafos Breguet

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Breguet-Telegraph-Transmitt

que foram depois substituídos por mesas de telégrafo Morse.

33-Telég Morse campanha
Em 1864 o Corpo Telegráfico foi extinto. O seu pessoal foi integrado numa organização civil do Ministério das Obras Públicas, a Direção Geral dos Telégrafos e Faróis.
A estratégia para a reintrodução das Transmissões no Exército deveu-se a Fontes Pereira de Melo e traduziu-se na inauguração, em 17 de setembro de 1873, da 1ª rede telegráfica militar com 13 estações, e em 1884, com a criação da Companhia de Telegrafistas do Regimento de Engenharia.

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Em 1901, por decreto de 7 de Dezembro, foi criada a Companhia de Telegrafistas de Praça.
Só com a reorganização do Exército de 1911 é que veio a ser criado, em 1913, o Batalhão de Telegrafistas de Campanha com uma Companhia de Telegrafistas por Fio (TPF) e uma Companhia de Telegrafistas sem Fio (TSF).
Voltando ao século XIX, devemos acrescentar que se assistiu à expansão da rede telefónica, que no início usou o telefone de mesa de Bramão concebido em 1879 por Cristiano Augusto Bramão (oficial do Corpo Telegráfico)

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e que é considerado uma referência a nível internacional, porquanto é o primeiro aparelho do mundo que apresenta, reunidos numa única peça, o auscultador e o microfone.
As redes de comunicações conheceram uma crescente expansão entre os finais do século XIX e início do século XX, como mostram os mapas das redes existentes nesta época:
Rede de pombais, que se manteve até à década de 30 do século XX;

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Rede de heliógrafos, que ainda fazia serviço em 1933.

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A rede telegráfica, que conheceu uma enorme expansão em todo o território nacional, era o principal meio de comunicação quando a Divisão de Instrução se concentrou em Tancos.

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Em relação à telegrafia sem fios (TSF), o Exército realizou em 1901 as primeiras experiências de rádio com material encomendado ao fabricante francês Ducretet, que era constituído por um emissor e por um recetor Ducretet.

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Em 1909 foram adquiridas 4 estações de telegrafia elétrica Telefunken, sendo duas fixas e duas de campanha hipomóveis (MT1 e MT2).

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De 1915 a 1917 foram adquiridas 11 estações Marconi – 5 a dorso, 3 hipomóveis e 3 automóveis.

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Em Abril de 1916 havia no Batalhão de Telegrafistas de Campanha quatro estações de TSF, pois algumas das adquiridas tinham sido mobilizadas com as expedições para Angola e Moçambique.
Eram elas:
Em serviço combinado com a Divisão Naval havia uma estação Telefunken (MT1) em S. Julião da Barra e outra (MT2) em Cascais.
Para mobilizar com a Divisão a constituir, existiam duas estações Marconi (uma MM1 e uma outra MM2), ambas no Batalhão de Telegrafistas de Campanha.

A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães

Convite_DescolonizacaoNo passado dia 14 de abril teve lugar, no Palácio da Independência, sede da Comissão Portuguesa de História Militar, o lançamento do livro A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães, do Cor Eng Tm Jorge Sales Golias, membro da CHT, com prefácio do Cor Cmd Carlos Matos Gomes, historiador e escritor, e apresentação pelo Cor Art Aniceto Afonso, historiador, também membro e coordenador cientifico da CHT, cuja apresentação pode ser lida no texto abaixo:

Jorge Sales GOLIAS, A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães, Lisboa, Edições Colibri, 2016.

capa(total)***

A DESCOLONIZAÇÃO DA GUINÉ – UM LIVRO DE HISTÓRIA
Aniceto Afonso

“Este livro é uma memória de um ator privilegiado de um processo complexo.

A fonte é o protagonista que aqui está connosco – o Jorge Golias, capitão de Transmissões na época, coronel na situação de reforma hoje.

A época são os anos de 1973 e 1974 e o local é a Guiné-Bissau.

A memória dos protagonistas é uma das principais fontes para o conhecimento da História. Outra, são os documentos. Hoje, quem faz História já não assume qualquer privilégio em relação às fontes. A sua obrigação é estudá-las, criticá-las, no seu conjunto, e concluir segundo a sua convicção. Todas as fontes são legítimas e complementares.

Ora, este livro é um objeto precioso para a História. Ele transmite-nos uma memória, apresenta-nos um depoimento, entrega-nos documentos, lança interrogações, propõe-nos respostas.

Com a sua experiência de vida e com a sua sensibilidade, o Golias traz-nos um suporte essencial para uma visão mais clara de dois anos de complexos acontecimentos que mudaram a trajetória da História de Portugal e do mundo.

Porventura sem ele se aperceber, mas sabendo muito bem o que quer transmitir-nos, o autor dá-nos, com este livro, uma linha interpretativa mais clara e mais lógica desses dois anos decisivos para Portugal, para os países nascidos nesse processo e para um novo acerto do rumo da política mundial.

Mas abordemos a questão por outro prisma. A História pode ser uma luta de ideologias. Mas é, sobretudo, um encontro de interpretações.

Ora, como a História deve ser um processo de demonstrações, um confronto de factos e também uma discussão de argumentos, temos de concluir que a História nunca é definitiva e nunca está encerrada, como o Carlos de Matos Gomes bem notou no início do seu Prefácio.

Visto por este prisma, o livro do Golias assume um ponto de vista. Mas ele não quis dar-nos simplesmente o seu ponto de vista, sem o justificar. Não, o autor confronta os outros protagonistas com o seu próprio papel e de alguma forma os desafia ao debate. Como se lhes perguntasse: Foi ou não foi assim? Querem provas? A minha versão assenta nos documentos da época, na concordância de outros atores, na memória que me resta e que consolidei com a investigação que levei a cabo. Agora, se há discordâncias, só vos resta argumentar com outros factos documentados.

Mas o autor, como espírito livre que é, não escreveu sem refletir.

As lacunas assumidas estão assinaladas. Os confrontos de memória são desafiados. Os outros protagonistas são chamados a depor, a contraditar, a acrescentar os respetivos pontos de vista. O Golias não assume o privilégio da verdade, assume apenas a sua verdade.

Contudo, para nós, como leitores apenas ou como estudiosos atentos, este livro é uma preciosidade – porque revela novos factos (justificados com documentos ou referências), porque reconstrói um ambiente, porque desenha um panorama, porque descreve acontecimentos, porque justifica atitudes, porque, finalmente, explica um processo.

Ora, este processo de descolonização da Guiné-Bissau, que o próprio Golias já tinha abordado em textos anteriores, aparece agora numa dimensão suficiente para transformar o seu livro numa indispensável referência histórica.

Qual é então, a estrutura desta obra?
Os seus dez capítulos estruturam-se em quatro partes:

Primeira, o autor e a sua condição, capítulos 1 a 3 e 10;
Segunda, o ambiente e o seu peso, capítulos 4 e 5;
Terceira, a mudança em torno do 25 de Abril, capítulos 6 a 8;
Quarta, o resultado, ou seja, a descolonização da Guiné-Bissau, capítulo 9.

Uma breve análise de cada uma destas partes.

Nos capítulos 1 a 3 está desenhado o autorretrato do autor, retomado depois, no capítulo 10, para uma pincelada final. O Jorge Golias diz-nos quem é, o que sentiu, o que andou a fazer, o espírito com que encarou as suas atividades, os êxitos e fracassos das suas missões. E não quis, no livro que nos deixa a todos, excluir uma das suas joias pessoais – a surpreendente revista Zoe, do Agrupamento de Transmissões da Guiné, que dirigiu e orientou, antes do 25 de Abril.

Quando se despede dos seus leitores, no capítulo final (“Impressões e emoções à distâncias de 40 anos”) o autor regressa aos nossos dias e o panorama com que se confronta não o conforta, levando-o a encerrar o assunto com “Mas essa é já outra História, que aqui não tem cabimento”. Não tem aqui, neste livro, mas tem continuidade em outras oportunidades, esperamos todos.

A segunda parte, o ambiente e o seu peso, divide-se por dois temas principais – a situação militar e a situação política na Guiné-Bissau.

É um tema penoso, mas oportuno. Os ensaístas da “Vitória traída” continuam por aí, distraídos dos factos, mas atentos na sua convicção. É necessário abaná-los com a realidade, embora sem qualquer esperança de que venham a compreender a sua própria ilusão. Mas nós, que estivemos no terreno, que tivemos de tomar decisões, ficamos mais tranquilos com este quadro que o Golias nos traça.

É um quadro que põe a nu o estertor final dum sistema político, de uma política colonial perdida no tempo, de um regime fora do contexto da sua época.

Por aqui passam temas conhecidos, mas o Golias vê-os a partir do seu interior: “A perda da supremacia aérea”, “O cerco de Guidage”, “A retirada de Guileje”, “O inferno de Gadamael”, ou seja, “A guerra dos 3 G’s”; depois, na análise da situação política, somos confrontados com “A posição do governo português”, “A marca Spínola”, a famosa reunião de comandos de 15 de Maio de 1973, “A partida do centurião”, terminando com “O general Bettencourt Rodrigues e os sinais do fim próximo”.

É um percurso angustiante, mas agarrado com firmeza.

Neste quadro estamos prontos para mergulhar no essencial, ou seja, nas “Origens do Movimento dos Capitães”, um novo capítulo.

Ficamos então a saber, reunião após reunião, nome após nome, como começou e se consolidou o Movimento na Guiné, indelével matriz do Movimento dos Capitães, ele próprio. Como agiu, que documentos circularam, como se construiu a ideia de uma intervenção militar na política e como se consolidou a via que o Movimento veio a assumir – só com um golpe de Estado em Lisboa, e eventualmente em Bissau, seria possível derrubar o regime e abrir um caminho diferente.

Deixo-vos alguns passos importantes:

– A reunião dos capitães de 17 de Agosto de 1973 em Bissau, em que pela primeira vez, alguém afirma que só se resolveria o problema do regime com uma revolução armada. É uma afirmação ousada, que deve ter ficado na lembrança de todos os que assistiram, mas que também não deixou de incomodar alguns, menos preparados ainda para soluções tão radicais. Esta intervenção foi feita pelo capitão de Transmissões Jorge Golias.

– A assinatura do documento da Guiné, ou “Carta de Bissau”, em 28 de Agosto de 1973, primeiro documento coletivo dos capitães, com o nome de todos os subscritores;

– O papel desempenhado pelo Agrupamento de Transmissões e pelo seu comandante, tenente-coronel Mateus da Silva, que merece aqui uma primeira referência.

– A primeira comissão do Movimento dos Capitães, sua constituição e evolução, contactos e integração de elementos da Marinha e Força Aérea e também contactos com a organização do Movimento em Lisboa.

– O episódio do tenente-coronel Banazol e as subsequentes atividades do Movimento até às vésperas do 25 de Abril.

E porque o tempo passa e a narrativa conquista novas tensões e momentos de viragem, chega o narrador e também o leitor ao cume do seu percurso – o 25 de Abril na Guiné-Bissau. Mas como o processo se articulou em dois tempos, merece por isso dois capítulos, seguindo-se ao 25 de Abril, o golpe militar em Bissau no dia 26 e também as medidas tomadas nos dias seguintes.

Com estes dois capítulos, que mudam o mundo na Guiné, e que servem de guia a outros capitães, em outras paragens, ficamos a saber os pormenores de um empenhamento coletivo intenso, alargado e decisivo para o Movimento das Forças Armadas e para os seus objetivos – a mudança, as negociações, o fim da guerra, mas também a liberdade, a democracia e a construção de um futuro melhor.

Deixo-vos o percurso que o autor nos propõe:

– A tomada do poder em 26 de Abril;
– 1º Encarregado de Governo – tenente-coronel Mateus da Silva; – Incidentes no interior;
– Primeira organização de estruturas de apoio ao governo;
– 2º Encarregado de Governo – tenente-coronel Carlos Fabião;
– O MFA na Guiné-Bissau;
– Agenda do tenente-coronel Mateus da Silva;
– Encontros de Dakar, Londres e Argel;
– Legalização de partidos políticos;
– Acontecimentos deste período até 30 de Junho;
– Contratempo com ordem de desmobilização do MFA;
– Institucionalização do MFA na Guiné;
– Organização da área da Informação.

Este percurso, explicado com pormenor, leva-nos a um novo tempo, neste reduzido e intenso tempo da Guiné-Bissau – ao capítulo “A Descolonização da Guiné-Bissau”, a essência do que o autor deseja transmitir-nos.

Aqui, o Jorge Golias, participante, testemunha, narrador, vai conduzir-nos ao centro da questão, aos acontecimentos que marcaram este tempo da transferência de poder, do ato final da presença portuguesa em terras da Guiné.

Começamos devagar, pois temos de resolver ainda alguns problemas internos:

– o Movimento para a Paz, apoiado pelos emergentes revolucionários de 26 de Abril;

– a visita de trabalho da Comissão Coordenadora do Programa (Melo Antunes, Almada Contreiras e Pereira Pinto) que se desloca à Guiné em 6 e 7 de Junho e deixa preciosas informações sobre a situação em Portugal;

– ainda a “Chamada a Lisboa de oficiais do MFA”, a partir de 13 de Junho, que evidencia o desfasamento entre os planos de Spínola e o pensamento do MFA da Guiné e cujo conflito se irá prolongar;

– a Assembleia Geral do MFA da Guiné no dia 1 de Julho, com a aprovação da moção que não resisto em referir:

“Exigir do governo português o reconhecimento da República de Guiné- Bissau, aliás já reconhecida por 84 países, número superior ao daquele com os que Portugal mantinha relações diplomáticas;

Exigir o reatamento das negociações com o PAIGC, após o impasse de Argel;

Apelar para que os militares portugueses encarem a sua presença atual e futura na Guiné, como forma de prestar a sua cooperação desinteressada ao povo da Guiné, assim contribuindo para o pagamento da dívida histórica criada pelo colonialismo português”.

– uma reunião marginal dos Fuzileiros, sinal de que nem todos tinham capacidade para compreender o momento que se vivia;

– o Congresso do Povo, projeto anunciado mais uma vez pelo general Spínola, que não dava por encerrado o seu papel na resolução do processo de transferência do poder na Guiné.

Com o impasse nas negociações com o PAIGC, todos os cenários continuavam em aberto, excluindo naturalmente o prosseguimento de operações militares no terreno, que o MFA recusava firmemente e já não faria qualquer sentido. Mas as hesitações refletem-se nas relações com os guerrilheiros do PAIGC, pelo menos com alguns setores. Por isso somos conduzidos a um dos mais sensíveis assuntos e também das mais difíceis questões que o MFA enfrentou – os ultimatos do PAIGC. Estas peripécias são pouco conhecidas, resultando ainda mais importante o testemunho do Jorge Golias. O caminho leva-nos por Buruntuma, Canquelifá, Camajabá, Pirada.

Sobre este importante capítulo de múltiplas movimentações, com decisiva intervenção de Carlos Fabião, do próprio Golias e de outros elementos do MFA, não vale a pena alongar-me. Os episódios aqui ficam, como retrato da inconsistência orgânica do PAIGC, da iniciativa das suas fações, da falta de unidade na ação dos seus responsáveis.

E fica também o relato do papel de vários militares portugueses na solução dos conflitos que se instalaram no terreno. Sempre com grande empenho, com muita coragem, com a compreensão assumida de prestarem um serviço ao seu país e ao país emergente.

O caminho é sinuoso, armadilhado, difícil de percorrer. Mas o autor leva- nos até ao fim, relembrando, explicando e confrontando. É hoje reconfortante para nós que o Golias o tenha feito e que, de alguma forma, apazigue as nossas dúvidas.

Não prossigo a leitura, pois quero deixar convosco a curiosidade.

Contudo, enumero alguns dos assuntos difíceis a cuja abordagem o Jorge Golias não fugiu, e que procurou tratar com toda a profundidade possível e com a sensibilidade necessária:

– O problema das Tropas Africanas. Os dados que o Golias coloca à nossa disposição são um valioso contributo para podermos reequacionar a questão, sem contudo deixarmos de sentir este arrepio que nos atinge;

– Os encontros no Cantanhês de 15 a 18 de Julho entre o MFA local e o PAIGC, na sequência do falhanço das negociações oficiais. Aí radica o compromisso do MFA no único caminho aceitável, com repercussões em Lisboa e no futuro das negociações não só com o PAIGC, mas também com os movimentos dos outros territórios.

– A assinatura do Acordo de Argel e as suas repercussões. O modelo de Argel vai estender-se às negociações que estavam em curso com os representantes de Moçambique e não deixou de traçar uma orientação para todos os processos que se seguiram.

– A transferência de poderes, na sequência da assinatura do Acordo de Argel em 26 de Agosto, quase por completo assumida pelo MFA, para o bem e para o mal.

– Os difíceis equilíbrios dos últimos dias, e a garantia de toda a dignidade nos atos finais, desde a cerimónia da troca das bandeiras até ao derradeiro embarque das tropas portuguesas, fecho do ciclo do império em terras da Guiné, primeira cena do ato final da aventura marítima portuguesa.

Antes de algumas conclusões que devo apresentar-vos, não posso deixar de refletir convosco sobre o texto do Prefácio do Carlos de Matos Gomes, companheiro privilegiado que tem sido dos trabalhos que ambos temos levado a cabo.

Deixo-vos as reflexões essenciais:

A Guiné foi a fonte da orientação essencial da política de descolonização até 11 de Novembro de 1975, e existe uma relação dos processos de descolonização com o fim do tempo revolucionário em Portugal.

Os acontecimentos de Bissau a 26 de Abril são a matriz anticolonialista do processo revolucionário português ou seja, a rebeldia recupera a essência da promessa descolonizadora.

Algumas personagens determinantes, mas esquecidas nas brumas da memória, são agora resgatadas pelo Jorge Golias.

O primeiro nome resgatado – Mateus da Silva (Eduardo Mateus da Silva), é aquele que assume a responsabilidade histórica de conduzir na Guiné o destino de Portugal pelos caminhos traçados pela comunidade internacional nas resoluções anticoloniais da ONU. O que permite o retorno ao verdadeiro Programa do MFA, aquele que todos tínhamos aprovado e que, com surpresa, vimos amputado na manhã de 26 de Abril em Lisboa, mas logo retomado ao longo desse dia, em Bissau.

Nessa atitude primeira, radica a emergência de duas linhas do MFA, primeira fratura dos revolucionários que confluíram no 25 de Abril.

O segundo nome homenageado é Carlos Fabião, o outro herói que emerge deste texto.

Mas este texto, sendo apaziguador de dúvidas, é também fontes de novas interrogações. Quantos PAIGC havia? Quantos MFA havia? Quais são as linhas de fratura em cada um?

Tanto o Jorge Golias, como o Carlos de Matos Gomes, não podiam deixar de abordar o problema dos que se sentiram traídos e que pagaram depois, com a vida, a sua opção final. Ambos o fazem com frontalidade, sem fugirem aos contornos do drama.

Finalmente, o processo da Guiné, como todos os outros, não estavam isolados do mundo. Aí confluíam interesses diversos, de países vizinhos, de potências distantes, de protagonistas sempre atentos. A sua compreensão integral também precisa dessas circunstâncias.

Permitam-me agora que também entre, pessoalmente, neste processo de mudança. E possa referir algumas dúvidas que nos têm acompanhado, a muitos de nós que participámos nos processos de transferência de poder dos novos países.

E a pergunta que nos assalta sempre que pensamos na nossa participação nesses processos traduz-se no seguinte – valeu a pena?

Valeu a pena trocar a participação no processo de mudança em Portugal pela presença em África? O nosso esforço faz parte de alguma história? Podemos esperar qualquer reconhecimento?

Na época foi fácil empolgarmo-nos com a tarefa necessária, da transição pacífica e responsável em todos os territórios que deram origem a novos países, mas hoje, vistos os vários processos à distância, talvez possamos lamentar a ausência do único que era nosso – a construção de um novo regime em Portugal.

Nós, uns mais do que outros, perdemos a matriz da nossa democracia, perdemos a origem do nosso novo mundo, perdemos os primeiros passos. Quase diria que nos perdemos e só muito tarde nos fomos reencontrando.

Neste assunto sou juiz em causa própria, mas não posso deixar de admirar todos aqueles que, por sua livre vontade, acompanharam os processos de transição dos territórios coloniais e neles deram o seu contributo para um encerramento digno. E ainda mais admiro aqueles que não tendo obrigação de o fazer, aceitaram missões nesses territórios já depois do 25 de Abril. E muitos cidadãos portugueses (militares e civis) tiveram disponibilidade para o fazer! Julgo não estar errado se disser que também a eles este livro é dedicado.

Mas vamos ainda a outra reflexão.

A questão colonial foi o problema central do 25 de Abril. Nós sentimos que por causa da premente necessidade de acabar com a guerra se tornava necessário derrubar o regime. Foi a guerra que nos decidiu, a guerra como rosto de um regime, a guerra como causa do isolamento do país, a guerra como situação desprestigiante para o Exército. A guerra como nó górdio de um regime sem soluções.

Ora, o Golias, neste seu texto, liga-nos a essa razão inicial, sem esquecer que a questão da guerra entroncava com a própria natureza do regime – o prolongamento da guerra só foi possível porque o regime, para além de não se reger por princípios democráticos, não foi capaz de encontrar qualquer solução credível. E essa circunstância colocava aos capitães um desafio – o de compreenderem que não era possível pôr fim à guerra, sem pôr fim ao regime. Ora ficamos agora a saber que o Golias soube isto antes de quase todos nós e assim o declarou na primeira oportunidade – numa das primeiras reuniões do Movimento dos Capitães em Bissau, no dia 17 de Agosto de 1973, antes portanto de qualquer outro.

Quero então apresentar-vos um resumo das homenagens que o Golias faz com este livro. Em primeiro lugar, homenageia o compromisso, o cumprimento do dever e a dignidade dos participantes nesta última aventura portuguesa em terras da Guiné.

Depois, presta homenagem aos responsáveis maiores pela conduta do processo na Guiné, em especial os tenentes-coronéis Mateus da Silva e Carlos Fabião; homenageia também todos os seus camaradas do Movimento dos Capitães e do MFA da Guiné; homenageia todos os milicianos que apoiaram, colaboraram e sentiram as tarefas daquele momento especial; homenageia todos os soldados que, apesar das naturais dúvidas sobre as razões da continuação da sua presença, ainda assim cumpriram as missões com empenho e em certos momentos, com valentia.

Mas não faria sentido, se este livro fosse apenas de homenagem ao passado. Jorge Golias dirige-se também ao futuro, àqueles que assumem hoje e assumirão no futuro a responsabilidade de conduta do nosso destino comum. A história é uma lição de vida, se a conhecermos e a soubermos interpretar. Evidentemente, para nada serve se não a conhecermos e sobre ela não refletirmos. Este livro, como livro sobre a história portuguesa recente, revela a importância das explicações metódicas e fundamentadas, que os novos saberão incorporar nas suas memórias do passado, que vale a pena ter presente.

O Jorge Golias presta todas estas homenagens com simplicidade, gratidão e esperança.

Por isso, nestas palavras que aqui vos dirijo, eu presto a minha homenagem ao Jorge Golias e julgo não estar errado se pensar que todos vós lhe dirigis também esse reconhecimento.

Muito obrigado.”

A sessão, iniciada pelo presidente da CPHM, general Sousa Pinto, terminou com a palavra do autor.
MesaDiscurso Golias

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 2ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

3. Os exercícios da Divisão de Instrução

Passemos então aos exercícios da Divisão de Instrução.
Quando se tornou evidente que Portugal iria enviar uma força para o teatro europeu, o governo decidiu mobilizar e instruir uma Divisão, como forma de preparação para esse fim.
A opção por Tancos foi assumida em Fevereiro de 1916, e os planos de mobilização iniciaram-se desde logo.

Diapositivo1
Objetivo das manobras
Numas manobras militares deste tipo, com permanência de quase quatro meses no campo, procurava-se testar e treinar algumas capacidades do exército e das suas unidades e serviços, nos seguintes aspetos:
– Capacidade de mobilização, concentração e instalação de comandos e unidades;
– Elaboração de planos de ação pelos estados-maiores dos diferentes níveis;
– Capacidade de execução de exercícios táticos, desde simples manobras de pequenas unidades (Companhia) até operações mais complexas de grandes agrupamentos mistos e da própria Divisão de Instrução;
– Capacidade de instalação e de atuação de infraestruturas logísticas e técnicas de apoio às manobras, como transportes, reabastecimentos, comunicações, organização do terreno, alimentação, saúde, etc.
– Treino de conduta de operações, tanto através de exercícios planeados como em situações inopinadas;
– Verificação das capacidades de resistência do pessoal, bem assim como do seu conhecimento, da disciplina e do moral;
– Verificação da adequação dos materiais e equipamentos, tanto individuais como coletivos.
Temos hoje uma visão geral dos resultados, através dos relatórios elaborados pelas unidades e órgãos participantes. E se em alguns aspetos, as manobras são apreciadas positivamente, existe alguma unanimidade em relação à necessidade de melhorar procedimentos, substituir materiais e munições, continuar a instrução militar e fortalecer a educação cívica.

Diapositivo2

 

Cronologia dos exercícios
Vejamos a cronologia dos exercícios e a forma como eles foram implementados.
A incorporação do contingente começou em Janeiro, com o início da recruta de 1916 nas unidades de instrução, onde fizeram, até Abril, a recruta e o treino tático ao nível Secção e Pelotão.
As unidades para manobras foram constituídas nas unidades das divisões territoriais de Viseu, Coimbra, Vila Real e Tomar. A concentração e instalação fez-se entre Abril e Maio e as manobras ocorreram entre Maio e os primeiros dias de Agosto.
Os exercícios iniciaram-se com manobras de Companhia e foram-se tornando mais abrangentes e complexos, até ao exercício final de toda a Divisão.
É preciso notar que nestas manobras só tomaram parte quatro Regimentos de Infantaria dos seis que constituíam a Divisão de Instrução, pelo que no período de 4 de outubro a 24 de novembro de 1916, também em Tancos, foi ministrada a instrução aos dois Regimentos restantes integrados numa brigada (a 3ª BI). Nesta apresentação não serão abrangidas estas manobras complementares.
Foram levados a efeito, então, os seguintes exercícios:
 Exercícios de Companhia -Entre 26 de Maio e 10 de Junho

Diapositivo3

Estes execícios constaram de:

-Proteção em estação
-Combate de postos avançados
-Manobra de retirada
-Marcha para o inimigo
-Combate defensivo
-Marcha de aproximação
-Combate ofensivo
-Trabalhos de fortificação
-Fogos de guerra

14 programa de instrução de companhia

 

 Exercícios de Batalhão – De 11 a 25 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Proteção em marcha para o inimigo
-Proteção em marcha de flanco
-Proteção em marcha de retirada
-Preliminares do combate
-Ocupação de posição
-Rotura de combate
-Aproximação em combate ofensivo
-Marcha para concentração

15 programa de instrução de batalhão
Exercícios de Regimento – De 26 a 30 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Combate ofensivo Barquinha e Rodeio
-Combate defensivo Laranjeiras e Grou
-Ação dupla Ofensiva Barquinha
-Ação dupla defensiva Barquinha

16 programa de instrução de regimenti
Exercícios de Agrupamentos Encorporados –De 3 e 11 de Julho

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Estes execícios constaram de:

-Forças P.A. e P.V. (Partido Azul E Partido Vermelho)
-Ofensiva e defensiva – Barquinha
-Ofensiva e defensiva – Grou
-Fogos de Guerra
-Organização defensiva

17 programa de instrução de agrupamentos incorporados

Exercícios de Pequenos Destacamentos Mixtos – de 13 e 14 de Julho

Estes execícios constaram de ações entre as forças P.A. e P.V. (Partido Azul e Partido Vermelho)

-Exercício Nº 1 – Ação Simples Defensiva– Figueiras-Laranjeiras
-Exercício Nº 2 – Ação dupla ofensiva e defensiva – Margem direita do Zêzere e Constância
-Exercício Nº 3 – Ação simples ofensiva – Montalvo

19 programa de instrução de destacamentos mixtos
Exercícios de Grandes destacamentos Mistos –De  17 a  20 e de 24 e 25 de Julho

1º  Destacamento

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Exercícios realizados pelas unidades da  1ª BI em formações de apoio.

TEMA: Estacionamento em SANTA CITA, ataque à posição do Grou, defesa da Barquinha

2º Destacamento

Exercícios realizados pelas unidades da  2ª BI e do Grupo de Artilharia em formações de apoio.

TEMA: Ocupação da Barquinha, defesa da posição do Grou, ataque à posição da Barquinha

Parada de Montalvo -Em 22 de Julho

 Exercícios da Divisão de Instrução – De 26 de Julho a 1 de Agosto

1º Brigada (Azul) – Marcha: Abrantes-Casa Branca-Tolosa
2ª Brigada (Vermelha) – Marcha: Montalvo-Pego-Casa Branca-Gavião
Reconhecimentos
Combate entre a quinta da Marguila e Vale Grande

20 exercicio de divisão Tema

 Desconcentração e regresso das unidades aos seus quartéis -Entre 2 e 6 de Agosto

Mapa da força

Vejamos finalmente o mapa da força que esteve presente nos exercícios, com um total de quase 20.000 homens, mais de 5.000 solípedes e mais de 1.200 viaturas.

3-Mapa da Força da Div Inst. em Tancos 001
Podemos destacar o peso das unidades de apoio e dos serviços, com cerca de 1/4 dos efetivos, assim como a participação de um significativo número de viaturas automóveis (incluindo camiões) e as poucas bicicletas e motocicletas ainda disponíveis.
Deixamos para o final a apresentação de umas breves conclusões.

 

As Eleições para a Assembleia Constituinte (1975) – Parte 1

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

1. INTRODUÇÃO

No dia 25 de Abril de 1975 realizaram-se em Portugal as primeiras eleições livres por sufrágio directo e universal, dando cumprimento ao compromisso expresso no Programa do Movimento das Forças Armadas. Foram eleitos os 250 deputados da Assembleia Constituinte, com a “incumbência exclusiva de elaborar e aprovar a nova Constituição Política”.

Com este texto pretende-se descrever de forma sucinta o que foi feito pelas diversas entidades envolvidas na preparação e execução do processo eleitoral, tão fielmente quanto possibilitam a memória pessoal e a reduzida documentação escrita e fotográfica sobre o assunto.

2. O STAP

O processo iniciou-se com a feitura da lei eleitoral e, pouco depois, com o recenseamento dos eleitores, para o que o Ministro da Administração Interna (Tenente-coronel Costa Braz) constituiu o Departamento Eleitoral. Em finais de 1974, este organismo deu origem ao Secretariado Técnico para os Assuntos Políticos (STAP), na dependência directa do Ministro, que foi incumbido de todas as questões preparatórias e executórias eleitorais. Foi instalado num edifício da Rua do Ouro e era constituído apenas por dezena e meia de pessoas, entre militares, técnicos (em especial juristas) e pessoal auxiliar, sob a direção de um oficial da Armada (Comandante Almeida e Costa).

Nos termos do Decreto-Lei 746/74, de 27 de Dezembro, ao STAP competiam, entre outras, as seguintes missões:

– Recenseamento, sufrágio e apuramento eleitoral;

– Estatística e publicação dos resultados.

Nesta conformidade, ao longo de pouco mais de três meses, foram levadas a cabo todas as acções tendentes à concretização das eleições, tendo o esforço sido dirigido prioritariamente para as seguintes áreas:

– Logística do processo eleitoral;

– Apuramento local e transmissão dos resultados para Lisboa;

– Escrutínio provisório.

No início de 1975 o Ministro da Administração Interna solicitou ao Exército a nomeação de especialistas na área das telecomunicações para apoiar o STAP no planeamento e execução do sistema de transmissão e de escrutínio dos resultados provisórios. Satisfazendo o pedido, para o efeito foi de imediato nomeado o Major Eng.º de Transmissões José Maria Fernandes Marques, que contou com a colaboração de quatro Tenentes Tirocinantes de Transmissões.

3. A LOGÍSTICA

Além de colaborar na elaboração da legislação eleitoral e de concluir o recenseamento, o STAP teve que planear e pôr em prática, começando do nada, todas as actividades logísticas que vieram a permitir a concretização do acto eleitoral. Para além de documentação variada e de material de escritório de apoio às assembleias eleitorais, houve que imprimir os boletins de voto, fabricar as urnas e as câmaras de voto, etc., e proceder à distribuição atempada destes materiais quer no País quer no estrangeiro.

A documentação foi quase toda feita na Imprensa Nacional-Casa da Moeda (IN/CM). Os boletins de voto foram impressos nesta empresa pública e em 3 tipografias privadas. As urnas e as câmaras de voto foram fabricadas por empresas privadas, precedidas de concursos limitados.

Todo este material foi entregue no seu destino (assembleias de voto) até ao dia 22 de Abril, no continente e na Madeira, e até ao dia seguinte nos Açores. Esta distribuição foi objecto de um planeamento rigoroso e de um controlo contínuo com recurso a inúmeras ligações telefónicas e telex com fornecedores, transportadores, Governos Civis, Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia.

A distribuição contou com a colaboração das Forças Armadas, da GNR e da PSP, tendo sido utilizadas viaturas diversas, aviões, helicópteros e navios.

And last but not the least, teve que ser montado o Centro de Escrutínio com o mobiliário e os equipamentos requeridos (telex, telefones, terminais informáticos, fotocopiadoras, máquinas de escrever, etc.,) e programado o trabalho de mais de uma centena de pessoas (militares, técnicos e operadores das empresas, agentes da PSP, motoristas, catering, etc) durante os treinos e nos dias 25 e 26, para além do apoio às muitas centenas de jornalistas, cujo controlo e gestão nem sempre foi fácil. E também prever e prover alimentação para toda esta gente!

4. A TRANSMISSÃO

Do estudo dos processos de fazer chegar os resultados a Lisboa, com a maior brevidade, desde cedo ficou definido que em cada freguesia (4027 no total), o Presidente da Junta preenchia um impresso, criado para o efeito, com os resultados da soma de todas as assembleias de voto, discriminados por votantes em cada partido e também com o número de eleitores inscritos, votantes e votos em branco e nulos. Seguidamente, os resultados eram transmitidos por telefone ao Governo Civil (GC) respectivo (havia números de telefone dedicados), ou esse impresso era entregue em mão, em caso de proximidade. A transmissão de cada GC para Lisboa foi efectuada dos seguintes modos:

a. O método civil

Nos Governos Civis (GC), era preenchido um outro impresso por cada freguesia (também preparado e distribuído pelo STAP). Depois era entregue aos operadores dos aparelhos telex dos CTT e dos TLP (geralmente montados para o efeito no edifício do GC) que enviavam os telegramas para o Centro de Escrutínio provisório, instalado na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).

Apresenta-se de seguida um dos 4027 telegramas recebidos no Centro de Escrutínio durante a noite de 25 e no dia 26 de Abril.

Resultados da freguesia de Pombal

constituinte - pombal
b. O método militar

Em alternativa ao método principal anteriormente descrito, o MAI solicitou ao Exército a montagem de um sistema de transmissão dos resultados através da sua rede de telecomunicações privativa, operada pela Arma de Transmissões.  O processo funcionou do seguinte modo:

Em cada Governo Civil estava presente um Oficial das Forças Armadas, para colaborar na organização do processo de apuramento dos votos, a quem eram entregues cópias dos impressos com os resultados enviados por cada freguesia; depois preenchia uma mensagem militar (para cada freguesia) que era entregue na Unidade militar local; através da rede do Serviço de Telecomunicações Militares, quer por via telegráfica (telex), quer radiotelegráfica (morse), essa mensagem era transmitida para a Escola Prática de Transmissões, localizada na Rua de Sapadores, em Lisboa; as mensagens eram registadas e disponibilizadas ao MAI para serem utilizadas se necessário.

5. O CENTRO DE ESCRUTÍNIO

Foi instalado na FCG, como já referido, sob a coordenação do STAP, com a colaboração dos Oficiais do Exército atrás mencionados.

Para a recepção dos resultados enviados por cada Distrito, os CTT/TLP instalaram cerca de duas dezenas de teleimpressores numa sala da FCG, os quais foram ligados ponto a ponto com os dos Governos Civis.

De cada um dos 4027 telegramas recebidos eram impressos dois exemplares, sendo um entregue na sala de escrutínio e o outro no Gabinete de Ligação com a Comunicação Social.

Na sala de escrutínio estavam instalados 30 terminais informáticos ligados por linha telefónica ao computador da empresa Sociedade Portuguesa de Computadores em Tempo Dividido (Time-Sharing) SARL, contratada para efectuar o apuramento provisório.

Sala da Time-Sharing
MC-1139(Foto MC-1139, Miranda Castela, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

Os funcionários da Time-Sharing introduziam os dados nesses terminais (freguesia a freguesia) e o computador (instalado algures em Lisboa) fazia as contas por distrito, para cada partido, e elaborava regularmente mapas com o ponto de situação por distrito e a nível nacional.

Exemplo de Mapa com resultados por distrito

constituinte mapaCópias dos telegramas de cada freguesia, e dos resultados parciais e mapas elaborados regularmente pelo computador eram entregues à Comunicação Social pelo Gabinete de Ligação instalado ao lado da sala de escrutínio, constituído apenas por militares do Exército.

Gabinete de Ligação com a Comunicação Social
MC-1133(Foto MC-1133, Miranda Castela, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

O escrutínio foi seguido por cerca de 1300 jornalistas, metade dos quais estrangeiros, tendo os TLP instalado no Centro de Imprensa, constituído para o efeito na FCG, um conjunto de meios de apoio, de que se destacam 86 telex e 36 telefones com acesso nacional e internacional.

Centro de Imprensa
MC-1134(Foto MC-1134, Miranda Castela, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

6. CONCLUSÕES

Planear e montar todo este sistema não foi tarefa fácil, não só pelo prazo a cumprir, mas também pelo reduzido número de pessoas de que o STAP dispunha para pôr a andar uma máquina complexa envolvendo muitos milhares de pessoas e instituições diversas. Mas, nestas primeiras eleições verdadeiramente livres, todos sentiram que estavam a contribuir para uma nova página da história, pelo que se empenharam de corpo e alma, sem fins de semana e com poucas horas de descanso, e muitos a título gracioso. Ao início da noite do dia 25 havia alguma apreensão até começarem a chegar os primeiros telegramas. Mas tudo correu como previsto (salvo raras excepções) e a noite transformou-se numa festa para todos os envolvidos na “maratona” eleitoral, até ao alvor do dia seguinte.

Na manhã do dia 26 ainda faltavam os resultados de algumas dezenas de freguesias, mas as eleições estavam praticamente decididas. Foi feita uma pausa e os trabalhos recomeçaram depois do almoço. Ao fim do dia estava terminado. Bem!

Homenagem à antiga EPTm, Lisboa

Por incumbência da Presidente da Junta de Freguesia de São Vicente e após autorização do EXmº CEME, vai ser colocada uma placa na entrada da atual DCSI, na Rua de Sapadores, em Lisboa, no exterior da Unidade, alusiva à participação no 25 de abril de 1974 da então Escola Prática de Transmissões.

Esta placa é uma homenagem da Junta de Freguesia pela participação ativa e importância da Escola Prática de Transmissões nos eventos do 25 de abril de 1974.

Esta cerimónia de descerramento da citada placa contará com a presença do Secretário de Estado da Defesa Nacional, Dr. Marcos Perestrello e do Presidente da Camara de Lisboa.

 

O programa provisório a realizar em 25ABR2016, contempla:

15:30 – Início da Cerimónia;

15:35 – Discurso da Presidente da JF de São Vicente;

15:40 – Discurso do Exmo. Sr. Secretário de Estado da Defesa Nacional e/ou Presidente da Camara de Lisboa

15:50 – Descerramento da placa evocativa;

15:55 – Interpretação de ‘Grândola Vila Morena’ pelo Coro de Santa Engrácia;

16:00 – Interpretação do Hino Nacional.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – Iª parte


As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

I- As comunicações no exército britânico na Frente Ocidental, onde as tropas portuguesas seriam integradas
1. Introdução
A nossa comunicação vai abordar os seguintes aspetos:
– As comunicações no exército britânico na Frente Ocidental, onde as tropas portuguesas seriam integradas.
– Ideia geral dos exercícios efetuados pela Divisão de Instrução
– Breve história das transmissões no Exército Português
– As comunicações na Divisão de Instrução
– Balanço dos exercícios militares efetuados pela Divisão de Instrução, há cem anos.
Em primeiro lugar gostávamos de vos dizer que vamos apresentar um estudo incompleto, pois estamos a meio de uma investigação sobre “As Transmissões na Grande Guerra”. Selecionámos para este encontro, como nos foi pedido, a apresentação de um ponto de situação sobre a Divisão de Instrução e as suas unidades de telegrafistas, que aqui estiveram em 1916, em manobras.
Hoje passam 98 anos sobre a Batalha de La Lys, travada no dia 9 de Abril de 1918. Associamo-nos à homenagem que aqui está a ser prestada a todos os portugueses, nossos avós, que nela participaram.
Também passam 100 anos sobre a mobilização, concentração e instrução de uma Divisão militar (chamada Divisão de Instrução, com cerca de 20.000 homens) que aqui, bem próximo, se empenhou em exercícios militares, com vista à sua preparação para participar na guerra europeia, ao lado das tropas da Grã-Bretanha.
As razões que levaram Portugal a entrar na guerra têm sido muito discutidas, mas o que nos interessa hoje é dar-vos uma ideia sobre a forma como se comunicava no campo de batalha de então, tanto do ponto de vista territorial (comunicações para fora da zona de operações), como do ponto de vista tático, ou seja, no interior dessa zona.
De qualquer forma interessa acentuar que se tratava de preparar os militares para irem integrar unidades inglesas na frente europeia. Por isso, julgamos que, em primeiro lugar, vale a pena lançar um olhar sobre as comunicações que no início de 1916 eram usadas em França pelas forças britânicas aí presentes, e nas quais as unidades portuguesas se iriam integrar.
2. As comunicações no exército britânico
Quando a guerra começou, no início de Agosto de 1914, todos esperavam que ela fosse de curta duração. Houve mesmo os que pensaram ser possível passar o Natal em casa!
Mas essas esperanças foram destruídas logo nas primeiras batalhas, tanto pelo poder de fogo da artilharia e das metralhadoras, como pelos imensos efetivos mobilizados e participantes dessas primeiras batalhas. A resposta ao poder de fogo foi materializada pela construção da imensa linha de trincheiras da frente ocidental, o que acabou por paralisar as movimentações táticas nas frentes de combate. As tropas entrincheiradas, contrariando o pensamento militar prévio sobre o valor da ofensiva, acabaram por privilegiar as suas posições defensivas, o que levou a quatro anos de guerra sem grandes alterações estratégicas de posicionamento no terreno.
Foram estas condições que impulsionaram os esforços de desenvolvimento de novas técnicas, com o fim último de quebrar o impasse no terreno, onde se contam evidentemente o desenvolvimento de novas armas, como os gases, a aviação e o carro de combate, ou de novas táticas, como o ataque concentrado.
Linha de trincheiras 

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Aspetos de trincheiras

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Resolução do impasse

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Sem tanta evidência e muito menos conhecidos são os esforços para a implementação de comunicações capazes de responderem às exigências da nova forma de fazer a guerra. Mas esse desenvolvimento foi um facto, e nada ficou igual neste domínio, quando a guerra finalmente terminou em 1918.

 

Comunicação no Exército Britânico – Situação inicial

 

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Em 1914, os principais meios de comunicação nas unidades britânicas, eram, por um lado, os sinaleiros (nos batalhões de infantaria e nas baterias de artilharia) que se deslocavam a pé, a cavalo, em bicicletas ou motocicletas, e por outro, os telégrafos e telefones por fio, que só funcionavam depois da instalação e lançamento das redes.
Estava em uso também a sinalização visual, como bandeiras, sinais e heliógrafos, que prestavam serviço especialmente durante o dia.
Quanto aos equipamentos sem fios, com o uso do código Morse, eles estavam disponíveis, mas eram ainda muito pesados. As suas redes foram especialmente dirigidas ao suporte de ligações especiais, como as redes de informações, o uso da artilharia de ação conjunta, a defesa e a observação aérea, e sobretudo as relações de comando e controle nas grandes unidades.

Nesta altura, o sistema de segurança britânico nas ligações telefónicas e telegráficas era muito fraco. Por exemplo, muitos planos táticos eram lidos em claro através do telefone e escutados pelos alemães.
As mudanças na forma de atuar dos sistemas de transmissões britânicos foram inevitáveis, à medida que a estrutura de trincheiras se foi estabilizando até ao fim de 1914.

 

Comunicações no Exército Britânico – Novos meios

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Ao longo dos anos da guerra, apareceram no campo de batalha novos e muito mais desenvolvidos meios de comunicação, por fio e sem fio, por terra ou pelo ar, complementando e sendo complementados pelos métodos clássicos da transmissão visual, por estafeta ou pombos-correio. Mas, no final, podemos dizer que os métodos prevalecentes e amplamente usados foram o telefone e o telégrafo, a que se juntou crescentemente e em especial no final da guerra, a telegrafia sem fios.
Entretanto, como continuassem a crescer as preocupações com a capacidade de os alemães intercetarem as comunicações telegráficas e telefónicas perto da linha da frente, surgiram alguns dispositivos que, apesar de tudo, não estavam à prova de interceção, incluindo transmissores que utilizavam a terra como condutor, sem necessidade de fios ou cabos (buzzer – telegrafia pelo solo).
Quando se iniciou o ano de 1916, os serviços de telegrafia esforçaram-se por aumentar a duração das linhas do telégrafo e do telefone, assim como os níveis de segurança.
Foi por esta altura que, fruto das experiências levadas a cabo na própria frente, surgiu um novo equipamento de telegrafia – o fullerphone (projetado pelo Capitão A. C. Fuller), com muito bons resultados. Quase todas as unidades britânicas na frente ocidental passaram a usar estes equipamentos. Embora outros sistemas ainda tivessem sido experimentados, o fullerphone acabou por sobrepor-se a todos os outros. Este sistema usava a transmissão de impulsos de corrente contínua, que não eram detetados.
Era esta a situação das comunicações na frente ocidental, no seio das forças britânicas, quando se iniciaram, em Portugal, os exercícios de uma Divisão de Instrução destinada a ocupar um lugar na frente de combate, juntamente com estas forças.
É evidente que nem tudo poderia ser do conhecimento dos estados-maiores portugueses, mas grande parte dos exercícios efetuados em Tancos não refletia ainda os ensinamentos que depois vieram a ser adotados, não apenas pelas comunicações no C.E.P., mas também na restante atividade das unidades mobilizadas e integradas nas forças britânicas.