Grande Guerra – CEP – Companhia de Telegrafistas do Corpo

 

 

CEP – Carta de comando do Comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo

O capitão de Engenharia Soares Branco foi o responsável pelo Serviço Telegráfico nas manobras de Tancos da Divisão de Instrução. Quando se constituiu o Corpo Expedicionário Português (CEP), ele foi naturalmente nomeado comandante do Serviço Telegráfico do Corpo e enviado para França. Seguiu por caminho de ferro, atravessando Espanha como muitos outros oficiais portugueses e chegou à zona de guerra em finais de Janeiro de 1917, apresentando-se no QG do 1º Exército Britânico.

 
A partir daí, Soares Branco dedicou-se à criação de condições para que as unidades e os efetivos relacionados com os serviços telegráficos pudessem bem cumprir as suas missões. Estagiou em unidades inglesas, elaborou relatórios, requisitou materiais, reconheceu as áreas de provável ocupação pelas unidades portuguesas, elaborou normas e regulamentos, previu a constituição de uma escola de sinaleiros, fez propostas para a organização, instrução e atribuição das unidades e dos meios de transmissões e definiu finalmente a estrutura do seu serviço e as missões e tarefas inerentes ao apoio telegráfico e de comunicações.

 
Todos os procedimentos foram sendo aperfeiçoados até às vésperas da entrada em setor do Comando do Corpo, ocorrida em 5 de Novembro de 1917. Dias antes, com data de 31 de Outubro, Soares Branco enviou as últimas propostas ao QG do Corpo, fixando a organização do Serviço Telegráfico (nota nº 924).

 
Para apoio do Comando do Corpo existia a Companhia de Telegrafistas do Corpo, constituída por uma Secção de Telegrafistas de Campanha e por uma Secção de Telegrafistas de Praça, às quais se juntava agora uma nova Secção Automóvel Por Fio (SAPF), que também era designada por Secção Automóvel de Ligação por Fio (SALF), que Soares Branco entendia necessário constituir, e a quem competia assegurar todas as ligações do QG do Corpo aos QG das Divisões e à Artilharia Pesada, conseguindo-se “desta forma economia de oficiais encarregados de funções administrativas e maior unidade de comando” (Relatório do Serviço Telegráfico, de Soares Branco, AHM/01/35/148).

 
Foi nomeado comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo o tenente de Engenharia João Alegria dos Santos, deixando a Escola de Sinaleiros, da qual era diretor. Logo em 13 de Novembro, o capitão Soares Branco dirige-lhe uma nota (nº 1028), indicando-lhe os métodos de trabalho técnico que julga preferíveis para as situações de “guerra de trincheiras”, “guerra de movimento” e “instrução”, constituindo este documento um esboço de carta de comando, que viria depois a ser aperfeiçoada de acordo com a experiência recolhida após a entrada em linha.

 
É o seguinte o texto da nota em questão:

“Ao Sr. Comandante da C. T. C.

Pela primeira vez que me dirijo a V. Ex. oficialmente, começo por lhe assegurar a certeza em que estou de que V. Ex. no exercício do comando que lhe foi agora confiado continuará demonstrando o muito zelo e inexcedível dedicação com que dirigiu a Escola de Sinaleiros.

Seguidamente passarei a indicar-lhe, duma maneira geral, qual o método de trabalho técnico que julgo preferível V. Ex. fazer executar, não me referindo a algumas questões de ordem administrativa que, fazendo-se sentir devido às distâncias que separam os comandos e as tropas, desaparecerão com o novo estado de coisas.

Guerra de trincheiras.

I. De entre os oficiais que compõem a Companhia, 1 deles, o comandante da S. de T. de Campanha Sr. Ten. eng. João Pedro Saldanha, ficará tendo a seu cargo as linhas desde a estação do Corpo às Divisões, e quaisquer outras que venham a ser entregues ao Corpo.
Elaborará juntamente com o oficial adjunto deste serviço os esquemas e plantas de traçado das linhas que for necessário enviar ao 1º Exército, e preparará a entrega das comunicações do Corpo a outra qualquer grande unidade. O serviço será montado com os elementos da S.T.P. Fios, e com as rondas dos guarda-fios que forem julgadas convenientes. Nesse serviço poderão ser coadjuvados pelo pessoal de T. P. (telegrafistas de praça) se assim for tido por necessário.
Haverá um graduado especializado por cada traçado principal de linhas o qual será nomeado chefe de guarda-fios do traçado. Um Sargento devidamente habilitado desempenhará o serviço de Chefe de guarda-fios.
Dever-se-á propor talvez de postos permanentes de guarda-fios para a ronda diária que as linhas devem sempre sofrer.
Cada manhã, depois do ensaio prévio das linhas da estação central será participado telefonicamente à S.T.C. quais as linhas que devem ser especialmente ensaiadas e vistoriadas.
Independentemente desse aviso, e segundo um horário a fixar, praças percorrerão os traçados para vigiar o inspecionar as linhas.
Os ensaios, porém, só serão feitos depois do aviso da central, sendo fixados os limites onde em cada traçado começam as praças o serviço e onde o acabam.
Se houver grandes reparações a efetuar ou construção de novas linhas, será solicitado o auxílio da Secção S.A.L.F. que se encarregará então do serviço que o Comando lhe prescrever segundo as instruções de este S.T.
O pessoal telegrafista e telefonista da S.T.C. coadjuva o da 1ª Secção da Companhia, sempre que tal foi pedido.

II. Competirá a um oficial da Companhia, o Sr. alf. eng. Marcial Freitas e Costa, a fiscalização e responsabilidade de tudo o quo disser respeito ao serviço na estação Central do Corpo – telefone, telégrafo e correspondência.
Para coadjuvar o serviço haverá diariamente o 1º sargento Vigoco na correspondência com 2 praças, um sargento de dia à estação – telegrafo e telefone – com 3 telegrafistas, 2 telefonistas, 2 guarda-fios, 1 motociclista, e 3 ordenanças sendo destas 2 ciclistas.
O Snr. alf. eng. Casquilho da S.T.C. será também, conveniente que tome conhecimento deste serviço, pois torna-se indispensável que haja sempre dois oficiais especializados em cada uma das secções da Companhia.
Às 3 horas o sargento de dia verificará todas as linhas que deem entrada na estação. Regista as indicações do ensaio, tendo para esse fim um livro riscado segundo o impresso regulamentar.
Seguidamente, às 11 horas, e na presença do oficial, serão experimentados todos os telefones, será distribuído o serviço aos guarda-fios da estação, pedido serviço aos guarda-fios da S.T.C., solicitados os trabalhos da S.A.L.F. ou ao Comandante da Companhia se se julga necessário.
É da estação central do Corpo que por intermédio da estação de Roquetoire se farão as explorações em toda a área do C.E.P., e para a frente para as estações centrais de cada uma das Divisões.

III. Competirá ao Oficial comandante da 2ª Secção – S.A.L.F.- o Sr. alf. eng. João D´Korth, não só a elaboração de acordo com o Comandante da S.T.C. de todo os projetos de traçados novos a construir, mas também a efetivação de grandes reparações que não possam ser realizadas pelo pessoal da S.T.C. Como comandante da 4ª Secção – S. E. Motociclistas – compete-lhe o serviço de correspondência segundo o horário pelo S.T. formulado, e fazer apresentar para serviço as praças que pela estação telegráfica, mediante autorização superior, sejam pedidas para serviço extraordinário.
No serviço de construção das linhas e instrução do pessoal deve também ser especializado o Snr. alf. Medeiros Tanger da S.T.C.

Guerra de movimento.

Competirá à S.T.C. a construção de todas as linhas de cabo desde o Q.G. das Divisões aos centros de comunicação fim das linhas de fio, para o que utilizará as 3 esquadras de cabo da Companhia.
Competirá à S.A.L.F. a construção de todas as linhas de fio desses centros de comunicação até ao Q.G. do Corpo, ligações laterais e ligações às linhas do Exército, para o que se servirá não só do material da sua Secção, como do material das esquadras de fio de campanha que lhe forem afetas.
Competirá ao C. da 1ª Secção da Companhia a responsabilidades do serviço na estação do Corpo.
Aos 2 subalternos da 3ª Secção e ao oficial de engenharia subalterno da Escola de Sinaleiros competirá o comando de cada uma das 3 esquadras de cabo e esquadra de fio para as quais existe o pessoal da mobilização na 3ª Secção.
Competirá ao oficial Comandante da 3ª Secção a responsabilidade das comunicações desde o Q.G. Avançado até às Divisões.
Competirá ao Comandante da C.T.C. e à S.A.L.F. e esquadra de fio de campanha adstrita a montagem e construção de todas as linhas desde a Estação central do Corpo à estação avançada e sua reparação.
Ao Chefe do Serviço Telegráfico competirá a direção imediata de todas as comunicações estabelecidas.

Instrução.

Conhecido o número de praças de serviço diário, proporá V. Ex. o horário etc. da instrução a dar às praças que estiverem de descanso.

                                                                                                                                                C. Soares Branco
Capt.                                                                                                                                                                           C. S. T. do C. E. P.”

(Ver o original em AHM/01/35/550/5)

Equipamentos de Transmissões da 1ª GM – O FULLERPHONE – Modo de funcionamento

Conforme foi referido no 1º post sobre o fullerphone (ver aqui), este surgiu da necessidade de ter comunicações seguras na linha da frente.

No início das hostilidades, logo que as posições de ambos os contendores se começavam a fixar, eram lançados circuitos metálicos de comunicação, uns paralelos à linha da frente, para ligação de unidades vizinhas, outros perpendiculares a essa linha, para ligação aos escalões superiores, à artilharia e às reservas. Estes circuitos tinham, essencialmente, as seguintes formas de lançamento:

– Dentro das trincheiras, ao longo destas, com os fios assentes no fundo ou, preferencialmente, apoiados na sua parede lateral.

– Sobre o terreno, sem protecção, ou, quando muito, dentro de pequenas valetas.

– Aéreos, assentes em suportes e isoladores improvisados, seguros em postes de madeira, cujo aspecto lhe valeu o popular nome de “comic  airlines”.

– Enterrados, utilizando cabos próprios. Solução trabalhosa e cara tentada mais tarde.

Estes circuitos eram utilizados para comunicação telefónica e telegráfica, transportando sinais de corrente alternada: no caso do telefone as frequências da voz, no caso da telegrafia uma frequência fixa modulada pelos sinais de morse (traço e ponto).

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Fig 1 – Aspecto das comic airlines

Os comandos rapidamente se aperceberam que o inimigo obtinha informações rápidas e precisas da actividade amiga sem necessidade de utilizar informações fornecidas por prisioneiros ou espiões. Concluiu-se que essas informações provinham da escuta das comunicações, aproveitando essencialmente o fenómeno de indução que permite que num fio condutor, nas proximidades de outro que conduz uma corrente alternada, seja induzida uma corrente da mesma natureza. Uma outra forma, mais simples, de intercepção, aproveitava o facto de muitas comunicações, sobretudo telegráficas, utilizarem apenas um fio, fazendo o retorno pela terra. Com equipamentos sensíveis era possível interceptar o retorno, enterrando dois pólos metálicos a uma certa distância um do outro ao longo da linha fictícia de retorno.

A solução era pois utilizar telégrafos de corrente contínua. O telégrafo de Morse estava disponível e era de corrente contínua mas os equipamentos existentes não estavam adaptados às difíceis condições da frente além de exigirem linhas com qualidade que as existentes não tinham.

Deveu-se ao engenho do capitão Fuller a solução simples e prática do problema, com a invenção do fullerphone. Trata-se de um equipamento que põe na linha impulsos de corrente contínua mas que, internamente, funciona como um telégrafo acústico.

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Fig 2 – Esquema eléctrico do fullerphone

O esquema simplificado está representado na fig 2. O equipamento é constituído por um vibrador (Buzzer), por um filtro passa-baixo constituído pelas bobinas H1e H2 e pelos condensadores C1, C2 e C3, pelo transmissor (chave de morse) T e pelo auscultador A.

O “buzzer” (vibrador) é constituído por um electroíman, com a sua armadura, que em repouso tem a posição fixa no contacto 1, por acção de uma mola. Quando se liga a bateria B o electroíman é atravessado por uma corrente que faz com que a armadura seja atraída, cortando a corrente e voltando a armadura à posição de repouso, ligando novamente a corrente e, assim, sucessivamente. Este ligar/desligar do contacto 1 possibilita o funcionamento  contínuo do vibrador com uma frequência que depende exclusivamente das suas características mecânicas, nomeadamente das dimensões e massa da armadura e da constante elástica da mola. Essa frequência variava entre os 400 e os 550 Hz, sendo regulável.

Para emitir, o operador manipula a chave T ao ritmo dos sinais de morse. Com T premido fecha-se um circuito entre o pólo positivo da bateria, contacto 4 da chave, linha L2, receptor, linha L1, auscultador A, contacto 2 da armadura e pólo negativo da bateria. Este circuito é interrompido, no contacto 2, ao ritmo da vibração do buzzer, o que permite ouvir no auscultador o sinal emitido. Esse sinal, ao passar pelo filtro H1, H2, C1, C2 e C3, é convertido num impulso de corrente contínua com a mesma duração, que é transmitido à linha.

Na recepção é o impulso de corrente contínua que chega aos terminais L1 e L2 da linha, passando sem alteração pelo filtro passa-baixo. Esse impulso é “recortado” no contacto 2 do vibrador, peloque no auscultador A é ouvido um impulso correspondente de corrente alterna.

Desta forma simples, temos um equipamento telegráfico que internamente é acústico, o que simplifica a recepção, e na linha é de corrente contínua, o que dificulta a interceção.

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Fig. 3 – Forma dos sinais no fullerphone

Na fig 3 estão representadas as formas da corrente no circuito do auscultador (corrente alterna de frequência audível) e na linha (corrente contínua), correspondentes aos sinais de morse traço e ponto, tanto em emissão como em recepção. De notar que a corrente na linha tem uma forma rectangular imperfeita, com os cantos arredondados, o que traz a vantagem adicional de tornar a audição dos sinais mais suave, evitando os “clicks” característicos da onda rectangular perfeita.

O equipamento pode funcionar em linha simples, com retorno por terra, ou em linha dupla. Permitia ligações até cerca de 30 quilómetros de distância, nas linhas de campanha então utilizadas. É claro que o alcance dependia da qualidade da linha, sendo muito maior em linha dupla do que em linha simples. De qualquer modo, para a mesma qualidade da linha, o alcance do fullerphone era muito maior que o de qualquer outro telégrafo existente na época.

Os sinais eram muito mais claros do que os dos telégrafos acústicos existentes porque, nestes, o início e o fim do sinal correspondia ao começo e final da vibração da armadura do “buzzer” com o respectivo ruído associado. Por esta razão a velocidade potencial de transmissão era maior no fullerphone que nos telégrafos acústicos.

O fullerphone não podia ser inteceptado por indução ou por fuga pela terra, mesmo nos casos de linha simples. A única forma de o interceptar era pela ligação direta à linha de um equipamento igual.

Houve notícias de intercepção, por parte dos alemães, com equipamento sofisticado (que incluía amplificadores de válvulas), mas apenas a distâncias inferiores a 60 metros do fullerphone escutado.

Como foi referido no 1º post, o fullerphone sobreviveu até à 2ª Guerra Mundial, onde ainda foi muito utilizado. O princípio de funcionamento manteve-se mas os vários modelos que foram aparecendo incorporaram a evolução técnica com a introdução de electrónica para substituir o “buzzer” electromecânico e amplificar os sinais recebidos aumentando a sensibilidade.

Os Telégrafos na ilha Terceira em 1830

Já anteriormente escrevi neste blogue sobre a existência de uma rede de telégrafos nos Açores, na ilha Terceira, durante o período das guerras liberais. Foi-me então possível, a partir do conhecimento que tinha de uma representação de um telégrafo/semáforo de balões existente no Monte Brasil (Posto de sinais), única em Portugal, referir também, e mostrar descrições e imagens da época, uma outra rede, esta constituída por telégrafos de postigos do Ciera situados na zona da Praia da Vitória, que ligavam a Angra do Heroísmo (ver aqui).

Durante as visitas semanais da CHT ao AHM, deparei-me recentemente com alguns documentos interessantes sobre este assunto, nomeadamente um, assinado pelo TCor Engª Euzébio Furtado, de que abaixo mostro a primeira página, seguida de uma transcrição de todo o documento, que teve a ajuda do “nosso mestre” Cor Aniceto Afonso para tirar algumas dúvidas de legibilidade.

Carta do TCor Furtado para o Quartel-Mestre José Baptista da Silva Lopes

Carta do TCor Eusébio Furtado para o Quartel-Mestre José Baptista da Silva Lopes

Neste documento, o TCor Furtado refere-se a um conjunto de 6 telégrafos de bolas existentes a toda a volta da ilha para comunicar movimentos de navios no respetivo setor, propondo a transferência de 2 deles e a instalação de mais 2 telégrafos repetidores (8 no total), para que um daqueles pudesse comunicar com o do Monte Brasil. Infelizmente não assinala todas as suas posições, apenas a do Monte Brasil, as daqueles que propõe mudar de local e as dos repetidores que pretende instalar.

Transcrição completa do documento:

Ill.mo Sr

Havendo S. Exª o Sr General comandante das Forças, reconhecido que o Serviço dos Telégrafos não preenchia os seus fins, tanto pelo mau Regimento dos Sinais como pela incapacidade de quase todos os Empregados, que nem guardam o segredo que convém, nem têm a vigilância indispensável, e por estas razões se devia dar melhor forma ao mesmo Regimento e Serviço; se dignou portanto S. Ex.ª ordenar-me verbalmente que procedesse a um Projeto com as seguintes condições: 1ª, se convém que os pontos telegráficos fiquem sendo os mesmos, ou mudados e em maior numero de forma que contornem a Ilha; 2ª, que se me parecer altere a forma dos Telégrafos; 3ª, forme um Regimento claro e simples de sinais; 4ª, que proponha novos Empregados para este tão útil serviço, que conhecendo bem a sua importância lhe deem toda a atenção e mereçam a gratificação que se lhe arbitrar, podendo para isto escolher e propor entre o grande numero de Oficiais Inferiores que há de mais nos Corpos, empregando no desempenho desta Ordem o mesmo zelo que sempre me anima pelo serviço cumpre-me dizer a V. S.ª para conhecimento de S. Ex.ª:
Que não obstante ter feito em outra ocasião um completo jogo de Sinais com os mais melhoramentos convenientes, como este Projeto não foi avante, agora se tornou quase inútil e tive de empreender trabalho novo apropriado ao grande aumento de Forças e subsequentes alterações que se tem feito nos mais Ramos de Serviço.

Quanto à 1ª condição, ainda que os atuais pontos telegráficos são bem escolhidos, seria mais conveniente passar o Telégrafo do Pico de D. Joana para o das Contendas onde as névoas não são tão frequentes nem tão densas; e para haver conhecimento do que se passa nos mares do Norte e parte dos do Oeste que não são vistos do Monte Brasil, deve-se é colocar um Telégrafo Indicador no Pico de Martin-Simão, ponto vantajoso sobranceiro aos Altares próximo aos Biscoitos e comunique com o dito Monte Brasil; mas como deste se não divisa imediatamente aquele, será indispensável dois Telégrafos Repetidores, um no Pico Gordo de baixo e outro no Pico da Bagacina; assim ficará perfeitamente fechado o circuleo Telegráfico da Ilha.

Responder à 2ª condição, que sendo muito vantajoso a simplicidade do maquinismo, melhor seriam os Telegrafos Franceses ou Ingleses com o nome de Semáforos, mas esta mudança nos obrigaria a desprezar inteiramente os atuais e construir oito novos, quando aqueles por seu limitado serviço bem satisfazem precisando só serem reparados e construídos pequenos alojamentos para os Empregados.

Para a 3ª condição, V. Exª se servirá ver no Quadro junto o Regimento dividido em dois Capitulos, o 1º dos Sinais para tempos ordinários, e o 2º para a ocasião de Operações; em ambos os casos me persuado ter previsto quanto pode ocorrer de mais essencial e que mereça ser transmitido telegraficamente e isto tão somente com a adição do triangulo de madeira ao que hoje existe, quando seja preciso mais sinais; bem se vê que restam ainda muitas combinações em claro e muitas mais que não desenhei. Os Sinais Gerais ou preparatórios são comuns aos dois capítulos.

Reconhecida a necessidade de substituir os atuais Empregados por outros de mais préstimo, é certamente muito vantajoso e parece mais possível serem estes tirados dos sargentos supranumerários dos Corpos; se esta proposta for da aprovação de V. Exª então pedirei particulares informações sobre os mais idóneos e os proporei ao Sr General. De dois modos podem eles fazer este serviço, ou por destacamentos mensais, ou sendo permanentes, o 1º caso tem o mui grave inconveniente da publicidade dos sinais que forçosamente se seguirá sem ser fácil descobrir os infratores; e por isso me parece preferível a permanência procurando quanto seja possível conciliar a exatidão do Serviço com a residência em pontos isolados e desabridos. Entendo e proponho que estes sargentos tenham como gratificação mais metade de seus soldos abonados e pagos como estes, ficando pelo seu serviço inteiramente responsáveis ao Diretor dos Telégrafos: para os ajudar eles devem ter dois soldados que alternem diariamente o seu serviço e que destaquem por um mês sem outros vencimentos que os que percebem atualmente.

Parece-me conciliar assim o bom e exacto serviço com a economia da despesa, a qual no Inverno ainda pode ser mais limitada.
V. Exª se servirá resolver o que mais bem convier ao Serviço, e as suas novas Ordens me servirão de governo sobre a conferição dos Quadros Telegráficos e Regulamento para os Empregados. Deus guarde a V. S.ª

Quartel em Angra 4 de Agosto de 1830

Ill.mo Sr. José Baptista da Silva Lopes

Assina: Eusébio Candido Cordeiro Pinheiro Furtado
Tenente-Coronel no Real Corpo de Engenheiros

(Nota 1 – José Baptista da Silva Lopes):

Quartel-Mestre General nos Açores, futuro Ten General e Barão de Monte Pedral, Dir Geral da Artª, que foi quem, em 1842, enquanto Inspetor Geral do Arsenal do Exército, instituiu o Museu de Artª, hoje Museu Militar.

Barão de Monte Pedral

Barão de Monte Pedral

(Nota 2 – Eusébio Candido Cordeiro Pinheiro Furtado):

Autor de uma Memória histórica sobre a batalha da Praia em 11AGO1829, futuro Marechal de campo comandante do Real Corpo de Engenheiros e Ten General Governador de Armas do quartel de S. Jorge, que então promoveu em Portugal um novo conceito de empedrar o chão, ao estilo de mosaico, com pedras brancas e pretas, que passaram a denominar-se ‘calçada-mosaico’, depois de, em 1842, já assim ter orientado o revestimento da parada do Batalhão de Caçadores n.5, em Lisboa.

Memória Histórica do 11 de Agosto de 1829

Memória Histórica do 11 de Agosto de 1829

Para desenvolver este conceito fez uma construção, em 1848, no Rossio – a praça Dom Pedro IV – em Lisboa, que resultou num empedrado de 8712 metros quadrados, coberto de ondas a preto e branco (Mar largo). Com o crescimento da cidade, novas ruas foram pavimentadas com este conceito, passando a designar-se definitivamente por calçada portuguesa.

Pormenor do desenho do "Mar largo"

Pormenor do desenho do “Mar largo” para o Rossio

(Nota 3 – Localização dos Picos):

Feteira é uma freguesia localizada na costa sul da ilha Terceira, a cerca de 7 km a leste da cidade de Angra do Heroísmo. No extremo nordeste da freguesia ergue-se o Pico de Dona Joana, um cone vulcânico de escórias basálticas quase circular com cerca de 500 m de diâmetro, esventrado em direção ao sudoeste, com a parte exposta da cratera a uma cota de 262 m acima do nível do mar. A parte mais alta do cone, na cumeada norte e nordeste, atinge os 331 m de altitude.

A Ponta das Contendas, Vila de São Sebastião, concelho de Angra do Heroísmo, localiza-se na ponta sudeste da ilha Terceira, a cerca de 13 km da cidade de Angra do Heroísmo e a 8 km da cidade da Praia da Vitória – Formada por vários cones de escórias, como o Pico das Contendas (142 m acima do nível do mar), esta faixa litoral da Baía da Mina apresenta-se muito recortada, com enseadas rochosas, praias de calhau rolado e alguns ilhéus.

Pico Martin Simão (ou Matias Simão)  é uma elevação de origem vulcânica localizada na freguesia dos Altares, concelho de Angra do Heroísmo, a cerca de 19 km,  e encontra-se localizado na parte Noroeste da ilha Terceira, junto à costa, elevando-se a 153 m acima do nível do mar.

Pico Gordo é um cone vulcânico localizada na freguesia dos Altares do concelho de Angra do Heroísmo. Este acidente montanhoso encontra-se localizado na parte Oeste da ilha Terceira, eleva-se a 622 metros de altitude acima do nível do mar

O Pico da Bagacina é uma elevação de origem vulcânica localizada no interior da ilha Terceira. Este acidente montanhoso eleva-se a 638 metros de altitude acima do nível do mar e encontra-se intimamente relacionado com o Maciço Montanhoso da Serra de Santa Bárbara.

Do mesmo documento consta ainda uma curiosa e complexa tabela de códigos e uma representação de um telégrafo de bolas rudimentar, apoiado numa qualquer arvore ou tronco.

Códigos de sinais

Códigos de sinais (O sinal + quer dizer repetição, isto é, arriado e tornado a içar. E o zero posto antes de qualquer sinal quer dizer 100. Continua com alguns exemplos, terminando com – quando for um nº composto por dezenas e unidades, o sinal se fará no extremo da haste do telégrafo; e quando seja só de unidades, se fará no terço dela.)

Telégrafo rudimentar

Telégrafo de bolas de 3 prumadas, com recurso a balões pretos e brancos (ver códigos acima). A primeira argola é apenas para passagem das 3 espias, não tem gancho para pendurar.

Exposição em Loures

 

Do nosso leitor sr Luis Fernando Dias recebemos por email o seguinte texto, referente ao post anterior (GG – As Comunicações de um batalhão na linha da frente):

Está a decorrer no Museu do Conventinho em Loures, uma exposição denominada “IN  MEMORIUM. Loures no esforço da Grande Guerra” que estará aberta ao publico até ao fim do ano. Dei a minha colaboração, no âmbito das transmissões, colocando duas peças de origem inglesa, mas que pertenceram ao Exercito Português. Possivelmente terão vindo no final da GG para Portugal.

Um Fullerphone  Mk 1* e uma lanterna elétrica de sinais com o respectivo tripé. É interessante a indicação que o Alferes José Augusto do Carmo dá sobre o equipamento usado “Os fullerfones que vi empregar eram os I” (sic). Muito provavelmente o Mk 1 .

FullerphoneMk 1*

FullerphoneMk 1*

Lanterna de sinais

Lanterna eléctrica de sinais

Grande Guerra – As Comunicações de um batalhão na linha da frente


Em 10 de Setembro de 1917, o alferes José Augusto do Carmo, chefe da Secção de Sinaleiros do Batalhão de Infantaria 1 pertencente à 6ª Brigada, apresentou um relatório sobre o funcionamento das comunicações ao nível de batalhão nas primeiras linhas. Nesta data, o Comando do CEP ainda não exercia a responsabilidade do Sector Português, estando as unidades portuguesas sob o comando operacional do XI Corpo de Exército britânico comandado pelo general Hacking. A 1ª Divisão exercia essa responsabilidade desde o dia 10 de Julho e o Corpo Português assumirá esse comando no dia 5 de Novembro de 1917, ficando subordinado ao I Exército Britânico, sob o comando do general Horne.
As brigadas pertencentes à 2ª Divisão foram assumindo a responsabilidade das suas zonas de ação, até se concluir o período de sobreposição necessário ao avanço do comando, o que veio a acontecer no dia 26 de Novembro.
Cada divisão ficou constituída por três brigadas, cada brigada por quatro batalhões e cada batalhão por quatro companhias.
Em relação às comunicações, e segundo as informações do alferes Carmo, existiam, na área do batalhão, duas redes de comunicações por fio. Havia a rede de alarme SOS ou “omnibus” só para pedidos SOS, que ligava entre si todas as estações e os postos SOS do batalhão (postos mais avançados de observação, responsáveis por emitir alarmes),os quais se serviam do telefone. Os telefones funcionavam em paralelo e eram operados por sinaleiros.
A rede normal ligava o batalhão às suas companhias, aos postos avançados, às estações dos batalhões adjacentes, às unidades de artilharia de apoio e ao comando da sua brigada. O equipamento desta rede era constituído por dois indicadores 413 e fullerfones. Os fullerfones estavam ligados às centrais 413 e eram operados pelas praças da Companhia de Transmissões de Praça.
O pessoal que operava as comunicações no batalhão era constituído por soldados da Companhia de Telegrafistas de Praça, guarda-fios e sinaleiros. Cada batalhão tinha cinco soldados da Companhia de Telegrafistas, estando um no Batalhão e um em cada companhia; os guarda-fios eram três e estavam todos no Batalhão. Os sinaleiros eram dois por companhia (oito no total), estando um destacado no posto SOS da companhia quando esta estava na frente. De uma forma geral, o dispositivo do Batalhão na frente contava com duas companhia em primeira linha, uma em apoio e outra em reserva, embora os trabalhos fossem ininterruptos. As rotações faziam-se quase sempre com intervalos de seis dias.

O relatório atrás referido do alferes Carmo está estruturado da seguinte forma:
– Comunicações telefónicas estabelecidas
– Aparelhos empregados nas estações e postos
– Forma como o pessoal foi distribuído
– Como desempenharam a sua missão
– Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria
– Como está montado o serviço de correspondência
– Informações diversas
O relatório, muito sintético e objetivo, dá uma ideia muito aproximada do funcionamento das comunicações ao nível do batalhão, apresentando as principais tarefas e dificuldades enfrentadas pela Secção de Sinaleiros. Publica-se integralmente.

CEP, 2ª Divisão, 6ª Brigada, 1º Batalhão
Secção de Sinaleiros de Infantaria nº 1
Relatório

Comunicações telefónicas estabelecidas.
Existiam no Batalhão em que fiz serviço duas redes de comunicações, uma, a omnibus ou de SOS, que ligava entre si todas as estações e postos os quais se serviam do telefone; outra, a normal, que permitia comunicações pelo fullerfone entre as estações do Batalhão e as que se lhe ligavam da retaguarda.
Junto a este relatório vão os respetivos esquemas.
Pelo primeiro destes sistemas, só é permitido falar-se quando em caso de SOS e mesmo assim limita-se o despacho a SOS e indicação do setor que o pediu. Pelo outro são enviados os outros despachos, mesmo de carácter D.D.
Aparelhos empregados nas estações e postos.
Na central do Batalhão bem como nas estações das Companhias existiam fullerfones. Em virtude do número de ligações no Batalhão existiam 2 indicadores 413, 2 fullerfones e 2 telefones, um para o SOS e outro para a verificação das linhas.
Cada estação está munida de um telefone ligado à linha do SOS e existem no sector de cada Companhia da frente e na 1ª linha um posto munido de um telefone e que é chamado posto de SOS, visto que é dali que parte em caso de perigo essa indicação, que é ouvida no Batalhão e em todas as companhias.
Os fullerfones que vi empregar eram os I e os telefones, franceses.
Forma como o pessoal foi distribuído.
Coloquei em cada Companhia um soldado da CTP e 2 sinaleiros. No Batalhão, um soldado da CTP e 3 praças como guarda-fios.
O sargento fazia serviço na central do Batalhão, e todos os sinaleiros passaram por todas as situações: companhias da frente, apoio, reserva, postos de SOS e central do Batalhão.
Como guarda-fios guardei os inaptos para sinaleiros. Esses acompanharam sempre o serviço que hão de desempenhar.
Como desempenharam a sua missão.
Se atender ao pouco tempo de instrução que tiveram na Escola (1), ao facto de nem todos terem sido sinaleiros, e ao conhecimento de que não tenham responsabilidade no desempenho do serviço, portaram-se a contento.
No entretanto, é preciso substituir alguns homens, para o que já estou dando instrução a igual número.
Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria.
Quando é necessário bater um ponto inimigo pela artilharia, o fogo é pedido pelo Batalhão às baterias que o apoiam.
Em caso de SOS, para maior rapidez, e segundo as instruções, é comunicado ao Batalhão telefonicamente o sector que periga e este, por sua vez, comunica às baterias.
Se falta o telefone usam-se os outros meios de comunicação e em último caso foguetões, que bastam só por si para que a artilharia faça fogo sobre a frente inimiga indicada pela direção em que os foguetões foram lançados.
Como está montado o serviço de correspondência.
A central do Batalhão é ao mesmo tempo posto de correspondência. Esta é agrupada ali conforme a proximidade dos seus destinos e enviada pelos ciclistas e estafetas apeados. A correspondência urgente é enviada imediatamente, e é considerada urgente a que se refere a munições, para o que lhe basta a indicação no envelope “Munições”.
Este serviço é fiscalizado nos recibos que o destinatário assina e que registam as horas da entrega e do recebimento, nº da correspondência e destino.
Informações diversas.
Não se utilizam nas trincheiras, nem bandeiras, nem discos.
Não vi tão pouco utilizar as lanternas de sinais. Julgo possível e conveniente o seu emprego em comunicações da frente para a retaguarda para postos que não dariam conferências nem entendidos.
Cada linha tem a sua linha de reserva, que passa por itinerário diferente.
As linhas passam em diversos sítios por caixas de experiências, para mais facilmente se conhecerem as avarias e as reparar.
Em Campanha, 14 de Setembro de 1917
José Augusto do Carmo
Alf. Infª. 1”.

(1) Refere-se à Escola de Sinaleiros, em França, que dava instrução aos sinaleiros, de telefonia acústica (buzzer), telefonia por voz e telegrafia ótica com bandeiras, com quadro venezianos e lâmpadas (lanternas).

 

Rede SOS

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Rede Normal

scan-rede-normal

 

Ainda a lanterna Lucas de sinais

Do nosso leitor sr Luiz Fernando Dias recebemos, a propósito da recente publicação do manual de instruções da lanterna Lucas, o seguinte comentário/post, que muito agradecemos:

No final da década de 30, princípios dos anos 40 do século passado, foram construídos nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia diverso material de transmissões: Telefones de Campanha, Comutadores Telefónicos, Fullerphones, Heliógrafo m/38, Lanternas de sinais (tipo Lucas), etc.

A lanterna de sinais fabricada pelas OGME era cópia exacta da Lanterna Lucas, muito bem executada, não ficava nada atrás da original. Contudo o corpo da lanterna era de alumínio, ao contrário da original que era de latão.

A caixa era de madeira tal como a lanterna Lucas da primeira geração, como se pode ver no desenho do folheto de instruções. Penso que estas instruções são de 1928, logo anteriores ao fabrico da Lanterna OGME.

Mais tarde, na 2ª Guerra Mundial, a Lanterna Lucas passou a ter a caixa metálica, chegando a estar em uso no nosso Exército.

Tenho uma vaga ideia que existe um exemplar destes no Museu de Transmissões, na Graça.

Da minha coleção junto uma fotografia de uma Lanterna de Sinais, fabrico OGME, anos 40, numa exposição em Torres Vedras efectuada em 2004.
lucas-dias

O CEP – Os militares sacrificados pela má política

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Este post é dedicado ao livro “O CEP – Os Militares Sacrificados Pela Má Política”, coordenado por dois distintos professores da Academia Militar: António José Telo e o tenente-coronel de Artilharia Pedro Marquês de Sousa, e lançado recentemente (no passado dia 01 de junho, nas instalações do Palácio da Bemposta – Sala D. João IV).

o-cepO livro tem como novidade incluir na historiografia do CEP, pela primeira vez, o estudo dos arquivos ingleses, franceses, dos EUA e de alguns alemães.

Para mim, o livro constituiu uma agradável surpresa, pelo que aconselho aos leitores deste Blogue a sua leitura e reflexão, tanto mais que o livro cobre o período entre 1910 e o 9 de abril de 1918, que continua a ser objeto de estudo por parte da CHT.

A última Revista Militar[1] contém um excelente comentário a este livro, da autoria do major general Vieira Borges, cuja leitura também recomendo aos leitores deste Blogue,

Nesse comentário é referida a organização do livro, a qualidade da sua grafia, as inovações que introduz e as mensagens que transmite.

Permito-me destacar algumas observações que apresenta:

  • “A obra vai marcar a historiografia portuguesa…”
  • “O livro leva inevitavelmente a profunda reflexão e debate seja a nível individual ou coletivo”
  • Incentiva os leitores da Revista Militar “à leitura cuidada do livro, na certeza de que nem tudo foi dito, nem escrito nem entendido – e julgo que nunca o será, pois aqui reside uma das riquezas da História.“
  • Felicita os autores pela publicação da obra “que demonstra que ainda existe espaço para novas perspetivas a bem da verdade histórica.”

Para terminar ainda mais três observações pessoais:

  • A primeira é o facto de estar previsto que o trabalho da equipe que realizou esta notável obra, que inclui mais de uma dezena de investigadores civis e militares dos 3 ramos das Forças Armadas, venha a prosseguir, apresentando novas publicações sobre o período que se segue ao 9 de abril (em que tenho esperanças que não sejam esquecidas as Transmissões), a frente africana, a frente interna que teve particular influência no processo e a frente naval. Como o major general Vieira Borges, faço votos para que este projeto seja realizado.
  • “Esta obra é polémica, como é fatal quando se pretende dar uma explicação sobre um assunto tão importante e tão deturpado como o CEP”, afirmam os autores no final do Introdução do livro. prevendo que… ”as opiniões aqui expressas vão provocar uma reação negativa de várias entidades e pessoas”

Não conheço outro comentário a esta obra que não seja o que referimos, mas tenho também a sensação que a obra tem condições para ser uma obra marcante na história do CEP.

  • Pela minha parte apenas ainda só li o capítulo I, que me entusiasmou. O livro vai ser a grande obra a ler nestas férias.

[1] Relativa a junho/julho de 2016 , que pode ser vista aqui.

Heliógrafo português m/938 C comunica a 38,5Km na Alemanha

Através de um post colocado neste blogue no dia 16ABR2013 (ver aqui) foram dados a conhecer alguns elementos relativos ao heliógrafo português modelo 938 e ao modelo italiano da OMI em que se inspirou.

No passado dia 17 de Junho este blogue foi contactado pelo Dr Joerg Noack, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig (radioamador DG2ORK), através da seguinte mensagem:

Exmos. Srs.:

Somos um grupo de entusiastas da Alemanha que promovem Ciências Naturais para alunos do ensino secundário e jovens estudantes.
Entre os nossos projectos actuais conta-se a comunicação óptica com heliógrafos. O objetivo deste projecto é ensinar os princípios físicos e ópticos por detrás desta tecnologia, e mostrar como este tipo de comunicação foi usada no século passado.
Temos vindo a utilizar com sucesso heliógrafos portugueses do tipo 938C (números de série 116, 1489, 2580) em transmissão Morse, numa distância superior a 38,5km.
Sabemos, através do V/ site, que o modelo 938C é baseado num heliógrafo italiano da OMI, e que foi fabricado na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, entre 1920 e 1940.
Estamos à procura de outras informações sobre a história do heliógrafo 938C, e ficariamos muito gratos por qualquer ajuda que nos possa dispensar nesse sentido, nomeadamente no que diz respeito a manuais, planos de construção, informações sobre a Fábrica de Braço de Prata, e uso de heliógrafos no Exército Português.

Se fosse possível, seria mais fácil para nós comunicar em Inglês.
Obrigado desde já pela V/ atenção.
C/ melhores cumprimentos,
Jörg Noack

Heliógrafo português m/938C utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo português m/938C utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo italiano OMI utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo italiano OMI utilizado (foto Dr Jörg Noack)

No seguimento da nossa pronta resposta, o Dr Noack enviou-nos amavelmente logo no dia seguinte mais a seguinte mensagem, dando conta do êxito alcançado por ele e pelo Dr. Karsten Hansky (DL3HRT) numa transmissão por Morse visual entre um modelo português (m/938c) e o heliógrafo OMI em que o nosso se baseou, efectuada nesse mesmo dia entre Seitz e Leipzig, na incrível distância de 38,5 Km:

Dear José Manuel Canavilhas,

Thank you very much for your friendly reply. I did not expect any feedback that fast!
I have to admit, that I do not speake any Portuguese. So I will forward your compliments to my colleague, who did the translation🙂
Please let me introduce Dr. Karsten Hansky (DL3HRT). He is the driving force behind the heliograph project. Karsten, like me, is a radio amateur interested in everything connected to light.
We did know, that the 938C was made for just 4km. However, Karsten is a serious scientist and a very curious mind. After some calculation he convinced me to try to heliograph between Zeitz and Leipzig over the distance of 38,5km. So we did it – and to our big surprise, it worked! I could even see the signal from Karsten’s 938C with naked eye.
Bright sunlight is not very common in our area, so we had to wait for this moment for many weeks.
However, we did it again today. Karsten operated an italian heliograph from OMI at a location above the city of Zeitz. I used a 938C at the roof of your institute in Leipzig. The distance was about 38,5km.
It is unbelievable, how far heliograph communication with these small mirrors works. The alignment of the heliographs over this distance is the most crucial step and requires a lot of adjustment. Fortunately, the OMI heliograph has a build in magnifying telescope that helps a lot.

(Muito obrigado pela sua resposta amigável. Eu não esperava um feedback tão rápido!
Eu tenho que admitir que eu não falo Português. Por isso vou encaminhar os seus elogios ao meu colega que fez a tradução🙂
Por favor, deixe-me apresentar o Dr. Karsten Hansky (DL3HRT). Ele é a força motriz por trás do projeto heliógrafo. Karsten, como eu, é um radioamador interessado em tudo relacionado com a luz.
Nós sabemos que o 938C foi feito para apenas 4 km. No entanto, Karsten é um cientista sério e uma mente muito curiosa. Depois de alguns cálculos, ele convenceu-me a tentar heliografar entre Zeitz e Leipzig numa distância de 38,5km. Então nós fizemos isso – e para nossa grande surpresa, funcionou! Eu pude até ver o sinal do 938C do Karsten a olho nu.
A luz solar brilhante não é muito comum na nossa área, por isso tivemos que esperar por esse momento por muitas semanas.
No entanto, nós fizemos isso novamente hoje. Karsten operava um heliógrafo italiano da OMI num local acima da cidade de Zeitz. Eu usei um 938C no telhado do nosso instituto em Leipzig. A distância era de cerca de 38,5km.
É inacreditável quão longe a comunicação heliográfica com estes pequenos espelhos funciona. O alinhamento dos heliógrafos para estas distâncias é o passo mais importante e requer um grande ajustamento. Felizmente o heliograph OMI tem incluída ampliação telescópica, o que ajuda muito.)

Zeitz_Leipzig

O heliógrafo OMI visto a olho nu

O heliógrafo OMI visto a olho nu (foto Dr Jörg Noack)

Além desta informação e destas imagens, o Dr Noack enviou-nos também um ficheiro em que se pode ver a transmissão efectuada pelo heliógrafo português (e também do OMI). Infelizmente, o alojamento deste blogue (gratuito) não nos permite colocar aqui videos, mas os nossos leitores poderão ver essas imagens acedendo a este endereço.
No caso do m/938C, os sinais são visíveis contra o fundo mais escuro do edifício do Instituto de Leipzig, situado um pouco à esquerda da mais alta chaminé. No caso do OMI, este situa-se na linha do horizonte, um pouco à esquerda da torre metálica, tal como também é visível na imagem acima, onde está assinalado por um circulo.

Uma ultima nota, para chamar a atenção desta louvável iniciativa de explorar física e empiricamente este antigo sistema óptico de comunicações, e, sobretudo, de procurar envolver jovens alemães no entusiasmo pelo conhecimento destes ainda hoje úteis equipamentos. Algo que deveríamos procurar fazer em Portugal, com este e outros sistemas visuais, que foram da maior importância no nosso país.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 5ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

5. 2 As comunicações na Divisão de Instrução – Instrução

Foi a instrução nº12 da 1ª Repartição do Quartel General que estabeleceu a instrução a ministrar às secções de Telegrafistas de T.S.F. e de Campanha T.P.F. durante as manobras.

– Secção TSF
A Secção de TSF, durante todo o período dos exercícios, dedicou-se à tarefa de instalar a estação de TSF Marconi (MM1), assim como à prática de recepção pelo ouvido, à prática dos motores TSF e ao estabelecimento de comunicações com Lisboa (MM2) e com o Alfeite (Marinha).

– Secção TPF
A instrução em Tancos para os telegrafistas de campanha abrangeu as comunicações telegráficas e telefônicas, assim como os heliógrafos e as bandeiras.
Vejamos alguns dos materiais que foram usados:

Telefones
Foram usados telefones e a central telefônica Ericson e também os telefones de Cavalaria.

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Heliógrafos
Foi usado na instrução o heliógrafos de Mance.

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Heliógrafos e lanterna de Mangin

E também o heliógrafo e lanterna de Mangin.

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Bandeiras
Também foi ministrada instrução de bandeiras, que podiam utilizar o código Morse ou o alfabeto homográfico.

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Bandeiras e códigos
No código Morse, com apenas uma bandeira, havia três posições – posição normal, posição de ponto e posição de traço.

 

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– Esquadras de construção
A partir de 5 de Junho iniciou-se a instrução programada para as diversas especialidades da Secção de TPF e assim, no período de 5 de Junho a 15 de Julho, as esquadras de construção praticaram:
Construção de linhas permanentes
Construção de linhas de cabo
Construção de linhas de fio

 

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– Serviço Ótico
As esquadras de serviço ótico praticaram a utilização de:
Heliógrafo de Mance na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Conceição e de Mangin na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Barquinha, assim como o uso de bandeiras na ligação Casal do Rei com Cascalheira do Freixo.

Fundo 3-5-4-22-211_m0015

11 ligação por bandeiras

– Tarefas dos telegrafistas
Durante todo o período de manobras, as tarefas dos telegrafistas consistiam em treinar os procedimentos telegráficos, assegurando o funcionamento das estações, garantirem o apoio e as ligações entre as unidades e assegurarem as ligações durante as marchas.

 

 

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– Mapa
No conjunto de exercícios do período de instrução pode destacar-se o exercício de grandes destacamentos mistos realizado em 24 e 25 de Julho no planalto da Barquinha no qual se confrontavam a 1ª BI (P.V.), na defensiva, e a 2ª BI (P.A.) no ataque. Reparar que o terreno foi organizado para a defensiva, reconhecendo-se as trincheiras.

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– Instalação de tropas e ligações
Neste exercício, a Secção de TPF instalou e explorou a partir do QG as linhas de cabo para a estação telegráfica da Barquinha, para a Reserva Geral e para o Alto das Éguas e uma ligação ótica também para o Alto das Éguas. Os telefonistas de infantaria instalaram a rede telefónica de serviço ao exercício, assim como uma ligação ótica.
Na imagem apresentam-se as ligações na zona da ação da 1ª BI, que estava na defensiva.

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– Esquema do exercício
No seu conjunto, o exercício pode ser representado como se vê na imagem.

Imagem40

– Ação sobre Atalaia
Por sua vez, o exercício de Divisão (o maior exercício efetuado durante o período de manobras) foi realizado de 29 a 1 de agosto, concretizando-se através de uma ação sobra a Atalaia. Neste exercício, a Secção TPF teve como missão garantir as ligações durante as marchas, utilizando as estações civis e montando as linhas necessárias para acompanhar as movimentações.

Imagem41

 

Os trabalhos efetuados nas manobras de Tancos pelas tropas de transmissões situaram-se em bom nível e apoiaram com bastante eficácia as unidades operacionais, acompanhando as suas movimentações. Testaram os seus conhecimentos e os materiais utilizados. Para aqueles que vieram a integrar o C.E.P., como por exemplo o seu responsável máximo, capitão Soares Branco, foi uma experiência muito útil.

 

6. Balanço dos exercícios militares

Conclusões
Como balanço deste nosso estudo, como dissemos ainda incompleto, escolhemos alguns trechos de relatórios de unidades participantes:
“A intensidade da instrução em Tancos levou-nos a marchas longas bastante penosas, debaixo dum calor ardentíssimo e perfeitamente cercados de nuvens de pó, pois nem assim os nossos soldados deixaram de cumprir com o seu dever” (Coronel Barreira, 2º Regimento da 1ª BI);
“Nas localidades, nenhumas notas discordantes se deram, havendo localidades em que todos, à porfia, primavam em atenções para oficiais e praças que, pela sua conduta irrepreensível, souberam corresponder ao acolhimento amigável que lhes era feito” (Coronel Fragoso, 1ª Brigada).
“Como consequência da falta de educação militar, deriva-se naturalmente a ausência de um espírito disciplinado, sofredor e obediente (…) Tive ocasião de notar que nos diferentes exercícios executados, não havia aquele empenho e aquela coesão e decisão indispensáveis para justificar a transição para as diversas fases dos combates” (Tenente-coronel Veiga, 1º Grupo de Metralhadoras).
“Praticaram-se todos os sistemas de ligações – cadeias de homens, ordenanças, sinais óticos, telefone e telégrafo, sendo digno de registo o desembaraço das tropas de engenharia na montagem e desmontagem dos dois últimos sistemas e na receção e transmissão dos despachos.
Os diversos meios de ligação, mais na ofensiva do que na defensiva, em que aquelas se tornam mais fáceis e práticos, nem sempre foram utilizados conforme as reservas disponíveis, situação tática, natureza do terreno e rede de comunicações, e daí as ordens, informações e notícias chegarem muitas vezes tardiamente, perdendo todo o valor” (Coronel Almeida Fragoso, comandante da 2ª BI).

Em suma, podemos concluir que as manobras de 1916 em Tancos, com a concentração de uma Divisão a duas Brigadas, foi uma decisão politicamente necessária, mas militarmente questionável. Os temas estavam desadequados em relação ao que se praticava quase desde o início da Guerra, na Frente Ocidental. As manobras testaram as capacidades militares do Exército, mas não serviram de grande lição.

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Eleições para a Presidência da República (1976)

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Cumprem-se agora 40 anos da primeira eleição por sufrágio universal e livre do Presidente da República, ocorrida em 27 de Junho de 1976.

Tal como para a eleição da Assembleia da República, dois meses antes, o Ministério da Administração Interna (MAI) solicitou ao Exército a montagem de um sistema de transmissão e de escrutínio provisório dos resultados eleitorais. E de novo essa missão foi atribuída à Direcção da Arma de Transmissões, sendo a transmissão assegurada pela rede do Serviço de Telecomunicações Militares e o escrutínio efectuado na Escola Prática de Transmissões.

O sistema foi semelhante ao implementado para o acto eleitoral anterior (ver aqui), tendo sido igualmente coordenado pelo Tenente Coronel Engº Tm José Maria Marques. As operações de escrutínio foram novamente asseguradas pelo Capitão Engº Tm José Manuel Pinto de Castro, com recurso à calculadora HP 9810 e respectivos acessórios, em especial o plotter para  impressão de gráficos.

IMG_3081A experiência anterior e o facto de haver apenas quatro candidatos facilitou a programação da calculadora e a obtenção de resultados com maior celeridade. As mais de quatro mil mensagens recebidas de todas as capitais de distrito foram devidamente processadas e os resultados disponibilizados ao STAPE.

As duas imagens que se seguem constituem testemunho do trabalho efectuado: a primeira do impresso próprio manuscrito no Governo Civil pelo Oficial Delegado da Comissão Nacional de Eleições (em Lisboa eram entregues directamente na Escola Prática de Transmissões) e a segunda do gráfico regularmente efectuado pelo plotter.

PR 76 PSI 001 PR 76 001O sistema principal, da responsabilidade do STAPE/MAI, foi também semelhante ao de Abril, com apenas uma diferença: pela primeira vez o escrutínio não foi efectuado por uma empresa privada, tendo dessa tarefa sido incumbido o Centro de Informática do Ministério da Justiça. Paralelamente, quase em simultâneo, o apuramento dos resultados foi também efectuado pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Serviço Mecanográfico do Exército.

As eleições para a Assembleia da República (1976)

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Em 25 de Abril de 1976 realizaram-se as primeiras eleições para a Assembleia da República, criada pela Constituição da República Portuguesa, que fora aprovada no dia 2 de Abril de 1976.

Devido ao facto de existir desconfiança de alguns partidos políticos quanto à credibilidade da transmissão e do escrutínio provisório dos resultados eleitorais através de meios exclusivamente civis, o Ministério da Administração Interna (MAI) solicitou ao Exército a implementação de um sistema alternativo utilizando equipamentos e redes militares.

De forma sucinta descrevem-se os dois sistemas que foram instalados para a transmissão  e escrutínio provisório dos resultados eleitorais.

1. Sistema militar, da responsabilidade da Direcção da Arma de Transmissões (Exército)

Tal como em 1975, o MAI solicitou ao Exército a montagem de um sistema de transmissão dos resultados através da sua rede de telecomunicações privativa, operada pela Arma de Transmissões.  Mas desta vez acrescentou o escrutínio provisório, para precaver a eventual ocorrência de falhas no sistema da responsabilidade do Secretariado Técnico dos Assuntos Políticos e Eleitorais (STAPE).

O sistema implementado pelo Exército foi coordenado pelo Tenente Coronel José Maria Marques e nele estiveram envolvidas várias dezenas de Oficiais, Sargentos  e Praças.

1.1. Transmissão dos resultados

Processou-se de forma semelhante ao ano anterior, ou seja: em cada Governo Civil foi colocado um Oficial das Forças Armadas, Delegado da Comissão Nacional de Eleições, a quem eram entregues cópias dos impressos com os resultados enviados por cada freguesia; depois preenchia uma mensagem militar (para cada freguesia) que era entregue na Unidade militar local; através da rede do Serviço de Telecomunicações Militares, quer por via telegráfica (telex), quer radiotelegráfica (morse), essa mensagem era transmitida para a Escola Prática de Transmissões (EPT), localizada na Rua de Sapadores, em Lisboa; cópias destas mensagens eram entregues em mão ao Centro de Escrutínio Militar, instalado na Sala de Conferências da EPT, e ao Centro de Informática do Ministério da Justiça, por estafeta, em viatura militar.

1.2. Escrutínio

A novidade foi o tratamento dos resultados, efectuado por militares da Escola Prática de Transmissões.

Foi utilizada uma calculadora HP 9810 que foi programada e operada pelo Capitão Engº Tm José Manuel Pinto de Castro. Recebidos os dados do Centro de Mensagens eram gravados e processados, sendo os resultados impressos num plotter próprio (para gráficos) e numa máquina de escrever.

IMG_3081A programação da calculadora foi complexa e lenta, tanto mais que os partidos concorrentes às eleições eram muitos, variáveis de distrito para distrito, e havia que ter  em consideração o método de Hondt para distribuição dos deputados por partido e por distrito. O apuramento efectuado pelo STAPE foi mais rápido, como é óbvio, pois utilizava um computador já muito avançado para a época. Mas, embora com algum atraso, foi possível disponibilizar os resultados apurados, que poderiam ter sido utilizados se o sistema civil tivesse falhado.

Infelizmente não foi possível encontrar nenhum mapa ou gráfico elaborado pela calculadora. Mas para memória futura aqui fica um dos vários esquemas efectuados para programação da máquina.

programa HP 001Esquema de sequência de operações para acumulação de dados

Sua Excelência o Chefe do Estado Maior do Exército, General Ramalho Eanes, deslocou-se  à Escola Prática de Transmissões na noite do dia 25, como documentam estas duas fotografias.
146a-Eleições 76 JMM 146b-Eleições 76 JPC

2. Sistema civil, da responsabilidade do STAPE/MAI

2.1. Transmissão dos resultados

Foi igual ao método utilizado um ano antes para a eleição da Assembleia Constituinte, ou seja: Freguesia-Governo Civil por telefone, e Governo Civil-Lisboa por telex.

2.2. Escrutínio

O Centro de Escrutínio foi de novo instalado na Fundação Gulbenkian, sendo desta vez o processamento dos resultados efectuado pela empresa NORMA.

Em paralelo, as contas foram também efectuadas pelo Centro de Informática do Ministério da Justiça (CIMJ), tendo em vista a utilização dos meios informáticos do Estado em futuras eleições.

Havia ainda um outro sistema de reserva, do Instituto Nacional de Estatística, que só entraria em operação duas horas após a paralisação dos sistemas da NORMA e do CIMJ, o que não viria a suceder.

42 anos de Escola Prática – Honra e valor – Um livro notável

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:
Como não tive possibilidade de estar presente nas comemorações do dia da Arma deste ano, em que foi apresentado o livro “42 anos e Escola Prática de Transmissões Honra e Valor”, só tive oportunidade de ler o livro a partir do final semana passada, graças à gentil oferta do Coronel Ribeiro, atual Comandante do Regimento de Transmissões no Porto, que muito agradeço.
Trata-se de uma obra notável, que considero de referência na área da historiografia das Transmissões militares e que jugo da maior importância para a Arma de Transmissões pela potencialidades que revela e perspetivas que suscita.
EPT livroEm primeiro lugar a obra tem uma conceção profundamente original e de grande oportunidade, dado que, em 2013, as Escolas Práticas das Armas foram abolidas e concentradas em Mafra na Escola das Armas.
Para quem esperava uma História da EPT (Porto) o título “42 anos de Escola Prática” é enigmático, pois a EPT (Porto) começou em 1977 e acabou em 1913, apenas teve 36 anos de vida. O livro porém inclui no conceito de Escola Prática de Transmissões as duas unidades que tiveram esse nome, primeiro em Lisboa de 1971 a 1977 e depois no Porto de 1977 a 2013. Ou seja a Escola Prática começou em Lisboa e acabou no Porto.
Contudo, vai mais longe, incluindo os antecedentes da Escola Prática, quando as suas funções eram desempenhadas pela Engenharia em Tancos, na EPE; e uma cuidada referência aos antecedentes históricos da valências de Instrução, Transmissões Permanentes, Transmissões de Campanha e Investigação e Desenvolvimento que a acompanharam a Escola Prática durante as quatro décadas de existência
Uma obra monumental e de grande qualidade. Não é, nem pretende ser, uma história completa da Arma, pois não refere nem a componente Logística (hoje retirada da Arma), nem a parte respeitante à Direção da Arma, que nunca estiveram presentes na Escola Prática.
Estão assim de parabéns os grandes responsáveis por esta iniciativa: o MGen Arnaut Moreira, que teve a ideia de se publicar uma obra condigna da Escola Prática que desafiou a pessoa certa para a concretizar: o Coronel Rodrigues que se empenhou decididamente nesta gigantesca tarefa e conseguiu congregar os esforços de uma vasta equipa de militares da própria unidade e obter a contribuição de antigos comandantes e outras figuras altamente prestigiadas da Arma e do Exército como o General Garcia dos Santos e o Ten Gen Xavier Matias.
É um livro imperdível (com uma Bibliografia impressionante) que é indispensável ler.
As maiores virtudes que lhe encontro são:

• Constituir uma contribuição relevante para a historiografia das Transmissões Militares e da preservação da memória sobretudo da Escola Prática de Transmissões (Porto) que há muito o merecia, pelo importante papel que desempenhou.

• A qualidade do livro, feito basicamente por uma vasta equipe de pessoal militar em serviço ativo, vem demonstrar que a historiografia das Transmissões também é uma atividade que pode ser feita por jovens ao serviço e não está necessariamente condenada a ser reservada a pessoal na reserva ou na reforma.

Julgo que este notável esforço constitui um forte exemplo de coesão e capacidade da Arma que terá continuidade no futuro. Entre outros, a leitura do depoimento do MGen Dario Carreira, como antigo Comandante, a obra já realizada pelo cor Ribeiro na historiografia das Transmissões (os “30 anos do RTm” os“42 anos de Escola Prática” e a “CTm 5” que espero venha a ser finalmente publicada) dão fortes garantias de que a ideia de que vale a pena recordar e tentar perceber o passado, não ficará por aqui.

Inauguração de duas paradas na CTm da BrigMec

No passado dia 15 de junho de 2016, realizou-se na Companhia de Transmissões (CTm) da Brigada Mecanizada (BrigMec) em Santa Margarida a cerimónia de inauguração das paradas Major Tm Pedro Rocha Pena Madeira e Sargento-Ajudante Tm Jorge Alberto de Jesus Alves.
Após apresentação das Honras Militares ao Major-General Pedro Jorge Pereira de Melo, presidente do Conselho da Arma de Transmissões, que presidiu à cerimónia, o Comandante da CTm da BrigMec em suplência, Ten Tm (Engº) José João Pereira Rocha Cordeiro, proferiu uma alocução alusiva ao evento, seguida da inauguração da Parada Maj Tm Pena Madeira, atualmente com o posto de Major-General, que iniciou a sua carreira militar na Escola Prática de Transmissões (EPT) e que, enquanto Comandante da Companhia de Transmissões da 1ª Brigada Mista Independente (1ª BMI), em 1978, foi o responsável pelo levantamento da Companhia e de todo o processo de normalização e atualização dos materiais de transmissões da 1ª BMI.
Logo de seguida foi inaugurada a Parada Sargento-Ajudante Tm Jorge Alberto de Jesus Alves, hoje com o posto de Sargento-Mor, que enquanto Sargento-Ajudante, foi o primeiro Sargento Adjunto do primeiro Comandante da Companhia.
Seguiu-se uma visita ao Museu da Companhia de Transmissões, culminando a cerimónia com um almoço volante oferecido aos convidados e onde não faltaram o tradicional grito da Arma de Transmissões e o corte do bolo comemorativo.
Deste modo a Companhia de Transmissões e a Brigada Mecanizada perpetuam a memória dos que engrandeceram a sua história assim como passaram a mensagem aos militares mais novos sobre a importância da manutenção dessa memória.
Nota: O MGen Pena Madeira é um dos membros da CHT.

    

    

    

Fonte: Página da BrigMec no site do Exército

As Tm no nº 1 do Jornal do Exército (JAN1960)

No dia 7 de Dezembro de 1959, reunidos numa dependência do Colégio Militar, o Brigadeiro David dos Santos (futuro 1º director do JE), os Majores Balula Cid (professor de Desenho do CM, caricaturista e futuro 1º chefe de redação), Pinto Coelho, Eduardo Fernandes e Tavares Figueiredo e o Capitão José Marques, redigiram uma proposta de criação do Jornal do Exército.

1960 –  A 11 de Janeiro é publicado um despacho do Ministro do Exército, Brigadeiro Afonso de Almeida Fernandes – Aprovo com a maior satisfação a presente proposta que vem ao encontro de uma aspiração que há muito acalentámos e que as circunstâncias parecem tornar agora oportuna. Conviria que o primeiro número do Jornal saísse ainda no corrente mês, o que julgo possível, em face do trabalho preliminar já realizado. O Jornal intitular-se-á Jornal do Exército (…).

– De facto, ainda em Janeiro, é feita a primeira tiragem do JE, com 20 mil exemplares.

– A 26 de Janeiro o Jornal do Exército abandona o CM e passa a ocupar o 2.º andar do N.º 61 da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa. 

– A 14 de Julho, por Portaria do Ministério do Exército, é criado formalmente o Jornal do Exército, definido como: órgão de informação, cultura e recreio do Exército Português.

– No seu primeiro numero, na rubrica Noticiário Militar (pág 10), foi inserida uma interessante notícia sobre o Batalhão de Telegrafistas que pode ser consultada na seguinte imagem (clicar sucessivamente, 3 vezes, se pretender aumentar ao máximo):
Ed 1 de 1960 JORNAL DO EXÉRCITO - BT