Apontamentos e Memórias da Arma de Transmissões entre 1950 e 1983

Contribuição para a Elaboração da História das Transmissões Militares em Portugal por Tenente-General Avelino Pereira Pinto, Novembro de 2003.

Advertência

Este trabalho que seguidamente se apresenta, não pretende ser um trecho acabado da História das Transmissões em Portugal. Tem apenas a intenção de poder eventualmente servir de lembrança e suporte, para um período limitado a 1950 e 1983, aos estudos que forem sendo feitos e, bem assim, à pesquisa e investigação a levar a cabo para a elaboração da efectiva História.

A elaboração deste trabalho deste trabalho resultou do pedido que me foi dirigido por vários colegas, dada a situação privilegiada que eu tive, ao longo do período considerado, para observar, e até, nalguns casos, tomar parte, nos acontecimentos condicionantes e determinantes para as Transmissões, desde a criação da Direcção da Arma às múltiplas actividades por ela desenvolvidas.

Decidi seleccionar acontecimentos ou factos, alguns fora das Transmissões, que considerei importantes para as Transmissões que foram, como o foram e porque o foram. É evidente que tal selecção comporta em si uma apreciação pessoal que poderá não corresponder à opinião generalizada.

Mesmo assim, entendi que, o chamar a atenção para tais factos, poderá suscitar uma desejável controvérsia que venha a melhor classificar a sua real influência e o surgimento de outros mais adequados para caracterizar a verdadeira história a realizar.

Há muitas referências às Transmissões do Ultramar, naquelas Províncias onde não estive ou onde terei estado em épocas diversas, que estarão muito deficientes ou até erradas, pois resultaram de um distante “ouvir dizer”.

Também haverá factos que não vieram a ser referidos ou, ao sê-lo, tenha pecado por falta de pormenorização ou até por erros de descrição.

Peço desde já a compreensão da Comissão dos trabalhos e faço votos para que, com os defeitos que garantidamente terá, este despretensioso desfiar de memórias possa vir a ter o interesse que para ele almejei.

Nota: Os textos em itálico constituem comentários e apreciações pessoais.

Lisboa, 12 de Novembro de 2003

           António Avelino Pereira Pinto, Tenente-General

Súmula

Secção 1: DE 1950 A 1960

Situação das Transmissões no início da década de cinquenta

Unidades e Órgãos de Transmissões/ Órgãos de Transmissões Permanentes e Sistemas de Transmissões instalados / Transmissões de Campanha e seu emprego em Exercício e Manobras: Pessoal, Material e Logística / Vultos relevantes

Acontecimentos e factos relevantes na década de cinquenta

Criação do STM / Criação da Escola Militar de Electromecânica / Integração na NATO / Constituição da 3.ª Divisão / Criação do BTm3 / Material de Transmissões da Divisão / Transferência da função de ministério de cursos e estágios de Transmissões da EPE para o BT / Apoio prestado pelo MAAG / Criação do Serviço de Material / Substituição do encargo NATO de uma Divisão para uma Brigada / Criação do Serviço de Reconhecimento de Transmissões sob a tutela da 2.ªRep/EME e dirigida pela CHERET

Secção 2: DE 1960 A 1970

Situação das Transmissões na Metrópole e no Ultramar no início da década de 60

Transmissões Permanentes na Metrópole / Transmissões Permanentes no Ultramar / Transmissões de Campanha / Evolução das Transmissões em Angola

[O Aprontamento]

Criação de Unidades de Engenharia no Ultramar / Envio do Destacamento do STM para Angola / Início das operações anti-subversão / Montagem dos Sistemas de Transmissões para satisfazer as necessidades dos dispositivos a / Montagem de uma oficina de base no Depósito Geral de Material de Transmissões / Criação do Comando das Transmissões de Angola e do Batalhão de Transmissões 361 / Evolução da ligação interterritorial pelo STM / Destacamento do STM para Moçambique e Guiné / Documento sobre Transmissões para a Guerra Subversiva

[A Evolução]

Procura de equipamentos adequados para este tipo de guerra / Evolução das Transmissões em Angola / Evolução das Transmissões em Moçambique / Evolução das Transmissões na Guiné / Actividades das Transmissões na Metrópole / Actividades de Guerra Electrónica

Secção 3: DE 1970 A 1983 [Em preparação]

Acontecimentos Relevantes [De 1970 a 1975]

Operação NÓ GORDIO em Moçambique / Aprovação dos quadros de efectivos da Arma e sua definitiva criação / Criação da Escola Prática de Transmissões / Contribuições para Revisão da Logística das Transmissões / Vinte e Cinco de Abril / Vinte e Cinco de Novembro

Ler mais sobre Acontecimentos de 70 a 75

[Perspectivar o Futuro da Arma de Transmissões]

Revisão estrutural da Arma de Transmissões / Reformulação infra-estrutural do DGMT / Análise das existências e necessidades de material / Criação de uma Brigada Mista para se integrar na NATO

[No Reequipamento, a Arma de Transmissões Alavanca a Indústria Nacional]

Obtenção de tecnologias para o País, indispensáveis à manutenção e ao fabrico de circuitos electrónicos / Desenvolvimento e fabrico em Portugal de um equipamento de rádio militar / Montagem da Cadeia Logística / Montagem do sistema de desenvolvimento tecnológico para futuros equipamentos / Projecto, Desenvolvimento e Montagem de Centros de Transmissões moveis / Criação na Escola Militar de Electromecânica de um Centro Nacional de Profissionalização em Electrónica

[Factos na Componente Permanente e na Valorização do Conhecimento]

Apoio de Transmissões aos Comandos das Regiões Militares do Continente e das Regiões Autónomas / Apoio às Forças de Segurança / Revisão do Sistema de Transmissões Permanente / Valorização dos engenheiros da Arma, para a satisfação de desenvolvimentos quer no hardware quer no software / Semanas da Arma de Transmissões / Revisão dos planos de curso dos alunos de Transmissões da Academia Militar / Reconstituição do Centro de Instrução de Guerra Electrónica / Criação do Museu das Transmissões / Vultos relevantes na década de 70 e até 1983 

Transmissões no início da década de cinquenta

Unidades e Órgãos de Transmissões. Todas as Unidades e Órgãos com missões ligadas às Transmissões, pertenciam à Arma de Engenharia. As Unidades de Transmissões existentes eram as seguintes:

  • Batalhão de Telegrafistas, situado no quartel dos Quatro Caminhos em Lisboa, desde 1937. (DL 28.401, 1937)
  • Um Batalhão de Transmissões integrado no RE2 em Lisboa, no quartel da Pontinha desde 1947 (OE, 1947)
  • Um Batalhão de Transmissões integrado no RE1 no Porto no quartel de S. Braz desde 1947. (idem)
  • Um Batalhão de Transmissões integrado na EPE desde 1947. (idem)

A Unidade com o encargo de ministrar os cursos e estágios de Transmissões aos quadros da Arma de Engenharia e de formar os quadros de complemento de Tm passara a ser a EPE a partir de 1946, data em que foi extinta a Escola de Transmissões, inicialmente no quartel da Penha de França, e sucessivamente na Ajuda, no Pavilhão de Exposições do Parque Eduardo VII, e finalmente por alguns meses, no próprio BT.

O Órgão com o encargo de armazenamento e fornecimento do material de transmissões era a 2.ª Secção do Depósito Geral de Engenharia, situada em Linda-a-Velha no quartel do Carrascal desde 1947. (OE, 1947)

Órgão de Transmissões Permanente e Sistemas de Transmissões instalados. As Transmissões de carácter permanente eram da responsabilidade do Serviço Telegráfico Militar o qual, desde 9 de Janeiro de 1901, passara para a Arma de Engenharia, ficara a cargo da Companhia de Telegrafistas de Praça sediada no quartel dos Quatro Caminhos e na dependência directa do Inspecção dos Telégrafos Militares, por seu turno dependente da Direcção Geral do Serviço de Engenharia. (OE, 1901)

A Companhia de Telegrafistas de Praça, deu origem a um Regimento de Transmissões que veio a ser substituído por o Batalhão de Telegrafistas em 1937, o qual manteve, sob sua responsabilidade, aquele Serviço.

Sistemas de Transmissões instalados. Havia uma rede telefónica aérea em fio de cobre instalada em Lisboa ligando o Estado Maior do Exército, o Ministério do Exército, o Quartel-General e todas as Unidades da guarnição de Lisboa.

Havia ainda redes internas nos Quartéis-Generais e Unidades das Regiões Militares operadas por pessoal do Serviço Telegráfico Militar.

Havia em cada QG e Comando de Unidade, uma estação rádio a trabalhar em grafia articuladas em redes cujas estações directoras se situavam no BT e no quartel da Ajuda. As guarnições, quer as das estações rádio, quer, quando era o caso, das centrais telefónicas, eram chefiadas por um sargento radiotelegrafista e pertenciam ao Serviço Telegráfico Militar.

[Transmissões de Campanha e emprego em exercício e manobras]

O pessoal de Transmissões pertencia todos à Arma de Engenharia. Os oficiais do quadro permanente eram oficiais da Arma de Engenharia que, como todos os restantes oficiais da Arma, após terem recebido na Escola do Exército, formação técnica como engenheiros civis e uma limitada formação sobre telecomunicações e electrónica, eram, na EPE, colocados no tirocínio e em funções de transmissões, para satisfação das necessidades previstas pela DAE ou porque manifestaram desejo de se orientarem para tais actividades.

Contudo, tal orientação não era vinculativa, pois, de acordo com ulteriores necessidades de colocação de pessoal, ou por virtude de mobilizações para o Ultramar, os mesmos oficiais poderiam transitar para outras actividades ligadas a especializações da Arma de Engenharia, tais como Pontoneiros, Sapadores, Mineiros, Caminhos de Ferro, Obras (como engenheiros civis), etc.

Os sargentos do QP provinham da carreira ascensional, desde praças, mas esses, sim, enquanto sargentos, sempre ligados às transmissões e, até, à sua especialidade para que haviam sido preparados como praças.

Todavia, mesmo esses, quando concorriam para o seu acesso a oficiais, deixavam de estar ligados às transmissões e passavam a desempenhar funções burocráticas em qualquer Organismo ou Unidade de qualquer Arma ou Serviço, como oficiais do Quadro dos Serviços Auxiliares do Exército (QSAE).

As praças e o pessoal do Quadro de Complemento adquiriam uma especialidade na recruta ou curso de formação, e essas especialidades eram de facto vinculativas.

O pessoal radio montador (sargentos) pertencia igualmente à Arma de Engenharia, era formado, inicialmente na Escola de Transmissões e depois na EPE.

Em novembro de 1948, na sequência de um Decreto-Lei, o Instituto dos Pupilos do Exército alterou o plano de estudos passando a formar técnicos e onde passaram a ser preparados radio montadores altamente qualificados e com uma cultura geral equivalente ao 2.º ciclo dos liceus, embora sem que tal equivalência lhes viesse a ser garantida no seu currículo. (DL 37.136, 1948)

Estes mecânicos radiomontadores, que foram prejudicados em relação às suas perspectivas, legítimas de virem a ser engenheiros-técnicos, com que haviam entrado para os Pupilos, constituíram um escol de técnicos de alta valia de que beneficiaram as Transmissões, sem os quais dificilmente poderiam ter respondido ao desafio da criação, em tempo record, das Transmissões da Divisão NATO, e até a própria RTP que começava a instalar a sua rede de retransmissores pelo país, e para onde se orientaram alguns destes técnicos.

Esses técnicos foram preparados, no seu último ano de curso do IMPE com o Curso de Sargentos Milicianos e foram integrados, a partir de 1953 nas fileiras, como 2.º sargentos. Por felicidade houve concursos para 1.º sargento pouco depois, pelo que, alguns deles, foram promovidos com pouco mais de um ano a 1.º sargento.

Igualmente viriam na altura própria para guarnecerem e lançarem o funcionamento, como monitores, da Escola Militar Electromecânica que fora criada em 1952 e que viria a ser o fonte-manancial da formação dos radiomontadores do Exército e da Aeronáutica, mas, como consequência, e por passagem à disponibilidade das praças lá formadas, da técnica de radiomontagem em todo o País.

Material de Transmissões. Os equipamentos de transmissões existentes nas transmissões de caracter permanente, para além do que fora projectado e instalado pelo próprio pessoal do Serviço Telegráfico, e de algum material telefónico projectado e construído nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, era constituído por equipamentos fixos Marconi e RCA.

Material de campanha disponível, era eminentemente de procedência inglesa pelo que se refere a rádios, e alemão e sueco, quando de TPF.

Logística das Transmissões. Como já se referiu, o Órgão que geria, armazenava e fornecia material de transmissões era a 2.ª Secção do Depósito Geral de Material de Engenharia, instalada em Linda a Velha.

Pelo que se refere à manutenção, cada Unidade de Transmissões dispunha de uma oficina onde executava, para si própria e para unidades locais, até um 3.º escalão de manutenção. O 3.º escalão, em geral, e o 4.º escalão, seriam realizados pelas Oficinas Gerais de Material de Engenharia de Belém.

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Acontecimentos e factos relevantes na década de 50

Criação de STM.  (DL 38.568, 1951) Por Decreto-Lei de 11 de Dezembro de1951, foi extinto o Serviço Telegráfico Militar e criado o Serviço de Telecomunicações Militares (STM), sediado no mesmo aquartelamento, mas agora tecnicamente na dependência directa do Ministro do Exército através do seu director, e administrativamente na dependência da Administração Geral do Exército.

O seu director era o comandante do Batalhão de Telegrafistas e o seu quadro de pessoal foi organizado com pessoal do quadro orgânico do BT; como sub-director, major de Engenharia, 2 adjuntos capitães ou subalternos de Engenharia e 6 chefes de secção, capitães ou subalternos de Engenharia e um chefe de depósito, capitão ou subalterno do QSAE.

A montagem e exploração dos meios era feita por secções em número correspondente à organização militar territorial em vigor e, para isso dispunha de 9 chefes de centro de Transmissões, 1.º sargentos, 30 chefes de centrais e fiéis, 2.º sargentos ou furriéis, 4 chefes de guarda-fios, 2.º sargentos ou furriéis, 40 cabos readmitidos e os soldados necessários a nomear.

A sua logística era assegurada pelo seu depósito de material e oficinas técnicas para montagem reparação e afinação do material e um gabinete de ensaios, para estudos e experiências de material. As oficinas dispunham de 3 radiomontadores, 2.º sargentos ou furriéis e 3 montadores de TPF, 2.º sargentos ou furriéis. Estas oficinas destacavam elementos para a reparação local nos equipamentos instalados.

Criação da Escola Militar de Electromecânica. (DL 38.945, 1952) Por Decreto-Lei de 11 de Outubro de 1952, foi extinto o Grupo de Especialistas e criada em Paço de Arcos, a Escola Militar de Electromecânica, na dependência do Ministério da Defesa Nacional, para preparar os especialistas de electricidade, electrónica e electromecânica do Exército e da Aeronáutica.

Para constituírem os quadros de oficiais desta Escola foram lá colocados, principalmente, oficiais de Engenharia e de Artilharia. Os sargentos monitores foram recrutados dentre os radiomontadores da Arma de Engenharia e, como acima se refere, os 2.º sargentos provenientes do curso de radiomontadores do Instituto dos Pupilos do Exército.

Integração na NATO. Em 1949, logo após o termo da II Guerra Mundial, foi celebrado o tratado entre os Estados Unidos e várias potências europeias, o Tratado do Atlântico Norte para cooperação e defesa contra o perigo representado pelos países do leste europeu.

Na sequência deste tratado, Portugal comprometeu-se a mobilizar e manter num relativamente baixo grau de prontidão, uma Divisão, que seria estruturada segundo o modelo das Divisões americanas e para a qual os EUA se comprometiam a fornecer todo o material de combate, logístico e reservas.        

Constituição da 3.ª Divisão. Foi nesta base que, a partir de 1953 foi constituída uma Divisão para qual foi chegando material proveniente do EUA. A esta Divisão, segundo os planeamentos da NATO, irá constituir reserva do Comando do Centro da Europa (AFCENT), subordinada ao Supremo Comando Aliado da Europa (SACEUR). Mais concretamente, a Divisão iria integrar-se no VII Exército dos EUA. A esta Divisão foi atribuído o numeral 3 e o nome de Divisão Nun’Álvares.

A Divisão, de facto, só veio a ficar plenamente constituída e com uma razoável experiência de trabalho conjunto, a partir de 1955, depois de se terem levado a efeito as manobras de 1953, no Campo Militar de Santa Margarida, acabado de ser instalado, e onde a Unidade de Transmissões foi uma Companhia fornecida pelo Regimento de Engenharia do Porto.

Para os Exercícios e Manobras de 1956, já a Unidade de Transmissões passou a ser um Batalhão, ao contrário do exército americano que mantinha uma Companhia, embora o Comandante das Transmissões da Divisão, fazendo parte do estado maior especial do Comando da Divisão, fosse um major ou tenente-coronel.

O Batalhão que foi mobilizado para manobras foi fornecido pela EPE e constituído à custa das suas Companhias orgânicas, TPF e TSF, que, para tal foram, desde 1955, realizado no polígono de Tancos exercícios semanais, procurando integrar o Pelotão de Cabo Hertziano e a rede de teleimpressores.

Estas manobras de 1956, por felicidade, tiveram a presença do Marechal Montgomery, ao tempo 2.º Comandante do SACEUR, que, no final, exprimindo a sua satisfação pelo trabalho empenhado a que assistira, solicitou que, aos quadros da Divisão, fosse fixada uma permanência mínima de 3 anos na sua ordem de batalha. E foi assim que no ano de 1957 foi determinado que os oficiais e sargentos do QP, que ao tempo faziam parte da ordem de batalha da Divisão, ficassem inamovíveis durante 3 anos.

Esta medida foi de enorme utilidade para a operacionalidade das Unidades da Divisão, com a rodagem de Exercícios de Postos de Comando e Manobras ao longo dos anos, mais os exercícios semanais das pequenas Unidades nos seus próprios aquartelamentos, garantiu uma capacidade técnica e eficiência individuais que vieram a revelar-se essenciais para o arranque das operações de contra a subversão em Angola, quer para os postos de comando quer para as transmissões, justamente tais necessidades  terem surgido no final dos três anos de inamovibilidade.

Criação do BTm3. Ainda como consequência da directiva do 2.º Comandante do SACEUR (Supreme Allied Commander Europe), foi evidente que Unidades de emprego complexo em apoio de combate, como as Unidades de Engenharia, respetivamente, o Batalhão de Engenharia e o Batalhão de Transmissões, não poderiam regressar a quartéis e decomporem-se em Companhias de guarnição.

Por isso, foi decidido manter o Batalhão de Transmissões depois de manobras em S. Margarida até ser possível instalá-lo no quartel do Casal do Pote no Polígono de Tancos e instalar definitivamente o Batalhão de Engenharia em S. Margarida.

Quando o Batalhão de Transmissões, agora com personalidade própria, porque de constituição permanente, se foi instalar no seu aquartelamento do Casal do Pote, já tinha a designação que lhe advinha da Divisão, como sendo o BTm3.

Este Batalhão que se manteve íntegro e dinâmico até que a guerra do Ultramar o afectou retirando-lhe grande parte da sua operacionalidade, foi efectivamente uma Unidade excepcional tendo o seu trabalho em manobras e exercícios, quer no País quer em Destacamentos seus na Alemanha, atingido uma qualificação muito elevada, amplamente reconhecida pelos Comandos quer nacionais quer americanos.

Material de Transmissões da Divisão. O material que foi atribuído à Divisão era aquele que o exército dos EUA tinha ainda atribuído às suas Divisões, pelo que se pode dizer que era o mais moderno que havia. Por outro lado, a Divisão foi dotada, e ficou a cargo do BTm3, com oficinas móveis para a execução do 3.º escalão de manutenção de todo o material de Transmissões distribuído, operado e mantido em 1.º e 2.º escalões, nas Unidades da Divisão. Foram fornecidos ao BTm3, além dos sobressalentes de reparação, correspondentes ao escalão que lhe competia, excedentes em material funcionando como volantes de manutenção.

Tal permitiu que o BTm3 tivesse uma intensa actividade e uma sobrevivência logísticas apreciáveis. Essa actividade, não se verificava apenas nos exercícios e manobras, mas ao longo de todo o ano, mantendo-se uma actividade de apoio ao longo dos 365 dias por ano e cobrindo quase metade do País.

Transferência da função de ministério de cursos e estágios de Transmissões da EPE para o BT. Em 1959 foi determinado que o BT passasse a assumir cumulativamente funções de Escola Prática para as Transmissões, pelo que foi solicitado que fosse entregue pelo BTm3 (órgão da EPE que assumia as funções que competiam àquela Escola para as instruções de Transmissões) ao BT toda a documentação sobre cursos e estágios lá processados.

Na altura iria iniciar-se um curso de Transmissões para oficiais das Armas. Foi decidido aproveitar esse curso, que era o mais longo e abrangente de todos os que lá se processavam, para se fazerem apontamentos que iam sendo policopiados à medida que corriam as aulas, o que dotava prontamente os instruendos com apontamentos na hora e ir-se-ia realizando um documento completo, repositório de doutrina táctica e técnica, para enviar ao BT.

Assim se fez. Desse trabalho que se intitulou “Curso de Transmissões para Oficiais de Infantaria Cavalaria e Artilharia”, que terá sido o primeiro trabalho depois do “TSF e as Transmissões” do então Ten. Câmara Pina, que viria a apresentar doutrinas de emprego táctico das Transmissões, foram feitas duas edições, sendo a primeira de capas azuis, que foi distribuída aos oficiais e BT. Da segunda, de capa castanha, foram feitos 200 exemplares por ordem do EME e distribuídas por todas as Unidades do País.

Apoio prestado pelo MAAG. A integração de Portugal na NATO e os compromissos dos EUA em nos fornecerem material levaram a que na Embaixada dos EUA se instalasse um Grupo designado por Military Assistence and Advisory Group (MAAG) que tinha por função apoiar o nosso Exército nas informações técnicas indispensáveis para operação, manutenção e conservação do seu material e disponibilizar cursos na América e na Alemanha para valorização e actualização dos nossos quadros.

E foi assim que muitos oficiais e sargentos de Transmissões se deslocaram aos EUA e à Alemanha para lá frequentarem escolas militares americanas e onde tiveram oportunidade de contactar com oficiais de várias dezenas de países, podendo e fazendo comparações estruturais, lhes resultou, inquestionavelmente, a aberração que era mantermos as Transmissões dentro da Arma de Engenharia, cuja doutrina táctica de emprego e técnicas de trabalho não tinham qualquer semelhança, não sendo razoável admitir que, com a complexidade técnica e tecnológica que começavam a apresentar os materiais, especialmente o de transmissões, continuasse a ser viável a rotação do pessoal por actividades tão dispares.

Terá sido a pressão exercida pelos relatórios de missão, que chegavam à Arma de Engenharia que levou a que fossem tomadas duas medidas sequentes:

  • A criação em 1958, dentro da Arma de Engenharia de dois Ramos, respectivamente, Sapadores e Transmissões pelos quais foram distribuídos todos os oficiais do QP. Mas estes Ramos, não eram como as anteriores especializações, porque vinculavam definitivamente o oficial ao Ramo em que fosse inserido.
  • A criação em 1959 na Academia Militar, que substituiu a Escola do Exército, de um curso de Transmissões que não tinha a exigência de formar engenheiros, admitindo-se que oportunamente e face às necessidades, se mandariam licenciar engenheiros para constituírem um corpo de engenheiros da Arma exclusivamente dedicados às técnicas.

Estas duas medidas acabaram por ser seguidas da criação da Direcção da Arma de Transmissões por Decreto-Lei  (DL 42.564, 1959). Todavia, a Arma não tinha quadros de efectivos aprovados, pelo que ainda durante 11 anos, oficiais e sargentos continuaram a pertencer à Arma de Engenharia.

Contudo, no ano imediato, o plano de curso dos alunos de Transmissões foi de novo alterado por pressão da Direção da Arma de Engenharia e de outras entidades, alegando que se iria baixar o nível técnico e cultural aos futuros oficiais, pelo que os alunos que haviam entrado para o curso previsto, tiveram de ser encaminhados para o IST.

Criação do Serviço de Material. Entretanto havia sido criado o Serviço de Material com responsabilidade de fazer a manutenção do material do Exército, no qual foram desde logo integrados oficiais oriundos de Artilharia, que tiveram de ir licenciar-se em engenharia mecânica, e de Engenharia, que já eram engenheiros.

Este acontecimento teve grande importância para as Transmissões.

Em primeiro lugar sangrou a Arma de Engenharia de muitos bons oficiais, dos quais, pelo que toca às Transmissões, e entre outros, temos de lamentar a saída dos capitães Ferraz, Noé Soares e Palet. Este último até tinha fabricado um protótipo, que se experimentou com êxito nas manobras de 1953, de um debitador de cabo telefónico, mas que se perdeu, talvez pela nova orientação do seu inventor.

Por outro lado, foram retirados da Arma de Engenharia todos os sargentos radiomontadores, os quais, contudo, continuaram a trabalhar com os seus camaradas de Engenharia, mas administrados por estruturas diferenciadas, que muitas vezes deles se esqueciam porque as suas actividades se processavam fora dos seus círculos, daí lhes resultando graves prejuízos e desmoralização.

Substituição do encargo NATO de uma Divisão para uma Brigada. Ainda em 1959, o Comando das Forças Terrestres do Centro da Europa (LANDCENT), quando os EUA propuseram a substituição do tipo tradicional de Divisão, por outra com uma concepção preparada para um teatro sob ameaça nuclear, com 5 Grupos de Batalha e logística concentrada com grande dispersão e mobilidade, conhecida por “Pentómica”, entendeu que tal conceito estaria desajustado para o teatro de guerra da Europa, avançando outra, de concepção triangular, permanentemente estruturada em agrupamentos tácticos  (Brigadas) e com parte da logística integrada nesses agrupamentos.

Consultados os países, Portugal optou pelo Conceito LANDCENT, propondo-se, desde logo montar uma Brigada que seria equipada com matérias da última geração pelos EUA. De facto, em 1959, fez-se no EME o estudo orgânico dessa Brigada e, para as manobras de 1960, já nelas tomou parte tal Brigada tendo como Unidade de Transmissões uma companhia organizada pelo BTm3.

O Comandante dessa Brigada em Manobras foi o Coronel Tirocinado Sá Viana Rebelo que viria a ser o primeiro Director da Arma de Transmissões, logo a seguir ao final dessas manobras e logo que promovido a Brigadeiro.

Criação do Serviço de Reconhecimento de Transmissões sob a tutela da 2.ªRep/EME e dirigido pela CheReT. Em substituição da CheCiE (Chefia  de Cifra do Exército) que tinha por missão garantir a segurança de documentos e da autenticidade de interlocutores em contacto através de meios de transmissões, foi criada a CHERET (Chefia de Reconhecimento de Transmissões), como cabeça de um serviço (SRT), destinado a fazer o reconhecimento do tráfego captado através da escuta das actividades radioeléctrica e das Transmissões, sob a tutela da 2.ª Repartição do EME, para onde encaminharia as notícias captadas ou as informações obtidas pela sua intersecção.

Este órgão causou as maiores preocupações na Direcção da Arma de Transmissões porque, devendo este órgão recém criado, preocupar-se com a segurança das nossas Transmissões, ao arrogar-se de fazer reconhecimento, claramente apontava para a pesquisa de notícias através da intersecção das comunicações do inimigo, e, nomeadamente, ao propor-se fazer radiolocalização, estaria claramente a procurar realizar Guerra Electrónica, a qual constitui a razão da classificação das Transmissões como Arma, pois é através dela que realiza combate, sendo todas as suas outras missões, de apoio de combate.

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Situação das Transmissões na Metrópole e no Ultramar no início da década de 60

Transmissões Permanentes na Metrópole. Com a entrada em funções do major Mário Pinto da Fonseca Leitão para sub-Director do STM, este serviço recebeu um grande impulso na modernização e melhoria dos seus sistemas.

Assim, procedeu-se à selecção, obtenção e montagem de novos equipamentos nas suas redes rádio para remodelação dos seus sistemas. Inicia-se em 1961, em Lisboa, o enterramento de cabo para substituição dos circuitos aéreos e a ligação por feixes hertzianos de Lisboa-Santarém-Tomar-Aveiro-Porto.

Em 1962 realiza-se a ligação por feixes hertzianos para Vendas Novas e Évora e faz-se a instalação da rede automática em Lisboa com uma central Stroger de 400 linhas no Batalhão de Telegrafistas, Sapadores, que viria a ser sucessivamente ampliada para 600 e para 1000.

Instala-se o Centro Receptor Ultramarino em Alcochete e o Centro Emissor Ultramarino na Encarnação.

Em 1963 estabelecem-se ligações por teleimpressor entre Lisboa, Tomar e Porto, a ligação a Mafra por feixes hertzianos, e as primeiras ligações entre Lisboa e Porto por fac-simile e telefotografia.

Transmissões Permanentes no Ultramar. As ligações entre a Metrópole e os Comandos militares ultramarinos, já tinham sido atribuídas à Armada, pelo despacho do MDN de 30 de Outubro de 1956, que desde logo instalaram as suas estações radionavais, cujas despesas foram partilhadas por verbas do Exército. Pelo despacho de 7 de Fevereiro de 1958 do MDN, só as transmissões territoriais internas das Províncias competiam aos respectivos Ramos.

No início desta década de 60, as ligações internas existentes correspondiam, em material de campanha em instalação fixa, às estabelecidas entre os Comandos instalados e as suas forças destacadas. Entretanto, e porque se previa que iriam surgir conflitos internos na sequência dos que começavam a varrer os territórios coloniais de outros países, os Comandos militares das Províncias Ultramarinas solicitavam que fossem estabelecidas redes rádio fiáveis cobrindo os pontos mais importantes dos seus territórios.

Assim, por despacho ministerial de 25 de Fevereiro de 1959 foi nomeado o major Costa Paiva, ao tempo sub-Director do STM, para se deslocar a Angola, Moçambique e Guiné, a fim de elaborar os estudos das redes a montar um sistema de transmissões permanentes. [Nota 7907 da Rep Gab MDN de 9/4/59, no Arquivo Histórico Milita, Cota 39/7/578/182]

Esse estudo foi realizado e foi com base nele que vieram a ser organizados os Destacamentos que partiram para cada uma das Províncias para montarem as primeiras fases desses sistemas.

Transmissões de Campanha na Metrópole. Os equipamentos de Transmissões distribuídos às Unidades territoriais, à excepção daquelas que tinham encargos de sub-Unidades da 3.ª Divisão, era constituído por material inglês fornecido a Portugal a partir de 1946.

As Unidades e Sub-Unidades pertencentes à 3.ª Divisão, dispunham das suas dotações orgânicas de material americano, cuja logística (reabastecimento e manutenção de 3.º escalão) competia, como se disse, permanentemente ao BTm3.

Transmissões de Campanha no Ultramar. O material de transmissões existente no Ultramar era material inglês e neozelandês (ZC1).

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Acontecimentos e factos relevantes da década de 60 

[O Aprontamento]

Criação de Unidades de Engenharia no Ultramar. Em 1960 foram criados os Batalhões de Engenharia de Angola, Moçambique e Guiné, em cada um dos quais figurava uma Companhia de TSF. O seu comandante passou a acumular funções com a de Inspector de Engenharia e Transmissões que, do antecedente, já existia no QG onde chefiava igualmente o Serviço de Obras.

Envio do Destacamento do STM para Angola. Em Maio de 1960, o sub-Director do STM, o major Mário Pinto da Fonseca Leitão, organizou no BT o Destacamento do STM para Angola sob comando do Capitão Francisco José Pinto Correia, com todo o pessoal e material previamente planeado para montar as estações de rádio que correspondiam à primeira fase de instalação do plano do Major Costa Paiva; as estações de Luanda, Malange, Nova Lisboa, Luso, Carmona, Tôto, Santo António do Zaire, Cabinda, Dinge e Chiaca.

Este Destacamento, extraordinariamente bem concebido e estruturado sob a orientação do major Mário Leitão, partiu do UÍGE em conjunto com as primeiras forças de reforço que partiram para Angola, e que foram as primeiras quatro Companhias de Caçadores Especiais constituídas no País. O Destacamento do STM foi integrar-se no Batalhão de Engenharia constituindo a sua Companhia TSF.

O STM de Angola iniciou de pronto a instalação do seu sistema à base de equipamentos RCA, Marconi e Standard de 75 e 300 Watt, mas também incluiu a ligação à Metrópole, com um canal de serviço para a sua sede do STM no BT. Em breve, porém, esse canal de serviço, se transformou em ligação privilegiada para o normal encaminhamento do tráfego do Exército de Luanda para Lisboa.

Terminada a montagem da 1.ª fase para a qual fora previsto o seu material, o Capitão Pinto Correia tendo recebido na Companhia TSF, 160 AN/GRC-9, que haviam sido adquiridos pela Província como contrapartida de uma venda internacional de café, decidiu, dentro das suas possibilidades em pessoal, montar mais algumas estações com base nesses rádios e reforçar, as centrais existentes com material desse como equipamentos de emergência.

Em 1963 são conhecidas ligações radiotelefónicas e radiotelegráficas com Lisboa e, em 1964 é instalada em Luanda a rede telefónica automática do Comando-Chefe com os comandos subordinados.

Início das operações anti-subversão. Em 15 de Março de 1961 eclodiu no Norte de Angola, o levantamento armado da UPA (União dos Povos de Angola) na sequência do levantamento de Fevereiro em Luanda de um movimento armado do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) que atacou o quartel da Polícia Móvel e a prisão de São Paulo.

Face a esses levantamentos iniciou-se a mobilização das Unidades de reforço que começaram a embarcar para Angola a meados de Abril, com um Comando de Sector e dois Batalhões de Caçadores, para, praticamente de 15 em 15 dias, e por vezes menos, desembarcar em Luanda um navio carregado de tropa, normalmente composta por dois Batalhões de Caçadores e Companhias de Cavalaria, Artilharia ou de Engenharia, tendo até Novembro chegado, ainda 2 Batalhões de Cavalaria.

Montagem dos sistemas de Transmissões em Angola para satisfazer às necessidades dos dispositivos a instalar. A chegada das Unidades, apenas com o seu armamento individual e algum material pesado, incluindo viaturas, mas sem material de transmissões, constituiu um problema difícil de resolver, tendo valido, para as primeiras necessidades, os 160 AN/GRC-9 existentes em Angola.

A chegada de Unidades em catadupas e o seu envio para ocupar dispositivos distantes e sem o apoio, durante o percurso, por guarnições que não existiam ainda, sujeitas a emboscadas montadas e claramente preparadas, por quebras de segredo sobre os deslocamentos das colunas, nos postos administrativos do percurso, aos quais as colunas recorriam para, pelas suas redes rádio administrativas, equipadas com ZC-1, fazerem chegar a Luanda dados, necessidades e dificuldades, forçaram a que se montasse um sistema de socorro por forma a tentar apoiá-las com a participação do sistema já existente do STM.

Já que se não podiam abrir as redes do STM ao tráfego dessas Unidades em movimento, procurou-se que as estações já instaladas do STM, à custa dos AN/GRC-9 de reserva e para emergência que lá tinham sido alocados, passassem a fazer escutas, umas às horas certas, outras às meias horas, em frequências e com indicativos de chamada previamente fixados, uma e um, por cada estação à escuta, para, após a devida autenticação, assim poderem encaminhar, pelo sistema do STM, o tráfego e os pedidos de socorro e emergências, durante os deslocamentos.

Às Unidades em deslocamento era fornecido um pequeno mapa com a localização das estações do STM e, para cada uma, o horário das escutas, a frequência em que a fariam e o indicativo de chamada.

À custa dos AN/GRC-9 sobrantes, dos 160 inicialmente disponíveis, procurou-se fazer dotações muito reduzidas às Unidades, solicitando-se para a Metrópole o envio urgente de mais material, o qual foi chegando em quantidades reduzidas.

Entretanto na Metrópole procurava-se afanosamente encontrar material para encaminhar para Angola, tendo já sido recebido muito material NATO e até material inglês, tal com P-21, P-19 e ZC-1.

De seguida, foi destacado do Batalhão de Engenharia um oficial do QG, a fim de tomar conhecimento das Unidades chegads, sua dotação em equipamentos, sua missão e dispositivo em que se iriam inserir. Face a tais elementos estudava as redes que iria instalar, atribuindo-lhe logo as respectivas frequências e indicativos e determinava as necessidades em material para se lhe prover, dentro da medida do possível.

Montagem de uma oficina de base no Depósito Geral de Material de Transmissões. Logo que se iniciaram os envios de tropas para o Ultramar, foi entendido que, em Lisboa, haveria que criar uma oficina de base para avaliar da operacionalidade do material a distribuir e servir de último escalão para recuperação do material incapacitado.

A montagem dessa oficina foi do encargo e orientação do major Mário Leitão e ficou instalada no DGMT em Linda-a-Velha, que, ao tempo, apenas tinha a valência de receber, armazenar, distribuir, abater e controlar as existências e cargas do material de Transmissões do Exército.

Criação do Comando das Transmissões de Angola e do Batalhão de Transmissões 361. Em Novembro desse ano [1961] chegou um oficial superior, major Guilherme Castro Neves, para comandar as Transmissões, mais um Pelotão de Manutenção e Reabastecimento de Transmissões (PelManReab) e algum pessoal administrativo.                              

Com a Companhia TSF do Batalhão de Engenharia, mais o PelManReab e os outros elementos recém chegados, constituiu-se [em 1962] o Batalhão de Transmissões n.º 361 que se instalou na parte posterior do Batalhão de Engenharia, aproveitando-se daquele batalhão uma parte de um edifício para instalar o PelManReab, ocupando a metade posterior de dois edifícios de casernas do Depósito de Material de Guerra de Angola e apenas construindo dois edifícios, sendo um deles pré-fabricado de alumínio para o Comandante e outro, com cobertura em estrutura metálica, para refeitório cozinha e sala do soldado.

Este Batalhão, passou a constituir uma Unidade de Guarnição comandada pelo major Guilherme Castro Neves, que desempenhava no QG as funções de Comandante das Transmissões da Região Militar de Angola, mantinha-se permanentemente no Comando das Transmissões e delegava, para a conduta corrente da Unidade, no seu segundo-Comandante, Capitão Pereira Pinto.

O Btm361, além de integrar o Destacamento do STM, passou a dispor de pessoal com que guarnecia equipas a destacar para satisfação de necessidades operacionais e, como Unidade de guarnição da Província, realizava escola de recrutas de radiotelegrafistas, de pessoal de TPF e de Centro de Mensagens.

Evolução da ligação interterritorial pelo Serviço de Telecomunicações Militar. Apesar de estar determinado que as ligações interterritoriais seriam da exclusiva competência da Armada para o que haviam sido construídas, nas capitais dos respectivos territórios, excelentes estações radionavais que haviam sido comparticipadas pelo orçamento do Exército e, muito provavelmente, continuavam a ser comparticipadas nos seus custos de funcionamento, a verdade é que, talvez porque a situação que se vivia era grave e dizia quase exclusivamente respeito ao Exército e a entrega do seu tráfego, todo de alta prioridade, poderia ocasionar burocracias indesejáveis, o sub-Director do STM, major Mário Leitão, desenvolveu enorme actividade para a valorização da ligação interterritorial pelo STM.

Assim, para melhorar as condições de emissão, mudou para a Ajuda, no mês de Junho de 1961, como solução de emergência, o emissor ultramarino. Porém logo em Outubro do mesmo ano o transferiu para terreno militar da Encarnação, anexo ao Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos.

Por outro lado, para garantir uma ligação em duplex, permitindo a utilização de um canal de voz em radiotelefone, a recepção foi transferida para os terrenos militares de Alcochete anexos ao Campo de Tiro, em Abril de 1962.

Ficaram assim o Centro Emissor na Encarnação (CEU) e o Centro Receptor em Alcochete, sendo os seus sinais ligados ao BT, no seu Centro Nacional de Transmissões (CNT), através de cabo enterrado, no caso do Centro Emissor, CEU, e por feixes hertzianos no Centro Receptor. Com esta montagem não só se permitia a fonia, mas também o radioteleimpressor ambos em duplex.

Ao longo do ano de 1962 foram melhorando as instalações, quer as técnicas, quer as de apoio e, em 1963, já foi possível instalar um serviço de radiotelefone, não apenas para as ligações de altos responsáveis militares, mas até para as famílias dos militares que o solicitavam e marcavam data e hora do contacto.

Destacamentos do STM para Moçambique e Guiné. Em 1961 foi preparado, como fora o destinado a Angola, o Destacamento do STM para Moçambique, que foi comandado pelo Capitão Manuel Adelino Pires Afonso o qual procedeu à montagem das suas redes já estudadas em Lisboa e da Estação de Lourenço Marques com centro receptor e centro emissor.

Em 1962 igualmente foi preparado e enviado o Destacamento do STM para a Guiné sob o comando do Capitão Amadeu Garcia dos Santos que, da mesma forma, instalou as estações previstas no estudo do Major Costa Paiva.

Logo que instalado em Bissau, o Destacamento estabeleceu uma rede rádio ligando o Comando Militar aos seus Sectores subordinados mais às ilhas de S. Vicente e do Sal e a rede telefónica de Bissau. Em 1963 instala uma rede de feixes hertzianos ligando Bissau aos comandos subordinados

Qualquer destes Destacamentos, tal como sucedera já com o de Angola, foram preparados com o maior cuidado e pormenor no BT pelo Major Mário Leitão, ao tempo sub Director do STM.

Todos estes Destacamentos do STM, mais o que posteriormente será enviado para Timor sob comando do Capitão Freitas Lopes, desempenharam, nas Províncias para onde foram enviados, como que as organizações pioneiras de Transmissões do Comando e, na maioria dos casos, como o terá sido o caso de Moçambique, durante algum tempo, e nos da Guiné e de Timor, constitui mesmo a base autónoma das Transmissões ao serviço dos respectivos comandos militares, apenas com o reforço de um Destacamento de Manutenção e Reabastecimento sob a direcção dos Comandos de Transmissões.

Documento sobre as Transmissões para a Guerra Subversiva. Como resultado da experiência vivida no início da guerra de Angola, e principalmente por esta ter sido original, não havendo qualquer experiência anterior sobre este tipo de conflito, o Capitão Pereira Pinto escreveu em 1963 uns apontamentos policopiados, que designou por “Contribuição para o Estudo das Transmissões para a Guerra Subversiva” que foram entregues na Direcção da Arma de Transmissões para a sua apreciação e eventual difusão.

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[A Evolução]

Procura de equipamentos adequados para este tipo de guerra. Logo que se iniciaram as operações e as Unidades foram sendo deslocadas para os seus dispositivos, se verificou que dos equipamentos transportados pelas tropas, ou enviado do Depósito Geral de Material de Transmissões, os únicos equipamentos que satisfaziam o emprego de tropas apeadas e em nomadização eram o AN/GRC-9, pela sua qualidade, potência e pela sua versatilidade de instalação, alimentação e transporte, mas tinha muito peso e não era operável a dorso, mas tinha muito pequeno alcance e com linha de vista.

Assim, solicitou-se à Direcção da Arma que fosse encontrado um equipamento operável a dorso e sem as limitações do PRC-10 e ainda um amplificador de potência para ligações em instalação fixa entre postos de Comando mais afastados. Os amplificadores, que elevavam a potência para 50 Watt foram obtidos e fornecidos. Difícil era encontrar equipamentos para operações apeadas e operados a dorso.

Em consequência foi nomeada uma equipa técnica, constituída pelos tenente-coronéis Costa Paiva, na altura a chefiar a Repartição de Material da Direcção da Arma de Transmissões e Spencer Vieira da Academia Militar, os quais percorreram o mercado e indústria europeia, tendo apenas encontrado um desenvolvimento, já na fase de teste de protótipo no Reino Unido, na firma British Communication Corportaion (BCC), cujas características condiziam com o que desejávamos.

Entretanto, porque tal equipamento não iria estar prontamente disponível, pois haveria ainda muitos testes e produção de pré-séries, a BCC propôs que se adquirisse um número limitado de equipamentos HF-156, desenvolvido e utilizado pelos ingleses em ambiente semelhante, na guerra subversiva do Quénia, conhecida pela Guerra dos Mau-Mau.

Este equipamento, muito pesado, mas operável a dorso, criava, todavia, um desequilíbrio considerável ao transportador, além de que, quando houvesse que saltar da viatura, a queda com ele às costas criar-lhe-ia problemas sérios. Tinha ainda um defeito nas baterias de chumbo, pois vertiam electrólito, pondo em perigo a sua operacionalidade. Fez-se a distribuição e foram sendo utilizados com as limitações indicadas.

Entretanto, tendo sido feitos os testes de uma pré-série já muito avançada, com bons resultados, a equipa de técnicos foi de opinião que fosse adquirida a licença de fabrico em Portugal pela Standard Eléctrica, para haver garantia de que tal fabrico poderia ser acompanhado e, além disso, a fábrica estaria em Portugal para acompanhamento do seu comportamento e introdução de correcções e de ajustamentos.

Assim foi decidido e, então, foi solicitado à Standard Eléctrica que produzisse o equipamento tal como o do protótipo testado, ao qual foi dada a designação CHP-1 e teria uma potência de 2 Watt e, ainda, procurasse fazer uma amplificação de potência para 20 Watt, passível ainda de ser transportado e operável a dorso, ao qual se atribuiu a designação DHS-1.

Infelizmente estes equipamentos em que se tinham depositado tantas esperanças, vieram a revelar-se como um fracasso, mais pelo DHS-1 do que pelo CHP-1, apresentando, tal como o HF-156, a mesma falta de estanquicidade do electrólito.

Apesar destes defeitos, em 1970 em Moçambique foi com este material, alimentado em emergência por séries-paralelo de pilhas de 1,5 Volt, que se dotaram as sub-unidades da operação NÓ GORDIO, que foi a maior operação realizada em África pelo Exército Português, por ainda não terem chegado a Moçambique os Racal TR-28 que vieram a resolver o problema das características desejáveis para equipamentos operados a dorso. E não se registaram problemas de falta de ligação.

Entretanto, ao longo da década, o Exército foi adquirindo e dotou as suas unidades do Ultramar, com material de ligação terra-ar THC 736, posteriormente substituído por um equipamento idêntico construído também sob licença pela Standard Eléctrica, e que saiu muito bom, o AVP-1.

Adquiriu ainda equipamentos de 100 Watt, RF-301, Marconi H-4000, e também o RACAL TR-15L, IRET PRC-236 para montagem veiculares, etc.

Evolução das Transmissões em Angola. O comandante das transmissões e do Batalhão, que era o Major Castro Neves foi rendido pelo Tenente-Coronel Sales Grade que, por seu turno, foi substituído pelo Tenente-Coronel Mário Pinto da Fonseca Leitão (em1966], o qual desenvolveu intensa actividade para melhorar, quer as instalações do Batalhão quer as ligações, tendo até lançado várias ligações do STM por feixes hertzianos monovia a partir de Luanda.O Tenente-Coronel Mário Leitão foi rendido pelo Tenente-Coronel Ávila de Melo que, por sua vez, o foi pelo Ten.Coronel Reinas, que viria, depois de 1970, a ser substituído pelo Tenente-Coronel Sanches da Gama para finalmente ser rendido pelo Coronel Pires Afonso, pois, o Batalhão de Transmissões 361, que fora criado em 1962, transformara-se entretanto no Agrupamento de Transmissões n.º 1.

Evolução das Transmissões em Moçambique. Enquanto em Angola, logo desde 1961, foi criado um Batalhão de Transmissões, em Moçambique, manteve-se como uma Companhia TSF do Batalhão de Engenharia sediado em Lourenço Marques.

Assim, o Capitão Pires Afonso foi rendido pelo Capitão Oliveira Simões, que viria a ser rendido pelo Capitão Pinto de Abreu que viria a ser, por sua vez, rendido, pelo Capitão Mateus da Silva.

Desde 1966 foi criado um Comando de Transmissões para o que foi nomeado o Tenente­- Coronel Aranda que foi transferido para a sede do Comando da Região Militar em Nampula, levando como adjunto o Major Sacadura Botte Corte Real e o Capitão Ferreira Correia.

Em 1968 foi nomeado o Tenente-Coronel Ivan Serra e Costa como Comandante das Transmissões, tendo como adjunto o Major Francisco Pinto Correia e, o mesmo Comandante das Transmissões, acumularia funções com a de comandante de um Batalhão de Transmissões a organizar em Lourenço Marques a ser transferido para Nampula logo que lá completado o aquartelamento.

Para organizar o Batalhão, que seria designado por Batalhão de Transmissões n.º 2, foi mobilizado o Major Pereira Pinto, que efectivamente organizou o Batalhão à custa dos elementos presentes, nomeadamente os do Destacamento do STM, elementos destacados, e instalou-o em dependências do Batalhão de Engenharia de Lourenço Marques.

Para além das escolas de recrutas das especialidades de Transmissões da Província e das instruções de preparação operacional ao pessoal de transmissões das Unidades de qualquer Arma, que fizessem escala em Lourenço Marques, os quais iriam juntar-se às suas Unidades por transporte aéreo, o BTm2 desempenhava uma missão de apoio logístico de rectaguarda.

Por tal facto, em 1969, o 2.º comandante – no exercício efectivo de comando – foi recolhendo elementos de informação logística quer dos que corriam na cadeia logística de Transmissões de que o BTm2 fazia parte, quer pelo contacto que mantinha com os elementos das comissões liquidatárias de todas as Unidades e Comandos que permaneciam em Lourenço Marques largos meses depois das suas unidades terem regressado à Metrópole, reuniu num caderno de apontamentos tais elementos e formulou as suas propostas relativamente ao caso das Transmissões, designando-o por ”Contribuição para o Estudo da Logística das Transmissões para a Região Militar de Moçambique” que encaminhou para o Comando das Transmissões.

O Tenente-Coronel Ivan Serra e Costa foi rendido em Maio de 1970 pelo Tenente-Coronel João do Rio Carvalho Frazão no Comando das Transmissões, tendo o Major Garrido Batista como adjunto e o Major Francisco Oliveira Simões como Comando do BTm2 que, na altura, se encontrava em transferência para Nampula.

Evolução das Transmissões na Guiné. Na Guiné, para além do Destacamento do STM para lá enviado em 1962, só foi para lá mobilizado, para se integrar no Comando Militar, o Capitão Marques Esgalhado em 1963 e também um Destacamento de Manutenção e Reabastecimento sob a sua directa orientação. Todavia, o Destacamento do STM que tinha ainda responsabilidade das ligações a Cabo Verde e entre o arquipélago, não estava na dependência do Comando das Transmissões.

O Capitão Esgalhado foi substituído pelo Major Sanches da Gama e este pelo Major Pires Afonso. Entretanto foi enviada para a Guiné uma Companhia Independente de Transmissões sob o Comando do Capitão Góis Ferreira e, só depois, à custa da reunião desses diferentes órgãos e unidades viria a ser criado, depois de 1970, o Agrupamento de Transmissões da Guiné, que veio a ser comandado pelo Major Oliveira Pinto e pelo Major Mateus da Silva.

A Guiné com a maior parte do território plano e as suas distâncias entre Unidades muito pequenas em linha recta, foi o local ideal para que os equipamentos de FM, os de baixa potência de AM e os feixes hertzianos pudessem ser empregues com êxito.

Assim foi possível fazer redes radiotelefónicas na Província, com uma antena muito elevada em Bissau, o que até permitia que, de um PRC-10 ou de um IRET montado num jipe no meio do mato e junto à Bolama, se falasse para a família na sua casa na Metrópole.

Poder-se-á, pois, dizer que na Guiné não surgiram dificuldades de transmissões comparáveis aos dos outros dois teatros de operações, mas terá sido aquele que mais prontamente foi dotado com material mais moderno e onde prontamente se substituíram os equipamentos que menos bem satisfaziam, indo tais equipamentos para Moçambique, como foi o caso dos CHP-1 e DHS.

Actividades das Transmissões na Metrópole. Regressado de uma comissão como comandante de Sector em Angola, foi colocado na Direcção da Arma de Transmissões, como inspector, o Brigadeiro Henrique Santos Paiva que, desde tenente de Engenharia estivera afastado das Transmissões.

Actuou como Inspector aos Centros de Instrução de Transmissões, da Engenharia e das outras Armas e, em 1965, rendeu o então General Sá Viana Rebelo que foi colocado como Vice-Chefe do EME.

O Brigadeiro Santos Paiva passou a desenvolver uma intensíssima actividade para dar corpo à Arma, nomeando equipas para estudar as orgânicas de cada Unidade que iriam constituir a Arma, a fim de, face às necessidades orgânicas, deduzir os quadros de efectivos a prever.

Pela primeira vez no Exército, se considerou que os oficiais oriundos de sargento deveriam continuar integrados na Arma constituindo um quadro técnico próprio. Assim, os oficiais oriundos de sargentos das especialidades ligadas à exploração dos meios, constituem o quadro de Exploração, deixando, pois, como do antecedente (e continuou a ser na Engenharia), de passarem a pertencer ao Quadro dos Serviços Gerais do Exército.

Por outro lado, fez a luta, e conseguiu vencê-la, de recuperar para as Transmissões, os mecânicos radiomontadores e, bem assim, os oficiais oriundos dessa especialidade que estavam no Serviço de Material. Estes, com os mecânicos de material Telefónico e de Teleimpressor, passariam a constituir o Quadro de Manutenção da Arma de Transmissões.

Em Junho de 1965 criou o Depósito Geral do Material de Transmissões, (DL 46.374, 1965) com missões reajustadas e na dependência da Direcção da Arma de Transmissões, colocando lá, pela 1.ª vez, oficiais do quadro de engenheiros, quer no comando, quer nas suas divisões internas.

Criou o Regimento de Transmissões no Porto (OE 3, 1965) em substituição da anterior Regimento de Engenharia 2 no qual apenas havia organicamente um Batalhão de Transmissões, e nele integrou o BTm3, que continuava em Tancos, no Casal do Pote (OE 7, 1966) (3).

Conduziu com a CHERET um debate para clarificação das suas missões pois elas colidiam com as missões primárias da Arma de Transmissões no seu específico combate da Guerra Electrónica (GE) (AHM, 1/397/3/7, s.d.)

Actividades de Guerra Electrónica. Dentro desta linha, e para lançar mais fortemente as actividades de Guerra Electrónica (GE), a Direcção da Arma mandou a Anzio, Itália, para tirar um curso de GE, o Capitão Amadeu Garcia dos Santos, colocado no BT, já esta Unidade com funções de Escola Prática.

Posteriormente enviou o mesmo Capitão Garcia dos Santos estagiar numa unidade de GE belga, a 44.ª Companhia, estágio em que se integrava um exercício de 8 dias na Alemanha.

No regresso o capitão Garcia dos Santos propôs, e foi criado no BT, um Centro de Instrução de GE (CIGE), onde, com o auxílio de um excelente oficial miliciano lá existente, o Tenente Inácio, se promoveram cursos de preparação de oficiais, sargentos e praças para guarnecerem uma Unidade de GE, que efectivamente se veio a constituir como um Destacamento de escalão Companhia, sob o seu comando.

Também foram produzidos textos de grande qualidade para apoio da instrução.

Entretanto, o Capitão Garcia dos Santos foi propondo a aquisição de viaturas, materiais de instalação como grupos geradores, receptores e radiogoniómetros, os quais lhe foram obtidos e passou a utilizar os AN/GRC-38 de 500Watt, lá existentes por fazerem parte das ligações do Corpo de Exército em manobras com a 3.ª Divisão, como empasteladores.

Passado pouco tempo foi realizado um exercício luso-espanhol de Postos de Comando (CPX), designado por EXERCÍCIO SALADO, onde o Destacamento de GE interveio com assinalável êxito.

Em 1967, o Brigadeiro Santos Paiva foi promovido a General e foi colocado como representante militar português na NATO, tendo sido substituído, na DATm pelo Brigadeiro Câncio Martins.

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TCor Eng Tm Rodrigo Manuel Rosas Leitão

No passado dia 9 de Outubro faleceu na sua casa de Ronfe, concelho de Lousada, o Rodrigo Rosas Leitão, TCor Engº Tm na situação de Reforma.

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Filho do Cor Eng Mário Leitão, figura marcante da Arma de Tm nos anos 60, pertencia a uma família de militares, pois ele e os seus irmãos, depois de todos terem frequentado o Colégio Militar, todos enveredaram pela carreira das Armas, tendo dois vindo a integrar a Arma de Engenharia e dois a de Transmissões.

Em 2012 o TCor Rodrigo Rosas Leitão contribuiu com o seu depoimento para a história da Arma de Tm, podendo ser recordado aqui o que então deixou escrito e que ficou arquivado sob o menu “História das Tm” deste blogue.

O MGen Pinto de Castro, que com ele privou e trabalhou de perto, prestou-lhe uma sentida homenagem que aqui fica registada:

Ao meu Amigo 

Rodrigo Leitão

O Rodrigo virou a última página da sua história. Era um desígnio marcado. Parte deste Mundo para outras realidades, deixando um registo memorável da sua passagem, concretizado por uma obra extraordinária, muito acima da média, só ao alcance das grandes personagens.

Era uma cabeça brilhante que nunca parava de pensar, tendo sempre ideias sem fim. Muito estudioso estava permanentemente interessado nas novidades tecnológicas de que era bom conhecedor e que o levavam a um constante lançamento de iniciativas inovadoras arrojadas.

Ele foi sem dúvida uma figura marcante na Arma de Transmissões, que pela sua ação, granjeou a reputação de possuir uma alta capacidade técnica não só na área Militar como no meio civil Industrial e Comercial

O Rodrigo, por quem nutria uma enorme amizade, deixa-me uma grande dívida de gratidão por ter sido com ele que iniciei a vida técnica que procurava.

Rendo-lhe, por isso, a minha homenagem e o meu agradecimento.

Não posso deixar de referir factos e circunstâncias que testemunhei enquanto com ele convivi e trabalhei.

Lembro-me de me ter oferecido para ir para o DGMT, onde fui colocado em 25-02-1977, por Influencia do meu amigo Costa Dias e por saber que estava nas intenções do Diretor da Arma, o então Brig Pereira Pinto, em modificar aquele órgão, que era um depósito de material velho e obsoleto, para uma unidade técnica eficiente destinada a servir de Base ao Apoio das Transmissões Táticas, o que perspetivava uma atividade técnica que desde sempre me atraiu.

Conheci nessa altura o Rodrigo Leitão. Ele tinha grandes ideias e projetos para transformar o Depósito num órgão eficiente no apoio ao material das transmissões táticas, reformando os processos de manutenção, reabastecimento e reequipamento do Exército

Com o fim da Guerra de África, o Exército deparou-se com a necessidade de fazer o reequipamento total dos meios de transmis-sões para se adaptar às necessidades de atuação das Unidades enquadradas num TO moderno. Perante a questão de ter que se proceder à aquisição de novos equipamentos, ele, mais uma vez, impelido pelo seu ideal de criação e inovação, lança o desafio ousado de se fazerem os desenvolvimentos e fabrico dos novos equipamentos no País.

Para isso, convidou a mim e ao Costa Dias para formarmos uma equipa, que teria como primeiro objetivo avançar com o desenvolvimento de um Rádio que funcionasse na Banda VHF dos 41 MHz aos 51MHz e que pudesse ser usado a dorso, como o rádio TR-28, e também em viatura.

Houve inúmeros debates e trocas de ideias sobre as especificações e forma de realizar o projeto. Sabíamos que a iniciativa era muito arriscada porque, havendo uma grande descrença no meio Militar sobre a capacidade de realização de um rádio pela nossa Indústria, o mesmo não poderia falhar.

Depois de vencidas muitas dificuldades, conseguiu-se produzir com êxito 3 protótipos. Seguiu-se uma produção de uma pré-série de 100 equipamentos e mais tarde o fabrico de várias séries.

Logo a seguir, conceberam-se e produziram-se as montagens veiculares adaptadas para trabalhar com a versão base.

 

Na sequência daquela experiência, sempre impulsionada pelo Rodrigo Leitão, seguiram-se vários desenvolvimentos na Indústria Nacional que terminaram com êxito, designadamente, os Sistemas de Inter-comunicações para Carros de Combate, Telefone Eletrónico de Campanha, Cabines de Transmissões, Rádio Portátil de mão, Rádio de HF ligado a Teleimpressor, Central Digital de Campanha, as bases da versão seguinte do primeiro Rádio, que pode trabalhar nas Bandas de HF, VHF e UHF, entre muitos outros.

Estes desenvolvimentos tinham a caracte-rística importante de incluir componentes e tecnologias de ponta, pelo que, muitas vezes, atingiram o top dos seus concorrentes a nível mundial. 

A ideia da Central Digital surge por se perspetivar que na década de 90 as Centrais Digitais viriam a substituir as Centrais Eletromecânicas.

A Área da logística, teve também um fortíssimo avanço impulsionada pelo Rodrigo Leitão.

Com o seu espírito sonhador, criativo, estudioso e extremamente persistente, lançou as iniciativas para uma reviravolta completa do DGMT, começando por promover o esvaziamento de vários pavilhões que estavam degradados, cheios de sucata e material obsoleto, para os adaptar a novas infra-estruturas modernas para as áreas de Estudo e Projeto, Laboratório, Manutenção, Reabastecimento e de Recuperação do material.

A group of people in uniform

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A Zona da Recuperação do material, que concebeu e pôs a funcionar, permitiu recuperar o material completamente arruinado evacuado da Guerra, deixando-o em estado novo não só nas partes mecânicas como na parte eletrónica. 

A rotina de funcionamento deste órgão, implantou-se de tal modo que, quando o DGMT recebia material evacuado das Unidades, o mesmo era enviado obrigatória-mente para a recuperação antes de entrar nos Armazéns da Cadeia de Reabastecimento. Era uma autêntica atividade de 5º Escalão.

Introduziu a capacidade de manutenção e intervenção nos equipamentos de Fx Hz baseados no FM-200 e Multiplexer DX-15/60 da Telefunken e AEG/SIEMENS, respetiva-mente. Negociou com aquelas empresas o fornecimento dos equipamentos em kits para serem montados em Portugal, com a inclusão dos jigs de teste e a aparelhagem de medida especial necessária, bem como, a sua posterior utilização no DGMT. Estes equipa-mentos eram muito sofisticados, não se conseguindo fazer a sua calibração e manutenção até serem montados e reparados na EID após 1982

Para a manutenção dos Teleimpressores T1000Z, que passaram de aparelhos electro-mecânicos a quase 100% eletrónicos conse-guiu que a empresa SIEMENS cedesse as condições técnicas para a sua reparação no DGMT onde se criou uma área com um Sargento especializado naquela tecnologia

Teve influência decisiva na concretização e materialização da organização da Cadeia de Manutenção do Material de Transmissões com a criação dos órgãos do 2º, 3º e 4º Escalões, a qual, tinha sido concebida e divulgada pelo então Diretor da Arma, Brig Pereira Pinto.

Com a recuperação e transformação dos pavilhões velhos, criaram-se áreas de manutenção específicas e novos métodos de trabalho que tornaram a resposta do 4º Escalão muito eficiente. A Manutenção beneficiou muito com o facto de passar a estar ao lado da Área do Reabastecimento, que também passou a trabalhar de forma mais organizada e eficiente. 

Nas Novas Tecnologias teve muitas iniciati-vas, lançando, entre outras, a ideia: de Produção em Portugal de Circuitos Híbridos, o que deu origem à celebração de um Protocolo de acordo entre o LNETI e o Exército; de produção de circuitos impressos de furo metalizado, que permitiu começar a produzir-se aquelas placas no DGMT e mais tarde na EID durante o fabrico do nosso primeiro rádio; e de se aperfeiçoar a técnica de soldar, para o que se adquiriu um Curso de Soldadura a uma empresa especializada dos EUA.

A Área da Formação existente na Escola Militar Eletromecânica, teve uma grande melhoria com a sua iniciativa de introduzir novos métodos para a instrução dos radio-montadores que iriam fazer a manutenção dos equipamentos desenvolvidos, os quais se baseavam em programas de ensino apoiados pelos engenheiros que tinham estado no desenvolvimento dos respetivos módulos

A group of people standing in a room

Description automatically generated

Influenciou a criação de uma área laborato-rial na Arma de Transmissões num órgão designado por DEP, Divisão de Estudos e Projetos para se poderem fazer análises técnicas mais profundas.

Pode dizer-se que o DGMT adquiriu um estatuto onde se sabia haver competência técnica e aonde era aliciante escolher para ser colocado. O Gen Pinto Correia chegou a sugerir a mudança do nome do DGMT por considerar que a designação de Depósito pudesse trair a sua real capacidade funcional.

Na receção de material, quer adquirido por desenvolvimento quer comprado, procedia-se à sua verificação através de testes exigentes de análise laboratorial antes do mesmo dar entrada na Cadeia de Abastecimento.

Por fim, há que salientar que a concretização em 1983 da sua ideia antiga de passar à reserva aos 40 anos, foi uma perda para a Arma e para o Exército.

Logo a seguir, devido às suas qualidades bem conhecidas dentro e fora do Exército, recebeu inúmeras ofertas de emprego, que o levaram a percorrer cargos importantes na CENTREL, EID e TELERUS, representante da R&S. Nessas novas funções continuou com a sua atividade de lançamento de iniciativas inovadoras de grande objetividade e importância futura.

As suas qualidades foram sempre reconhecidas por todos os superiores com quem contactou, especialmente o do Diretor da Arma, Brig Pereira Pinto, que lhe deram todo o apoio.

Presto a minha homenagem ao Rodrigo, não só pela forma superior como cumpriu a sua Missão aqui na Terra, mas também pelas extraordinárias qualidades humanas de integridade e nobreza de carácter que sempre demonstrou.

Espero que agora descanse em Paz na Infinita Multidimensão.

Do amigo 

José Pinto de Castro

Para ver e eventualmente imprimir esta homenagem em versão pdf, carregue aqui.

As transmissões na Grande Guerra

Coordenado pelo Cor Artª Aniceto Afonso, historiador e membro muito ativo da CHT – Comissão da História das Transmissões, acaba de ser lançado o livro com o titulo acima, pela Editora Âncora. Para os interessados, o livro está à venda nas FNAC’s e nas livrarias da Porto Editora. A Âncora também envia por correio.

Trata a participação das tropas portuguesas do Serviço Telegráfico do CEP, antecessor das Transmissões, na Grande Guerra, no período de 1917/18, com base no pormenorizado relatório final do seu comandante, o então Cap Engª Carlos de Barros Soares Branco.

XXVIII Colóquio de História Militar

Entre os dias 11 e 15 de Novembro realiza-se o 28º Colóquio de História Militar, organizado pela Comissão Portuguesa de História Militar.

De entre as diversas comunicações abaixo discriminadas, destacamos a conferência do Cor António Pena, membro da CHT, no dia 12 às 10:00h, sobre a vida do General Carlos de Soares Branco, que, enquanto capitão, comandou com elevado mérito as tropas telegrafistas, então ainda integradas na Arma de Engenharia, durante toda a participação portuguesa na frente europeia da Grande Guerra.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (22)

 

Post do Coronel Aniceto Afonso, recebido por msg:

 

OS APÊNDICES AO RELATÓRIO

Introdução

O relatório do capitão Soares Branco, enquanto chefe do Serviço Telegráfico do CEP, termina com uma série de apêndices, complementares da informação contida no corpo do relatório. Referem-se aos seguintes assuntos:

– Propostas para recompensas;

– Relação dos oficiais que faziam parte do Serviço Telegráfico a 6 de abril (de 1918);

– Relação das perdas de pessoal do ST no combate de 9 de Abril;

– Relatório enviado ao DD Signals do 1º Exército Britânico;

– Plano de defesa do Corpo Português, com as comunicações;

– Lista de posições de chamada;

– Instruções para execução do sistema de cabos enterrados;

– Instrução para o serviço de tropas telegrafistas e de sinaleiros;

– Quadros orgânicos e de material;

– Desenhos e esquemas para compreensão do relatório.

Daremos conta, neste texto, do essencial contido nestes apêndices, realçando o que possa contribuir para a melhor compreensão tanto da ação do Serviço em campanha, como da atuação de Soares Branco, enquanto seu responsável máximo.

Recompensas

O primeiro apêndice reproduz uma nota enviada ao chefe do Estado-maior do CEP em 3 de junho de 1918, referindo os militares, sobretudo oficiais, dignos de serem distinguidos com recompensas. Dividem-se em três grupos. Em primeiro lugar, os oficiais merecedores de recompensa superior a louvor na ordem do Corpo:

Capitão de Engenharia Augusto de Azevedo e Lemos Esmeraldo Carvalhaes, que foi chefe do Serviço Telegráfico da 1ª Divisão, por ter conseguido “com muito trabalho e inteligente critério estabelecer um bom sistema de comunicações na sua área”, entre outros méritos.

Capitão de Engenharia Heitor Mascarenhas Inglês, que foi chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, por “em condições muito difíceis para o serviço das comunicações” ter revelado “notáveis qualidades de serenidade, zelo e sangue frio – dando a todos os subordinados o melhor exemplo”.

Capitão de engenharia José Alegria dos Santos Calado, que foi diretor da Escola de Sinaleiros, contribuindo “com o melhor dos esforços para a instrução e organização de todas as tropas de sinaleiros das Divisões”; e demonstrando, como comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo, “qualidades que o tornam um oficial de rara competência técnica, enérgico e de inexcedível zelo pelo serviço”.

O segundo grupo respeita a oficiais que devem ser louvados em Ordem de Serviço do Corpo:

Tenente miliciano de Engenharia Eurico Aldim Ivo de Carvalho, diretor do Serviço de Telegrafia sem Fios; tenente de Engenharia António Mascarenhas de Meneses, encarregado das ligações da Artilharia da 1ª Divisão, tenente de Engenharia Hermínio José dos Santos Serrano, diretor da Escola de Sinaleiros e tenente miliciano de Engenharia Joaquim Rodrigues Gonçalves, encarregado de vários trabalhos técnicos.

No terceiro grupo incluem-se os oficiais que deveriam ser louvados em Ordem de Serviço da Divisão:

Tenente de infantaria Armando Larcher, tenente miliciano de Infantaria Jorge Frederico Torres Vallez Caroço, tenente de Infantaria Armando Augusto da Costa, tenente de Infantaria Henrique João Rebelo Branco, alferes de Infantaria Alberto Prior Coutinho e alferes miliciano de Artilharia José da Costa Andrade.

Finalmente, Soares Branco acrescenta:

Embora a circular referida somente diga respeito a oficiais, entendo que, dada a circunstância de se julgar oportuno distribuir recompensas como que indicando que se julga finda pelo menos a 1ª etapa do nosso esforço, devo também consignar nesta ocasião que julgo de toda a justiça que seja louvado em ordem do Corpo o 2º sargento Nº 1022 da CTP Domingos Moita Mariano, pelos motivos adiante especificados.

Acrescentando que o referido 2º sargento da Companhia de Telegrafistas de Praça:

Demonstrou como encarregado do serviço das oficinas de Material Telegráfico do CEP raras qualidades de dedicação pelo serviço e de muita inteligência.

Pelo seu trabalho, quer construindo material técnico para suprir várias deficiências que existiam, quer efectuando rápidas reparações muito contribuiu para o regular funcionamento do sistema de comunicações das unidades na primeira linha.

Os louvores propostos resultavam, segundo a cuidadosa informação de Soares Branco, da apreciação de todos os oficiais que tinham ligação ao Serviço Telegráfico, ou seja, 25 de Engenharia, 6 de Artilharia, 5 de Cavalaria e 39 de Infantaria. E, segundo uma nota manuscrita pelo autor do relatório, as propostas

Foram entregues ao Sr. General Gomes da Costa – Comandante Interino do CEP, em virtude de pedido seu, e foram renovadas ao Sr. General Tamagnini por minha iniciativa em Junho 1918.

Efetivos e baixas

Os apêndices 2 e 3 respeitam a relações de pessoal, o primeiro dos oficiais que faziam parte do Serviço Telegráfico no dia 6 de abril de 1918, último dia de existência do Corpo de Exército Português, e o segundo de todo o pessoal que o Serviço perdeu no combate de 9 de Abril.

Em relação a estas perdas, o capitão Soares Branco divide a informação em dois grupos, o pessoal das unidades de telegrafistas, dos quais menciona o posto e nome, e o pessoal das unidades de Infantaria e Artilharia, de que refere apenas o quantitativo.


Com esta numeração de perdas sofridas pelas unidades de Telegrafistas das Secções de Sinaleiros da 2ª Divisão não tivemos em vista ter a pretensão de apresentar um registo de perdas tão exacto quanto parecia natural que a Divisão me pudesse ter fornecido.
Depois de nomeadas e enumeradas as baixas, Soares Branco acrescenta a seguinte nota:

Verdade porém é que tal nunca recebi nem consta de relatórios do respectivo chefe do Serviço Telegráfico Divisionário.

Os números e nomes das praças que exaramos foram-me fornecidos pelos elementos que nas unidades de Telegrafistas e na Escola de Sinaleiros pude coligir.

Em relação aos oficiais pertencentes ao Serviço Telegráfico no dia 6 de abril de 1918, é possível construir um quadro, compilando as informações incluídas no apêndice.

Verifica-se por este mapa que as ausências (cerca de 25%) eram menores do que em outros serviços e que as dificuldades eram normalmente supridas por oficiais do próprio Serviço Telegráfico ou da respetiva unidade.

Outros apêndices

Em março de 1917, Soares Branco enviou ao DD Signals do 1º Exército Britânico, sob cujas ordens iria ficar o CEP, um relatório inicial, com detalhe possível nessa data. Constitui o Apêndice 4 ao Relatório final do Serviço Telegráfico e já tivemos oportunidade de lhe fazer larga referência num texto anterior.

Num primeiro ponto são enumeradas as unidades e órgãos do Serviço, assim como referidos os seus efetivos. O segundo ponto é dedicado ao material, quantidades e características, com referência aos apoios que é possível cumprir, especificando o funcionamento do Serviço e de cada uma das suas unidades, em função das suas capacidades. O terceiro ponto respeita às Divisões e suas unidades, com referência à organização, pessoal e material existente e necessário. Termina o relatório com um breve apontamento sobre o “Grau de instrução do Pessoal”, distinguindo as Secções de Telegrafistas de Campanha, as Secções de Telegrafistas de Praça, os Sinaleiros de Artilharia e os Sinaleiros de Infantaria. As conclusões apontam para a necessidade de reforçar a dotação de material em todas as secções até se igualarem às respetivas unidades inglesas, assim como para o estabelecimento de duas Escolas de Sinaleiros, uma de Artilharia e uma de Infantaria.

Durante a campanha, Soares Branco elaborou os documentos-base da sua ação, enquadrados pelo Plano de Defesa do Corpo Português, sobre o qual definiu as grandes linhas do apoio a assumir pelo Serviço Telegráfico. É o que poderíamos chamar de Anexo de Comunicações, que o capitão Soares Branco teve o cuidado de juntar ao seu Relatório, como apêndice 5, juntamente com as respetivas instruções para a sua execução. Acrescenta ainda a “Lista das Posições de Chamada” e outros documentos salientes elaborados ao longo do tempo. Finalmente, em vários quadros, ficam detalhados os quadros orgânicos em pessoal e material das várias unidades e órgãos do Serviço Telegráfico.

Termina assim o extenso relatório do capitão Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do CEP, exemplo de um último serviço prestado tanto aos militares portugueses que serviram em França, e em especial no Serviço Telegráfico, mas a todos nós, herdeiros desse contributo e desse sacrifício, que queremos acreditar não ter sido em vão.

O capitão Soares Branco

Como já vimos, Soares Branco foi nomeado responsável pelo Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução que se reuniu em Tancos em 1916, por indicação do coronel Roberto da Cunha Baptista, seu chefe do Estado-Maior. O apreço geral pelo trabalho que levou a cabo nessas funções foi a razão da sua nomeação para chefe do Serviço Telegráfico do CEP, cargo que manteve até ao fim do Corpo.

As suas qualidades humanas, a sua competência técnica e o conhecimento que demonstrou como chefe militar e como responsável por um Serviço tecnicamente exigente, foram as razões do reconhecimento geral que lhe foi demonstrado no final da sua missão. Para além dos louvores que lhe foram concedidos, distinguindo-o pessoalmente e enaltecendo o próprio Serviço Telegráfico que chefiou, ficamos a saber o apreço em que era tido pelos seus chefes e por todo o pessoal do seu Serviço. Desde os primeiros passos no teatro de operações onde o CEP iria atuar, incluindo os contactos com os responsáveis britânicos com os quais iria colaborar, até à elaboração do seu Relatório e ao regresso a Portugal, Soares Branco foi sempre um homem sereno, competente e respeitado. Parece ter sido o homem certo no lugar certo, uma vez que o Serviço Telegráfico e os seus homens foram sempre apreciados e considerados pelos restantes militares do CEP, como fomos vendo ao longo da análise do seu Relatório.

Já em Portugal, foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito, pela forma “notável como desempenhou o cargo” o que lhe valeu a “especial consideração entre as autoridades do exército britânico devido ao seu valor e inteligente dedicação pelo serviço da sua responsabilidade”. Pela parte da Inglaterra foi agraciado com a “Military Cross” e pela República Francesa com o grau de cavaleiro da Legião de Honra. É assim um dos oficiais portugueses mais condecorados e distinguidos de entre os que integraram o Corpo Expedicionário Português que participou na Grande Guerra em França.

Por tudo o que dele fomos conhecendo, sabemos que é um homem merecedor da admiração de todos os militares que por dever de ofício ou mesmo por curiosidade ou acaso, com ele contactam e nele reconhecem a competência e o bom desempenho. Razões que nos levam a afirmar que ele deveria deixar de ser um desconhecido, e mesmo esquecido, pela Arma que herdou as competências que estiveram nas suas mãos num tempo difícil – a Arma de Transmissões. Julgamos mesmo que lhe é devida e merece uma justa homenagem desses seus herdeiros.

Para nós, que remexemos em documentos e reconstruímos memórias do passado para conhecimento dos nossos contemporâneos, foi um privilégio trazermos para o presente a história de um empenhamento e de um sacrifício que muito nos ensina e comove.

United Nations – Peace keeping Ops

Na cidade do Porto, está patente, desde 26 de março no núcleo do Porto da Liga dos Combatentes, uma exposição temporária evocativa dos 70 Anos de Operações de Paz das Nações Unidas e dos 25 anos da 1.ª Força Nacional Destacada que serviu nas Nações Unidas.

A exposição ilustra, sucintamente, a origem das Operações de Paz das Nações Unidas e o empenhamento actual do Exército Português na República Centro-Africana, como força de reacção rápida na Missão MINUSCA.

Além disso, a exposição apresenta, em detalhe, a acção desenvolvida em prol da Paz pelo Batalhão de Transmissões 4 (BTm 4) em Moçambique, entre 1993 e 1994, na operação ONUMOZ e apresenta, entre outro material, uma mostra de equipamentos de comunicações fabricados em Portugal, tendo os mesmos sido amplamente  utilizados pelo BTm 4 para garantir o comando e controlo da componente militar da ONUMOZ, tendo esta sido constituída por cerca de 6.500 militares de 40 países.

A exposição está aberta ao público (entrada gratuita) até ao próximo dia 15 de Maio, no Palacete Visconde de Pereira Machado, na Rua Formosa 121, nos seguintes dias:

– Às Quarta-feiras das 10H00 às 17H00.

– Aos Sábados das 10H00 às 13H00.

Na exposição, as crianças e os graúdos podem operar alguns dos equipamentos utilizados pelo BTm 4, nomeadamente rádios e telefones militares.

Contactos:

Tel.: 222 006 101  /  Morada: Rua Formosa 121, Bonfim, Porto.

Mail: porto@ligacombatente.org.pt

Reportagem inauguração:  https://youtu.be/LKjAXrIFCj8

Publicidade à Exposição no Porto:    https://youtu.be/-zRsEewAJIU

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (21)

Post do Cor Aniceto Afonso recebido por msg:

O FIM DO SERVIÇO TELEGRÁFICO DO CEP

 

Introdução

Entre o 9 de Abril e o fim da guerra, em 11 de novembro de 1918, os militares do CEP viveram um tempo de grande depressão e abatimento. A ausência de milhares de camaradas (mortos, prisioneiros, desaparecidos e feridos evacuados para os hospitais de retaguarda) causou a todos os sobreviventes um grande sofrimento, muito difícil de ultrapassar.

Prisioneiros portugueses após La Lys

Prisioneiros portugueses e alguns ingleses após La Lys

Interrogatório de um prisioneiro português no campo de concentração de Fourmies

O major Ferreira do Amaral, comandante do Batalhão de Infantaria 15, publicou em 1922 o seu livro sobre a guerra “A Mentira da Flandres e… O Medo”, referindo-se a este período com as seguintes palavras:

Em fins de Abril de 1918, os restos de um ano de campanha e os destroços humanos e desorganizados da batalha do Lys foram concentrados em Ambleteuse.

A atmosfera moral que aí se respirava era horrorosa.

A esperança de se acabar de uma vez com aquele exílio pelas terras nevoentas do norte de França tornava aquela massa humana ansiosa por uma solução qualquer.

Os mais fracos ou mais abatidos procuravam fugir dali, fosse como fosse.

Os mais turbulentos reagiam de maneira patente contra os mais elementares preceitos da disciplina.

Quem percorresse os acampamentos das tropas portuguesas tinha a sensação de que aquilo tudo acabaria por estalar com grande estrondo e ainda maior descalabro para o nosso prestígio de exército organizado.

Via-se ali o quanto esse exército não passava de uma guerrilha desterrada.

Os militares portugueses, de uma forma geral, foram organizados em batalhões de trabalhadores, ao serviço das unidades britânicas. Eram aproveitados para cavar trincheiras e outros trabalhos que ninguém gostava de fazer. Esta situação degradante foi sendo superada através da reorganização de alguma pequenas unidades de infantaria que, numa fase já avançada, voltaram à frente, sob o comando de unidades inglesas. Entretanto as unidades de artilharia e a maior parte dos especialistas foram cedidos às unidades respetivas do XI Corpo e também de outras grandes unidades, como o V Exército (comandado por um general australiano) e assim se mantiveram até ao fim.

Serviço Telegráfico, os primeiros impactos

O desmoronamento do CEP em 9 de abril teve de imediato reflexos no desempenho do Serviço Telegráfico do Corpo. Ainda antes da Batalha de La Lys, em virtude das mudanças orgânicas de última hora, se alterou profundamente o papel do Serviço Telegráfico. No seu relato, Soares Branco dá-nos conta do que aconteceu:

Em 6 de Abril deixava o Corpo Português de ter a responsabilidade de defesa de um sector, mas, reforçada com alguns elementos a 2ª CDT, em virtude da intensidade de trabalhos que o sistema de linhas enterradas em execução lhe acarretava, o Serviço Telegráfico do Corpo e da 1ª Divisão mantinha intactos em pessoal e material todos os recursos, desfalcados apenas nos oficiais e sargentos que partidos para a Metrópole em gozo de licença de campanha nunca mais em França tinham dado entrada.

Compreendendo bem que os serviços bons ou maus que as tropas telegrafistas do CEP haviam prestado com responsabilidade da área de um sector haviam terminado, ou pelo menos sofrido uma grande pausa, dirigi ao DD Signals do 1º Exercito a nota nº ST 427 em 5 de Abril agradecendo-lhe a forma sempre amistosa e conciliadora que para com o ST do Corpo Português sempre usara e como resposta foi-me endereçada a seguinte carta que por conter a apreciação que o 1º Exército fez dos nossos esforços passo a transcrever:

“Em nome do Primeiro Exército e de mim mesmo, agradeço a si e aos seus oficiais pelo generoso reconhecimento do trabalho do Serviço de Comunicações do Primeiro Exército durante o ano passado. Os Telegrafistas Portugueses, pela sua cooperação amigável e prontidão para se conformarem aos regulamentos do Serviço Britânico, têm feito muito para resolver as dificuldades que são inseparáveis do problema de prover intercomunicação entre tropas de nacionalidades diferentes. Estou muito grato a si e aos seus oficiais pelo apoio que sempre me proporcionaram.

Sede, Primeiro Exército, 7 de Abril de 1918. (a) H. Moore – Coronel. DD Signals, First Army” (em Inglês no Relatório, tradução de Aniceto Afonso).

Consequências imediatas do 9 de Abril

As consequências do 9 de Abril foram muito profundas, como já dissemos, e o Serviço Telegráfico, como todo o CEP, foi-se confrontando com as repercussões da nova situação.

É este o resumo do capitão Soares Branco:

A batalha de 9 de Abril fizera contudo desaparecer ou inutilizar quase todo o pessoal das Secções de Sinaleiros de 4 Brigadas e 16 Batalhões, desfalcara em cerca de 50% dos efectivos de sinaleiros de 4 Grupos de Artilharia, acarretara várias perdas às tropas de telegrafistas que para a TSF eram quase de dois terços, fizera reduzir à dotação de pouco mais de uma Divisão o material telefónico e telegráfico de todo o Corpo.

Chegadas as unidades à área de Samer ordens sucessivas do comando fizeram enviar novamente para trabalhos de defesa as Brigadas da 1ª Divisão e várias outras unidades entre as quais o 4º GBA.

Excepção feita deste, as restantes tropas enquadradas em unidades Britânicas totalmente divorciadas da acção táctica e técnica dos QG Portugueses do Corpo e das Divisões não mais possuíram senão teoricamente pessoal e material do ST; nem instrução era possível conseguir dar-lhes.

Repetidos esforços feitos nesse sentido pelo CST da 1ª Divisão não lograram grande êxito embora eu tivesse conseguido que o Corpo fornecesse a cada Brigada e Batalhão viaturas próprias para as unidades sinaleiras e que o material técnico fosse de novo completamente distribuído.

A pulverização das nossas unidades e a cedência temporária dos nossos melhores elementos ao Exército Britânico justificada talvez pela hora crítica do momento chegou também a fazer-se sentir nas unidades do ST e eu recebi ordem para considerar de prevenção a Secção Automóvel de Fio – 2ª Secção da CTC.

Sob o comando direto de Soares Branco, como chefe do Serviço Telegráfico do Corpo, restava esta Secção Automóvel de Fio. Mas a premente necessidade de unidades de apoio, na previsível ofensiva aliada da primavera/verão de 1918, levou o comando britânico a requisitar a cedência dessa última unidade do Serviço Telegráfico do Corpo Português. Foi a gota de água que fez compreender que o fim do Serviço estava próximo, tal como acontecia com o comando tático de unidades pelos quartéis-generais do CEP. Nestas circunstâncias, não admira que o capitão Soares Branco, consciente dos factos, escrevesse uma oportuna carta, datada de 17 de abril, ao seu chefe de Estado-Maior, justificando-a pelo facto de “a lealdade e o hábito que sempre contraí de falar claro e acentuar a minha opinião quando em questões do ST eram dadas ordens que eu reputava de perniciosas consequências para o futuro”:

A V. Exª como directamente responsável pelas comunicações na área do Corpo Português julgo do meu dever informar do que significa para nós a cedência do Motor Airline Section 2ª Secção do CTC ao GHQ.

A cedência desta Secção implica o desaparecimento do ST do Corpo que fica reduzido a uma simples Secção de correspondência e aos restos do material de campanha Português que é inadequado ao exigido para um simples estacionamento de Brigada.

Desaparecem com ela os Camions que transportam o material da Companhia e que eram o único meio de transporte que todo o ST possuía, e ficarei inabilitado a, saindo de Samer, montar o mais rudimentar serviço de comunicações.

Tive e tenho a maior responsabilidade na vinda para França dos efectivos das unidades Telegrafistas os quais correspondendo às exigências do serviço cumpriram o seu dever.

São elas como órgãos directamente dependentes do comando a razão da existência destes mesmos.

A ordem que vai ser dada desorganiza e destrói a unidade de que dispunha e que executava as ordens técnicas que segundo as instruções de V. Ex. julgava indispensáveis.

Como Chefe do Serviço que fui cumpria-me informar das consequências e do significado do envio de secções destacadas da Companhia de Telegrafistas do Corpo para o serviço do GHQ e procedendo assim não poderei nunca ser inculpado nem responsável pelas consequências da ordem que a CTC irá receber.

E quando a secção avançou para o GHQ britânico, logo em 25 de abril, Soares Branco não quis deixar de acentuar, em nova carta para o mesmo destinatário, o seguinte:

Que a insistência do Exército Britânico em se socorrer dos nossos guarda-fios para o estabelecimento de linhas inglesas de alguma maneira vem provar que o estipulado na conferência do dia 1 de Novembro de 1917 a que não assisti nem para a qual fui ouvido, se em várias questões pelo seu cumprimento muito comprometeu a sequência das operações por ter que se aceitar um sistema de comunicações que era detestável e não podia ser alterado, ao menos no que diz respeito à instrução de oficiais e praças guarda-fios que devia ser activada por Sua Exª. o General Comandante do CEP parece ter sido satisfatoriamente cumprido visto que esse mesmo pessoal que pela passagem do CEP de Divisão a Corpo teve que ser requisitado da Metrópole na presente ocasião está em condições do Corpo passar ao Serviço do Grande QG Britânico”.

O fim do Serviço Telegráfico

Foi a 10 de maio que os militares portugueses ainda presentes em Samer, como os telegrafistas, receberam ordens para ir estacionar em Ambleteuse, sede da Base Portuguesa. Para Soares Branco era a confirmação do fim de todas as missões que ainda pudessem vir a ser atribuídas ao seu Serviço, como bem expressa no relatório:

Era bem certo que o ST findara e as linhas de comunicação mantinham por intermédio da Missão Britânica a exploração e conservação da estação telegráfica e telefónica de Ambleteuse nenhum serviço sendo entregue ao Corpo Português que apenas conservou talvez ainda por hábito contraído uma central telefónica servindo as repartições dos QG e principais instalações da área.

Um mês depois, do efectivo das 3 companhias era apenas possível refundir uma e conservar um destacamento e a Escola de Sinaleiros como reserva.

A 2ª Divisão sem efectivos fora temporariamente suprimida e a 2 de Julho igual sorte teve também a 2ª CDT que foi empregada em pessoal e material a reconstituir a 1ª CDT que havia recebido ordem para reunir ao seu QG em Dellete.

E, recordando as origens do seu empenho, como responsável do Serviço Telegráfico do CEP, evoca a sua nomeação, a sua participação nas manobras de Tancos, os árduos trabalhos que lhe permitiram manter operacional um Serviço novo e a forma como sempre agiu no cumprimento das suas missões.

Destacamos deste lamento final:

Em homenagem à verdade devo declarar que a primeira vez que, certamente circunstâncias muito atendíveis, fizeram contrariar e desanimar o interesse que me orgulho de ter sempre votado ao meu serviço foi quando vi partir para executar trabalhos sob a direção de estranhos a formação que com seis meses de antecedência eu fizera organizar e instruir em França e me valera resolver sem dependência doutro auxílio o excesso de trabalhos que a entrada do Corpo Português na linha em Novembro de 1917 originou.

É que desde então eu compreendi que não mais poderia manter aquele espírito de Corpo e compreensível emulação que não exclui boas relações de camaradagem que sempre se havia explorado de forma a que todos rivalizassem a, trabalhando entre Portugueses e sob as ordens de Portugueses, mostrar aos sinaleiros Britânicos que com muito menos recursos e com um recrutamento aliás deficientíssimo se era capaz de trabalhar e trabalhar bem.

E depois de recordar algumas fases mais intensas dos trabalhos em que esteve envolvido, Soares Branco termina da seguinte forma:

Ao terminar seja-me lícito que sem esquecer aqueles que pelo seu zelo e interesse pelo serviço em lugar competente eu deixo enumerados para apreciação do comando, eu me refira com palavras de agradecimento e saudade àqueles telegrafistas na sua grande maioria da Companhia de Telegrafistas de Praça que vindos da Metrópole para trabalhar nos Batalhões e Brigadas foram sem dúvida a base do regular funcionamento do serviço alcançado, tantos dos quais foram perdidos para a Pátria e para os seus na manhã do dia 9 de Abril e tantos outros vieram encontrar em terras de França a ruína certa de uma existência.

Sem eles nada teria sido possível no ST. Heróis obscuros que a maior parte das vezes o dever sacrifica, sem que a modéstia e o nenhum brilho das suas funções consiga sequer recolher-lhe os seus nomes.

E assina assim, com o seu próprio punho:

França, Julho 1918

Carlos de Barros Soares Branco

Cap. Eng. CST do CEP

Conclusão

Quando visitamos, passados cem anos, esta abundante documentação que herdámos da presença das tropas portuguesas em França, constituindo um Corpo Expedicionário Português, a coberto de vários acordos entre os Governos Português e Britânico, somos confrontados com as dúvidas que assaltam tanto os curiosos destes estudos, como os historiadores que se debruçam com mais diligência sobre os tempos passados. De forma mais ou menos explícita, as dúvidas que hoje temos sobre a participação de uma força portuguesa na frente europeia da Grande Guerra, são as mesmas que muitos dos participantes deixaram transparecer. O longo relatório do capitão Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do Corpo, é disso um exemplo marcante. Apesar de através dele, o autor querer transmitir, em especial, os aspetos operacionais e técnicos do seu Serviço, a verdade é que, de forma mais ou menos subtil, ele não deixa de mencionar, várias vezes, dúvidas sobre a necessidade da presença portuguesa em França, sobre a forma de que essa presença se revestiu e especialmente sobre as relações estabelecidas, na frente, com os comandos britânicos. São críticas e apreciações subtis, mas que nos alertam, tal como tantos outros documentos, para a prudência com que devemos analisar a presença das tropas portuguesas nessa destruidora guerra europeia.

Que possamos aproveitar, como exemplo, a memória dos acontecimentos que rodearam o sacrifício exigido aos jovens portugueses de então, é o menos que podemos hoje exigir.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (20)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

 

CONCLUSÕES E ENSINAMENTOS

 

Introdução

Depois de tão longo relato das atividades do Serviço de Telegrafistas feito pelo seu responsável, capitão Soares Branco, este não podia deixar de se debruçar sobre os ensinamentos colhidos em tão dura experiência, tirando daí as respetivas conclusões. Foi o que procurou fazer nas páginas finais do seu relatório.

Soares Branco começa por se referir aos princípios a que obedeciam as ligações no campo de batalha, ditadas pelos regulamentos ingleses e não deixa de observar, logo de início, que essas regras foram adequadas enquanto a iniciativa dos ataques pertenceu às tropas aliadas, com superioridade de artilharia, mas não se mostraram capazes quando a iniciativa passou para o campo inimigo.

Contudo, sem mais demora, Soares Branco passa à descrição geral do sistema de comunicações divisionário preconizado nas normas inglesas, descrevendo a malha principal da rede de ligações na frente de cada Divisão.

Passa depois a descrever o sistema inimigo, realçando as diferenças e semelhanças, constatando que o “sistema de comunicações é aproximadamente idêntico”.

Por fim, Soares Branco resume, em cinco pontos, os ensinamentos que devem retirar-se da experiência que o Serviço trazia de França, contribuindo assim para a “solução do problema”.

A malha divisionária

A malha de ligações na zona de ação de uma Divisão regia-se pelos princípios preconizados no manual “Inter-comunication in the Field”, publicado em novembro de 1917. O traçado dessa rede é assim descrito por Soares Branco:

Nas suas linhas gerais considerava-se cada frente Divisionária como atravessada por um grande troço longitudinal, cujo extremo anterior constituía um centro avançado de comunicações e o posterior devia dar entrada ou directamente ou por intermédio de algum outro troço transversal do Exército, no posto central do QG da Divisão.

Paralelamente à frente e ligando os extremos desses troços na sua parte anterior devia correr um novo condutor múltiplo nunca da 1ª linha distante menos que um quilómetro.

Nos extremos correspondentes ao limite avançado da zona das Baterias e a linha dos Grupos e Brigadas de Infantaria, dois outros troços transversais completavam o sistema.

A cerca de 7 quilómetros da linha da frente e reunindo lateralmente todos os centros Divisionários extremos posteriores dos troços longitudinais já referidos, deveria ainda ser construído um novo traçado de condutores múltiplos que permitisse assegurar as comunicações para os QG dos Corpos e estações de área e de sub-área.

Esta rede principal devia ser enterrada a 1,80 metros de profundidade, uma vez que se situava em áreas sujeitas a frequentes e intensos bombardeamentos de artilharia. Dos troços longitudinais avançados eram lançados os cabos para a frente, para as posições ocupadas, mesmo quando houvesse movimentações de ataque.

Contudo, se a situação a prever fosse uma defensiva, com possibilidades de retirada, então a rede deveria ser começada da retaguarda para a frente, uma vez que a frente poderia sempre estar prestes a ser abandonada.

No seu conjunto, para garantir a continuidade e a segurança de um tal sistema, “muito tempo, material e pessoal (se) exigia”.

Completando o sistema era finalmente necessário ter em atenção os QG dos Corpos, como observa o relatório:

Completando o sistema de cabos enterrados havia para a retaguarda da linha dos QG Divisionários linhas aéreas para as comunicações com os QG dos Corpos e as centrais das áreas e sub-áreas.

Para a frente dos QG Divisionários a rede óptica, de Telegrafia Sem Fios e TPS duplicavam as ligações mencionadas havendo também nos Batalhões e Brigadas pombos-correios.

O sistema de comunicações do inimigo

Quanto ao sistema de comunicações do inimigo, Soares Branco apresenta um panorama geral, começando por afirmar as poucas diferenças existentes:

A analogia entre os dois modos de estabelecer rede de comunicações ressalta imediatamente à vista, embora sejamos obrigados a reconhecer que entre os alemães há uma maior adaptabilidade à guerra de trincheira ou à guerra de movimento.

De uma forma geral, é esta a ideia que Soares Branco apresenta das comunicações alemãs, das suas ligações e das suas prioridades:

Cada Divisão sendo composta de uma Brigada de Infantaria a três Regimentos de três Batalhões cada um, um comando de Artilharia tendo sob as suas ordens um comando de Artilharia Pesada e um comando de Artilharia de Campanha, possui uma central divisionária com ligações para duas outras, uma para a Infantaria e outra para a Artilharia.

A central de Infantaria directamente ou por postos intermédios está ligada às centrais de cada Regimento por meio de comunicações telefónicas, ópticas, TSF e de estafetas.

A seu turno, cada central de Regimento tem comunicações para o comando das tropas em 1ª linha por meio do telefone, estafeta, postos ópticos, de Sem Fios e power buzzer e amplificador, e para o comando das tropas em apoio pelo telefone e postos ópticos.

As ligações geralmente empregadas entre o comando das tropas em 1ª linha e as suas companhias são telefónicas, ópticas e por estafetas.

Um posto de telegrafia sem fios e power buzzer em cada sector de Batalhão é de uso estabelecer-se bem como para as comunicações laterais para um dos comandos de tropas em 1ª linha contíguos.

Os pombos-correios são geralmente destinados a manter comunicações entre os comandos das tropas em 1ª linha, os comandos dos regimentos e os postos de observação da Divisão, por intermédio do respectivo pombal.

Por cada sector divisionário pelo menos um posto de observação principal avançado tem ligações telefónicas, ópticas e por Sem Fios, directamente com a central da Divisão.

As ligações laterais são sempre estabelecidas como reserva das directas.

Na Artilharia cada comando da Artilharia de Campanha tem ligações telefónicas e ópticas com os Grupos e com o balão de observação e por iguais meios tanto quanto possível são feitas as comunicações do Grupo para as suas Baterias.  

Os postos de observação directamente ou por intermédio de centrais estão ligados pelo telefone com as suas Baterias.

Dentre os postos de observação, um pelo menos em cada sector de Grupo tem com o comando deste ligações por telegrafia óptica, Sem Fios e telefonia.

As comunicações da Artilharia Pesada são análogas às da Artilharia de Campanha havendo contudo comunicações por TSF mais frequentemente empregadas mesmo entre o comando da Artilharia e os seus Grupos.

Os pombos correio são frequentemente empregados nos postos de observação principais.

Linhas entre as centrais da Artilharia e as da Infantaria completam o sistema já descrito e servem para que as ligações privativas da Infantaria e Artilharia possam servir de recurso umas às outras.

Os ensinamentos

Soares Branco, perante este panorama geral, vai apresentar as suas conclusões, no sentido de ajudar a solucionar futuras situações. Mas antes apresenta uma ideia geral sobre o sistema que acaba de descrever:

Mesmo que o sistema de cabos enterrados inglês pudesse ser facilmente executado eu suponho que ele, satisfazendo plenamente os comandos nas preparações de operações de pequena envergadura, sendo capaz de resistir a bombardeamentos normais do inimigo, encerrava em si perniciosos gérmenes para a sequência das operações de maior vulto quer estas fossem ofensivas ou defensivas.

Habituava os comandos à ideia de que o telefone, e só ele, era o meio que possuíam para a transmissão das suas ordens.

Incutia a todos a ideia de que só pelo telefone se transmitem informações e quando este falhava os restantes meios de comunicação só os sabiam empregar para dizer que não havia comunicações.

O telefone é óptimo recurso quando uma marcha se detém e é forçoso dar conhecimento ao comando do que se passa e dele receber ordens, mas cuja utilização continuada é impossível manter quando o inimigo sabe e pode reagir, é mais um bom auxiliar para as suas relações administrativas do que para as operações defensivas.

Finalmente e em cinco pontos, o capitão Soares Branco apresenta o essencial dos ensinamentos a recolher da sua experiência com o funcionamento do Serviço Telegráfico em França, uns tratados com maior brevidade e outros com bastante detalhe.

O primeiro ponto é simples e curto. Diz o seguinte:

As condições impostas a qualquer sistema de comunicações a estabelecer na área dum sector de Corpo ou de Divisão são de segurança, velocidade de transmissão e simplicidade, devendo as duas últimas ser sempre subordinadas da primeira.

O segundo ponto refere-se à influência dos aspectos táticos sobre as prioridades dos trabalhos a executar e é assim apresentado por Soares Branco:

A situação táctica das tropas sendo imposta e as suas ligações sendo a resultante daquela, cada variação de dispositivos tomados para as operações arrastará novos arranjos a realizar para o ST.

Um sistema de comunicações será tanto melhor quanto mais se puder adaptar às diferentes situações tácticas que às tropas forem impostas.

As necessidades de ligações de ordem administrativa deverão ser sempre consideradas de somenos importância para que pela complexidade que acarretem para o sistema não tornem precárias as ligações importantes.

Quando na resolução do problema brigarem exigências de comunicações para operações de ordem ofensiva com outras de ordem defensiva ou resultado de um ataque inimigo, a estas últimas deverá ser dada prioridade.

No estudo da rede a estabelecer, além de pelo Estado-Maior deverem ser a tempo fixados os respectivos comandos e postos de comando e de observação principais a manter em íntima conexão, torna-se de capital importância que pelo comando da Artilharia seja igualmente indicado quais os Grupos que julga deverem ser reguladores da transmissão de ordens e informações, qual a zona provável das Baterias da defesa e dos postos de observação principais a utilizar.

São sempre muito maiores as dificuldades a vencer para satisfação das necessidades do serviço de Artilharia do que as do sistema geral das restantes tropas e comandos de uma grande unidade e por isso deve-se começar por o estudo da rede privativa daquela Arma.

O terceiro ponto refere-se aos diferentes meios de comunicação e à análise das suas possibilidades e do seu uso, por forma a retirar de todos o melhor rendimento. Diz o seguinte, no essencial:

Não há hoje em dia nenhum meio de comunicação que possa ser julgado como infalível e seguro e só uma cuidadosa sequência de emprego de vários meios à medida que os anteriores vão falhando é que pode oferecer probabilidades de segurança e êxito. (…)

A TSF e a TPS estabelecidas em bons abrigos são de indispensável emprego para duplicar todas as principais linhas telefónicas devendo os power buzzer e amplificadores ser empregados desde a 1ª linha até aos comandos de Brigada. Os postos de TSF nestes últimos comandos ou centros importantes de comunicações situados a mais de 2500 metros da linha da frente conjugados com postos duplos de amplificador e power buzzer da frente, deverão completar o sistema até às estações adstritas aos comandos das Divisões e Corpos.

O número de postos desta natureza tem de ser naturalmente limitado. (…) Os postos de TSF poderão ser afectos às Brigadas, Grupos de Artilharia Pesada, centros importantes de observação de sectores divisionários ou de postos de observação muito importantes para a Artilharia.

As comunicações ópticas que nem todos os terrenos permitem e que nem sempre as condições atmosféricas tornam possível devem ser destinadas a substituir, tanto quanto possível, os postos de TSF e de TPS servindo desta forma para duplicar também as ligações telefónicas e aligeirar a rede radiotelegráfica. (…)

Os pombos-correios podem prestar excelentes serviços entre os comandos dos subsectores ou postos de observação importantes para os comandos das Divisões não sendo para recomendar o seu emprego para pombais estacionados a menos de 6000 metros da linha da frente.

As estafetas a cavalo, de motocicleta, bicicleta ou a pé devem constituir a base de todo o esquema de ligações no caso de corte de comunicações. (…)

O quarto ponto é o mais complexo e longo, referindo-se aos planos de trabalho para a montagem de um sistema completo de comunicações, prioridades a estabelecer, alterações segundo a situação tática, uso dos meios e adaptação do sistema às necessidades do comando das operações.

Em resumo, diz o seguinte, para o caso, que refere, de uma Divisão chegar a um local designado para se estabelecer:

(…)

Obedecendo ao princípio de que as ligações devem de começo estabelecer-se de centros avançados de observação e informações até centros de comunicações à retaguarda por meio de um troço principal duplicado conforme os meios de que dispõe por telegrafia óptica, Sem Fios, estafetas, pombos-correios, etc., montar-se-ia por cada sector de Brigada na linha uma estação avançada em correspondência com a anteriormente estabelecida na última posição.

Soares Branco passa então a explicar como se deveriam continuar os trabalhos, não se esquecendo de mencionar a necessidade de os sinaleiros escolherem um local facilmente visível para os estafetas se poderem corresponder por telegrafia ótica e por “Sem Fios”. Seria depois necessário estabelecer um centro com “pelo menos dois circuitos telefónicos para a Infantaria e dois circuitos idênticos para a Artilharia de Campanha e Pesada”. E prossegue:

Por cada sector de Grupo de Artilharia de igual modo se procederia para o estabelecimento de comunicações entre a região dos postos de observação e anterior central estabelecida.

A estes postos avançados de informações seriam levadas todas as mensagens a transmitir para a retaguarda e deles seriam expedidas todas as ordens para os comandos subalternos. (…)

A nova central divisionária ainda em ligação de começo somente com os postos de comando primitivos das Brigadas viria só depois estabelecer-se para junto de um dos postos avançados das Brigadas. (…)

Assim deveria haver sempre, depois de montada a central de Divisão, comunicações tanto quanto possível seguras para um centro de observações divisionário e para os postos avançados de comunicações das Brigadas na linha.

Com esta base, Soares Branco insiste na necessidade de hierarquizar os meios de transmissão, continuando a entender que o telefone não deve figurar nessas prioridades, antes funcionar sobretudo para o tráfego administrativo.

A ordem pela qual deveriam ser estabelecidas os diferentes meios de comunicações deveria ser a de telegrafia óptica, estafetas, TSF e telefonia. (…)

Logo que as condições o permitissem dever-se-ia procurar estabelecer uma ou mais estações ópticas divisionárias que não só recebessem mensagens das estações das Brigadas como de quaisquer outras dos Batalhões que para tal tomassem a iniciativa.

Nas ligações da Artilharia procurar-se-á que depois de construir o troço principal entre a central de observações e os comandos dos Grupos e empregados nele todos os meios de comunicação disponíveis entre os quais deverão contar-se postos de Sem Fios de ondas contínuas, alguns dos principais postos de observação sejam também directamente ligados aos comandos por Sem Fios, postos ópticos e pombos-correios, estabelecendo-se igualmente as ligações para os oficiais de ligação da Artilharia. (…)

Desta primeira fase em que por assim dizer as ligações telefónicas não vão além das Brigadas e Grupos de artilharia e centrais de postos de observação, e em que todos os outros meios de comunicação são empregados em reforçar estas ligações e a podê-las estender aos comandos subalternos, pode passar-se segundo a situação táctica ou para a guerra de movimento sem avanço metódico ou para uma defesa mais ou menos prolongada.

Quaisquer linhas necessárias apenas para ligações administrativas não deveriam nunca ser fortemente protegidas e o uso do telefone excluídos os casos das ligações da artilharia e dos postos de observação deveria ser totalmente interdito. Só assim os comandos se habituariam à precisão das ordens e informações escritas, a fazer uso da telegrafia óptica, da Sem Fios, dos pombos-correios ou dos estafetas, únicos meios que as mais das vezes em difíceis situações tácticas têm ao seu dispor. (…)

Finalmente, no quinto ponto, Soares Branco alerta para a necessidade da existência de oficiais de ligação entre as unidades e para a fragilidade das informações fornecidas pelos novos meios, balões e aeroplanos:

Dever-se-ia sempre atender a que os meios de informação para o comando serão sobretudo baseados pelas mensagens enviadas por qualquer meio pelos oficiais de ligação que devem sempre existir junto de cada comando como representantes do comando imediatamente inferior e que os meios de transmissão já apontados e os provenientes de balões e aeroplanos, constituindo facilidades para a chegada rápida das informações, não podem pelo facto de mecanicamente serem interrompidos constituir causa suficiente para a interrupção das relações que entre os diferentes comandos hierarquicamente dependentes ou contíguos deve sempre existir.

Uma conclusão

Aqui deveria terminar o longo relatório de Soares Branco acerca da sua experiência como chefe do Serviço Telegráfico do CEP, em França. Mas, segundo o seu ponto de vista, sempre meticuloso, restava ainda falar do período que se seguiu ao 9 de Abril, durante o qual deixou de existir na prática o Serviço Telegráfico. Por isso Soares Branco introduz o capítulo VI, de que falaremos mais adiante.

Mas o essencial dos ensinamentos que Soares Branco deixa aos seus sucessores fica expresso no seu relatório. Ele teria oportunidade de o apresentar numa sessão solene na Academia Militar e de o publicar na Revista de Artilharia, dando-lhe assim a divulgação que na época lhe pareceu necessária.

É porventura a altura de voltar atrás e destacar algumas palavras de lamento, das poucas usadas por Soares Branco ao longo do seu relatório, inseridas numa fase de grande responsabilidade perante os factos que se iam tornando inexoráveis: “Quando uma guerra é um facto e uma Divisão é mandada entrar em linha, quando os Serviços expõem a tempo o que lhes é absolutamente indispensável, quando os Comandos perfilham e apoiam essas requisições, é triste ver-se obrigado, na rendição duma Divisão Inglesa por outra Portuguesa, a patentear a estrangeiros ou o pouco crédito que perante os superiores merecem as nossas afirmações, ou as deficiências inacreditáveis da nossa preparação para a Guerra”.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (19)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (ÚLTIMOS APONTAMENTOS)

Introdução

Como vimos, o capitão Soares Branco optou por incorporar o relatório do seu adjunto capitão Mascarenhas Inglês, enquanto responsável pelo Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, no seu próprio relatório da missão no CEP. Isso permitiu-lhe trazer para o seu relato um testemunho mais próximo dos acontecimentos, traduzindo mais adequadamente a realidade no terreno, pois a partir do dia 6 de abril, a única unidade operacional do Corpo Expedicionário Português passou a ser a sua 2ª Divisão. Mascarenhas Inglês descreveu os acontecimentos com muito pragmatismo, não se afastando muito da sua apreciação técnica, sem tecer comentários ou transmitir opiniões pessoais sobre os factos relatados.

Mas chegado ao fim o relato dos acontecimentos do dia 9 de abril, o capitão Soares Branco retomou o seu relatório, imprimindo-lhe o seu estilo, em que não raras vezes emerge uma visão mais abrangente dos acontecimentos, incluindo as suas opiniões pessoais sobre vários assuntos, que especialmente respeitam ao seu Serviço, mas que abrangem também temas de maior amplitude.

Sistema de TSF e TPS

O capitão Soares Branco aceita desde logo que tanto o sistema de TSF como o sistema de TPS não deram “resultados satisfatórios”, mas não vai limitar-se ao relato factual, que também faz.

A TSF e a TPS no CEP
(Clicar na imagem para a aumentar, e depois, mais abaixo, na definição, e de novo na imagem)

 

Ora, estes sistemas, no dizer de Soares Branco, não deram “resultados satisfatórios” por várias circunstâncias, que envolvem também responsabilidades exteriores ao serviço telegráfico. Foram estas algumas das razões do não funcionamento destes sistemas:

Entre o QG2 e o XI Corpo pela razão deste não ter ainda dado conhecimento dos indicativos e características da sua estação diretora e não ter por sua iniciativa nunca chamado o posto de QG2.

Entre o QG 2 e as Brigadas porque em Laventie a antena e as árvores de suporte foram derrubadas pelo bombardeamento e as três praças do posto não puderam sem auxílio da Brigada de novo proceder à instalação; em Huit Maisons o pessoal foi atingido logo no começo do bombardeamento sendo morto o chefe do posto; em Cense du Raux a estação, parece por ordem da Brigada, fora desmontada e levada para junto dos Batalhões.

Entre os postos duplos e transmissores, o da 4ª Brigada (…) nada se sabe pois todo o pessoal desapareceu, o da 6ª Brigada (…) foi atingido logo de começo por um morteiro tendo tudo ficado soterrado; o do posto de Landsdown funcionou até perto das dez horas, mas como tinha ligação bilateral com o da 6ª BI não obteve nunca resposta.

(Clicar na imagem para a aumentar, e depois, mais abaixo, na definição, e de novo na imagem)

Linhas enterradas e outros meios

Em relação ao sistema de linhas enterradas, que tinha sido possível instalar na zona portuguesa, “só funcionou bem na ligação do 1º GBA com o 5º GBA e entre o 1º GBA e o Batalhão de Landsdown Post a qual funcionou sempre”. Para isso, Soares Branco encontra a explicação nas decisões tomadas sobre o dispositivo final, quando as unidades portuguesas tiveram de ocupar posições diferentes daquelas que estavam preparadas, não só do ponto de vista da organização no terreno, como das ligações que tinham sido estabelecidas. De facto, as poucas linhas que funcionaram, eram “as únicas que se tinha podido utilizar do sistema já feito, dada a nova distribuição de sectores”, porque “de todas as ligações possíveis a aproveitar descritas (…) nem uma só mais podia ter aplicação”.

Não pode por isso, Soares Branco perder a ocasião de expressar o que pensa acerca da forma como as unidades portuguesas foram distribuídas pela sua zona de ação:

Tendo havido assim uma forma tão arbitrária de colocação de comandos sem que o Serviço Telegráfico nem sequer fosse ouvido não admira o pleno insucesso do sistema que tanto trabalho tinha dado a construir.

O Serviço Telegráfico da 2ª Divisão fora pois obrigado a estabelecer as comunicações duma forma certamente defeituosa que era a única possível dada a frequência de mudança de ordens e a natureza destas.

Era assim por exemplo que as antigas estações de La Gorgue, Cockshy House e Vangerie tinham de funcionar como estações intermédias fornecendo, por ligações laterais e paralelas à frente, as comunicações necessárias aos diferentes comandos.

Como daquilo que afirmamos apresentamos cabais e abundantes provas a quem há de julgar estes acontecimentos competirá averiguar aonde vão parar as responsabilidades deste estado de coisas.

Por nós resta-nos ainda desfazer uma lenda que ouvimos já na boca de alguns e que poderia levar à conclusão de que às 06h50 o inimigo forçara alguém que estivesse no extremo do troço principal longitudinal do antigo sector da 1ª Divisão a transmitir a ordem de alto fogo às nossas Baterias. (…)

Soares Branco dedica a esta questão um conjunto alargado de informações, provando que não podiam ter sido as forças alemãs a transmitir a ordem de cessar-fogo à Artilharia, começando por focar o contexto da situação:

Dos sobreviventes da secção de sinaleiros do Batalhão pode saber-se que tendo sido cortada logo de começo uma das linhas do Batalhão para uma Companhia foi esta mandada reparar e o guarda-fios de regresso em vez de se dirigir para a sede do Batalhão ficou na Companhia de Apoio donde só retirou às 09h45 sem que os alemães dela se tivessem apossado.

A Companhia da direita, segundo informações do telefonista de serviço, conservava ainda duas horas depois do bombardeamento as suas ligações com os postos de SOS e por eles pedia socorro.

Ainda depois das 06h00 havia comunicações entre a Companhia e a 1ª linha e com o Batalhão.

Foi só entre as 07h00 e as 08h00 que uma das linhas (…) para o Batalhão foi cortada e só posteriormente se recebeu pedido (…) para lhe ser dada comunicação (…) para o Batalhão.

E conclui:

Sendo assim parece-me que impossível era a informação dada ao 1º GBA pelas linhas enterradas fosse já feita pelo inimigo (…).

Na verdade, das informações fornecidas pelo oficial de ligação da 6ª Brigada se conclui que cerca das 06h20 a barragem sobre a linha da frente parece ter cessado o que certamente correspondeu ao pedido às 06h50 feito de Infantaria 17 para fazer cessar também o fogo da nossa Artilharia.

É só às 10h00 que um oficial observador da Artilharia confirma que o inimigo está em Landsdown House.

Soares Branco termina esta parte do seu relatório com uma breve referência ao sistema de linhas aéreas, o primeiro que sofreu as consequências do ataque alemão, “visto ter os seus traçados ao longo das estradas e postes de junção em cruzamentos de caminho”. Também às linhas de cabo, que “foram aquelas que durante mais tempo funcionaram, mas essa circunstância só derivava do facto das barragens virem gradualmente recuando desde a Brigada às 1ªs linhas”. E ainda às comunicações por pombos-correios, que foram muito pouco úteis, e finalmente às ligações por aeroplanos, para dizer que “não houve nenhumas durante o combate; certamente devido ao nevoeiro que sempre se manteve durante todo o dia”.

O relatório propriamente dito termina aqui. Segue-se um capítulo de “conclusões e ensinamentos”, ao qual nos referiremos em novos textos.

Conclusão

Este longo relatório do responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP, capitão Soares Branco, que ainda continuaremos a analisar, transmite-nos um testemunho único, acompanhando quase dia-a-dia os trabalhos, opções, dificuldades e atuação do Serviço. Não é um relatório de fácil consulta, mas situa-se muito acima de outros relatórios sectoriais que os respetivos responsáveis nos deixaram. É sem dúvida a primeira vez que o Serviço Telegráfico, antecessor da Arma de Transmissões do Exército Português, assume a responsabilidade de planear, apoiar e executar uma manobra tecnicamente autónoma, contribuindo, como outras, para o cumprimento da missão do Corpo Expedicionário Português em terras de França, durante a Primeira Guerra Mundial. E, apesar das dificuldades de um Serviço jovem e inexperiente, deixar marcas indeléveis na memória de todos os que com ele se relacionaram. As distinções de que foi alvo, e de que daremos conta mais adiante, confirmam o esforço, a dedicação e o sacrifício de muitos dos seus elementos.

21 de Novembro – o dia do regresso da Guiné… 48 anos depois

Esta crónica do sr Carlos Pinheiro, ex 1º cabo Op. Msg. 03015366 que esteve colocado no Centro de Mensagens do Destacamento do STM – Serviço de Telecomunicações Militares na Guiné, foi-nos enviada pelo MGen João Afonso Bento Soares:

“Depois de regressar da sua comissão, foi funcionário dos Serviços Médico – Sociais em Torres Novas, Alcanena e Santarém, onde esteve desde 1964 a 1972, ano em que entrou para a Banca, Crédito Predial Português, tendo passado à reforma em 31.12.01. Reencontrámo-nos num almoço após 41 anos.”

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A esta hora, às primeiras horas do dia 21 de Novembro de 1970, estava, aliás estávamos todos, perfeitamente acordados a bordo do “CARVALHO ARAÚJO”, mais ou menos ao largo de Cascais, a prepararmo-nos para o assalto às casas de banho dos camarotes para, finalmente, tomarmos um banho após nove dias de mar alto desde Bissau até Cascais. Imagine-se a necessidade de nos apresentarmos de manhã em Lisboa, de cara lavada perante as nossas famílias e os nossos amigos, e as voltas que tivemos que dar para que isso fosse possível. Um banho, como se fosse a melhor coisa do mundo, e naquela noite foi mesmo a melhor coisa só suplantada com a chegada de manhã ao pé dos nossos familiares.

O Carvalho Araújo, em 1970, durante os 7 meses em que transportou militares entre Lisboa e Bissau. A sua ultima viagem terminou no Tejo em 8JAN1971.

O “CARVALHO ARAÚJO”, apesar de já estar no seu fim de vida naquela altura – esta foi uma das suas últimas viagens – foi um grande navio, o melhor de todos, que nos trouxe de África depois de 25 meses de comissão naquele pedaço de terra e água, mas mais água do que terra, encravado entre o Senegal e a Guiné Conakri.

Falar desse tempo não vem agora aqui ao caso. Há tantos livros publicados que, infelizmente pouca gente lê e por isso se sabe tão pouco daquele período de treze enormes anos que a juventude foi obrigada a cumprir lá longe, em África, e muitos nas piores condições, diria até em condições inimagináveis, para além daquela dezena de milhar cujos restos mortais por lá ficaram para sempre.

Tínhamos embarcado no dia 13 e logo alguns tripulantes nos avisavam que dado o mar picado do Golfo da Guiné, quando chegássemos ao mar da Madeira seria bem pior. Mas nós estávamos por tudo. Só queríamos que aqueles dias passassem depressa. No entanto quando chegámos ao mar da Madeira, tivemos um mar chão contra todas as previsões. Nem tudo podia ser mau.

Foram dias para esquecer. Não havia água disponível, o porão era talvez o sítio menos mau na medida em que o navio tinha andado muitos anos a transportar gado bovino dos Açores para o Continente e tinham-lhe adaptado um sistema de ar forçado nos porões para o gado não enjoar. Também foi bom para nós que nos contentávamos com pouco. Tinham-nos dado um prato à subida das escadas, para que tivéssemos direito à refeição que era comida onde era possível. Depois só tínhamos que lavar o dito prato, com água do mar, para a próxima refeição. A comida era do pior que se pode imaginar. Mas após ter feito o primeiro reconhecimento ao único sitio onde se vendia alguma coisa, tinha constatado que só havia cerveja e Coca-Cola com fartura e também bolachas baunilha. Mais nada. Portanto tudo o que foi aparecendo era comido, por vezes até com os olhos fechados, mas não havia alternativa. Houve porém uma excepção. No dia 19 o navio aportou ao Funchal, ao pôr-do-sol – um espectáculo inolvidável –, para meter água e nafta que na Guiné não havia e nesse dia ao jantar apresentaram-nos um peixe assado no forno com muito bom aspecto. Porém, fartos de comer mal, marcando também a nossa insatisfação pela comida que até aí nos tinha sido apresentada, nesse dia resolvemos ir jantar fora ao Funchal, com o resto do dinheiro que nos tinha sobrado da comissão.

Fabricado em Trieste, Itália, foi lançado à agua em DEZ 1929. Entre ABR/MAI de 1930 e MAR de 1970 esteve ao serviço da Insulana na carreira das ilhas (Açores e Madeira).

Foi uma noite de festa porque já cheirava a Portugal e o degredo estava a acabar. Lembro-me perfeitamente, o “CARVALHO ARAÚJO” atracado ao Cais do Funchal ao lado dum paquete de luxo, o “CHUSAN”, penso que inglês, parecia uma casca de noz ao lado dum “cidade iluminada”. Mas não nos enganámos e à hora combinada lá estávamos de novo a bordo a caminho de casa.

A chegada a Lisboa foi de facto alegre mas ao mesmo tempo arrepiante quando nos pudemos aproximar dos nossos familiares que não víamos há mais de dois anos. São momentos indescritíveis onde as palavras nos faltam.

Depois foi embarcar numa camioneta para os Adidos, na Calçada da Ajuda e o espólio foi feito rapidamente.

Passado algum tempo já estava em casa da minha tia Cândida na Avenida 24 de Julho, mesmo em frente à Estação do Cais do Sodré, a voltar a admirar o Tejo de que também tinha muitas saudades.

A minha mãe estava a acabar o almoço – um cozido à portuguesa como deve ser, e o apetite era bastante, só suplantado pelas saudades que se iam matando aos poucos.

Primeiro a sopa do cozido como mandam as regras, depois o cozido propriamente dito. E lá vinha o respectivo arroz a acompanhar. Mas aí, quanto ao arroz, farto de tanta “vianda” da Guiné, disse que dispensava bem o arroz. Mas a minha mãe, com as palavras que só as mães saber dirigir aos filhos, lá me convenceu a provar o arroz e, de facto, estava tão bom que fiquei de novo freguês de arroz que eu pensava nunca mais comer dada a mistela que muitas vezes éramos obrigados a comer em Bissau.

Ainda fiquei uns dois dias em Lisboa a matar saudades e só depois é que viajei até à minha terra, Alcanena, para rever os amigos e outros familiares.

Nesse longínquo dia 21 de Novembro de 1970, o Almirante Américo Tomás foi a Alcanena, mais concretamente a Minde, inaugurar o Museu Roque Gameiro, acompanhado das mais altas entidades do país, da região e do concelho e, claro, de sua esposa a D. Gertrudes.

Mas nesse dia também aconteceu a invasão de Conakry pelas Forças Armadas Portuguesas comandadas pelo Comandante Alpoim Galvão a fim de libertar alguns militares portugueses presos naquele país. Foi uma operação secreta e de surpresa que não terá obtido o êxito planeado mas mesmo assim conseguiram um dos objectivos que foi a libertação dos presos.

Foi de facto um dia muito grande o dia 21 de Novembro de 1970

Carlos Pinheiro
21.11.18

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (18)

 

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (ARTILHARIA)

Introdução

Depois da descrição dos acontecimentos de 9 de abril nas Brigadas e nos respetivos Batalhões, o capitão Mascarenhas Inglês aborda também o que se passou nas unidades de Artilharia, dando, em primeiro lugar, uma ideia geral das “ligações na artilharia” e passando depois a descrever as ações levadas a efeito pelos GBA (Grupo de Baterias de Artilharia) que estiveram em apoio das Brigadas empenhadas, os 1º e 2º GBA em apoio da 6ª BI, no sector de Neuve Chapelle; o 5º GBA em apoio da 5ª BI, no sector de Ferme du Bois; e o 6º GBA, em apoio da 4ª BI, no sector de Fauquissart.

As ligações entre as unidades de Infantaria e as unidades de Artilharia foram sempre uma das principais preocupações do Serviço Telegráfico, já que delas dependia a execução dos pedidos de apoio de fogos em tempo oportuno e de forma precisa. As unidades de artilharia tinham na frente, junto das companhias em primeiro escalão os seus observadores, que conduziam o tiro de artilharia do seu sector, tornando-se elementos fundamentais para o sucesso das missões. Ora isso requeria boas comunicações, contempladas na existência de linhas especiais dedicadas a esses observadores avançados.

In A “Batalha de La Lys” e as Transmissões, Revista de Artª, TCor Soares Branco (“clique” sucessivamente para aumentar)

Quando estas ligações falharam, em breve tempo depois do início dos bombardeamentos alemães no dia 9 de abril, as unidades de artilharia ficaram cegas, sem saberem o que fazer. Ainda assim, mantiveram-se nos seus postos e quase todas puderam participar na batalha, a pedido das unidades de Infantaria, enquanto foi possível, e tomando depois várias iniciativas, sem a garantia de qualquer eficácia.

Ligações da Artilharia

Nas primeiras linhas do seu relatório sobre as ligações da artilharia, o capitão Mascarenhas Inglês dá-nos uma imagem do que foi o começo da batalha:

Às cinco horas do dia 9 notou-se avariada a linha que servia o 6º G.B.A. pelo que foram mandados sair guarda-fios que a percorreram com o sargento, sem que até às 12 horas tivessem conseguido alguma coisa de útil; pouco depois das 5 horas avariaram-se as linhas para o 1º e 5º GBA e às 5 e três quartos avariou-se a linha para o 2º GBA.

Tendo saído outro grupo de guarda-fios chegou-se à conclusão que as linhas de Fosse para a frente estavam completamente destruídas.

Ou seja, antes das seis horas da manhã já nenhuma linha de artilharia estava a funcionar e as equipas de reparação nada puderam fazer. Seguiu-se uma luta contra o tempo e contra as condições do campo da batalha, tornando cada vez mais difícil qualquer ação de reparação.

Apesar de restarem algumas ligações para os comandos laterais das unidades inglesas e com a Artilharia Pesada, a verdade é que as tropas da frente, assim como os observadores, ficaram sem qualquer tipo de comunicações.

A situação foi-se degradando, como podemos ver pelo relatório:

As linhas que entravam no indicador foram sucessivamente cortadas e às dez horas e quarenta e cinco minutos já não existiam senão linhas dos circuitos locais.

As únicas comunicações que depois foram feitas com os Grupos foram-no por meio de motociclistas.

Cerca do meio-dia encerrou-se o serviço da estação telefónica de artilharia.

Os telefonistas só saíram de Lestrem depois de se ter verificado que os subscritores já não se encontravam nos seus gabinetes para poderem fazer uso dos respetivos telefones.

A segunda companhia de telegrafistas recebera também ordem de retirar com o Quartel-General.

Restava pois reunir o material que fosse possível e abandonar Lestrem.

Grupos de Baterias de Artilharia

No seu relatório preliminar sobre o 9 de Abril, o general Costa Gomes, comandante da 2ª Divisão, refere-se à artilharia alemã e à resposta da artilharia portuguesa do seguinte modo:

Das 20h30 do dia 8 à 01h00 de 9, o inimigo executou sobre as nossas posições de artilharia curtas rajadas de 4-5 minutos, intervaladas duns 15 minutos; da 01h00 às 04h15 de 9 fez uma pausa; a esta hora, porém, abriu um violento fogo não só sobre as baterias, como sobre as nossas 1ª e 2ª linhas de infantaria, comandos de batalhões, Brigadas e estradas que se dirigiam para os sectores.

Este bombardeamento destruiu logo quase todas as ligações telegráficas.

A nossa artilharia respondeu ao fogo inimigo, umas baterias por lhe pedir a infantaria S.O.S.; outras por iniciativa própria, porque tendo as comunicações cortadas e atendendo à violência do fogo inimigo, perceberam que não deviam esperar pelo pedido.

No entanto, algumas baterias, preocupadas com o consumo de munições e dificuldades de remuniciamento não imprimiram ao tiro a velocidade que seria para desejar num tal momento, como sucedeu no flanco direito.

Por sua vez, Mascarenhas Inglês ocupa-se dos quatro Grupos de Baterias de Artilharia que apoiavam as Brigadas da 2ª Divisão, esclarecendo as circunstâncias das ligações para cada um deles. Como dissemos, os 1º e 2º GBA apoiavam a 6ª BI, no sector de Neuve Chapelle.

Em relação ao 1º GBA escreve Mascarenhas Inglês:

Na estação do Comando deste Grupo, interromperam-se as ligações com as baterias (…) logo nos primeiros tiros (…)

Não foi possível tentar sequer a reparação das linhas em face do fogo de barragem em volta do Grupo, facto este que é confirmado pelo ajudante e mais oficiais do Grupo.

A densidade do nevoeiro não permitiu o emprego de comunicações óticas.

Na 1ª bateria as ligações foram completamente inutilizadas no começo do bombardeamento. Saíram os guarda-fios mas a artilharia inimiga tornava-lhes o trabalho inútil e impossível.

Na 2ª bateria sucedeu o mesmo que nas anteriores.

Na 4ª bateria iguais factos se passaram tendo desaparecido dois telefonistas, mandados ao Grupo como agentes de ligação.

A Secção de Sinaleiros perdeu 9 homens e todo o material, à exceção de dois telefones franceses, um telefone D3 e um indicador buzzer de 4×3 direções.

Em relação ao 2º GBA, o capitão Mascarenhas Inglês refere-o desta forma:

Na estação deste Grupo (…) às 04h20 só havia ligações com o Comando de Artilharia, ligação que se manteve até às 05h45. (…)

A barragem de artilharia, que momentos antes se havia deslocado, voltou a bater com violência as proximidades do Grupo, ferindo os guarda-fios e obrigando todos a retirar. (…)

As comunicações, porém, do Grupo para as baterias, Brigada e Comando da Artilharia da Divisão foram estabelecidas por estafetas, estabelecendo-se assim um serviço regular desde as 06h00 às 10h00.

Depois, reuniu o conselho de oficiais e resolveu-se a retirada.

A Secção de Sinaleiros do Grupo perdeu 23 homens. Do material salvou-se o indicador buzzer unit, um indicador magnético, um telefone D3, quatro telefones franceses e um fullerfone.

Cão com desenrolador de fio durante a GG. Não há notícia de terem sido utilizados pelo CEP.

A apreciação dos outros Grupos é bastante semelhante, sempre com realce para a perda prematura das comunicações e, em virtude disso, a falta de coordenação da sua ação com as forças de Infantaria apoiadas.

Em relação ao 6º GBA, que no sector de Fauquissart apoiava a 4ª BI, Mascarenhas Inglês traça o seguinte quadro:

Cerca das 04h45 o Comando do Grupo ficou isolado da sua estação telefónica, apesar de haver entre o Comando e a estação 4 linhas telefónicas estabelecidas por traçados diferentes.

O comandante da Secção de Sinaleiros, alferes de cavalaria João Baptista, fez prevenir os guarda-fios para se conservarem perto da estação e prontos para o serviço de reparação de linhas, ficando à espera de uma oportunidade que permitisse a execução daquele trabalho, oportunidade que nunca apareceu.

O bombardeamento continuava e a impossibilidade de qualquer serviço de linhas foi reconhecida pelo comandante do Grupo e outros oficiais.

(…) Nada se sabe como o serviço decorreu na central do Grupo, porque todos os homens que ali estavam desapareceram.(…)

A Secção de Sinaleiros do Grupo perdeu um oficial e 31 homens e todo o seu material.

O 5º Grupo, que apoiava a 5ª BI no sector central de Ferme du Bois é referido por Mascarenhas Inglês desta forma:

Às 04h20, das linhas do Grupo apenas funcionavam a do comando de artilharia da Divisão e a do Grupo da esquerda, 1ª GBA.

Foram mandados sair guarda-fios para as linhas avariadas mas em virtude da barragem de artilharia nada puderam fazer regressando à estação do comando cerca das 11 horas. (…)

As ligações óticas não funcionaram devido à densidade do nevoeiro podendo o serviço de ligações ser feito apenas pelos estafetas.

Nenhum dos telefonistas que estavam em serviço nas cabines das posições no OPX e na estação avançada do Grupo retirou.

A secção de sinaleiros perdeu 38 homens dos 65 que tinha presentes.

Do material distribuído ao Grupo perdeu-se todo exceto dois telefones franceses e uma bolsa de pequenas reparações incompleta.

Mascarenhas Inglês termina o seu relatório, como responsável do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, com esta referência aos Grupos de Baterias de Artilharia:

Neste como nos outros Grupos o pessoal das secções de sinaleiros portou-se de um modo geral bem, sendo de notar que as melhores dedicações pelo serviço foram manifestadas pelos que há mais tempo permaneciam na frente.

As conclusões sobre o dia 9 de abril chegam-nos já, de novo, pela mão do capitão Soares Branco:

Resumindo da descrição feita pelo CST2 dos acontecimentos passados no dia 9 pode concluir-se:

Até às 03h00 houve todas as comunicações telefónicas exceto as do 2º GBA para a 4ª. Brigada.

Às 04h20 foram cortadas todas as linhas do QG2 para o XI Corpo, 5ª BI e 4ª BI.

Às 04h30 foi também cortada a linha do QG2 para a 6ª BI e entre o 1º GBA e o 2º GBA.

Às 04h45 fora cortada a ligação entre o comando e a central do 6º GBA.

Às 05h00 era também interrompida a ligação entre QG2 Artilharia e o 6º GBA.

Às 05H30 um oficial saído de QG2 fazia a ligação com a 4ª e a 3ª BI.

Às 05h45 desaparecia ainda a ligação telefónica entre o QG2 Artilharia e o 2º GBA.

Às 06h00 deixavam de funcionar as linhas telefónicas entre o 6º GBA e a sua 1ª Bateria, entre QG2 Artilharia e o 5º GBA, entre QG2 Artilharia e a central da artilharia pesada Heather.

A partir desta hora, Soares Branco passa a referir as comunicações que foi possível restabelecer, mas quase todas através de estafetas, algumas em motociclos, até perto do meio-dia.

Conclusão

Pelo quadro de fogo da artilharia publicado no relatório do general Gomes da Costa, comandante da 2ª Divisão, poderemos constatar que quase todas as baterias iniciaram o fogo entre as 04h30 e as 04h45, hora a que a maior parte das comunicações estava já destruída. Uma única bateria não terminou a sua missão até às 12h00. Neste período, como é referido no mesmo relatório em relação à força atacante “sob a ação do violento fogo de artilharia e morteiros, pelas 7 horas da manhã, já as nossas 1ª e 2ª linhas estavam completamente destruídas e empastadas formando uma massa revolta de escombros, donde aqui e além emergia a perna, o braço, ou a cabeça dum cadáver”.

“Quadro do fogo de artilharia”, publicado no relatório do general Gomes da Costa, comandante da 2ª Divisão

Enfim, Gomes da Costa, ainda a quente, ao elaborar o seu relatório, completa-o com as suas “notas pessoais”:

(…)

O estado de espírito não era pois o de verdadeiros e bons soldados.

A inconveniência de se não manterem os quadros completos e estarem capitães a comandar batalhões, e alferes a comandar companhias, foi outra causa do desaire.

Não culpo por isso os Comandos que se não mostraram à altura da sua missão, porque para ela não estavam preparados; não culpo a 3ª Brigada por não ter ocupado a tempo a Village Line, por isso que não tivera tempo sequer de a reconhecer; não culpo os soldados, que não tinham a preparação suficiente para uma guerra desta ordem.

Porque, se há culpas neste desastre, provêm de faltas de organização, e essas faltas pagam-se sempre caras em tempo de guerra.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (17)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS  (III) (5ª BI e 3ª BI)

Introdução

Paul von Hindenburg, comandante em chefe dos exércitos alemães, descreve assim, nas suas memórias, a ofensiva do Lys em 9 de abril:

No Inverno, a área do vale do rio Lys ficava inundada numa larga extensão, e na primavera, não passava muitas vezes de um pântano, por semanas a fio – um verdadeiro horror para as tropas que estavam nas trincheiras nesta altura.

Era perfeitamente inaceitável pensar na realização de um ataque antes do vale do Lys se tornar transponível. Em circunstâncias normais de clima, só poderíamos esperar que o solo ficasse suficientemente seco, em meados de abril.

Mas pensei que não seria possível esperar até essa altura para começar o combate decisivo no Ocidente. Tivemos de contar com as perspetivas de intervenção americana.

Não obstante estas objeções ao ataque, tínhamos o plano detalhado, pelo menos teoricamente.

Esta hipótese estava assente nos finais de março. Logo que vimos que o nosso ataque a Ocidente era inevitável, decidimos iniciar as nossas operações na frente do Lys.

Uma pergunta dirigida ao Grupo de Exércitos do Príncipe Herdeiro Rupprecht, trouxe a resposta de que, graças à primavera seca, o ataque em todo o vale do Lys se tornara viável.

Em 9 de abril, aniversário da grande crise em Arras, as nossas tropas passaram das suas lamacentas trincheiras na frente do Lys para a frente de Armentières a La Bassée.

Claro que não foram transferidas por grandes movimentos, mas principalmente por pequenas destacamentos e colunas lentas, através do pântano.

Sob a proteção de nossa artilharia e morteiros de trincheira, eles conseguiram alcançar os seus postos rapidamente, apesar de todos os obstáculos naturais e artificiais, embora aparentemente nem os ingleses nem os portugueses acreditassem que isso fosse possível.

O Tank inglês Mk I (macho) “Lusitania”, que participou na batalha de Arras, um ano antes.

Esta memória deve ser confrontada com alguns excertos da memória de Douglas Haig, comandante em chefe dos exércitos aliados:

A preparação do inimigo para uma ofensiva neste sector central tinha sido concluída há algum tempo. O admirável e extenso sistema ferroviário tornou possível, com grande rapidez, a concentração de tropas necessárias para um ataque. As minhas forças neste sector não poderiam ser grandemente reduzidas.

Em consequência destes vários fatores, a maior parte das divisões na linha de frente, e em particular a 40ª, 34ª, 25ª, 19ª e 9ª Divisões, as quais em 9 de abril estavam na frente, entre o sector Português e o Canal Ypres-Comines, já tinham tomado parte na batalha do sul. Deve considerar-se que, antes da batalha do norte se iniciar, quarenta e seis das minhas cinquenta e oito divisões, tinham estado empenhadas no sul.

No final de março, no entanto, a parte norte da frente secou rapidamente sob a influência de uma primavera muito quente, ficando em condições de sofrer um ataque mais cedo do que seria de esperar. Preparativos para apoiar a Divisão Portuguesa, que tinha estado continuamente em linha por um longo período e precisava descansar, foram feitos durante a primeira semana de abril, e deveriam ter sido concluídos até à manhã do dia 10 de abril. Entretanto, outras divisões, que tinham sido empenhadas na luta no Somme e que tinham sido retiradas para descansar e se reorganizarem, foram transferidas para a frente do Lys.

A persistência do bom tempo fora da estação e a secagem rápida do vale do Lys permitiu ao inimigo antecipar o ataque à 2ª Divisão Portuguesa.

Na noite de 9 de abril, um invulgar bombardeamento pesado e prolongado, também com gás, foi iniciado ao longo de praticamente toda a frente de Armantieres a Lens, cerca das 4,0 horas, do dia 9 de abril.

O ataque do inimigo, em primeira instância foi lançado sobre a porção norte da frente do general Sir Horne, do Primeiro Exército.

Cerca das 07h00 horas, no dia 9 de abril, na espessa neblina que tornou a observação impossível, o inimigo parece ter atacado pela esquerda, a brigada da esquerda da 2 ª Divisão Portuguesa em força e de ter quebrado as suas trincheiras. Poucos minutos depois, a área de ataque alargou-se para sul e para norte.
A comunicação com as divisões em linha foi difícil, mas durante a manhã, a situação ficou esclarecida, tornando-se evidente que um sério ataque estava em andamento na frente da 55ª Divisão, da 2ª Divisão Portuguesa e da 40ª Divisão, desde o canal de La Bassé até ao Bosque Grenier.

Para o norte das posições da 55ª Divisão, o ímpeto do ataque alemão submergiu as tropas portuguesas, e a progressão do inimigo foi tão rápido que as movimentações para cobrir as defesas da retaguarda deste sector com as tropas britânicas apenas puderam ser concluídas no limite do tempo.

A ação destas tropas, e mesmo de todas as divisões que se empenharam nos combates do Vale do Lys, foi notável, porque, como já foi salientado, praticamente a totalidade delas tinha vindo do campo de batalha do Somme, onde tinham sofrido gravemente e sido submetidas a uma grande tensão. Todas estas divisões, sem um descanso adequado e preenchido com jovens reforços, foram novamente atiradas apressadamente para a luta e, apesar das grandes desvantagens, conseguiram segurar o avanço de forças muito superiores”.

Periscópio de trincheira

Nem tudo fica em definitivo esclarecido, mas as explicações que ambos os lados nos transmitiram, ao mais alto nível, respondem a muitas das dúvidas que especialmente acompanharam os participantes deste trágico dia 9 de abril, na região do rio Lys.

5ª Brigada de Infantaria

A 5ª Brigada de Infantaria ocupava o flanco direito do sector português, o subsector de Ferme du Bois, estabelecendo ligação com a 165ª Brigada da 55ª Divisão Britânica. Tinha na frente, à esquerda, o Batalhão de Infantaria 17, e à direita, o Batalhão de Infantaria 10. Em apoio estava o Batalhão de Infantaria 4 e em reserva o Batalhão de Infantaria 13. A 5ª BI era comandada pelo coronel Diocleciano Martins, e ocupou o sector nos dias 6 e 7 de abril, referindo o seu comandante no respetivo relatório as condições em que os seus batalhões se encontravam nas vésperas desse movimento. As suas palavras resumem a situação:

Foi neste estado de depressão física e moral que deixei esboçada, que o comando da Divisão não desconhecia pelo meu relatório de 4 de abril exigido pelo mesmo comando, que a Brigada de Infantaria entrou outra vez no serviço de trincheiras com os batalhões reduzidos a pouco mais de metade do seu efetivo completo em espingardas úteis e maior área a defender.

E mais adiante:

O comando do XI Corpo Inglês, a que desde esta ocasião se achava subordinada a 2ª Divisão, não ignorava os preparativos do inimigo para uma ação ofensiva, tanto que, após os cumprimentos de S.Exª., o comandante daquele corpo pelos comandantes das brigadas e batalhões, no dia 7 de abril, seguiu-se uma conferência em que pelo mesmo senhor foi dito que era possível um ataque à frente portuguesa, mas que não haveria a recear um ataque a fundo, pois que o inimigo não possuía tropas à retaguarda para o apoiar; que em se lhe oferecendo resistência na linha B com as tropas dos sectores, nada mais seria preciso para fazer malograr qualquer ataque.

Como vemos, ou eram incompletas as informações do comando inglês ou não foram devidamente comunicadas aos comandos portugueses.

Batalhão de Infantaria 10

O BI 10, como dissemos, guarnecia o subsector direito da 5ª BI. O major António José Teixeira, que fez o relatório respetivo como comandante do Batalhão, em finais de 1919, depois de regressar dos campos de prisioneiros da Alemanha, descreve a batalha com bastante pormenor.

Todos nos erguemos, como impelidos por uma força elétrica e no meio do maior sobressalto, cerca das 04h15 da madrugada, despertados por um bombardeamento tremendo e ensurdecedor.

O comandante do Batalhão, Guilherme Araújo, e 2º comandante, Ramires, correm ao telefone e procuram inteirar-se do que ocorre…

O nevoeiro sinistro da natureza, a que em breve se junta outro produzido por milhares de bocas de fogo, e talvez o dos aparelhos que para esse fim os alemães possuíam, barravam inteiramente o campo de visão. (…)

Os ecos das granadas e dos morteiros sucedem-se ininterruptamente (…) O ribombar do canhão tem todas as modelações (…)

As trincheiras tremem, e com elas toda a terra; oscilam e esboroam-se como se fossem brinquedos de criança… (…)

Assim se reconhece estar a ser batido todo o sector português, em profundidade e largura, a começar pelo nosso “Ferme du Bois”, La Couture, e por ali acima… (…)

É debaixo da pressão dum tal concerto que o infante português, de olhos esbugalhados, fixa a “terra-de-ninguém” até às 7 horas, sem poder encontrar uma explicação dos factos que se estão passando à sua volta (…)

O comandante do Batalhão mantinha-se ainda em ligação com as companhias, indagando o que havia na frente e fazendo assim a exploração da rede telefónica. (…) As respostas são sempre as mesmas… o inimigo não aparece, mas o bombardeamento agora é mais intenso nas proximidades do comando do Batalhão (…)

São quase 6 horas!

A exploração das linhas começa a dizer que estão cortadas…

Agora o comandante de Batalhão tenta ligar-se por meio de estafetas (…) essas estafetas iam, mas não regressavam!

As comunicações telefónicas com a artilharia estavam cortadas. Lançam-se mais foguetões… (…)

O inimigo bate todas as comunicações.

O nevoeiro é cada vez mais denso, mais escuro… (…)

Lançam-se agora, que o dia vem rompendo, os pombos correio existentes junto do comando, mas as pobres avezitas, sob um céu de metralha e sufocador, estarrecidas, não querem voar, e alguma que parte fica sem vida certamente, pois o resultado da comunicação é nulo…

O oficial de ligação da artilharia (…) lança ainda todos os foguetes que existem no comando. Mas parece que estes sinais serviram apenas para fazer recrudescer o bombardeamento em torno do comando do Batalhão (…)

A conselho do 2º comandante e atendendo a que os telefones já não funcionavam, o comandante deixou o abrigo dos telefonistas e dirigiu-se para o do oficial sinaleiro, em melhores condições de segurança (…)

Continuou-se daí a mandar ordenanças para a frente. Pelas 9 horas e alguns minutos, voltou uma das últimas enviadas dizendo ser impossível chegar às linhas (…)

A tempestade aumenta. Os entrincheiramentos continuam a esboroar-se. A terra treme. Há muita gente ferida que se mantém nas suas posições… A artilharia, agora, cerca das 9h30, bombardeia dum modo pavoroso os abrigos destinados ao comando e pessoal do E.M. do Batalhão!

A nova de que o inimigo devia estar na 2ª linha a todos pôs em sobressalto. (…)

Por isso (o comandante do Batalhão) resolve, agora, cerca das 9h40, abandonar o local do comando e dirigir-se a informar o comandante da Brigada da situação (…)

Todos se preparavam para coadjuvar as forças contra-atacantes… Mas, triste ilusão!… o inimigo havia feito o envolvimento!

Uma patrulha, precedida de 30 homens comandados por um oficial, gritava-lhes: Nach aubers! Nach aubers!… Eram prisioneiros!…

De uma forma geral, estas foram as horas que todas as unidades da frente viveram, umas mais cedo e outras mais tarde, de acordo com a hora de ataque da infantaria alemã. O bombardeamento alemão fez-se por fases, sendo primeiro atingida a retaguarda das forças aliadas e rolando a frente de fogo em direção às primeiras linhas. É isso que justifica a sobrevivência das ligações telefónicas nas primeiras horas entre as companhias e os respetivos batalhões, quando já estes não conseguiam ligar-se às suas Brigadas ou estas à 2ª Divisão.

As ligações da 5ª Brigada de Infantaria

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês reflete a situação geral que nos é transmitida por estes testemunhos. Apesar dos pormenores técnicos que predominam no seu relato, sente-se igualmente o ambiente geral e os efeitos dos bombardeamentos sobre as linhas de comunicação, causadoras da ausência de informações dos comandantes dos vários níveis, em especial das Brigadas e da Divisão.

Em relação à 5ª Brigada, é o seguinte o ponto de situação feito por Mascarenhas Inglês:

O QG da Brigada que ocupava o sector de Ferme du Bois, transferira-se poucos dias antes, salvo lapso na tarde de 6, por determinação su­perior para o antigo Posto de Comando em Cense du Raux. No acampamento da Rue du Bois (…) ficara contudo um escalão recuado junto ao qual funcionava na manhã de 9 o telégrafo da Brigada e uma central telefónica que assegurava ao Comando da Brigada as comunicações para a Divisão e Brigadas laterais as quais ainda não fora possível estabelecer diretamente para Cense du Raux.

Com o QG da Divisão estava a Brigada ligada por duas linhas tele­fónicas de traçado diferente numa das quais se sobrepunha o telégrafo. (…) A Brigada dispunha das devidas ligações telefónicas com os QG das Brigadas laterais, com a artilharia e com os seus Batalhões (…)

A conservação de uma central telefónica à retaguarda do posto de comando da Brigada e a uma distância que pouco menos era de dois quilómetros tornava a meu ver assaz defeituoso o dispositivo das comunicações telefónicas do sector. (…)

Junto a Cense du Raux havia uma estação de TSF que comunicava com a da Divisão e com a do QG em Huit Maisons. Quanto a aparelhos de TPS ainda não existiam nenhuns no antigo sector de Ferme du Bois porque não tendo sido recebidos em tempo oportuno e quantidade suficiente os respetivos acumuladores e estando para deixar de ficar à nossa responsabilidade esse sector, julgou-se mais conveniente montar nos outros sectores os que se podiam pôr a funcionar. (…)

Mascarenhas Inglês refere depois cada um dos Batalhões, sem que a situação geral se apresente diferente do panorama da Brigada. No final da sua descrição, a propósito do BI 10, diz o seguinte:

Foi então que o comando do Batalhão começou a ser alvejado cortando-se primeiramente as linhas para a companhia do centro, e perto das 9 horas, a da companhia da esquerda e Batalhão à esquerda. Pouco depois a estação foi atingida por uma granada; os aparelhos deviam ter ficado destruídos sob os destroços do abrigo. (…)

Durante a manhã tinham sido mandados dois estafetas em bicicleta à Brigada e vários a pé para as companhias tendo sido empregado neste serviço todo o pessoal da Secção de Sinaleiros. Não me consta que quaisquer dessas estafetas tenham voltado ao comando do Batalhão.

Foram largados dois pombos-correios.

Transmitiu-se com uma lâmpada Lucas, mas é provável que os seus sinais não fossem captados devido ao nevoeiro.

Pouco depois de ser atingida a estação, o sargento da Secção de Sinaleiros retirou com o comandante e ajudante do Batalhão. Ouviam-se já tiros de pistola e espingarda muito próximos constando que os alemães estavam no Posto de Socorros.

3ª Brigada de Infantaria

A 3ª BI estava em reserva, tendo os seus Batalhões dispersos na linha do Corpo, prontos a ocupar a chamada Linha das Aldeias, em caso de ataque. Embora não chegando a avançar para esta linha, acabaram por fazer parte da resistência posterior, perdendo 17 oficiais, 18 sargentos e 218 cabos e soldados. A 3ª BI incorporava os Batalhões de Infantaria 9, 12, 14 e 15, e era comandada pelo coronel João Júlio dos Reis e Silva.

in Flandres, Cap Costa Dias

A sua ação é assim recordada pelo capitão Mascarenhas Inglês:

A 3ª Brigada saíra do sector de Neuve Chapelle na noite de 6 para 7 e não era possível ter tido materialmente tempo para executar este serviço (defesa da Linha das Aldeias).

O que existia na manhã do dia 9 era pois o que fora previsto para a hipótese de ocupação de Vilage Line por duas Brigadas, uma de cada Divisão.(…)

Na manhã do dia 9 o QG da 3ª BI estava ainda em La Gorge quando a 2ª Divisão recebeu ordem às 5h30 para mandar ocupar a linha intermédia. (…)

Pela sequência das operações realizadas pelas unidades desta Brigada eu creio que não se teria sentido muito a falta de ligações.

Pela descrição acima feita reconhece-se que as ordens dadas não estavam naturalmente de acordo com as ligações, o que fatalmente sucederia dada a mudança dos efetivos de ocupação e de número dos QG de Brigadas correspondentes.

Pôde ainda averiguar-se pelo sargento da Secção de Sinaleiros de Infantaria 13 o qual estava em Diez Bailleuel com alguns sinaleiros nos postos de Pont du Hem e Charter House aguardando fazer a respetiva entrega aos sinaleiros da 3ª Brigada, que com o bombardeamento de Diez Bailleul as linhas se cortaram sendo impossível repará-las e que nenhuns sinais óticos podendo ser vistos dos postos da frente.

Este sargento se retirou dali, trazendo todo o material, cerca das treze horas, depois de ver retirar uma força inglesa.

Conclusão

Ao situarmo-nos nesta terrível manhã de 9 de abril de 1918, podemos compreender o sacrifício que foi pedido aos soldados da 2ª Divisão Portuguesa. A nossa análise não pode separar os soldados portugueses dos seus camaradas ingleses e de outras nacionalidades, todos integrando as forças aliadas. A Batalha de La Lys fez parte duma ofensiva alemã da primavera de 1918, com a qual o comando alemão pretendia romper as linhas aliadas. Não o conseguiu, pelo que a derrota nos combates do vale do Lys faz parte de um conjunto mais vasto de operações militares que no final conseguiram suster a ofensiva alemã. Ver a Batalha de outra forma é deturpar a análise serena dos acontecimentos. É certo que a 2ª Divisão não estava preparada para combater, pelas circunstâncias que temos descrito e analisado, muitas vezes com recurso a documentos originais elaborados pelos próprios protagonistas, mas nem por isso deixaram de constituir um obstáculo, pese a sua debilidade, à progressão das forças alemãs. Eles são credores da nossa homenagem e merecedores da nossa sentida memória, quando se perfazem cem anos sobre o dia fatal para o Corpo Expedicionário Português.

As madrinhas de guerra

No decorrer da Grande Guerra, entre 1916 e 17, surgiram em Portugal alguns movimentos femininos de apoio aos combatentes, de que se destacaram o movimento A cruzada e o movimento das Madrinhas de Guerra, que procuraram apoiar e animar os soldados através de serviços de enfermagem, mas também do envio de cartas, alimentos e pequenos presentes, incluindo instrumentos musicais. As Madrinhas de guerra, cuja principal impulsionadora foi Sofia de Mello Breyner (1875-1948), era constituído geralmente por jovens mulheres, que procuravam, por vezes em resposta a anúncios publicados pelos militares nos jornais da época, animar os dias das trincheiras, através do envio de correspondência, muitas vezes sob a forma dos famosos lenços de Viana.

O MGen João Afonso Bento Soares, oriundo da Arma de Tm, fez-nos chegar um muito curioso artº publicado na revista “Combatente” de Junho 2011. É um apontamento precioso, enviado à revista por um seu irmão, Francisco José Bento Soares, que foi Ten. Mil. Médico em Angola e que transcreve uma deliciosa carta de um combatente na Flandres à sua então madrinha de guerra, futura mãe de ambos.

De 1961 a 1974 as Madrinhas de guerra voltaram a ter um importante papel de apoio aos militares em campanha durante os 13 anos de guerra no antigo Ultramar.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (16)

Post do Coronel Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (4ª e 6ª BRIGADAS DE INFANTARIA)

Introdução

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês, chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, que Soares Branco utilizou para relatar os acontecimentos de 9 de abril, procura fazer um ponto de situação exaustivo sobre as condições em que funcionaram as comunicações durante o ataque alemão, em todas as unidades posicionadas no terreno. Por isso nos oferece um quadro vivo e pormenorizado de todas as unidades da frente, e de todas as tentativas levadas a efeito para assegurar as comunicações, apesar de a maior parte das linhas ter ficado inoperacional logo aos primeiros bombardeamentos. Os seus esforços e de todos os elementos do Serviço Telegráfico ficam em evidência através das descrições da ação de muitos elementos que assumiram a sua missão em toda a dimensão, incluindo o risco e o sacrifício da sua própria vida.

Sturmtruppen, as tropas de choque de elite que lideraram o ataque alemão em 9 de Abril

A ordem de rendição da 2ª Divisão

Antes de analisarmos o que se passou em cada um dos sectores das Brigadas portuguesas no dia 9 de abril de 1918, vejamos um extrato do relatório da 2ª Divisão referido pelo capitão Álvaro Teles Ferreira Passos, chefe interino da Repartição de Operações do Corpo. O texto refere-se à ordem de rendição e diz o seguinte:

Como acaba de se ver nos parágrafos anteriores, tudo levava à necessidade de adotar uma atitude de aturada e ativa vigilância na frente La Bassée–Armantières. Não sabemos se o comando britânico se apercebia bem da gravidade da situação temendo ou não um ataque a fundo neste sector, ou se esperava que nunca nele se produzisse mais do que uma simples demonstração. Que ele foi completamente surpreendido é um facto, que a ordem de rendição de 8 veio tornar mais flagrante.

O que motivou esta ordem?

O tenente-general Hacking, comandante do XI Corpo, que em 7 de abril conferenciou no QG da 2ª Divisão com os comandantes das Brigadas portuguesas, tomando conhecimento do estado debilitado dos efetivos e quadros, não desconhecia também o estado moral das nossas tropas, que na véspera bem se tinha manifestado na 2ª Brigada.

Num pequeno discurso que então fez prometeu aos comandantes das Brigadas empregar a sua influência pessoal para a vinda de reforços e de quadros, fez o elogio das tropas portuguesas (…) Terminou por pedir-lhes mais um pouco de sacrifício, continuando na linha por mais algum tempo, e insistindo no seu tema de que as Brigadas dos sectores tinham que se agarrar à linha B.

Quando pois o comandante do XI Corpo deixou o QG da 2ª Divisão, no dia 7, todos ficaram com a ideia bem assente de que a Divisão continuaria guarnecendo ainda aquele sector por largo período. Como surgiu depois, no dia seguinte, a ordem de rendição nº 328 do XI Corpo?

Teria o general reconhecido efetivamente que a Divisão estava tão fatigada moral e fisicamente que era necessário e justo substituí-la imediatamente? Teria o Comando Britânico, em face das informações sobre o inimigo, adquirido finalmente a convicção de que estava iminente um ataque a fundo no nosso sector, e daí a necessidade da substituição, pelo facto das nossas tropas não estarem em condições de receber aquele choque? (…)

Em virtude destas ordens, a 2ª Divisão começava a deslocar-se no dia 9 para a área de reserva do Corpo. A 3ª Brigada, de reserva, recebeu um aviso prévio no dia 8 e estava por isso, na manhã de 9, com as suas disposições tomadas para… ser rendida!

E embora a ordem não chegasse às outras Brigadas, nos sectores, todos sabem como estas notícias correm velozes e que na noite de 8/9 as tropas sabiam que a sua rendição ia fazer-se.

Assim, o inimigo surpreendeu o Comando Britânico e apanhou as tropas do XI Corpo em preparativos de rendição, que é sempre o período mais crítico.

Nas circunstâncias por várias fontes descritas, nunca seria de esperar que as unidades portuguesas pudessem responder com eficácia a um ataque tão intenso, com uma defesa tão deficientemente preparada. Ao percorrermos o comportamento das tropas do Serviço Telegráfico nos vários sectores da frente portuguesa, deveremos sempre ter em conta as condições em que tiveram de agir, para responderem às suas missões.

4ª Brigada de Infantaria

Como sabemos, desde 6 de abril, a 2ª Divisão ocupou toda a frente que antes era defendida pelo Corpo Português, sendo integrada no XI Corpo Britânico. Esta linha, com cerca de 10 600 metros, estava antes ocupada por duas Divisões, com quatro sectores de Brigada. A partir do dia 6, a 2ª Divisão ocupou a mesma frente com apenas três Brigadas, o que obrigou a vários ajustamentos. Em linha ficaram, da esquerda para a direita a 4ª, a 6ª e a 5ª Brigadas, continuando a 3ª Brigada em reserva.

A 4ª Brigada manteve-se no sector de Fauquissart, a 6ª ocupou o sector de Neuve Chapelle e a 5ª passou a defender o sector de Ferme du Bois. Foi extinto o sector de Chapigny, que se situava entre Fauquissart e Neuve Chapelle, obrigando todos os outros a alterações da sua frente.

A 4ª Brigada, também conhecida por Brigada do Minho, ocupava o sector de Fauquissart desde 8 de fevereiro, sector que viu alargado no dia 6 de abril. Era comandada pelo tenente-coronel Eugénio Carlos Mardel Ferreira e integrava o Batalhão de Infantaria 8, comandado pelo tenente-coronel Aníbal Coelho de Montalvão e posicionado no subsector mais à esquerda estabelecendo ligação com a 119ª Brigada Britânica, e o Batalhão de Infantaria 20, mais à direita, que estabelecia ligação com as forças da 6ª Brigada. O Batalhão de Infantaria 29, comandado pelo major Xavier da Costa, dava apoio às primeiras linhas e em reserva estava o Batalhão de Infantaria 3. Aos efetivos da Brigada faltavam mais de 50 oficiais e cerca de 1300 praças.

Foi na Ordem de Serviço do Corpo de 27 de maio de 1918 que saiu a seguinte determinação. “Que em todos os documentos oficiais a 4ª Brigada de Infantaria do CEP seja designada por Brigada do Minho, correspondendo esta designação ao seu recrutamento principal e a uma aspiração dos oficiais e praças que constituem esta Brigada e consagrando o heroísmo e valor com que se bateram na Batalha de 9 de Abril”.

Apoiavam a Brigada do Minho o 6º Grupo de Metralhadoras Pesadas, a 4ª Bateria de Morteiros Médios e a 4ª Bateria de Morteiros Pesados.

No lado esquerdo da primeira linha portuguesa, a 2ª Divisão (4ª Brigada) confrontava, como dissemos, com a 40ª Divisão Britânica (119ª Brigada), transformando a zona fronteiriça de unidades de nacionalidades diferentes numa zona de maior fragilidade. Foi assim que o comando alemão pensou e por isso o ataque foi ainda mais intenso nesta área de junção.

As comunicações na 4ª Brigada

O capitão Mascarenhas Inglês, no seu relatório, descreve em primeiro lugar a forma como o apoio de comunicações estava organizado, não deixando de apontar os trabalhos que ainda não estavam concluídos quando o ataque alemão se iniciou.

No essencial, a situação era a seguinte:

A Brigada dispunha de todas as ligações telefónicas e telegráficas que eram devidas. Tinha duas linhas para a Divisão por traçados diferentes tendo uma delas um troço em cabo enterrado que se continuava por cabo armado estendido em drenos (…)

Tinha ligações com a Brigada inglesa da esquerda, e com a da direita comunicava por intermédio da estação de Cockshy House.

O alargamento do seu sector não alterara os locais de comando de Batalhão e por isso as ligações com estes achavam-se estabelecidas como de há muito (…)

Havia postos óticos entre a Brigada e os Batalhões da direita e apoio.

As ligações com a artilharia estavam asseguradas por linhas telefónicas e postos óticos.

A estação de TSF que servia a Brigada era de Cockshy que aí fora estabelecida quando estava instalado neste prédio o QG da 5ª BI. O Batalhão da direita dispunha de um power buzzer com que transmitia para Cockshy por intermédio do batalhão em Winchester.

A estação telefónica estava montada no abrigo junto ao prédio em que funcionava em períodos de pouca atividade.

O autor passa então ao relato dos acontecimentos do dia 9 de abril, baseando-se, como diz, em informações de várias praças da Brigada e de sinaleiros dos Batalhões. As referências assinalam um conjunto de factos eventuais:

Pouco antes das 4 horas todas as linhas tinham sido exploradas e estavam em boas condições de funcionamento. Minutos depois de começado o bombardeamento, todas as comunicações estavam cortadas exceto a da cave do edifício da Brigada ao abrigo do Comando da Brigada, a da cabine central do 6º GBA e a de Cockshy House.

Tentou-se falar com os Batalhões por meio desta última; os telefonistas de Cockshy informaram que estavam cortadas todas as linhas da frente. (…)

O tenente Branco, comandante da Secção, cerca das 6 horas pediu aos telefonistas de Cockshy que fossem ver se se podia comunicar com a Divisão por TSF. Segundo declaram aqueles telefonistas, o tenente Branco ditou-lhes o seguinte despacho: “intenso bombardeamento, comunicações cortadas” que um deles levou ao abrigo da estação de TSF. Os homens que guarneciam esta declararam não poder transmitir porque as árvores tinham sido atingidas e a antena estava cortada; entretanto tentavam repará-la.

À telegrafia ótica não se chegou a recorrer em consequência do nevoeiro.

As únicas comunicações que houve com os Batalhões fizeram-se por meio de estafetas que vinham dos Batalhões, constando-me que da Brigada nenhumas saíram para os Batalhões.

Cerca das 10h30 deixou de funcionar a linha de Cockshy. A estação foi desmontada por volta das 12h30. Os dois sargentos da Secção entregaram os aparelhos aos homens que iam saindo dos quais, porém, nenhum voltou.

O relatório refere ainda algumas ações individuais de reparação das linhas e de entrega de algumas mensagens, assim como as dificuldades com que tais ações se confrontaram. Em relação aos Batalhões, Mascarenhas Inglês apenas refere o BI 29, que estava em apoio, com o comando em Red House e os dois que estavam na frente, o BI 8, à esquerda, em Hyde Park e o BI 20, à direita, em Temple Bar. As referências confirmam o corte muito prematuro de todas as ligações e assinalam os esforços efetuados para se restabelecerem algumas linhas.

6ª Brigada de Infantaria

A 6ª Brigada, que estava na linha da frente desde 6 de março, passou a defender o sector de Neuve Chapelle, depois da extinção do sector de Chapigny, onde antes se encontrava. Estava ao centro da defesa avançada da 2ª Divisão, entre as 4ª e 5ª Brigadas. Tinha na primeira linha o Batalhão de Infantaria 1, à direita, e o Batalhão de Infantaria 2, à esquerda. Em apoio estava o Batalhão de Infantaria 11 e em reserva o Batalhão de Infantaria 5.

A Brigada era comandada pelo coronel Alves Pedrosa, tendo o seu quartel-general em Huit Maisons. A situação repetiu-se, com o corte quase imediato de todas as comunicações após os primeiros bombardeamentos a partir das 04h15. Os estafetas enviados pelo comando da Divisão não voltaram e apenas um capitão conseguiu regressar, concluindo que a Brigada estava sem comando sobre as suas tropas.

O Batalhão de Infantaria 1 era comandado pelo major António Barros Rodrigues, tendo como 2º comandante o capitão José da Cruz Viegas. É do relatório deste que extraímos algumas passagens, como exemplo do que foi a reação dos comandos deste nível à situação que se viveu nessas horas difíceis:

Em 8 de abril (…) pelas 18 horas veio da parte da 6ª BI (…) uma nota comunicando que devíamos ser rendidos por tropas inglesas na noite de 8 para 9, para o que devíamos entregar na 6ª BI um croquis topográfico das linhas com as posições das metralhadoras pesadas, das ligeiras e de vários postos de comando e também uma relação das munições, material de trincheira e mantimentos a entregar. Estava ainda trabalhando neste serviço às 04h15 da manhã de 9 de abril, quando fomos surpreendidos por um intenso bombardeamento no comando e sobre todo o sector, que nos cortou logo ao começo as comunicações telefónicas. (…)

Às 04h25 foi pedido SOS à nossa artilharia.

Pelas 08h30 por ordem do Sr. major comandante do batalhão dirigimo-nos para junto dos abrigos do pessoal do comando, um pouco à retaguarda do nosso abrigo. Aqui tornou-se ainda mais intenso o fogo da artilharia inimiga.

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês completa a informação sobre a 6ª BI:

O sistema de ligações de que dispunha o sector de Neuve Chapelle, embora fosse completo ressentia-se da rapidez com que se estavam operando as modificações na área e guarnição dos sectores, algumas das quais depois de ordenadas ou eram alteradas ou não chegavam a ser levadas à execução.

De princípio, para cumprimento das ordens de operações Nºs. 34 e 36 pelas quais o sector de Neuve Chapelle, depois de aumentado, passava para o comando da 2ª Divisão, tinham-se preparado as comunicações do Batalhão da direita para as duas companhias do antigo subsector esquerdo de Ferme du Bois (…). Estas ordens nunca foram, porém, confirmadas e na tarde do dia 5 recebeu-se subitamente ordem para a 6ª Brigada na noite de 6/7 ocupar o novo sector de Neuve Chapelle (ordem de operações Nº 44). Por consequência o QG da Brigada tinha de se transferir para Huit Maisons perdendo as suas ligações diretas para a Brigada de Fauquissart, para o Batalhão junto a Winchester e para o comando do 2º GBA. Em primeiro lugar a falta de cabo e depois a escassez de tempo pois que o pessoal era pouco para o muito trabalho que ultimamente exigiam os constantes cortes das linhas, não permitiam que se procedesse à montagem das comunicações diretas.

Para de alguma forma se assegurarem as ligações ficou funcionando, com carácter provisório, de posto intermédio a estação telefónica de Cockshy House de onde existiam todas as comunicações de um QG de Brigada. (…)

Quanto às restantes ligações, o sector de Neuve Chapelle dispunha das que eram devidas e que lhe estavam estabelecidas desde o tempo em que pertencia à área da 1ª Divisão.

O QG de Huit Maisons tinha duas linhas para a Divisão em cabo enterrado até Vieille Chapelle e de aí aéreas até Lestrem. Estava ligada a Cockshy, por onde obtinha comunicação para a 4ª Brigada, e com a estação telefónica junto ao 2º escalão do QG da Brigada à direita. Tinha ligações óticas para o Batalhão da direita e, por intermédio de Cockshy ou do posto de Rouge Croix, para o Batalhão da es­querda. Dispunha também de uma estação de TSF numa barraca próxima ao QG da Brigada que podia comunicar com a Divisão e em que havia um amplificador que recebia os despachos dos power buzzers do Batalhão da direita e do seu antigo Batalhão, agora subsector esquerdo de Ferme du Bois.
(…)
Cerca de uma hora depois do começo do bombardeamento, recebeu-se de Infantaria 2 um pedido de SOS. Mais tarde tornaram a pedir SOS dizendo quem falava ao telefone que se tinham lançado muitos “very-lights” mas que a artilharia não intervinha. Nesta altura já não foi possível transmitir o pedido para o 2º GBA porque a comunicação acabava de ser cortada bem como todas as outras com exceção da 4ª Brigada que se conservou ainda algum tempo. Todo o material que havia em Cockshy foi destruído.

Os únicos meios de comunicação que restavam à Brigada, eram portan­to as estafetas mas do seu emprego nada me consta a não ser que não tornaram a voltar ao QG as que tinham saído para os Batalhões da frente.

Mascarenhas Inglês refere ainda no seu relatório os Batalhões de Infantaria 1 e 2, terminando a descrição dos acontecimentos da seguinte forma:

A estação deste Batalhão (BI 1) foi atingida por três granadas que a demoliram, cerca das 9 horas. Foram soltos dois pombos com mensagens dizendo que as comunicações estavam cortadas. O pessoal da estação depois de destruir um fullerfone e um indicador de 4×3, tendo o restante material ficado debaixo dos escombros, retirou pelas 11h30 segundo declara o sar­gento da Secção de Sinaleiros por ordem do comandante do Batalhão. Houve um soldado que vindo de um posto de SOS conseguiu trazer um telefone francês.

Conclusão

Estas descrições mais pormenorizadas, com referência a unidades de mais baixo escalão confirmam a ideia transmitida pelos relatórios mais abrangentes. Ninguém estava preparado para o ataque alemão, todos se aprontavam para sair das linhas da frente e iniciar um ciclo mais consistente de descanso. A missão, antes atribuída, de defesa da linha B a todo o custo, ficou desde logo comprometida pela decisão de rendição da Divisão Portuguesa. Ninguém, nem os comandos nem as tropas, conseguiu renunciar à última orientação recebida, a mais justa de todas as ordens. O ataque alemão apanhou as tropas portuguesas num momento de grande fragilidade, não só pelas condições que se arrastavam do anterior, mas também pelas especiais condições desse dia, o dia da rendição por uma Divisão Britânica! Para compreender os relatos que vimos seguindo e os comportamentos que nos transmitem, é necessário não esquecer as circunstâncias em que as tropas portuguesas tiveram de enfrentar a ofensiva alemã da madrugada de 9 de abril de 1918.

 

 

 

 

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (15)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (I)

Introdução

No dia 9 de abril mantinha-se na frente a 2ª Divisão Portuguesa, com todas as dificuldades que Soares Branco nos tem vindo a relatar. O responsável maior pelas comunicações era por isso o chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, capitão Heitor Mascarenhas Inglês. Com toda a lógica, Soares Branco decidiu dar a palavra ao seu camarada de serviço, transcrevendo por inteiro o seu relatório dos acontecimentos.

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês é sobretudo um relatório técnico e descritivo, que procura explicar as diversas situações e respetivas soluções, mas que nos transmite um panorama completo de toda a frente, percorrendo todas as unidades de Infantaria e Artilharia (Divisão, Brigadas, Batalhões e Grupos de Baterias), com detalhada explicação das ligações, trabalhos executados e interrompidos, assim como o destino do pessoal, material e equipamentos. Ressalta dos diversos relatos a importância que no dia 9 de abril tiveram as ligações por estafetas em que todo o pessoal disponível foi utilizado, a pé, a cavalo, de bicicleta ou motocicleta. Fica também a ideia do corte quase imediato, a seguir aos primeiros bombardeamentos alemães, das comunicações por cabo e da ineficácia de qualquer outro meio de comunicação, como a TSF ou os pombos-correio.

Apesar da compreensível preocupação técnica do autor, o relatório é um testemunho muito interessante para a compreensão do drama vivido naquelas horas decisivas na frente portuguesa no dia 9 de abril de 1918, em que as tropas portuguesas foram completamente surpreendidas por um grande ataque das tropas alemãs, enquadrado na sua grande ofensiva de primavera, com o objetivo de romper a frente aliada.

QG’s: CEP – St Venant; 2ª Div – Lestrem; 2ªCDT – Lestrem; 5ª BI (setor de Ferme du Bois) – Cense du Raux, com escalão recuado na Rue du Bois; 6ª BI (setor de Neuve Chapelle) – Huit Maisons; 4ª BI (setor de Fauquissart) – Lavantie; 3ª BI (reserva, linha C) – La Gorgue; Pombal fixo – LaCouture

As comunicações no QG da Divisão

O que se passou com o capitão Mascarenhas Inglês é um exemplo do que aconteceu, de uma forma geral, com o pessoal do Estado-maior da 2ª Divisão. A relativa tranquilidade de mais um dia de rotina, em que a Divisão se preparava para ser substituída na frente, foi brutalmente interrompida por um intenso bombardeamento alemão, que desde logo pareceu ter dimensões pouco usuais. Vejamos algumas passagens do relatório:

As estações centrais do QG em Lestrem possuíam todas as ligações que é de regra haver numa Divisão. (…)

As linhas, ao sair da Divisão, eram todas aéreas (…)

As duas linhas para cada Brigada e Cockshy tinham traçados diferentes e, a partir de certo ponto, seguiam por cabo armado enterrado ou em drenos.

Em Lestrem tinham sido preparadas pela 1ª Divisão duas estações de reserva, uma para as linhas do comando da Divisão e outra para as da Artilharia, para o que se tinham feito derivações dos traçados aéreos em cabo armado colocado em drenos. Estes drenos passavam num dado ponto a menos de 200 metros do edifício do QG

Todas as linhas estavam em bom estado de funcionamento na noite de 8/9. Pouco depois das 4 horas começou a ouvir-se um forte bombardeamento notando-se que algumas granadas rebentavam nas proximidades do QG. Parecendo-me que se devia tratar de uma ação importante, levantei-me para me ir informar do que ocorria e dirigir o funcionamento do serviço.

Às 4 horas e 20 minutos as comunicações para as Brigadas da esquerda e direita já estavam interrompidas, conservando-se apenas por mais alguns minutos as da Brigada do centro.

Mandei imediatamente pôr de prevenção todo o pessoal telefonista e de guarda-fios.

Entretanto recebia ordem, que fiz executar, para guarnecer a estação de reserva. Feitas rapidamente as ligações ao indicador, constatou-se que nenhuma das linhas da frente funcionava. Uma das avarias foi logo descoberta; tratava-se de um corte, produzido em todos os cabos armados que entravam na estação, por granada que incidira sobre o dreno entre e edifício do QG e a estação de reserva (…)

Entretanto ordenava-se que outros grupos de guarda-fios saíssem para tentar reparar as linhas. (…)

Os primeiros, tendo chegado a Fosse, comunicaram por uma das linhas que a partir desse ponto até ao Poste quadrado de Vieille Chapelle as linhas estavam completamente por terra. (…)

Não chegou a haver tempo para concluir este trabalho que, devido à intensidade do bombardeamento junto a Fosse, só muito morosamente podia ser executado; entretanto recebia-se ordem para retirar. (…)

Pela Secção de Cabo do tenente Williams foram montadas linhas até Fosse. Julgo que por uma delas que teria sida ligada a um par de linhas enterradas, chegou a estar estabelecida comunicação com uma das Brigadas mas apenas por poucos momentos. (…)

A fim de ser utilizada em qualquer construção que as circunstâncias tornassem oportuna, mandei apresentar no QG uma esquadra de cabo. Depois de dada esta ordem constatei que o bombardeamento das estradas de Lestrem para a frente tornava efémera a duração de qualquer linha que ao longo delas se estabelecesse. (…)

Cerca das 13 horas e 30 minutos, em harmonia com instruções recebidas ordenei que se desmontassem as estações do QG2, a de reserva e a da artilharia, e que se recolhessem todos os telefones que fossem encontrados nas Repartições, pondo-se todo o material em condições de ser transportado.

Pelas 15 horas retirei para Calonne onde pedi instruções acerca da montagem de quaisquer comunicações. Apenas me foi apresentada a necessidade de uma ligação da Secretaria do Town Major para uma casa onde estava o Comando da Artilharia, mandando para isso construir em cabo D3 uma linha com uns 200 metros de extensão.

As comunicações por estafetas

A descrição que o capitão Mascarenhas Inglês faz deste serviço permite-nos perceber o grande drama e os pequenos dramas daquele dia 9 de abril. Falhadas as comunicações telegráficas e telefónicas, só parecia viável a troca de correspondência por estafetas, usando qualquer meio de transporte disponível. Mas a situação no campo de batalha raramente permitiu que as missões fossem levadas a bom termo, apesar da urgência e da importância dos pedidos de apoio das unidades ou da transmissão de ordens dos comandos. Pouco foi possível executar a tempo, mesmo à custa dos esforços, do desembaraço ou mesmo da valentia dos estafetas. Algumas mensagens concretas chegaram aos destinatários, mas poucas em condições de poderem ser respondidas com eficácia.

São estas algumas das passagens do relatório:

Na manhã de 9 a Divisão dispunha de nove motociclistas, 11 ciclistas e dois estafetas a cavalo em condições de prestar serviço. Dois dos motociclistas estavam apresentados nos QG das 4ª e 6ª Brigadas de Infantaria. Um outro estava exclusivamente encarregado do serviço do Corpo de Artilharia. (…)

Da 4ª Brigada as primeiras notas expedidas foram entregues ao motociclista Américo que lá estava em serviço. Eram dirigidas essas notas ao Chefe do Estado-Maior, ao 6º Grupo de Baterias de Artilharia e ao 2º Grupo de Baterias de Artilharia. O motociclista saiu cerca das 8h30, foi aos Grupos e passando por La Gorgue veio a Lestrem. Regressou a Laventie com uma nota urgente para a Brigada, cujo Comando já se encontrava então na cave da Missão Britânica. A Brigada, tendo necessidade de enviar outra nota para a Divisão, provavelmente durante a ausência do motociclista, entregou-a a uma estafeta a cavalo. O cavalo foi morto na ocasião em que a estafeta o aparelhava, ficando o homem levemente ferido por um estilhaço pelo que foi receber curativo ao Posto de Socorros seguindo a pé para a Divisão, onde teria chegado pelas 11h30 entregando a nota a um capitão do estado-maior.

Entretanto, da Divisão tinha sido mandado a Laventie o motociclista Gonçalves. Antes deste aí chegar, cerca das 11 horas, o Américo foi mandado levar correspondência ao 6º Grupo e neste recebeu uma nota para o Comando de Artilharia para onde seguiu. Em Lestrem apresentou-se-me com a moto avariada. Mandei entregar-lhe uma outra e voltou para a frente com três notas para a 3ª BI e uma para a 4ª. Em La Gorgue já não encontrou ninguém no QG da Brigada. Continuou para a frente e ao chegar à estrada de La Bassee encontrou sentinelas inglesas que o não deixaram passar, recolhendo então a Lestrem onde se apresentou. Quanto ao Gonçalves sei que tendo chegado a Laventie perdeu a sua moto que tinha deixado na rua à porta da estação e foi atingida por uma granada ficando completamente despedaçada. Esta praça não mais voltou a aparecer. (…)

Da Divisão foram mandados a Huit Maisons dois motociclistas. O primeiro saiu muito cedo não tendo chegado ao seu destino porque lhe caiu muito próximo uma granada ficando a estrada cortada e por ter sido atacado de gases tendo de abandonar a motocicleta. O segundo saiu pelas 7 horas e encontrando em Fosse um ciclista que vinha da Brigada à Divisão com um urgente pedindo carros para transporte de feridos, trouxe-o na moto até Lestrem, levando-o depois a Fosse donde o ciclista seguiu para a Brigada.

Das duas comunicações recebidas da 5ª BI, de nenhuma posso informar qual o meio de transmissão. Da Divisão foram lá mandados dois motociclistas e um ciclista. Saiu primeiramente um motociclista que não se sabe o que conseguiu; não voltou à Companhia. Depois disso foi mandado um ciclista e cerca das 7 horas, o motociclista Cruz. (…)

Ao chegar lá, o Cruz achou destruído e abandonado esse posto, e na estrada encontrou o ciclista da Divisão acima referido atacado de gás. Conseguiu ser informado perguntando a outras praças do local onde estava o Comando e atravessando a intensa barragem de granadas de gás, alcançou esse local entregando a correspondência. No regresso esta praça atrelou a bicicleta à sua moto, trazendo assim para Lestrem o ciclista.

Além destas transmissões muitas outras se fizeram de correspondência ordinária e urgente (…)

A ineficácia da TSF

A TSF poderia ter sido uma alternativa à falha dos outros meios de comunicação, mas o serviço não tinha ainda desenvolvimento e operacionalidade que sustentasse um mínimo de eficácia. O capitão Mascarenhas Inglês faz um breve ponto de situação da ação deste meio no dia 9 de abril:

A estação de TSF da Divisão estava montada no abrigo da estação de reserva (…). Podia comunicar com a antiga estação diretora do CEP enquanto esta funcionou e com as três estações adstritas às Brigadas na linha. Quanto às comunicações com o XI Corpo deveriam ser possíveis se dele tivessem sido recebidas as necessárias indicações para o serviço. Na Divisão não havia conhecimento das cha­madas da estação do Corpo nem da chave da cifra.

Quando, cerca das 5.30 h, me dirigi para à estação de reserva, man­dei os telegrafistas fazer chamadas e pedir informações para as Brigadas.

Dizendo-me os homens que ainda não tinham conhecimento da palavra de cifra para esse dia, mandei-os entretanto telegrafar em linguagem clara visto que o texto do despacho era apenas o pedido de informações e mandei chamar o Oficial TSF que comparecia pouco depois, bem como o tenente Ivo de Carvalho. Nenhuma resposta se obteve, contudo, a estas transmis­sões.

W/T 130w Wilson transmitter (estação diretora do Corpo, comprimentos de onda 350/450/550 m, alcance 7/8 km)

Tuner short wave Mk III (recetor, em conjunto com a estação Wilson)

Também as comunicações com os aeroplanos não tiveram qualquer papel, embora o posto de receção dos despachos tivesse sido montado no local previsto, aí permanecendo desde as 5h15 até as 13h00, “não tendo sido recebido nenhum despacho”.

A retirada

Era inevitável que ainda no dia 9 fosse decidido que as unidades e serviços não empenhados retirassem para a retaguarda, procurando salvar homens, materiais e equipamentos. A ordem chegou por volta das 13h00, como refere Mascarenhas Inglês:

Pouco depois das 13 horas, conforme instruções recebidas, ordenei que a Companhia [2ª Companhia Divisionária de Telegrafistas] iniciasse a marcha. (…)

Solicitei autorização para que a Companhia se dirigisse a St. Flo­ris onde ocuparia o antigo acantonamento da Companhia de Telegrafistas de Campanha, se o QG estacionas­se em Calonne.

Pouco depois recebeu-se ordem de marchar para St. Venant e mais tarde para Lambres. (…)

Também o material mereceu a atenção do capitão Mascarenhas Inglês que nos transmite a seguinte informação:

Logo que se previu a possibilidade de re­tirada mandei preparar o camião.

Cerca das 13 horas começou este carro transportando para St Floris o material telegráfico. Ficou em Lestrem até perto das 20 horas para dirigir esse serviço o alferes Craveiro Lopes. O camião levou três car­gas de material de Lestrem para a retaguarda, tendo ainda trazido algum material um carro de parque da 2ª Companhia Divisionária de Telegrafistas. Conseguiu-se assim salvar todo o material importante, quase todo o material miúdo e de consumo exceto cabo armado, alguma mobília e os artigos da Repartição como arquivos, (…) máquinas de escrever e artigos de Re­partições do QG2.

Quando o camião na sua última carreira passava junto a mim em St Venant, ordenei ao alferes Craveiro Lopes que procurasse arranjar uma arrecadação em Berguette em que descarregaria o material que o camião levava, voltando este imediatamente e tantas vezes quantas necessárias a St Floris até que o material ficasse todo em Berguette. Arranjou-se a arrecadação em Guarbecque e o camião voltou a St Floris donde trouxe durante a noite uma nova carga.

Conclusão

As tropas portuguesas não chegaram a compreender a razão da sua prolongada presença na frente de combate. Todos, comandos e tropas, se foram apercebendo que tinham uma retaguarda débil, que as condições de emprego como força militar em operações era extremamente fraca, que o moral se degradou continuamente. As unidades tinham falta de oficiais, a instrução tinha sido deficiente, o apoio não estava ao nível do de outras unidades do mesmo escalão. Os soldados não gozavam férias, estavam muito longe da sua terra, confrontavam-se constantemente com ausências mal explicadas dos seus oficiais.

A atividade militar na zona intensificou-se de forma gradual mas constantemente. O mês de março foi extremamente penoso para as unidades portuguesas. Os comandos portugueses aperceberam-se desta situação, mas o comando britânico manteve a ideia de que o ataque principal que as forças alemãs preparavam não seria na região de Armentières. Só em 6 de abril as tropas portuguesas receberam ordens para manterem na linha da frente apenas a 2ª Divisão, comandada por Gomes da Costa, passando para o comando do XI Corpo de Exército. O tempo foi curto para consolidar as inevitáveis mudanças táticas resultantes desta decisão.

Mas o pior estava para vir. As visitas a 6 e 7 de abril do comandante do XI Corpo, general Hacking, ao comando da 2ª Divisão coincidiram com as notícias dos preparativos alemães e a constatação do nível moral e do estado físico das tropas portuguesas, o que levou o comando britânico à decisão lógica, que uma prudente análise de situação já deveria ter aconselhado há bastante tempo. A 8 de abril foi dada ordem para a substituição da 2ª Divisão por uma divisão inglesa, movimento que deveria iniciar-se a 9 de abril. Era tarde e a decisão tardia desmoronou o moral das primeiras linhas portuguesas. Se a vontade de lutar e a disposição anímica era já extremamente baixa, a perspetiva de sair da frente anulou toda a capacidade de resistência e de comando. A situação só poderia conduzir a um desastre, se o ataque se realizasse exatamente nesse dia. Foi o que aconteceu.

O ataque alemão de 9 de abril inseriu-se na sua estratégia de rotura da frente em sectores estreitos, com grande superioridade de meios. Os comandos alemães sabiam que seria a última oportunidade de o conseguirem. O ataque foi bem planeado, bem preparado e executado de forma eficaz. A preparação da artilharia foi longa e intensa. Os gases de combate foram usados da forma habitual. O assalto fez-se de acordo com os princípios táticos consolidados pela longa guerra de trincheiras.

O general von Quast, comandante do exército alemão no sector de la Lys, e o seu chefe de Estado-maior, o TCor von Lentz

Houve resistências, mas os confrontos foram pontuais e não duraram mais que escassas horas, o tempo necessário ao avanço das tropas alemãs. Em seis horas ruiu toda a resistência das primeiras linhas; ao fim do dia estava conquistado todo o sector português e os sectores adjacentes e, em consequência, consolidada a penetração alemã.

As necessárias mudanças do dispositivo e a respetiva substituição de unidades agravaram até ao limite as fragilidades do sector português. As comunicações sentiram acrescidas dificuldades de resposta às alterações táticas decididas em cima da hora. Todas as ações de apoio no sector português acabaram por sofrer os efeitos do principal ataque alemão, em especial do prévio bombardeamento de artilharia, que tornou inoperacionais, nas primeiras horas, quase todos os sistemas de ligação. Ao princípio da tarde, as instruções foram no sentido de se iniciar a retirada, tanto quanto possível.