Instalação sonora para a parada e desfile militar das comemorações do 3º aniversário do 25 de Abril

‘Post’ do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Em 1977 realizaram-se as primeiras cerimónias oficiais comemorativas do 25 de Abril de 1974, já que nos dois anos anteriores se efectuaram eleições para a Assembleia Constituinte (em 1975) e para a Assembleia da República. No âmbito dessas cerimónias foi superiormente determinada a realização de uma grandiosa Parada Militar em Lisboa, no Parque Eduardo VII e arruamentos circundantes, culminando com o desfile de tropas e viaturas na Avenida da Liberdade.

Foi neste contexto que, no início de Abril, o Quartel-General da Região Militar de Lisboa atribuiu ao Regimento de Transmissões a seguinte missão:

“(1) Prepara e monta a instalação sonora da cerimónia, tendo em atenção as necessidades de transmissões:
 (a) No Parque Eduardo VII:
  - Toques de Comando ordenados pelo comandante das Forças em Parada;
  - Alocução de S. Exª o Presidente da República.
 (b) Na área da Tribuna:
  - Marchas tocadas pela Banda de Música;
  - Circuito independente para relato do desenrolar do desfile e resenha histórica das Unidades.
 (2) Cobre toda a cerimónia de forma perfeitamente audível, quer na área de concentração das Forças em Parada quer ao longo da Avenida da Liberdade, tendo especial atenção à eficiência desta última”.

Explicitando o pretendido (versão inicial):

- A área a sonorizar estendia-se desde meio do Parque Eduardo VII (passeios centrais) até aos Restauradores, incluindo toda a Avenida da Liberdade e a Praça Marquês de Pombal.
- A captação de som seria efectuada nos seguintes locais.
- No Parque (junto à Praça Marquês de Pombal), com dois microfones: 1 para a Requinta e outro para S. Exª o Presidente da República;
- Na Avenida da Liberdade (próximo da Tribuna, sensivelmente a meio da avenida), com vários microfones para as Bandas e um para o relator da cerimónia militar.
- O discurso de S. Exª o Presidente da República e o som da Requinta e das Bandas teriam que ser difundidos por toda a instalação sonora.

Imediatamente se constatou que o material de que o Serviço de Som do Regimento dispunha, quer em quantidade quer em qualidade, não era suficiente para uma instalação desta envergadura, facto que foi comunicado ao Quartel-General.

Depois da recomendação superior de pedir emprestado ou de alugar o material necessário, o que rapidamente se verificou ser inviável, o Regimento foi incumbido, no fim da primeira semana de Abril, de proceder à sua aquisição, ficando o pagamento a cargo do Conselho da Revolução.

Mas a aquisição não foi fácil, visto que:

- Das várias firmas contactadas apenas duas possuíam material para entrega imediata, embora em quantidade limitada;
- Os preços eram muito elevados, pelo que teve que haver contenção nas aquisições.

Para agravar a situação, a área a sonorizar foi ampliada pelo Estado-Maior do Exército (na tarde de 19 de Abril), passando a incluir todo o Parque, bem como as Ruas que o delimitam: Castilho (a Oeste), Nuno Álvares Pereira, actualmente Cardeal Cerejeira (a Norte) e Sidónio Pais (a Leste), pelo que à última hora teve que ser adquirido equipamento adicional, especialmente altifalantes.

Com todos estes condicionalismos, foi adquirido o seguinte material: 2 amplificadores de som, 45 altifalantes do tipo corneta, 8 microfones e 8 000 metros de cabo, com um custo total de cerca de 415 000$00, uma verba bastante elevada para a época, e que acabaria por ser paga às firmas apenas uns meses depois e após um processo complexo.

Além deste material foram ainda utilizados na instalação os seguintes equipamentos de que o Regimento já dispunha: 1 pré-amplificador misturador, 5 amplificadores de som, 1 amplificador de linha, 1 sintonizador, 1 gira-discos, 5 microfones, 4,5 Km de cabo microfónico e vários altifalantes. Foi ainda utilizada uma viatura Willys, que serviu de cabina de som, a qual foi estacionada em cima do passeio entre as faixas central e ocidental da Avenida da Liberdade, junto ao cruzamento com a Rua Barata Salgueiro.

A instalação foi iniciada na manhã de 19 de Abril e ficou concluída na noite de 24, trabalhando de dia e de noite (até à 1 hora da madrugada), e foi levada a cabo pelo chefe do Serviço de Som (capitão Edorindo Ferreira), três 1ºs Sargentos (Rico Lopes, Serrano e Geraldo) e dois Soldados (Guerra e Vicente).

Os cabos microfónicos e de alimentação dos altifalantes foram amarrados a árvores e candeeiros, a cerca de 5 metros do solo. Nas travessias de ruas (e foram várias, em especial a Alexandre Herculano, onde ainda havia eléctricos) os cabos tiveram que ser sobreelevados. Neste trabalho foi crucial a acção do soldado Guerra que, com toda a facilidade e apenas à força de braços e pernas, trepou aos candeeiros, no topo dos quais amarrou os cabos.

Na Avenida da Liberdade, atendendo à eficiência especial superiormente determinada, os altifalantes foram colocados em todos os candeeiros do passeio central esquerdo (distanciados cerca de 22 metros), de modo a não haver troca de passos das tropas durante o desfile.

Esta instalação sonora terá sido a mais complexa e extensa até então, tendo constituído uma valiosa experiência para as muitas outras similares que se seguiram, de apoio a cerimónias de entidades militares, civis e religiosas, a primeira das quais foi efectuada um mês e meio depois na cidade da Guarda, para as cerimónias comemorativas do dia de Camões e das Comunidades Portuguesas.